aCONTECIMENTOS eclesiais

DA SANTA SÉ

 

 

DOIS NOVOS SANTOS

 

No passado dia 4 de Março, foram publicados com autorização do Santo Padre vários decretos da Congregação para as Causas dos Santos, entre eles, dois relativos a próximas canonizações.

 

Um deles é a aprovação do milagre atribuído à intercessão do Beato Manuel González (1877-1940), Bispo de Palência, Fundador da União Eucarística Reparadora e da Congregação das Irmãs Missionárias Eucarísticas de Nazaré.

Nascido em Sevilha (Espanha) e ordenado sacerdote aos 24 anos (1901), perante o abandono em que encontrou um sacrário numa missão que pregava, foi a partir de então e por toda a vida um adorador e reparador de Nosso Senhor abandonado nos sacrários, e procurou transmitir o seu espírito de reparação a todos quantos se colocaram sob a sua direcção, sobretudo os sacerdotes, pois bem sabia que do exemplo deles depende muito a fé e a devoção do povo católico, chegando a fundar várias associações com esse objectivo de reparação dos “Sacrários abandonados”.

Em 1915 foi ordenado Bispo auxiliar de Málaga, passando a seu titular em 1920. Sofreu muito com a revolução anticlerical espanhola, em 1931, sendo o palácio episcopal incendiado e tendo de fugir para Gibraltar. Em 1935 foi nomeado Bispo de Palência, onde veio a falecer em 1940.

Os seus restos mortais foram depositados aos pés do Santíssimo Sacramento, na Catedral de Palência. Sobre a lápide de mármore branco, ficou gravado o seguinte epitáfio, por ele mesmo composto: “Peço ser enterrado junto a um sacrário, para que os meus ossos, depois de morto, como a minha língua e a minha pena durante a vida, estejam sempre dizendo aos que passem: Aí está Jesus! Aí está! Não O deixeis abandonado!”.

 

O outro decreto é a aprovação do milagre atribuído à intercessão da Beata Isabel da Trindade (1880-1906), freira professa da Ordem das Carmelitas Descalças.

“Parece-me que encontrei o meu Céu na terra, porque o Céu é Deus, e Deus é a minha alma. No dia em que compreendi isto, tudo em mim se iluminou e gostaria de dizer baixinho este segredo àqueles que amo, para que também eles em tudo adiram sempre a Deus e que se realize esta prece do Cristo: «Pai, que eles sejam consumados no Uno!»” Assim escreveu a carmelita Isabel da Trindade, no século, Isabel Catez.

Isabel viveu 26 anos e meio. Depois da morte do pai, aos sete anos, foi educada, humana e religiosamente, junto da sua mãe e a sua irmã Guida. Em 1901 entrou no Carmelo de Dijon, com vinte e um anos, onde recebeu o nome de Isabel da Trindade. Viveu aí seis anos de vida contemplativa. Em 1903 fez a Profissão religiosa. Em 1904 escreveu a sua célebre oração “Ó meu Deus, Trindade que eu adoro”. Em Março de 1906 ingressou na enfermaria conventual gravemente doente. No dia 9, depois do toque do Angelus, a “casa de Deus” partiu para a “casa do Pai”, onde é para sempre “louvor de glória da Santíssima Trindade”.

Uma vida breve, mas densa de conteúdo humano e riqueza espiritual, na qual não faltou a aventura da santidade. Encontrou na abertura à Palavra de Deus as razões da sua vida consagrada a Deus. O seu magistério espiritual é essencialmente escrito e estende-se principalmente ao círculo familiar – sua mãe e irmã – e às amigas, aos seminaristas e aos sacerdotes. Além das Obras espirituais – o Céu na fé, a Grandeza da nossa vocação, o Último Retiro e Deixa-te amar – legou-nos um conjunto de Cartas, o Diário, as Notas íntimas, as Poesias.

João Paulo II beatificou-a no dia 25 de Novembro de 1984 como testemunha da inhabitação do Pai, do Filho e do Espírito Santo no mais íntimo de si mesma.

 

 

TRANSPARÊNCIA FINANCEIRA

NOS PROCESSOS DE CANONIZAÇÃO

 

No passado dia 4 de Março, o Papa Francisco aprovou novas “Normas sobre a administração dos bens das causas de beatificação e canonização”, que visam uma maior transparência na administração financeira das mesmas.

 

A legislação vai estar em vigor de forma experimental durante 3 anos e substitui as normas aprovadas por São João Paulo II em 1983.

O “rescrito” da aprovação recorda que estas causas, por razão da sua complexidade, exigem muito trabalho e implicam despesas para a divulgação do conhecimento das figuras que são propostas aos católicos como modelo de santidade.

As novas normas determinam que os honorários e as despesas exigidas pelos promotores das causas sejam sóbrias e não se transformem num obstáculo para as várias causas de canonização.

Em particular, é exigido que o promotor de cada causa faça uma gestão clara das ofertas que recebe, com uma contabilidade actualizada e respeitando escrupulosamente a intenção de quem doou os bens.

A Congregação para as Causas dos Santos vai ser chamada a intervir “disciplinarmente” quando se verificarem “abusos de natureza administrativo-financeira”

Após a canonização do fiel em causa, os fundos que tiverem ficado nas respectivas contas passam para a administração da Congregação, junto da qual foi constituído um “Fundo de Solidariedade” para ajudar nas custas de processos em Roma.

 

A tramitação do processo de santidade de um católico falecido com fama de santo passa por etapas bem distintas.

Cinco anos após a sua morte, qualquer católico ou grupo de fiéis pode iniciar o processo, através de um postulador, constituído mediante mandato de procuração e aprovado pelo bispo local.

