Solenidade de Todos os Santos

1 de Novembro de 2016

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor deu aos Santos a glória eterna, M. Carvalho, NRMS 59

 

Antífona de entrada: Exultemos de alegria no Senhor, celebrando este dia de festa em honra de Todos os Santos. Nesta solenidade alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.

 

Diz-se o Glória

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos hoje a festa de Todos os Santos. Alegramo-nos com a vitória de tantos irmãos e irmãs que já chegaram à meta e nos animam, agora, a todos nós.

Com Cristo e em Cristo, aqui connosco, podemos também nós ser santos. É isso que conta de verdade cá na terra.

 

Ao olhar para as nossas misérias não podemos desanimar. Podemos lavar-nos, uma vez e outra, no sangue de Jesus. Peçamos-Lhe, agora, nos purifique.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os méritos de Todos os Santos, dignai-Vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: S.João faz-nos contemplar essa multidão incontável dos eleitos do Céu, que hoje celebramos. Eles lavaram as túnicas no sangue do Cordeiro.

 

Apocalipse 7, 2-4.9-14

2Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: 3«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». 4E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. 10E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». 11Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: 12«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». 13Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». 14Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».

 

Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap.8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a protecção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio.

2-4 «O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo». Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade: por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9, 4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. «Cento e quarenta e quatro mil» é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, «representam toda a Igreja sem restrição» (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6, 16) e são a mesma «multidão imensa que ninguém podia contar» (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70.

11 «Os (24) Anciãos». Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que «são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante da Igreja». «Os 4 Viventes» (à letra, «animais»), uma tradução preferível a: «os 4 animais», uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4, 7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente «visão» apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Ireneu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado.

12 «Amen! Bênção, glória…»: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro.

14 «A grande tribulação». Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras.

«Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». «Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1 Jo 1, 7)».

 

Salmo Responsorial            Sl 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6)

 

Monição: Também este salmo nos fala do céu e das condições para lá chegar.

 

Refrão:    Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

 

Do Senhor é a terra e o que nela existe,

o mundo e quantos nele habitam.

Ele a fundou sobre os mares

e a consolidou sobre as águas.

 

Quem poderá subir à montanha do Senhor?

Quem habitará no seu santuário?

O que tem as mãos inocentes e o coração puro,

o que não invocou o seu nome em vão.

 

Este será abençoado pelo Senhor

e recompensado por Deus, seu Salvador.

Esta é a geração dos que O procuram,

que procuram a face de Deus.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Somos filhos de Deus e havemos de vê-Lo, um dia, como Ele é. Animemo-nos a chegar à meta. Vale a pena!

 

1 São João 3, 1-3

Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. 3Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.

 

A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade.

1 «E somo-lo de facto». S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que «o mundo», sem fé, não pode captar nem apreciar.

2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe 1, 4) pela graça. «Semelhantes a Deus», desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já «agora somos». «O veremos tal como Ele é». Esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, «face a face» (cf. 1 Cor 13, 12).

3 «Purifica-se a si mesmo». A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: «como Ele é puro»; efectivamente, os puros de coração hão-de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5, 8).

 

Aclamação ao Evangelho  

 

Monição: Jesus, no Evangelho, diz-nos que o Céu não é só para a outra vida. Começa já neste mundo para os que amam a Deus e vivem as bem-aventuranças.

 

Aleluia

 

Cântico: J. Duque, NRMS 21

 

Vinde a Mim, vós todos os que andais cansados

e oprimidos e Eu vos aliviarei, diz o Senhor.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 5, 1-12ª

 

Naquele tempo, 1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos 2e Ele começou a ensiná-los, dizendo: 3«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. 4Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. 5Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. 12aAlegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

