TEMAS LITÚRGICOS

Saudação inicial da Eucaristia

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

«Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen». Assim tem início a celebração da Eucaristia. Afirmamos a nossa fé no Deus uno e trino, não só com os lábios, mas também com os gestos. Todos, sacerdote e fiéis, levam a mão direita à testa, ao peito e aos ombros esquerdo e direito. Que queremos afirmar com este rito?

 

O sinal da Cruz

Em primeiro lugar, traçamos a Cruz de Cristo sobre o nosso corpo. «É um gesto simples, mas cheio de significado. O sinal da cruz é uma confissão da nossa fé: Deus salvou-nos na cruz de Cristo. É um sinal de pertença, de posse. Ao fazer sobre a nossa pessoa este sinal é como se disséssemos: estou batizado, pertenço a Cristo, Ele é o meu Salvador, a Cruz de Cristo é a origem e a razão de ser da minha existência cristã».[1] Recordamos assim o nosso Batismo e afirmamo-nos seguidores de Cristo.

 

Santíssima Trindade

Mas este gesto, embora tão simples e habitual, tem uma riqueza de significados muito grande. Traçamos a Cruz sobre nós mesmos invocando a Santíssima Trindade. É uma profissão de fé, mas também um desejo e uma prece: que os nossos pensamentos sejam inspirados pelo Pai, que os nossos sentimentos sejam os mesmos de Cristo (tocamos o peito ou o coração) e que as ações, que os nossos braços vão executar sejam conduzidas pelo Espírito Santo (tocamos as articulações que permitem que os braços se movam normalmente).

Poder-se-ia dizer que este será o programa ideal da vida de um cristão, e não é de estranhar que este gesto seja realizado pelos cristãos desde o início do seu dia: «Que os meus pensamentos, sentimentos e ações sejam inspirados por Vós Senhor». No entanto, agora encontramo-nos no início da Eucaristia, dispomo-nos a «celebrar os santos mistérios» e adquire uma importância especial este desejo manifestado neste pequeno rito. Trata-se de um rito realizado por toda a assembleia, sacerdote e fiéis. O sacerdote, porém, irá fazê-lo de forma ministerial. Vai emprestar a sua mente, o seu coração e os seus membros a Cristo, para que este se torne presente no meio dos cristãos.

Quanto aos fiéis, todos irão pôr em ato o seu sacerdócio comum e unir-se assim à ação de Cristo: oferecer sobre o altar a sua vida, os seus sonhos e aspirações, alegrias e dores, penas e trabalhos… E irão agradecer, louvar, pedir perdão e suplicar tantas coisas para a humanidade e para o mundo, para os seus seres queridos e para si próprios. E como tem início esta ação cultual? Invocando a Santíssima Trindade. É como que uma súplica de que toda a nossa participação seja fruto de uma união com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Olhemos ainda de novo para o sinal da Cruz e, agora, para o pormenor da mão. Que significa a forma como a pomos e como a levamos à testa, ao coração e aos membros?

Colocamos a mão segundo o gesto tradicional de abençoar. Porém, este pormenor pode passar despercebido, porque o fazemos virado para o nosso corpo. É que, quando fazemos o sinal da Cruz, abençoamo-nos a nós próprios, pedimos a bênção de Deus Pai, Filho e Espírito Santo para o nosso ser. É interessante notar que o sacerdote, neste momento, não abençoa o povo com este gesto (como o fará no final da Missa), mas a si próprio.[2] Também ele pede a bênção da Santíssima Trindade para si próprio.

Fazer o sinal da Cruz no início da celebração recorda então, que a ação litúrgica não é uma realização apenas humana, mas sim, principalmente, trinitária: verdadeira actio Dei, ação de Deus que nos une a Jesus através do seu Espírito.[3]

 

Presença de Cristo

«Em seguida (o sacerdote), pela saudação, manifesta à comunidade reunida a presença do Senhor. Com esta saudação e a resposta do povo manifesta-se o mistério da Igreja reunida».[4]

