OPINIÃO

A ESPERANÇA


Jorge Margarido Correia

Na Exortação Apostólica «A Igreja na Europa» de João Paulo II, aparece mais de cem vezes a palavra Esperança, metade das quais na expressão «Evangelho da esperança». É, pois, oportuno reflectir sobre a virtude da Esperança, nos seus elementos humanos e cristãos. Nesse sentido, apresentei na reunião da Vigararia I da Cidade do Porto, em Setembro passado, uma síntese do artigo do Prof. Leonardo Polo em «Scripta Theologica» (Vol. XXX, 1998, Fasc. 1), que se põe agora à disposição dos leitores da CL.


«Igreja na Europa, a 'nova evangelização' é a tarefa que te espera! […] O anúncio de Jesus, que é o Evangelho da esperança, seja por conseguinte o teu título de glória e a tua razão de ser». ('A Igreja na Europa', n. 45).


A Esperança é a estrutura do existir do ser humano no tempo. Consta de vários elementos:


1. Optimismo

Não há esperança sem optimismo, isto é, se não se entende que há um futuro por alcançar, melhor que o presente. Aliás, o único optimismo legítimo é aquele em que habita a esperança e, portanto, aberto ao futuro. O optimismo que afirma que se está no melhor dos mundos possíveis é um optimismo pessimista, que não é fiel a si mesmo (daí o dito inglês: 'o optimista é o que sustenta que estamos no melhor dos mundos possíveis e o pessimista é o que acredita que isso é verdade').

Quem vive a esperança afirma que estamos num mundo melhorável e, por isso, não se instala no presente e aceita a aventura de se pôr a caminho em direcção a algo ao nosso alcance mas ainda não alcançado. «Existir» é sistere extra, sair do imobilismo, rejeitar o tempo como mero transcurso, com atitude de 'reformado', mas antes com uma atitude de crescimento, que é o modo mais intenso de aproveitar o tempo.

Isto implica insatisfação, inconformismo. O homem é capaz de um crescimento irrestricto, superior ao crescimento orgânico. É um crescimento espiritual, interior às potências mais elevadas, a inteligência e a vontade, e possível em todas as etapas da vida humana.


2. Convicção de que o futuro depende do actuar humano

Caso contrário, aceita-se que o final chegará, mas em virtude de um dinamismo alheio à intervenção do homem. Isto é característico da chamada 'utopia': os tempos são maus e nós não podemos mudá-los; no entanto, sem contar comigo, os males que nos afligem desaparecerão e instaurar-se-á uma situação óptima final. Isto é, não estamos no melhor mundo possível, mas estaremos segundo um acontecer devido a forças fatais extra-humanas.

Esta esperança utópica está falseada, não só porque a utopia não acontecerá nunca, mas também porque não será possível reconhecer esse futuro como próprio. É uma forma de alienação. A liberdade está ausente dessa esperança (um exemplo é a utopia marxista).


3. Postula uma tarefa a realizar

Se a esperança se instala em trânsito para o futuro, se o melhor está para vir mas não chegará sem contar com o esforço humano, o seu advento exige uma 'tarefa'. Isto implica um compromisso íntimo, é um dever. A esperança impõe uma obrigação: antes de mais, quem tem que melhorar, crescendo, é o ser humano. O futuro é melhor, com uma condição: que o ser humano se torne melhor. É o contrário da utopia e está descrito na situação dos convidados para a boda (cf. Mt 22, 1-14). A boda é uma situação óptima, mas só lá podem estar os que têm traje nupcial, isto é, os que mudaram, os que melhoraram eles próprios.


4. Essa tarefa é uma aventura e não pode ser solitária

Se o futuro melhor implica uma tarefa, é preciso interrogar-se sobre quais os recursos com que se conta para a acometer. De momento, não se contam com todos os recursos necessários. Caso contrário, não se trataria de um futuro melhor, não traria novidade nenhuma, o melhor já seria a situação presente, e bastaria distribuir e desfrutar desses recursos.

Portanto, o futuro próprio da esperança requer uma dose de aventura, de risco: começar uma tarefa sem ter já todos os recursos. O futuro melhor é possível, mas não certo. Também está simbolizado numa parábola evangélica, a do homem que teve uma colheita tão grande que lhe 'garantia o futuro' sem voltar a semear nada (cf. Lc 12, 16-21).