As oito bem-aventuranças, a que se junta uma nona (v. 11) a reforçar a oitava, são como o frontispício do Sermão da Montanha (Mt 5 – 7), «a expressão mais perfeita da mensagem evangélica, um dos mais altos cumes do pensamento humano, talvez o mais elevado» (G. Danieli); com razão disse Gandhi: «foi o discurso da montanha que me reconciliou com o cristianismo». As bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, dirigidas a todas as pessoas e a todos os tempos, não apenas aos ouvintes imediatos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano e hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são a expressão de qualquer espécie de «ressentimento» dos pobres e desafortunados em face dos poderosos, dos ricos e satisfeitos, mas são antes um grito de protesto e de provocação lançado ao conceito de felicidade baseada na posse das riquezas, no gozo dos prazeres, na força, no poder e na fama. De modo nenhum elas são uma «ética para uso dos débeis», mas são um ideal de vida para almas fortes e generosas, uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade; como o demonstra a vida dos santos. Chamamos a atenção para a motivação da felicidade em cada uma das bem-aventuranças: «porque…»: a felicidade não está na pobreza, na aflição, na perseguição, mas no seguimento de Jesus, pobre, aflito, manso, faminto e sedento, misericordioso, puro, pacificador, perseguido, o que dá direito ao gozo das promessas de Cristo. Assim se exprime Bento XVI em Jesus de Nazaré: «As bem-aventuranças são a transposição da Cruz e da Ressurreição para a existência dos discípulos» (p. 110); e ainda: «Quem lê o texto com atenção nota que as bem-aventuranças são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura […]. Nas bem-aventuranças aparece o mistério do próprio Cristo, chamando-nos à comunhão com Ele» (p. 111).

3 «Bem-aventurados». Esta tradução (em vez de «felizes») vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: «deles é» (não diz «deles será»). Mas não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena. As bem-aventuranças têm uma dimensão escatológica e actual: correspondem a um futuro já iniciado.

«Os pobres em espírito». Como bom catequista, Mateus não deixa de especificar «em espírito», para que fique bem claro que não é o caso de uma mera situação económico-social, mas de uma atitude interior de humildade diante de Deus, de reconhecimento da própria carência de méritos e da absoluta necessidade da misericórdia de Deus para ser salvo. O desprendimento dos bens e a austeridade de vida são uma consequência desta atitude de espírito própria de quem se apoia não nos bens criados, mas só em Deus. Ao dizer «em espírito» (tô pneûmati, um dativo de relação), e não, como no v. 8, «de coração» (tê kardía: no seu íntimo, diante de Deus, em contraposição com o exterior), a expressão conota um sentido dinâmico, de acção, e portanto uma pobreza que corresponde a uma opção, isto é, uma «pobreza voluntária». É de notar que a formulação de Mateus é uma expressão religiosa coincidente com a dos textos de Qumrã (cf. 1QM, 14, 7: ‘anawê rûah).

4-5 A ordem destes versículos não é transmitida da mesma maneira em todos os manuscritos, por isso a fórmula que aparecia antes nos catecismos tem outra ordem que corresponde a uns poucos de manuscritos gregos e à Vulgata, diferente da que temos aqui; pensa-se que a ordem original teria sido alterada, a fim de facilitar a memorização e a compreensão, juntando frases semelhantes, dado o paralelismo entre os pobres e os humildes (os mansos) e entre os que choram (os aflitos) e os que têm fome e sede.

«Os que choram», isto é, os aflitos. A consolação dos que estão aflitos é um dos bens messiânicos (Is 61, 1-3; cf. Lc 4, 1ss) que Jesus garante aos seus discípulos (cf. Jo 16, 20-22). A consolação é uma forma emotivamente concreta de designar a salvação esperada e trazida por Cristo (cf. Lc 2, 25; Act 3, 20; 2 Tes 2, 16-17). O verbo na passiva «serão consolados» é uma forma reverente de se referir a Deus como agente, sem ter de o nomear (passivum divinum), equivalente a «Deus os consolará».

«Os mansos», tradução que consideramos preferível à adoptada e proposta por um bom número de exegetas. Com efeito, se bem que a tradução «os humildes» corresponda ao hebraico (‘anawîm: pobres) da passagem paralela do Salmo 37, 10-11 (mas traduzido pelos LXX por praeîs: mansos, e assim também pela Vulgata e Nova Vulgata: mansueti), a verdade é que a mansidão é uma noção que tem grande relevo em Mateus, pois o próprio Jesus se apresenta como «manso e humilde» (Mt 11, 29), na linha das profecias de Is 42, 1-4 (citada em Mt 12, 18-21) e de Zac 9, 9 (citada em Mt 21, 5). Por isso não nos parece que em Mateus a 1ª e a 3ª bem-aventuranças sejam simplesmente equivalentes; «mansos» são os humildes, mas com um matiz particular: são os que vencem o mal com o bem, não com a violência, mas com o perdão e com a bondade, como se insiste no mesmo sermão da montanha (Mt 5, 21-26.38-42.43-48; 6, 12.14-15). Estes são, não apenas os que são afáveis, ou simplesmente os não violentos, mas especificamente os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. «Possuirão a terra» (prometida como herança), isto é, «a pátria celeste», figurada na terra prometida ao povo eleito (cf. Hebr 4, 2, 11; 11, 10.16; 12, 22; 13, 14).

