TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

VESTIR OS NUS E VISITAR OS PRESOS

 

 

 

D. Javier Echevarria

Prelado do Opus Dei

 

 

Para o Ano Santo da Misericórdia, o Papa Francisco recomendou a reflexão e a prática das várias obras de misericórdia sugeridas por Cristo no discurso sobre o juízo final e vividas tradicionalmente na Igreja (cf. Bula “O rosto da misericórdia”, n. 15).

O Prelado do Opus Dei, D. Javier Echevarria, tem vindo a comentar mensalmente essas obras de misericórdia, o que pode ser acompanhado em áudio e em transcrição no site do Opus Dei em Portugal: www.opusdei.pt/pt-pt/section/conferencias/

Daí tomamos para os nossos leitores o comentário a “vestir os nus e visitar os presos”.

 

 

Neste mês [Março de 2016] reflitamos sobre duas obras de misericórdia materiais, que abordam diferentes tipos de pobreza: a de quem não tem que vestir e a de quem carece de liberdade.

Vestir os nus não é apenas resguardar o corpo da intempérie; equivale também a ajudar uma pessoa a manter a sua dignidade. A roupa torna possível, a cada homem e a cada mulher, apresentar-se convenientemente diante dos outros e é, frequentemente, reflexo de elegância cristã interior.

Ao meditar a Paixão do Senhor, salta à vista que Cristo padece as injustiças dos homens. Ninguém, ninguém, salvo a sua Mãe e poucas pessoas mais, lhe dirige um gesto de misericórdia nas horas da crucifixão. Inclusivamente arrancaram-Lhe as suas vestes, que foram sorteadas entre os soldados. Quando Jesus nos convidou a vestir os nus, sabia que nem sequer esse gesto de misericórdia Lhe seria concedido a Ele. A nudez de Cristo na Cruz é imagem da ausência de misericórdia da nossa parte, dos homens, das mulheres; da nossa falta de amor, da frieza causada pelas nossas ofensas e pelo egoísmo.

O que os nossos antepassados não fizeram no Gólgota, podemos, de certa maneira, emendá-lo agora com os nossos irmãos os homens. Não são poucos, também nas sociedades opulentas, os que não dispõem de meios materiais nem para terem roupa digna, nem para se vestirem com normalidade. Este Jubileu oferece-nos outra ocasião para “abrir os olhos às misérias do mundo” e descobrir também à nossa volta essas pessoas necessitadas. Existem, ou podem promover-se, instituições de caridade com as quais é possível contribuir de diferentes maneiras – com o nosso tempo ou com o nosso dinheiro – para proporcionar roupa digna a quem dela necessita.

Ao mesmo tempo, numa sociedade que fez da moda um peso que nalgumas ocasiões escraviza, esta pode ser uma ocasião para destinar algum dinheiro a obras de caridade, poupando em compras de roupa originadas pelo capricho e cuidando melhor da própria roupa. Também cabe esforçar-nos por dar exemplo com uma aparência externa simples e digna.

Exerceremos também esta obra de misericórdia se ajudamos – com caridade, respeito e paciência – quem, por pobreza de ideais ou de formação, rebaixam a sua própria dignidade no modo de vestir. Sugerir que não se sigam certas modas de mau ou de gosto duvidoso é uma tarefa educativa de especial importância dos pais e mães para com os seus filhos e filhas, e de qualquer pessoa para com os seus amigos ou amigas. Cada um de nós é filho ou filha de Deus e também o modo de vestir faz parte do reconhecimento da própria dignidade. Façamos ver que a roupa, os fatos, cobrem um corpo informado pela alma espiritual, que é o importante, e destinado à ressurreição gloriosa.

 

Outra obra de misericórdia clara é visitar os presos. Voltamos de novo a olhar para Cristo: o Senhor da Terra esteve preso na noite prévia à sua crucifixão. Que horas tão amargas para Jesus! Privaram-no da liberdade prendendo-o, enquanto aguardava um julgamento e uma condenação absolutamente injustos, iníquos. Paradoxalmente, num ato de completa liberdade, aquele Prisioneiro, com maiúscula – desprezado por todos – estava a libertar-nos do pecado e não desdenhava esse serviço porque é o Filho de Deus, irmão de todos os homens e mulheres.

Quem está privado da liberdade necessita de ser confortado na esperança. Por isso, em numerosas ocasiões, os Papas – também o Papa Francisco – foram visitar os presos, e transmitiram-lhes palavras de alento, convidando-os a aproveitar esse período das suas vidas para se abrirem a Deus. “Quando Jesus entra na vida de alguém – disse o Papa Francisco numa prisão da Bolívia – essa pessoa não fica detida no seu passado, antes começa a olhar o presente de outra maneira, com outra esperança. A pessoa começa a olhar com outros olhos a si própria, a sua própria realidade. Não fica presa ao que sucedeu, pelo contrário é capaz de chorar e de encontrar aí a força para voltar a começar”.

Visitar os presos, ou ajudá-los na sua reinserção social, é servir os que foram afastados da sociedade. Que trabalho mais bonito podem desempenhar os que trabalham ou colaboram nessa tarefa! Especialmente atendendo os que se encontram presos por motivos religiosos, o que agora é tão frequente.

Pensemos também naqueles que estão encerrados não em prisões de cimento, mas em redes de outro tipo: as que originam o álcool, a pornografia, as drogas, ou outros vícios que aferrolham a alma e a mergulham num abismo.

Levemos a todas essas pessoas a nossa proximidade, a nossa compreensão, os nossos conselhos e, acima de tudo, a nossa oração. Recordemos-lhes que Deus não deixa cair ninguém da sua mão, que não abandona nenhum dos seus filhos. A todos oferece sempre novas oportunidades, até ao último instante dos nossos dias.

São Josemaria Escrivá foi em várias ocasiões à cadeia modelo de Madrid durante os anos 30 do século passado. Encontravam-se ali alguns jovens que ele atendia espiritualmente, presos exclusivamente por motivos políticos. Vestido com batina, em tempos em que os sacerdotes eram agredidos, ajudava-os a rezar e animava-os a aproveitar o tempo, estudando idiomas ou revendo o catecismo. Inclusivamente, nesse exercício de caridade, convidou-os a que jogassem futebol com presos de ideias opostas – anticristãs – para que, dessa amizade que se gerava com o desporto, pudesse surgir o respeito mútuo.

São Josemaria sabia que as prisões, físicas ou morais, podem ser também lugares de encontro com Cristo, lugares de conversão profunda. Por isso recomendava aos fiéis da Prelatura que não deixássemos de nos ocupar dessa tarefa com um sentido cristão e de fraternidade. Se os cristãos levarem a esses lugares o bálsamo da misericórdia de Deus, muitos dos detidos poderão experimentar a verdadeira libertação: a consciência de se saberem filhos de Deus e, portanto, amados sem condições e protegidos também pela nossa Mãe, a Virgem.

 


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