DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

PRODÍGIOS DA MISERICÓRDIA

 

A Penitenciaria Apostólica editou ultimamente o volume “Peccato, Misericordia, Reconciliazione. Dizionario Teologico-Pastorale” (Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2016, 428 págs.). Segundo o Penitenciário-Mor, Cardeal Mauro Piacenza, “pode tornar-se um bom Manual quer para os confessores que pretendem administrar adequadamente o sacramento da Reconciliação, como fonte de santificação própria e dos irmãos, quer para os fiéis que desejarem experimentar o perdão de Deus no confessionário e empreender um caminho de conversão sincera e de regresso a Deus”.

Damos a seguir o texto da apresentação escrito pelo Papa Francisco, tomado de L’Osservatore Romano, ed. port., 11-18/VIII/2016.

 

 

A publicação do Dicionário Teológico-Pastoral Peccato – Misericordia – Riconciliazione, sabiamente preparado pela Penitenciaria Apostólica, é um contributo importante para este Jubileu da Misericórdia. Esta obra permite que o leitor realize um itinerário de aprofundamento acerca do caminho do homem, o qual experimenta o conforto da benevolência divina, que o regenera depois da experiência do erro e do arrependimento.

A vida do crente, de cada homem, é permeada por uma certeza: o amor de Deus está sempre pronto para ser derramado sobre cada um, inclusive sobre quantos caíram nas vias do pecado, do afastamento deste foco de caridade e da vida da graça. Embora numa condição de debilidade e fragilidade, todas as pessoas são chamadas a realizar o próprio percurso, e não permanecer sozinhas no momento do erro porque podem contar com o perdão e a compreensão de um Pai, que acolhe e cura sempre. A paciência divina derrama-se sobre todos, até sobre quantos cometeram erros graves. Com efeito, o amor de Deus é deveras imenso e até surpreendente dado que espera, prevê e acolhe. Não obstante o pecado, o homem não foi abandonado por Deus, que continua a bater à porta do seu coração. Para explicitar este conceito Jesus oferece a parábola da ovelha tresmalhada (cf. Mt 18, 12-14). É muito significativa também a expressão tirada do livro do Apocalipse: «Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo» (3, 20). O Senhor está sempre à porta do nosso coração para acolher cada movimento de conversão. Mesmo nas trevas do pecado, um mínimo de abertura à graça divina pode revelar-se deveras importante para a nossa transformação interior. No Evangelho Jesus mostra-nos os traços da misericórdia divina. Cristo reabilita e dá uma vida nova a quantos se encontram na escuridão das próprias contradições: quem O encontra, faz a experiência de uma renovação profunda e duradoura que começa pela cura do coração. A fidelidade de Deus é imutável, infinita e continua a existir e produzir frutos apesar da infidelidade das criaturas. E é o Espírito Santo que guia o homem neste caminho.

A Igreja é portadora da misericórdia de Deus mediante o dom dos sacramentos. Cada um dos seus elementos desempenha a tarefa de apresentar ao mundo a beleza e a profundidade do amor misericordioso do Senhor. No fundo, todo o seu apostolado exprime a chamada a anunciar e a testemunhar aos povos a infinita caridade de Deus, Pai que perdoa e acolhe para além de todas as expectativas. A própria família eclesial caracteriza-se pelo «desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva» (Evangelii gaudium, 24).

O homem, que se tornou interiormente novo pela benevolência divina, ficou ainda mais forte e determinado na capacidade de se dar. Quantos santos «comovidos» e «surpreendidos» pela caridade do Senhor se tornaram protagonistas de um caminho de santificação emocionante e entusiasmante, caracterizado por uma grande capacidade de perdão e compreensão! Este prodígio de amor verifica-se diariamente inclusive hoje. Neste sentido, são significativas a chamada de Levi e quando Jesus se dirige aos publicanos e aos pecadores (cf. Mc 2, 13-17). A vida de Levi, precedentemente imersa no pecado, muda de maneira radical graças à força regeneradora do amor misericordioso transmitido pelo Senhor. A ação arrebatadora do seu olhar e da sua chamada mudam o homem no seu íntimo.

Todas estas dinâmicas são propostas na presente obra. De facto, as «definições» referidas no volume estabelecem um verdadeiro percurso, que retrata o encontro entre o amor misericordioso de Deus e o desejo de paz interior de cada pessoa. O sacramento da Penitência desempenha um papel fundamental neste «abraço» admirável entre regresso e perdão. Uma atenção particular é reservada ao sacerdócio, o qual é chamado à consciência do seu ser sinal da caridade divina, não só na celebração do rito, mas também através de atitudes de acolhimento, compreensão e diálogo que, sem dúvida, conferem maior riqueza e significado ao evento sacramental. Trata-se de uma verdadeira «imersão» na misericórdia de Deus, que tem a força de transformar e fortalecer o coração: aqui o homem encontra-se a si mesmo e com a máxima confiança no Senhor, retoma o caminho com mais vigor e determinação.

Este volume é um dom no Ano da Misericórdia; representa um instrumento precioso para os estudiosos e para os fiéis uma oportunidade de conhecer a realidade do amor e do perdão divinos. É um trabalho que se funda no contributo de estudiosos habituados à pastoral prática, chamados a exprimir uma espécie de comunhão teológica na oferta da própria sabedoria ao serviço dos leitores. Aqui encontramos aspetos bíblicos, dogmáticos, pastorais, jurídicos, litúrgicos, sacramentais, eclesiais e espirituais. Estes aspetos fazem pensar num «alternar-se» harmonioso das várias disciplinas teológicas. Gostaria de frisar que se trata de um Dicionário muito acessível a um amplo número de leitores. Sinto-me feliz por apresentar este texto porque o considero um ulterior e importante componente na realização do Ano da Misericórdia.

Gostaria de expressar o meu apreço à Penitenciaria Apostólica pelo compromisso no serviço que, pela sua natureza, realiza no silêncio mais discreto. No entanto, não passam inobservadas as inúmeras iniciativas deste antiquíssimo Dicastério, adequadas para «narrar» ao mundo os prodígios da misericórdia de Deus.

 

 


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