6 «Fome e sede de justiça», isto é, uma fome mais espiritual do que material, pela especificação: de justiça. Estamos assim diante duma noção de natureza religiosa, central no discurso da montanha (cf. 5, 10.20; 6, 1.31.33): a submissão à vontade de Deus e aos seus desígnios de amor, uma vida justa, inocente, santa e perfeita (cf. 5, 48).

7 «Os misericordiosos»: o tema da misericórdia é central no Evangelho, pois dela o homem é extremamente necessitado e também está muito presente em Mateus; com efeito, Jesus é cheio de misericórdia (cf. 9, 36; 9, 9-13; 12, 1-7) para com os necessitados que a Ele clamam (cf. 9, 27; 15, 22; 17, 15; 20, 30.34); e esta tem de ser a atitude do discípulo para obter a misericórdia divina (cf. 6, 14-15; 18, 23-35); e é pelas obras de misericórdia que todos hão-de ser julgados sem apelo (cf. 25, 31-46).

8 «Os puros de coração», dado o contexto dos ensinamentos de Jesus, não se trata de uma simples pureza ritual que satisfaz uma série de requisitos externos para se estar em condições de realizar actos de culto (recordem-se as prescrições de Lv 11 – 16 relativos a alimentos, nascimento, actividade sexual, doença e morte), mas de uma pureza moral, que não fica hipocritamente em exterioridades farisaicas (cf. Mt 23, 25-26), mas vai, na linha da pregação dos profetas (cf. Is 1, 15-16; 29, 13; Salm 24, 3-4; 51, 12; Prov 22, 11), até ao mais profundo do interior da pessoa, onde nascem os desejos e as intenções (cf. Mt 15, 1-20; 5, 28; 12, 34). A pureza do coração é fundamentalmente a rectidão total dos pensamentos, das palavras e das acções, não apenas as boas intenções, segundo o Salmo 24, 3-4, que parece estar na base desta bem-aventurança (cf. Tg 4, 8; 1 Tim 1, 5; 2 Tim 2, 22; Hebr 10, 22). Não se limita à castidade, mas pressupõe-na e exige-a de modo particular, para se entrar em comunhão com Deus – para «ver a Deus» (cf. Hebr 12, 14; Apoc 22, 3-4; 1 Jo 3, 3; Catecismo da Igreja Católica, nº 2517-2533).

9 «Os que promovem a paz». Alguns exegetas preferem a tradução pacíficos, indicando o espírito conciliador, sereno, tolerante, indulgente e paciente (cf. Tg 3, 3-18), mas a maioria pensa que se trata não só dos pacíficos, mas daqueles que se empenham em activamente promover a paz entre os homens (e também – podíamos acrescentar – a paz dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo); estes «serão chamados…», uma expressão semítica que corresponde a «serão de verdade filhos de Deus» (cf. Mt 5, 45).

10 «Os que sofrem perseguição por amor da justiça» (cf. 1 Pe 3, 14), isto é, ao fim e ao cabo, por causa de Jesus (cf. Mt 10, 24-28), por viver piamente (cf. 2 Tim 3, 12). Esta «justiça», como na 4ª bem-aventurança, não é a justiça dos homens, mas corresponde à plena adesão à vontade de Deus, numa vida recta e santa.

11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula «porque deles é o reino dos Céus»: vv. 3.10), há aqui uma ampliação e uma aplicação directa aos ouvintes da 8ª e última bem-aventurança.

Finalmente quero chamar a atenção para a observação de Bento XVI na sua já citada obra, ao introduzir o tema das bem-aventuranças: «As bem-aventuranças não raramente são apresentadas como a alternativa do Novo Testamento a respeito do Decálogo, por assim dizer a mais elevada ética dos cristãos ante os mandamentos do Antigo Testamento. Com tal concepção distorce-se totalmente o sentido das palavras de Jesus. Jesus sempre pressupôs como evidente a validade do Decálogo (ver, por exemplo, Mc 10, 19; Lc 16, 17); no Sermão da Montanha são assumidos e aprofundados os mandamentos da segunda tábua, mas não são abolidos (Mt 5, 21-48)…» (p.109).

 

Sugestões para a homilia

 

Vi uma multidão imensa

Lavaram as túnicas no sangue do Cordeiro

Somos filhos de Deus

 

 

1) Vi uma multidão imensa

 

Alguém perguntou um dia a Jesus: - Senhor, são muitos os que se salvam?

