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CRISTO REI

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

«Venha a nós o vosso Reino!», rogamos muitas vezes ao dia. «Na oração do Senhor, trata-se principalmente da vinda final do Reino de Deus, pelo regresso de Cristo. Mas este desejo não distrai a Igreja da sua missão neste mundo, antes a empenha nela» (CIC, 2818). «A vocação do homem para a vida eterna não suprime, antes reforça, o seu dever de empenhar energias e os meios recebidos do Criador ao serviço da justiça e da paz neste mundo» (CIC, 2820).

Não se trata de esperar um mundo sem injustiças nem violências. Seria uma ingenuidade e uma espécie de transposição onírica do Céu para a Terra. Trata-se de esforçar-nos por tornar este mundo mais fácil para a Salvação, isto é, onde seja mais fácil servir a Deus e ao próximo; onde os costumes e as leis favoreçam a compreensão, o respeito e a caridade, tanto entre as pessoas como entre as nações e as instituições; onde se fomente a liberdade para todo o bem que Deus nos inspire.

Nosso Senhor pode servir-se de tudo – inclusive as maiores injustiças – para nossa santificação, mas nós temos obrigação de esforçar-nos por criar as melhores condições possíveis para o desenvolvimento humano e espiritual até que o Senhor nos chame a Si para toda a eternidade.

A Doutrina Social da Igreja não tem outro sentido. Como o Papa Francisco disse logo nos começos do seu pontificado, a Igreja não é uma ONG (aliás, nem todas elas são louváveis pelos seus objectivos, fomentando, pelo contrário, o caos moral que nos desgraça). A DSI esclarece muitos problemas que temos de enfrentar e avanços que é preciso orientar, mas não dá «soluções»; aponta metas; sugere meios… E não dá soluções, porque elas não existem: «Sempre tereis pobres entre vós» (Jo 12,8). Ou melhor, há tantas soluções como remédios há para as doenças, que não desaparecem, mas se vão sucedendo - até à última que nos toque. (1)

O erro de muitos bons cristãos foi o de tomarem a DSI como um código social católico que resolveria todos os problemas do mundo, e, uma vez que não conseguiam convertê-la num sistema político (tentativas que deram origem à infeliz denominação das variadas e volúveis «democracias cristãs» ou mesmo partidos «católicos»), enveredaram por sistemas mais «práticos», inclusive marxistas. (2)

Também é verdade que muitos documentos sociais da Igreja apelam à contribuição dos «homens de boa vontade», criando a ilusão de que os nossos grandes problemas procedem sempre da «má vontade» dos homens, quando o que significa é que a DSI não se destina só aos católicos, mas a toda a gente, cristã ou não. Pois, por mais boa vontade que tenhamos, nunca terminarão os problemas: cada nova tecnologia desconserta algum sistema anterior; cada nova necessidade obriga a modificar planos de investimento, etc. e, além disso, para enfrentar cada problema há as mais diversas opiniões e as questões internacionais são formuladas de diferente modo de um lado e outro das fronteiras. A própria Igreja reconhece que, enquanto não existir uma autêntica (e forte) autoridade mundial, temos de contar com as guerras (CIC 2308). São recomendáveis os diálogos, mas não podem prolongar-se indefinidamente…

Enfim, o reinado de Cristo na Terra «não consiste em comida e bebida» (Rom 14,17) nem num regresso ao Paraíso; é muito mais do que isso: é o Céu na Terra; é o próprio Cristo «no meio de nós»; é este diálogo supremo do homem com o seu Criador, Redentor e Amor; é a caridade, a compreensão, a compaixão, a paciência e o respeito pela consciência alheia; e é também a contrição, o arrependimento sincero e prático dos nossos pecados; é perdoar e pedir perdão; é o trabalho generoso e esforçado, com verdadeiro espírito de serviço e a responsabilização pessoal por este mundo, que Deus nos deu para cultivar e guardar, e por todos os nossos irmãos, os homens, facilitando-lhes o melhor que pudermos a sua caminhada terrena para a nossa verdadeira Pátria.

 

 

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1 - Por sinal, ouvimos há tempos uma resposta bastante original à pergunta: - «Como estás?» - «Melhor, só morto!»

2 - Sem pormos em causa os grandes serviços que as DCs prestaram, nomeadamente em Itália no pós-guerra, e compreendendo perfeitamente que mantenham ainda hoje o seu «nome de marca».

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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