Tanto o sinal da Cruz como a saudação manifestam a presença do Senhor no seio da comunidade: os batizados são Igreja de Cristo. São membros de um corpo cuja cabeça é Cristo. E esse Cristo torna-se presente neles quando se reúnem em seu nome. «Quem está em nome de Deus, está imerso em Deus, está vivo, porque Deus – diz o Senhor – não é um Deus de mortos, mas de vivos (…). Estar batizados quer dizer estar unidos a Deus; numa existência única e nova estamos imersos no próprio Deus».[5]

Silvestre J., comentando um texto do Papa Bento XVI, sublinha a importância de ser conscientes desta presença real de Cristo, pois só existirá uma verdadeira liturgia se existe uma contemporaneidade de Jesus Cristo connosco. Caso contrário a celebração reduz-se a um simples recordar o Mistério pascal, e não à sua presença verdadeira.[6] «À pergunta: “Existe Deus?”, a resposta é: “Existe e está connosco; é fundamental na nossa vida esta proximidade de Deus, este estar em Deus, que não é uma estrela longínqua, mas o ambiente da minha vida”».[7]

 

É Ele quem nos congrega

«O Senhor esteja convosco». Esta é a saudação litúrgica proferida pelo sacerdote imediatamente a seguir ao sinal da Cruz. O gesto ritual fala por si. O sacerdote abre os braços na direção dos fiéis. Antes, «abençoara-se a si próprio», agora, já age «in persona Christi capitis». Dir-se-ia que, com o sinal da Cruz, começa por invocar a Santíssima Trindade para que possa exercer convenientemente o seu ministério. Agora, como que desaparece para que Cristo esteja ali fisicamente presente e, através dele, dos seus gestos e das suas palavras, fale e abençoe toda a assembleia. É sintomático que a saudação, quando é feita pelo bispo seja «A paz esteja convosco»[8]. Trata-se das palavras proferidas por Jesus quando se mostra ressuscitado à comunidade dos discípulos.

Não nos admiremos se não captamos imediatamente esta riqueza de significados e papeis. O cardeal Lustiger põe o dedo da ferida: «Todos os padres, e eu em primeiro lugar, têm sido tentados a dizer: “O Senhor esteja connosco”. Quando eu digo aos fiéis: “O Senhor esteja convosco”, não me estarei a excluir da assembleia? E não se terá perguntado algum fiel: “Por que é que o padre nos diz: “Convosco”? E, então, ele? [...]”». E responde um pouco mais à frente: «Sempre que celebro a Eucaristia, que olho de frente para a Assembleia e, depois de ter dito: «Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo», me dirijo a vós com estas palavras: “O Senhor esteja convosco”, é Cristo que, pela minha boca, fala à sua Igreja. Tenho, portanto, o dever de deixá-Lo falar, sabendo muito bem que essa palavra que vos digo em seu nome, também me é destinada, e que eu a recebo no momento exato em que a digo a vós, no mesmo ato de fé: Cristo, no meio da assembleia eucarística, congrega-nos pelo seu Espírito para dar graças ao Pai».[9]

 

Existem também outras duas fórmulas retiradas das cartas de Paulo que podem ser utilizadas neste momento[10]. Todas elas transmitem este calor de família, a alegria e a paz que a presença de Jesus e a bênção do Pai provocam.

É impressionante! Naqueles breves instantes, traçámos a cruz sobre o nosso corpo, invocámos o nosso Deus uno e trino e pedimos a sua bênção para a nossa participação ativa e frutuosa, e eis que o sacerdote «desaparece» para que Cristo se torne presente no meio da assembleia celebrante.

 

 

 

 

 

 

 



[1] ALDAZÁBAL, J., Dicionário Elementar de Liturgia, Sinal da Cruz, p. 287.

[2] IGRM n.50.

[3] BENTO XVI, Sacramentum caritatis, n. 37

[4] Ibíd.

[5] BENTO XVI, Lectio divina, 11-VI-2012

[6] Cfr. SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 64.

[7] BENTO XVI, Lectio divina, 11-VI-2012

[8] Lc 24, 36; Jo 20, 19.21.26

[9] LUSTIGER, J-M. A Missa, Editorial A. O., 2003, p. 54.

[10] Saudação final da segunda carta aos Coríntios (2 Cor 13, 13) e saudação inicial de várias cartas de S. Paulo: Romanos; 1 Cor, Ef 1, 2; Col 1, 3; 2Ts 1, 2).


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