Jesus não respondeu directamente, mas avisou: “entrai pela porta estreita, porque são muitos os que seguem pelo caminho largo que leva à perdição” ( Mt 7,13 ).

O caminho do Céu exige luta, exige sacrifício. Mas hoje o Senhor faz-nos contemplar a multidão imensa de todos os povos e línguas, que ninguém podia contar e que aclamam, no Céu, a Deus e ao Cordeiro, que está aqui connosco. Eles já venceram e animam-nos a chegar onde se encontram.

Vale a pena lutar por amar a Deus neste mundo, vale a pena ser santo.

Conta-se na vida de Lutero, fundador do protestantismo, que estava um dia à noite com a mulher com quem vivia na varanda de sua casa. Disse-lhe ela: - que belo é o céu! E ele respondeu: - é belo, mas não é para nós.

O céu é belo e é para nós todos, pois “Deus quer que todos se salvem - diz S.Paulo - e cheguem ao conhecimento da verdade”(1 Tim 2,4).

Mais ainda, Deus quer que sejamos santos a valer.

Todos somos chamados à santidade. O Papa S.João Paulo II, na carta Novo Milénio, de 6 de Janeiro de 2001, ao encerrar o Jubileu do ano 2000,veio lembrar a todos os cristãos que temos de pôr a meta muita alta. “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Tess 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas ‘os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade’ (L.G.40)” (Carta Novo Milénio,30).

E continua: “Seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial…Agradeço ao Senhor por me ter concedido, nestes anos, beatificar e canonizar muitos cristãos, entre os quais numerosos leigos que se santificaram nas condições comuns da vida. É a hora de propor de novo a todos com convicção, esta ‘medida alta’ da vida cristã comum; toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direcção” (Ibid.,31).

Desde 1928 S. Josemaria Escrivá foi apregoando esta chamada de todos à santidade. Alguns chamaram-lhe herege, pensando que a santidade era só para frades e freiras. Esta mentalidade pode continuar metida em muitos cristãos, que acham que a santidade não é para eles. A festa de hoje lembra-nos que todos somos chamados para o céu, que todos somos chamados a ser santos.

 

2) Lavaram as túnicas no sangue do Cordeiro

 

Jesus é a fonte da santidade. Os eleitos “lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro” (1ª leit.). O Seu sangue divino mereceu-nos toda a graça. Ela chega até nós por meio dos Sacramentos. É neles que vamos beber a graça abundante que nos santifica, nos fortalece, nos cura, nos anima para a luta.

O Baptismo deu-nos a graça santificante, fez-nos santos com essa santidade inicial que tem de se desenvolver até ao último instante da nossa vida.

Jesus deu-nos, pelo Baptismo, o Espírito Santo. Ele está em nós para nos fazer santos. É essa a Sua tarefa em nossa alma. E realiza-a com as Suas inspirações, com a nossa cooperação livre e com a abundância de graça que faz chegar até nós pelos sacramentos e pela oração. Pela confissão lava-nos, cura-nos as feridas e fortalece-nos para a luta contra as tentações. O sacramento da Reconciliação joga um papel fundamental na luta pela santidade. S.João Paulo II diz, na Carta Novo Milénio: “Solicito uma renovada coragem pastoral para, na pedagogia quotidiana das comunidades cristãs, se propor de forma persuasiva e eficaz a prática do sacramento da Reconciliação” (Ibid.,37).

 Na Exortação Reconciliação e Penitência lembrou: “É necessário continuar a atribuir grande valor ao Sacramento da Penitência e educar os fiéis a recorrerem a ele mesmo só para os pecados veniais, como atestam a tradição doutrinal e a prática já seculares” E mais abaixo. “A celebração deste sacramento torna-se para todos os cristãos ’ocasião e estímulo a conformarem-se mais intimamente com Cristo e a tornarem-se mais dóceis à voz do Espírito Santo’(Ordo Penitentiae,17) (Exort.Reconc. e Penit.,32). Afirma também na mesma exortação: “Desejo prestar homenagem à inumerável pléiade de confessores santos, quase sempre anónimos, a quem se ficou a dever a salvação de tantas almas, por eles ajudadas na conversão, na luta contra o pecado e as tentações, no progresso espiritual, numa palavra, na santificação. Não hesito afirmar que os grandes santos canonizados saíram geralmente dos confessionários e, além dos santos, também o património espiritual da Igreja e o próprio florescimento da civilização impregnada de espírito cristão” (Ibid.,29).

