TEMAS LITÚRGICOS

Altar: símbolo de Cristo

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

Há uns anos escrevi umas catequeses familiares para que os pais pudessem acompanhar os filhos na preparação para a Primeira Comunhão. Logo na primeira catequese contei a seguinte história:

«- Mãe! porque é que o Senhor Padre beija o altar no início da Missa?» - perguntou o Tiago.

A mãe contou-lhe, então, uma pequena história para que ele entendesse.

Recordou-lhe o presépio que fizera com a família no ano anterior.

«- Pois imagina que tu eras um desses pastores e ias com eles até à gruta de Belém, e que convosco ia um pastor que sabia o caminho e conhecia bem aquele estábulo, até se lembrava de ter visto Maria e José a passar e tinha-os cumprimentado.

Assim, ao chegarem todos à porta do estábulo, viam como este pastor se adiantava, cumprimentava José e Maria, falava-lhes do Anjo e de como os tinha avisado do nascimento do Menino, e então, em nome de todos, aproximava-se da manjedoura e dava um beijo em Jesus.

Pois, algo parecido acontece no início da Missa. Vimos todos para estar com Jesus e o sacerdote adianta-se e dá-lhe um beijo em nome de todos. O altar simboliza Jesus. Podes olhar para lá e imaginar a manjedoura com o Menino deitado. Depois, mais tarde, todos os pastores puderam pegar em Jesus e beijá-lo um por um, é o que nós fazemos quando o recebemos na comunhão. Temos Jesus dentro de nós! E nessa altura podemos dizer-lhe muitas coisas como o fizeram os pastores naquela noite de Natal.»

Neste pequeno episódio apresenta-se o que a Igreja diz a propósito do altar onde, na Missa, se torna presente ao mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial da cruz e o banquete sagrado da comunhão do corpo e sangue do Senhor.[1]

Efetivamente, o Catecismo da Igreja Católica realça que o «altar, em torno do qual a Igreja está reunida na celebração da Eucaristia, representa os dois aspetos de um mesmo mistério: o altar do sacrifício e a mesa do Senhor, e isto tanto mais porque o altar cristão é o símbolo do próprio Cristo, presente no meio da assembleia de seus fiéis, ao mesmo tempo como vítima oferecida por nossa reconciliação e como alimento celeste que se dá a nós. "Com efeito, o que é o altar de Cristo senão a imagem do Corpo de Cristo?" - pergunta Santo Ambrósio; e noutro passo: "O altar representa o Corpo [de Cristo], e o Corpo de Cristo está sobre o altar".[2]

No entanto, surge a pergunta: por que razão o altar cristão é o símbolo do próprio Cristo? Porque diz S. Ambrósio que o altar é imagem do Corpo de Cristo ou que o altar representa o corpo de Cristo?

À primeira vista podemos deduzir que não existe uma relação unívoca, mas sim analógica neste simbolismo. Não basta, no entanto, simplesmente afirmar essa relação, como fazem as crianças nas suas brincadeiras (atribuem um significado a um determinado objeto ou lugar, por vezes, sem qualquer tipo de causalidade). Terá de haver uma razão lógica para um simbolismo tão forte.

Que o altar é o local sagrado onde se realiza o sacrifício, onde se torna presente o corpo do Senhor, isso de por si, leva a que seja reverenciado e a receber a primazia no espaço sagrado do templo cristão (excetuando o sacrário). No entanto, insisto, porquê a simbologia altar=Cristo?

Para o respondermos teremos de recuar até à instituição da Eucaristia. Ela foi feita não num altar, mas numa mesa comum. O sacrifício do Senhor foi antecipado e tornado presente sob a forma de banquete. Do mesmo modo, durante muito tempo, a Eucaristia foi assim celebrada. Os cristãos cumpriram o que o Senhor lhes ordenara e perceberam que tornavam presente o sacrifício do Senhor sem necessidade de um altar. Compreenderam que Cristo não só era o Sacerdote e a Vítima, mas também o Altar.[3]

Efetivamente, para todas as religiões pagãs o altar tinha uma importância capital. Era o altar que era “santo” e tornava “santa” a vítima e o sacrifício que sobre ele se realizava. Para os cristãos não, o altar é santificado pela oferenda, Jesus Cristo. Os primeiros apologetas chegaram mesmo a sublinhar que os cristãos não tinham templos nem aras, para significar com força que tinham o Deus vivo e verdadeiro e que era Ele que santificava. Cristo era, assim, altar místico e a Eucaristia não necessitava de um altar fixo.[4]

Arocena assinala inclusive casos extremos em que se celebrou a Eucaristia sem qualquer altar: Teodoreto de Ciro terá celebrado no deserto utilizando como altar as mãos dos diáconos. Surio refere que, durante a perseguição de Diocleciano (+313), um presbítero de Antioquia, chamado Luciano, se encontrava preso no dia da Epifania com dois dos seus discípulos. Vendo-os entristecidos por não poderem celebrar o santo sacrifício, uma vez que careciam de altar, disse-lhes: «o altar será o meu coração e o templo sereis vós, congregados à minha volta».[5]