Por isso, a tarefa esperançada é impossível se se pretende afrontar em estrita solidão. O homem isolado não pode chegar a um futuro melhor, precisamente porque não tem todos os recursos. A aventura da esperança não se pode acometer se não se conta com a ajuda dos outros, e que consiste sobretudo na 'cooperação'. O bem futuro melhor tem que ser um bem comum. Trabalhar em regime de esperança, ter um existir aberto a horizontes novos, é uma característica do ser humano que se desenvolve de modo comunitário, de acordo com o poder convocatório da esperança.


5. Essa aventura é constitutivamente «épica»

A epopeia é a narrativa de uma pluralidade de experiências intensas com as quais o homem consegue conhecer-se em profundidade (ex. Ulisses, Abraão…). Define o ser temporal do homem e pode narrar-se como uma história, porque tem um passado cujo sentido se actualiza e um impulso em direcção a um fim que convoca.

Antes de mais, a epopeia tem que ser uma tarefa que não obedeça a um mero capricho do sujeito, mas que lhe foi encomendada, isto é, compreende um encargo. Este é o primeiro motivo pelo qual não se pode empreender em solidão: 'Alguém me deu esta missão'. Os que melhor o entenderam foram os santos. Outro motivo é que no decurso da acção aparecem, por um lado, companhias adjuvantes e, por outro, dificuldades, obstáculos, adversários.

Mas isso não é tudo. Outro factor da esperança é que o beneficiário da acção não pode ser apenas o sujeito que a realiza. A esperança é sempre transcendente. O futuro melhor deve ser um benefício que se estenda a outros. O egoísta recorta a sua esperança porque a rodeia do nada: '– Quem te encarregou a tarefa de existir? Ninguém. – Com que ajudas contas? Só com os meus recursos. – Quem é o teu adversário? Todos os outros. – Quem vai beneficiar? Apenas eu'.

Existem outros dois tipos humanos incapazes de viver a esperança: os dubitativos e os inconscientes. O dubitativo é aquele que faz as contas aos recursos, mas esquece que se podem incrementar, e dá demasiado valor às dificuldades. Deixa-se assustar pela dor e não sabe pedir ajuda ou cooperação. O inconsciente é o que se lança a uma tarefa e pensa depois. Normalmente o inconsciente é-o para tudo excepto para o rancor, filho do medo, que substitui a esperança pelo 'sentimento de urgência', quando não pelo excesso de cálculo como no caso do dubitativo.


6. Alegria

É o último elemento da esperança a considerar. Correr riscos equivale a jogar. A sociologia desenvolve-se apelando à teoria do jogo. Nesse sentido, a sociedade deve definir-se como um jogo de soma positiva. Por isso, a actividade esperançada é um jogo que não causa angústia: é um jogo alegre em que vale a pena apostar porque todos ganham. Da esperança deriva a alegria do universo. Como diz S. Paulo: 'as criaturas esperam a manifestação da glória dos filhos de Deus; entretanto estão sujeitas à vaidade' (Rom 8, 19-20). Dito de outro modo, estão tristes.



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CONHECER E ESTIMAR AS IGREJAS DO ORIENTE


Elias Couto

Para o mês de Novembro passado, a Intenção Geral do Santo Padre para o Apostolado da Oração era: Que os cristãos do Ocidente conheçam e estimem cada vez mais a espiritualidade e as tradições litúrgicas das Igrejas do Oriente.

1. No primeiro século da sua história, o Cristianismo desenvolveu-se, sobretudo, na metade oriental da bacia do Mediterrâneo. As primeiras comunidades surgiram na Palestina (Jerusalém, Cesareia...), daqui passaram à Síria (Damasco, Antioquia...) e, de seguida, sobretudo por obra de S. Paulo e seus companheiros, por toda a Ásia Menor (actual Turquia – Éfeso, Galácia ...). O continente europeu veio a seguir, com as viagens de S. Paulo à Macedónia (Filipos e Tessalónica) e à Grécia (Atenas e sobretudo Corinto). Entretanto, outros missionários faziam chegar o Evangelho a Roma, ao Norte de África e ao Egipto. De Roma, saíram missionários para toda a Europa ocidental, de modo que, pelo séc. VI, quase não havia região da Europa onde o nome de Cristo não fosse anunciado.