A Confissão leva, por sua vez, à frutuosa celebração da Eucaristia. Por ela cada cristão se vai transformando em Cristo. Se, ao comer, os alimentos se transformam em nossa carne, na comunhão é ao contrário. Somos nós a transformar-nos nEle, a identificar-nos com Ele. “Quem come a minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele” (Jo 6,56).

 

3) Somos filhos de Deus

 

Somos filhos de Deus” - dizia o Senhor, pela boca de S.João. E somo-lo de verdade.”

A vida do cristão tem de estar centrada nesta realidade. A graça tornou-nos filhos de Deus, no Baptismo. O Espírito Santo está em nós e ensina-nos a tratar a Deus como filhos de pequenos.” Porque sois filhos, Deus mandou aos vossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Abbá, Pai’ “(Gal.4, 6). Podemos chamar a Deus Abbá, papá, paizinho.

O Espírito Santo leva-nos a portar-nos como filhos de Deus, imitando a Jesus nosso irmão mais velho. Os santos foram santos porque copiaram a Cristo.

Porque somos filhos de Deus somos felizes neste mundo, mesmo no meio de sofrimentos. Porque tudo está nas mãos do nosso Pai Deus e “tudo concorre para o bem dos que O amam” (Rom 8, 28).

As bem-aventuranças falam-nos da felicidade neste mundo por caminhos contrários à mentalidade vigente. Bem-aventurados os pobres de espírito… Bem-aventurados os humildes…Bem-aventurados os que choram…Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça…Bem-aventurados os misericordiosos…Bem-aventurados os puros de coração …Bem-aventurados os que promovem a paz…Bem-aventurados os que sofrem perseguição…

Alegria não falta aos que põem em Deus a sua esperança e que procuram agradar-Lhe só a Ele. Os santos foram, na terra, as pessoas mais felizes. S.Teresa de Ávila fala, no livro da sua vida, das doenças e muitos sofrimentos e calúnias que Deus permitiu, mas exclama a seguir: - “Senhor, ou sofrer ou morrer”.

Que a Virgem, Rainha de todos os santos, nos anime a lutar pela santidade heróica, a que são chamados todos os cristãos.

 

Fala o Santo Padre

 

«A esperança é um pouco como o fermento,

que faz dilatar a alma nos momentos difíceis na vida, e contemplar aquilo que nos espera.»

Nesta hora, antes do pôr-do-sol, neste cemitério reunimo-nos e pensamos no nosso futuro, pensamos em todos aqueles que já partiram, que nos precederam na vida e estão no Senhor.

É muito bonita a visão do Céu que ouvimos na primeira Leitura: o Senhor Deus, a beleza, a bondade, a verdade, a ternura, o amor pleno. É tudo isto que nos espera. Aqueles que nos precederam e morreram no Senhor encontram-se lá. Eles proclamam que foram salvos não pelas suas obras — também realizaram obras boas — mas pelo Senhor: «A salvação é obra do nosso Deus, que está sentado no trono, e do Cordeiro» (Ap 7, 10). É Ele que nos salva, é Ele que no final da nossa vida nos leva pela mão, como um pai, precisamente para aquele Céu onde se encontram os nossos antepassados. Um dos anciãos faz uma pergunta: «Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem são e de onde vêm?» (v. 13). Quem são estes justos, estes santos que estão no Céu? A resposta: «Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e alvejaram-nas no sangue do Cordeiro» (v. 14).

Só podemos entrar no Céu graças ao sangue do Cordeiro, graças ao sangue de Cristo. Foi precisamente o sangue de Cristo que nos justificou, que nos abriu as portas do Céu. E se hoje recordamos estes nossos irmãos e irmãs que nos precederam na vida e estão no Céu, é porque eles foram lavados pelo sangue de Cristo. Esta é a nossa esperança: a esperança do sangue de Cristo! Uma esperança que não desengana, se caminharmos na vida com o Senhor. Ele nunca desilude!

