VALORES CRISTÃOS DA EUROPA

D. ISABEL – UMA RAINHA QUE FOI SANTA

 

 

Maria Helena da Cruz Coelho

Historiadora

Universidade de Coimbra

 

 

O culto popular à Rainha Santa Isabel logo a seguir à sua morte em 1336 seria legitimado com a sua beatificação, concedida por Breve do Papa Leão X, no dia 15 de Abril de 1516. Mais tarde, o Papa Urbano VIII canonizou-a solenemente em 25 de Maio de 1625, sendo celebrada no dia 4 de Julho, dia do seu falecimento. O seu corpo incorrupto conserva-se num túmulo no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra.

Por isso, de 1 a 13 de Julho a cidade de Coimbra celebrou os 500 anos da beatificação da sua Padroeira. Oferecemos aos nossos leitores a nota publicada no Semanário ECCLESIA on line, de 1 de Julho de 2016, da autoria da Prof. Maria Helena da Cruz Coelho, catedrática de História Medieval da Universidade de Coimbra.

 

 

A casa de Aragão de onde provinha D. Isabel – filha de D. Pedro III de Aragão e D. Constança Hohenstaufen e nascida em 1270 – firmava-se por alianças matrimoniais com os mais notáveis governantes do tempo, desde o imperador alemão aos reis da Hungria e Sicília, que a redimensionavam, muito para além da espacialidade ibérica, num amplo contexto de relações internacionais, no continente e no Mediterrâneo.

Esta prestigiada infanta casou, em 1282, com o rei de Portugal, D. Dinis, e tal união matrimonial traduzir-se-á num projeto real de grande alcance, tanto a nível interno da composição política, social, cultural e religiosa do reino de Portugal como no plano internacional no concerto e pacificação das monarquias da Península Ibérica.

Se a sua função primeira como mulher casada era a de assegurar a linhagem real, cumpriu-a com o nascimento de D. Constança, em 1290, e depois, em 1291, do herdeiro da coroa, D. Afonso. E durante toda a sua vida desempenhou o seu papel de esposa e mãe, acompanhando D. Dinis, na sua vida privada e pública, até à morte deste, em 1325, e educando e cuidando dos seus filhos, mas também de alguns dos bastardos reais.

Dedicou-se igualmente ao governo da sua casa, composta por um corpo próprio de oficiais e por um séquito de donas e donzelas da sua criação, que educava e dotava para o casamento. Possuidora de um amplo património recebido por arras ou por doações reais, em que se incluíam vilas, castelos e reguengos, soube dirigi-lo e controlá-lo na justiça, na administração e na fiscalidade.

D. Isabel desenvolveu ainda uma significativa diplomacia de paz, no reino de Portugal e fora dele, e porque, por nascimento ou enlaces matrimoniais, estava relacionada com todos os reinos peninsulares, ao procurar o entendimento entre os membros da família envolvia-se numa estratégia de conciliação política.

Procurou apaziguar os conflitos e guerras internas entre D. Dinis e seu irmão e sobretudo entre o rei e seu filho Afonso. Por intermédio do seu marido, D. Dinis, harmonizou o seu irmão D. Jaime II de Aragão com o seu genro D. Fernando IV de Castela, e marcou mesmo presença na sentença arbitral entre eles assinada, em 1304.

A rainha D. Isabel soube, assim, acompanhar o rei D. Dinis no governo do reino de Portugal, deixando marcas indeléveis na diplomacia, na assistência, no apoio à Igreja, na espiritualidade, na cultura e na vida de corte.

E após a morte do seu rei e senhor, D. Isabel, em luto e recolhimento, mas sem nunca professar, primeiro peregrina até Santiago de Compostela e depois, vivendo junto do Mosteiro de Santa Clara, continuou a sua missão piedosa, moral e caritativa, mas também a sua função de gestora de bens, obras e homens.

Foi justamente o comprometimento desta Rainha e desta Mulher com a vida e com a ação, pautado pelos valores evangélicos e pela fé e devoção cristãs, que colocaram D. Isabel no coração do povo como santa, logo após a sua morte em 1336, e a elevaram aos altares pela beatificação em 1516 e pela canonização em 1625.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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