2. A permanência da estrutura imperial no Oriente, com a capital em Constantinopla, e o fim do império romano no Ocidente, introduziu um factor de divisão política na unidade imperial de outrora. Esta divisão, aliada à diversidade cultural presente desde o início na vida das comunidades cristãs, conduziu a um progressivo afastamento entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente mediterrânicos - a disciplina eclesiástica e os costumes comunitários, incluindo o modo de celebrar os sacramentos, foram-se tornando cada vez mais particularizados, embora permanecesse comum o essencial da fé. Com o passar dos séculos, porém, esta diversidade tornou-se desconhecimento, à medida que o intercâmbio de pessoas e dons entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente ia sendo cada vez mais raro - em parte, por causa do Islamismo, que, a partir do séc. VII, se tornou a força política e religiosa dominante no Mediterrâneo oriental e tornou muito difícil a circulação de cristãos nessa região; em parte, por causa dos diferendos surgidos em torno das relações de autoridade entre o Papa de Roma e as Igrejas do Oriente, cada vez menos predispostas a aceitarem uma autoridade que lhes aparecia longínqua e estranha; e, em parte, devido a diferendos doutrinais que se revelaram impossíveis de ultrapassar... Tudo isto levaria à ruptura da comunhão, pelo século XI. Com o passar dos séculos, algumas comunidades cristãs do Oriente foram retomando a sua união com Roma, embora mantendo a legítima diversidade de costumes; mas em geral a divisão manteve-se, a ignorância mútua aprofundou-se e, por vezes, chegou a ser motivo de ódio e violência, em particular ao tempo das cruzadas. As sequelas de todo este acumular de incompreensões mútuas ainda se fazem sentir e continuam a tornar muito difícil o ecumenismo e a desejada unidade entre as Igrejas cristãs da ortodoxia e aquelas fiéis à autoridade de Roma.


3. Apesar disso, o século XX viu chegar o tempo em que os cristãos do Oriente e do Ocidente se puderam reencontrar, tentando deixar para trás um milénio de ignorância e desconfiança. Os encontros entre os Papas Paulo VI e João Paulo II e os Patriarcas de Constantinopla assinalaram simbolicamente o desejo de que a única Igreja de Cristo possa voltar a caminhar unida, na diversidade de costumes e tradições que em nada ofendem a unidade da fé. As viagens de João Paulo II a países onde a tradição da Ortodoxia é maioritária alimentaram ainda mais este desejo de unidade e espera-se que, a seu tempo, os frutos deste diálogo possam ser colhidos.


4. Este desejo não poderá, contudo, concretizar-se sem um esforço de conhecimento e respeito mútuos, que é tarefa de todos. As Igrejas do Oriente, herdeiras de uma tradição bimilenária, conservam uma riqueza teológica, espiritual e litúrgica que, muitas vezes, os cristãos do Ocidente desconhecem em absoluto. Há dimensões da espiritualidade destas Igrejas capazes de preencher o vazio que, tantas vezes, se apoderou da nossa oração, mais racionalizada, mais preocupada em dizer coisas do que em experimentar aquilo que Deus, através do seu Espírito Santo, tem para nos dizer. Há uma beleza nas celebrações, nos templos, na pintura religiosa das Igrejas do Oriente que pode ser lição para a frieza do nosso culto, para o desencanto das nossas celebrações, para a banalidade de muitas das nossas igrejas, para a miséria artística de muita da nossa pintura e escultura religiosas. Conhecer estas riquezas não empobrece, antes enriquece as Igrejas e os cristãos do Ocidente, tornando-os mais sensíveis à multiforme acção do Espírito Santo nestas comunidades eclesiais. Acolhendo o apelo do Santo Padre, esforcemo-nos, pois, por conhecer melhor para amarmos mais os nossos irmãos das Igrejas orientais - e, deste modo, estaremos a contribuir para um ecumenismo que vai à raiz das coisas, porque se entranha na vida e não se resume a declarações de princípios, necessárias, sem dúvida, mas pouco eficazes porque longe do coração dos crentes.



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