Ouvimos na segunda Leitura aquilo que o Apóstolo João dizia aos seus discípulos: «Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós, efectivamente, somo-lo. Por isso, o mundo não nos conhece... Nós somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque o veremos como Ele é» (1 Jo 3, 1-2). Ver Deus, sermos semelhantes a Deus: esta é a nossa esperança. E hoje, precisamente no dia dos Santos e antes do dos Finados, é necessário ponderar um pouco sobre a esperança: na esperança que nos acompanha durante a vida. Os primeiros cristãos representavam a esperança como uma âncora, como se a vida fosse a âncora lançada à margem do Céu e todos nós caminhássemos rumo àquela margem, agarrados à corda da âncora. Esta é uma bonita imagem da esperança: ter o coração ancorado onde estão os nossos antepassados, onde se encontram os Santos, onde está Jesus, onde está Deus. Esta é a esperança que não desilude; hoje e amanhã são dias de esperança.

A esperança é um pouco como o fermento, que faz dilatar a alma; existem momentos difíceis na vida, mas com a esperança a alma vai em frente e contempla aquilo que nos espera. Hoje é um dia de esperança. Os nossos irmãos e irmãs encontram-se na presença de Deus e também nós estaremos ali, por pura graça do Senhor, se percorrermos o caminho de Jesus. O Apóstolo João conclui: «Todo aquele que n’Ele tem esta esperança torna-se puro, como Ele é puro» (v. 3). Também a esperança nos purifica e alivia; esta purificação na esperança em Jesus Cristo leva-nos a caminhar depressa, com prontidão. Nesta antecipação do crepúsculo hodierno, cada um de nós pode pensar no ocaso da sua própria vida: «Como será o meu ocaso?». Todos nós teremos um declínio, todos! Encaro-o com esperança? Com aquela alegria de ser acolhido pelo Senhor? Trata-se de um pensamento cristão que nos incute paz. Hoje é um dia de alegria, mas de um júbilo calmo, tranquilo, da alegria da paz. Pensemos no crepúsculo de numerosos irmãos e irmãs que nos precederam, meditemos sobre o nosso ocaso, quando ele chegar. Ponderemos no nosso coração, e interroguemo-nos: «Onde está ancorado o meu coração?». Se não estiver bem ancorado, ancoremo-lo ali, naquela margem, conscientes de que a esperança nunca decepciona, porque o Senhor Jesus nunca desilude.

 Papa Francisco, Homilia, Cemitério Verano, Roma, 1 de novembro de 2013

Oração Universal

 

Ao celebrar a festa de Todos os Santos elevemos com eles a Deus as nossas súplicas:

 

1-Para que toda a Igreja se renove em desejos de santidade, oremos, irmãos.

 

2-Para que o Santo Padre apascente com a sabedoria e a fortaleza de Deus

o rebanho de Cristo e todos o sigam nos caminhos da santidade, oremos, irmãos.

 

3-Para que bispos e sacerdotes transmitam fielmente a doutrina de Jesus

e a graça dos sacramentos, fonte de santidade para todo o povo de Deus, oremos, irmãos.

 

4-Por todo o povo cristão, para que saiba apreciar os sacerdotes

e despertar vocações nas famílias e nas paróquias, oremos, irmãos.

 

5-Para que os nossos seminários formem sacerdotes

segundo o Coração de Cristo, o Bom Pastor e se encham de muitas vocações, oremos, irmãos.

 

6-Para que as mães saibam aceitar e formar bem os seus filhos,

ensinando-os de pequenos a amar a Jesus

e despertando neles desejos de santidade, oremos, irmãos.

 

Senhor, que nos dais com abundância a Vossa graça por Vosso Amado Filho, fazei não faltem na Vossa Igreja santos para renovarem o mundo.

Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que é Deus conVosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Aceitai, Senhor, a nossa alegria, M. Carneiro, NRMS 73-74

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, os dons que Vos apresentamos em honra de Todos os Santos e fazei-nos sentir a intercessão daqueles que já alcançaram a imortalidade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A glória da nova Jerusalém, nossa mãe

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai Santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

A Eucaristia é já uma antecipação do banquete do Céu e penhor da vida eterna.

 

Cântico da Comunhão: Louvai nações do universo, M. Simões, 63

Mt 5, 8-10

Antífona da comunhão: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

 

Cântico de acção de graças: Povos da terra, louvai ao Senhor, M. Simões, NRMS 55

 

Oração depois da comunhão: Nós Vos adoramos, Senhor nosso Deus, única fonte de santidade, admirável em todos os Santos, e confiadamente Vos pedimos a graça de chegarmos também nós à plenitude do vosso amor e passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Jubilosos, ao celebrar os nossos irmãos que já venceram, animemo-nos a chegar à meta, levando connosco os que nos rodeiam.

 

Cântico final: Queremos ser construtores, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Celestino Correia

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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