JOÃO PAULO ii

HOMILIA DO CARDEAL RATZINGER

 

 

Presidiu as exéquias do Papa João Paulo II, celebradas na manhã do dia 8 de Abril passado na Praça de São Pedro completamente repleta e seguidas também através das televisões de muitos países, o Decano do Colégio Cardenalício, Cardeal Joseph Ratzinger. Damos a seguir alguns excertos. No fim da homilia, o povo rompeu com palmas demoradas, pedindo a sua rápida canonização.

 

«Segue-me», diz o Senhor ressuscitado a Pedro, como última palavra a este discípulo, escolhido para apascentar as suas ovelhas. «Segue-me» - esta palavra lapidar de Cristo pode ser considerada a chave para compreender a mensagem que brota da vida de nosso chorado e amado Papa João Paulo II, cujos restos depositamos hoje na terra como semente de imortalidade, com o coração cheio de tristeza mas também de gozosa esperança e de profunda gratidão.

Estes são os sentimentos do nosso espírito, Irmãos e Irmãs em Cristo, presentes na Praça de São Pedro, nas ruas adjacentes e em outros diversos lugares da cidade de Roma, povoada nestes dias por uma imensa multidão silenciosa e orante. (...)

 

Muitas vezes, nas suas cartas aos sacerdotes e nos seus livros autobiográficos, falou-nos do seu sacerdócio, ao qual foi ordenado em 1 de Novembro de 1946. Nestes textos interpreta o seu sacerdócio em particular a partir de três frases do Senhor. Antes de mais, esta: «Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi, e vos destinei para irdes e dardes fruto, e que o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). A segunda frase é: «O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas» (Jo 10, 11). E finalmente: «Como o Pai me amou, eu também vos amei; permanecei em meu amor» (Jo 15, 9).

Nestas três frases podemos ver toda a alma do nosso Santo Padre. Realmente, foi a todos os lugares sem descanso para levar fruto, um fruto que permanece. «Levantai-vos, vamos!», é o título de seu penúltimo livro. «Levantai-vos, vamos!» - com estas palavras despertou-nos de uma fé cansada, do sonho dos discípulos de ontem e hoje. «Levantai-vos, vamos!», diz-nos hoje também a nós.

O Santo Padre foi também sacerdote até ao fim, porque ofereceu a sua vida a Deus por suas ovelhas e por toda a família humana, numa entrega quotidiana ao serviço da Igreja e sobretudo nas duras provas dos últimos meses. Assim tornou-se uma só coisa com Cristo, o bom pastor que ama as suas ovelhas. E, finalmente, «permanecei no meu amor»: o Papa, que buscou o encontro com todos, que teve uma capacidade de perdão e de abertura de coração para todos, diz-nos hoje também com estas palavras do Senhor: Permanecendo no amor de Cristo, aprendemos, na escola de Cristo, a arte do verdadeiro amor. (...)

 

Segue-me!. Em Outubro de 1978 o Cardeal Wojtyla escuta de novo a voz do Senhor. Renova-se o diálogo com Pedro narrado no Evangelho desta celebração: «Simão, filho de João, amas-me?... Apascenta as minhas ovelhas». À pergunta do Senhor: Karol, amas-me?, o arcebispo de Cracóvia respondeu do íntimo do seu coração: «Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo».

O amor de Cristo foi a força dominante no nosso amado Santo Padre; quem o viu rezar, quem o ouviu pregar, sabe-o. E assim, graças a este profundo enraizamento em Cristo, pôde levar um peso que supera as forças puramente humanas: ser pastor do rebanho de Cristo, da sua Igreja universal. (...)

 

Segue-me! Junto ao mandato de apascentar o seu rebanho, Cristo anunciou a Pedro o seu martírio. Com esta palavra conclusiva, que resume o diálogo sobre o amor e sobre o mandato de pastor universal, o Senhor recorda outro diálogo, que teve lugar na Última Ceia. Então Jesus tinha dito: «Aonde eu vou, vós não podeis vir». Pedro disse: «Senhor, para onde vais?». Respondeu Jesus: «Aonde eu vou tu não podes seguir-me agora; seguir-me-ás mais tarde» (Jo 13, 33.36).

Jesus vai da Ceia à Cruz e à Ressurreição - entra no mistério pascal; Pedro ainda não O pode seguir. Agora, após a Ressurreição, chegou este momento, este «mais tarde». Apascentando o rebanho de Cristo, Pedro entra no mistério pascal, dirige-se para a Cruz e a Ressurreição. O Senhor diz-lhe com estas palavras: «quando eras mais jovem..., andavas por onde querias; mas quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres» (Jo 21, 18). No primeiro período do seu pontificado, o Santo Padre, ainda jovem e cheio de forças, sob a guia de Cristo, foi até os confins do mundo. Mas depois compartilhou cada vez mais os sofrimentos de Cristo, compreendeu cada vez melhor a verdade das palavras: «Outro te cingirá...». E, precisamente nesta comunhão com o Senhor que sofre, anunciou infatigavelmente e com renovada intensidade o Evangelho, o mistério do amor até ao fim (cfr. Jo 13, 1). (...)

 

Divina Misericórdia: O Santo Padre encontrou o reflexo mais puro da misericórdia de Deus na Mãe de Deus. Ele, que havia perdido a sua mãe quando era muito jovem, amou ainda mais a Mãe de Deus. Escutou as palavras do Senhor crucificado como se estivessem dirigidas a ele pessoalmente: «Eis a tua mãe!». E fez como o discípulo predilecto: acolheu-a no íntimo de seu ser (eis ta idia: Jo 19, 27) – Totus tuus. E da mãe aprendeu a conformar-se com Cristo.

Nenhum de nós poderá esquecer como, neste último domingo de Páscoa da sua vida, o Santo Padre, marcado pelo sofrimento, se aproximou uma vez mais da janela do Palácio Apostólico e deu pela última vez a benção «Urbi et Orbi». Podemos estar seguros de que o nosso amado Papa está agora à janela da casa do Pai, nos vê e nos abençoa. Sim, abençoa-nos, Santo Padre. Confiamos a tua querida alma à Mãe de Deus, tua Mãe, que te guiou cada dia e te guiará agora à glória eterna do seu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.


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