Para a celebração do sacrifício eucarístico geralmente empregavam-se suportes ou mesas de madeira em salas ou casas. Com o passar do tempo, porém, estas foram-se reservando especificamente para o culto. E então a mensa Domini torna-se fixa e ganha o seu carácter de altar. [6] Embora a mesa do altar tenha sido de madeira durante os primeiros séculos (e, depois, perdurará nalguns lugares até ser proibida), na primeira metade do sec. IV adota-se de forma natural e quase espontânea a pedra como material para o edificar.[7] Isto porquê? Talvez devido à consciência de que Cristo embora seja, por um lado, altar místico é, por outro, a pedra angular do Templo espiritual que deve ser a vida do cristão.[8]

E, se o altar representa Cristo, não pode estar completo sem os seus membros, os mais gloriosos dos quais são os mártires. O seu sacrifício, de certa forma, completa o sacrifício do Senhor, não porque este não seja sobreabundante, mas porque os mártires o prolongam. Daí que as sepulturas gloriosas dos mártires passarão a considerar-se como o suporte mais idóneo para a mesa sacrificial. Celebrar a Eucaristia sobre um altar que contém relíquias de mártires sublinha o caráter exigente da comunhão com Cristo, ao mesmo tempo que propõe uma visão do altar como figura de Cristo.[9]

Atualmente, a IGMR dá orientações precisas a respeito do altar. Assume esta simbologia altar=Cristo e, a partir dela, determina que no caso das Igrejas seja, de preferência, fixo (não se possa mover)[10] e que seja de pedra natural[11], pois Cristo é a pedra viva (Cfr. 1 Pe 2, 4 e Ef 2, 20).

Há porém uma simbologia bíblica que, quanto a mim, pode ajudar a iluminar esta identificação analógica altar=Cristo.

Voltemos, para isso, ao beijo ao altar no início da Missa. Num vídeo catequético sobre o sacramento da eucaristia, um sacerdote chamava atenção precisamente para esse gesto e explicava o seu significado dizendo: «o sacerdote beija o altar, porque o altar é a fonte de toda a graça».

Não é difícil pensar imediatamente no lado aberto de Jesus e nessa água e nesse sangue que são derramados[12] e que a Igreja sempre interpretou como um sinal dos sacramentos.[13] Do seu lado aberto brotou, como fonte abundante, a graça para todo o povo de Deus. Também não é difícil pensar que João, como bom israelita e conhecedor da Escritura, teria pensado no episódio de Meriba e Massa e na vara de Moisés que penetra na rocha fazendo que brote água para dessedentar o povo.[14] Efetivamente, a Igreja sempre identificou Cristo com a Rocha. Ele é a nossa rocha e é da sua Paixão, do seu lado aberto, que brota para o povo cristão a graça dos sacramentos.

É curioso saber ainda de uma antiga tradição rabínica, à qual S. Paulo se refere na primeira epístola aos coríntios,[15] que dizia que essa rocha teria acompanhado os israelitas em toda a sua viagem pelo deserto.[16] Agora, a Eucaristia acompanha-nos ao longo desta peregrinação que é a vida terrena. O próprio Cristo torna-se presente, caminha connosco e fortalece-nos com o seu corpo e o seu sangue.

O altar é Cristo, a rocha do Horeb, a fonte da graça. Por isso, em nome de toda a comunidade, o sacerdote abraça-o e beija-o no início da Missa.

 

 

 

 



[1] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1382

[2] Ibid, 1383.

[3] Assim o afirmava o Breviário Romano: Cristo é o Único que em sentido estrito é «o nosso Altar, a nossa Vítima e o nosso Sacerdote»: Gran Enciclopédia Rialp, altar, p. 750

[4] Cfr. AROCENA, F. M., El altar cristiano, p. 31 (Barcelona, 2006).

[5] Cfr. Ibid., p. 25.

[6] Gran Enciclopédia Rialp, altar, p. 750.

[7] Cfr. AROCENA, F. M., El altar cristiano, p. 31 (Barcelona, 2006)

[8] «Aproximai-vos d’Ele, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrada por Deus. E vós também – como pedras vivas – entrai na edificação de uma casa espiritual, para formar assim um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo.» 1 Pe 2, 4-5. Cfr. Ef 2, 20.

[9] Cfr. AROCENA, F. M., Obr. cit, p. 32 (Barcelona, 2006); IGMR, n. 302.

[10] IGMR, n. 298.

[11] Ibid., n. 301.

[12] Cfr. Jo 19, 34

[13] Cfr. LG, 3; CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1225

[14] Cfr. Ex 17, 1-6

[15] «Todos bebiam da mesma bebida espiritual, pois bebiam da pedra espiritual que os seguia, pedra que era Cristo»: 1 Cor 10, 4.

[16] SAGRADA BÍBLIA, Pentateuco, nota a Ex 17, 1-7, p. 357 (EUNSA 1997).


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