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«SURSUM  CORDA!»

 

Hugo de Azevedo

 

 

Conta um dos Evangelhos apócrifos que os Apóstolos estavam presentes aquando do falecimento de Nossa Senhora - o que testemunha a imensa veneração que votavam à Virgem Santíssima os primeiros cristãos. Estavam os Apóstolos, mas não todos, continua a narrativa: Tomé, sempre atrasado, chegou vários dias depois. Inconsolável, mas sempre teimoso, quis à viva força ver o precioso rosto da Mãe de Deus pela última vez. E tiveram de lhe fazer a vontade. Mas – ó surpresa! – Nossa Senhora tinha subido ao Céu em corpo e alma!

Não importa o carácter romanceado do episódio. Que lá estaria João, não temos dúvida, assim como todos os que puderam despedir-se da Nossa Mãe Santíssima.

Recordo a primeira visita às Catacumbas de Priscila. O velho guia – tão velho que parecia daquele tempo! – apontava para a primeira imagem que se conhece de Nossa Senhora. Muito gostava ele de a apontar a quem duvidava da convicção dos antigos fiéis quanto à grandeza de Maria: - «Reparem: está sentada, com o Menino ao colo. Sentada! Que quer dizer: no trono! É Rainha!»

Recordo ainda com que alegria um grande amigo anglicano me ofereceu o relatório final de um encontro ecuménico sobre Nossa Senhora: embora sem aceitar o carácter «dogmático» da doutrina católica, estavam todos de acordo quanto à verdade de todos os privilégios da Mãe de Deus! Que bom, poder amar e venerar sem reservas a Nossa Mãe!

Recordo até um «ateu» - assim se considerava – que, apesar da sua falta de fé, «isso de ir a pé a Fátima», lá isso tinha ido!

Que bom ter Mãe, verdadeira Mãe, solícita, compreensiva, carinhosa e exigente – muito exigente, como todas as mães! Que não cede em nada que seja mau para os filhos! Que não desiste da felicidade deles, por mais levianos que sejam! Que avisa e se repete quantas vezes for preciso! Que vai ter com eles, se eles se afastam! Que se alegra com o mínimo sinal de correspondência e amor, e anima sempre a mais e melhor comportamento!

Porventura será o amor materno superior ao divino? - é a pergunta tácita ou expressa de muitos. Mas o amor de Maria é precisamente o amor divino transmitido por um coração materno, isto é, por um amor «mais próximo da nossa experiência»: embora inefável, amor mais sensível e mais inteligível a qualquer de nós, e através do qual podemos penetrar melhor, pela graça, no Sagrado Coração de Jesus e daí no Amor trinitário.

Assunção de Maria aos Céus! Tal como os Apóstolos fixavam os olhos no céu mesmo depois de perderem de vista Jesus, ascendido ao Pai, também nós, pegando ao manto da Senhora, como diz belamente S. Josemaria em «Santo Rosário», contemplemos «aquela maravilha»! Não percamos de vista o nosso destino, por muitas nuvens que se nos interponham. Fomos criados para a oração, para a conversa íntima com o Criador, para a contemplação amorosa, que, se aqui nos cansa às vezes, no Céu não nos cansará. Por certo, nas aldeias do norte, a namorada ou o namorado eram chamados «a minha conversada», «o meu conversado». E qualquer tema servia de conversa. A dificuldade era terminá-la. Se assim é no tempo, como será na eternidade!

Os Apóstolos voltaram a pousar os olhos na terra, mas eram já outros olhos, «cheios de alegria». Tinham grandes novidades a dar ao mundo inteiro!

 

 

 

 


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