Aos bispos diocesanos compete o direito de investigar acerca da vida, virtudes ou martírio e fama de santidade ou de martírio, milagres aduzidos, e ainda, se for o caso, do culto antigo do Servo de Deus, cuja canonização se pede.

Este levantamento de informações é enviado à Santa Sé: se o exame dos documentos é positivo, o “Servo de Deus” é proclamado “Venerável”.

A segunda etapa do processo consiste no exame dos milagres atribuídos à intercessão do “Venerável”; se um destes milagres é considerado autêntico, o Papa poderá decretar a sua beatificação.

Quando após a beatificação se verifica um outro milagre devidamente reconhecido, o Papa poderá proceder à sua canonização.

A canonização, acto reservado ao Papa, é a confirmação por parte da Igreja de que um fiel católico é digno de culto público universal (no caso dos beatos, o culto é diocesano) e de ser dado aos fiéis como intercessor e modelo de santidade.

 

 

CANONIZAÇÃO DA

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

 

No passado dia 15 de Março, num Consistório ordinário de cardeais no Vaticano, o Papa Francisco anunciou que a canonização da Madre Teresa de Calcutá vai ser celebrada no domingo 4 de Setembro.

 

Na mesma data vai ser celebrado o Jubileu dos Voluntários e Trabalhadores da Misericórdia.

Em Dezembro de 2015 fora anunciado que o Papa aprovara um milagre atribuído à intercessão da Beata Teresa de Calcutá, vencedora do Prémio Nobel da Paz em 1979. Trata-se da cura miraculosa de um brasileiro, de 35 anos, afectado por uma grave doença no cérebro, que se curou de uma forma inexplicável.

Ganxhe Bojaxhiu, a Madre Teresa, nasceu em 1910 em Skopje (Macedónia), pequena cidade com cerca de vinte mil habitantes então sob domínio otomano, no seio de uma família católica que pertencia à minoria albanesa, no sul da antiga Jugoslávia.

Em 1928 ingressou na vida religiosa, na Congregação fundada pela missionária Mary Ward, acabando por ir para Calcutá, na Índia. O espectáculo de miséria que via nas ruas de Calcutá levou-a a descobrir a sua vocação de dedicação aos pobres mais pobres, fundando a congregação das Missionárias da Caridade, com a aprovação da Santa Sé.

Quando visitou a Índia, em 1964, Paulo VI recebeu pessoalmente Madre Teresa e 22 anos depois João Paulo II visitou a “Casa do Moribundo” em Calcutá.

Madre Teresa faleceu a 5 de Setembro de 1997, na casa geral da congregação em Calcutá, aos 87 anos de idade.

Foi beatificada por João Paulo II a 19 de Outubro de 2003, depois de o Papa polaco ter autorizado que o processo decorresse sem esperar pelos cinco anos após a morte exigidos pela lei canónica.

 

 

PRESIDENTE PORTUGÊS

RECEBIDO PELO PAPA FRANCISCO

 

No passado dia 17 de Março, o novo Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, foi recebido pelo Santo Padre, na sua primeira deslocação oficial depois da eleição, com um convite formal para visitar Portugal em 2017.

 

O presidente da República ofereceu ao Papa Francisco uma colecção de seis casulas desenhadas pelo arquitecto Siza Vieira e manufacturadas em Portugal e um “Registo” de Santo António, “um presente pessoal” da sua colecção privada.

“[O Registo] era um presente afectivo, expliquei isso primeiro ao Santo Padre. É uma espécie de ex-voto. Isto é: um crente pedia uma intercessão e depois agradecia através de uma imagem que emoldurava, e era uma gravura do santo votivo ou da imagem de Maria que constituía uma tradição quase artística portuguesa”, explicou Marcelo Rebelo de Sousa.

O Papa Francisco ofereceu a Marcelo Rebelo de Sousa a edição em português da encíclica “A Alegria do Evangelho” e da encíclica “Laudato sí”, sobre o cuidado da casa comum; e ainda, como é habitual com os chefes de Estado, um medalhão do seu pontificado com dois ramos de oliveira entrelaçados, símbolo da paz.

Na troca de lembranças entre o Papa e o Presidente da República Portuguesa, Francisco acentuou esse compromisso pela paz, pedido aos responsáveis pela política.

Depois da audiência com o Papa, Marcelo Rebelo de Sousa foi também recebido pelo Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin.

O Presidente da República visitou também a Basílica de São Pedro, onde passou pela Porta Santa do Jubileu da Misericórdia, deteve-se diante da Pietà de Miguel Ângelo e rezou junto no túmulo do Papa São João Paulo II. O programa incluiu também uma visita à Capela Sistina.

 

 

LAVA-PÉS COM

PAPA FRANCISCO

 

O Papa Francisco celebrou o rito do lava-pés, na tarde da Quinta-feira Santa, com refugiados de vários países e religiões, apelando à paz entre quem tem culturas e convicções diferentes.

 

“Todos nós juntos, muçulmanos, hindus, católicos, coptas, evangélicos, mas irmãos, filhos do mesmo Deus, queremos viver em paz, integrados”, disse na homilia da Missa da Ceia do Senhor.

A celebração que marca o início do Tríduo Pascal decorreu no centro de acolhimento de requerentes de asilo de Castelnuovo di Porto, cerca de 30 quilómetros a norte do Vaticano, que recebe sobretudo jovens refugiados.

Para a cerimónia do lava-pés foram escolhidos 8 homens e 4 mulheres, 11 refugiados e uma funcionária do centro, incluindo quatro nigerianos católicos, três ortodoxas da Eritreia, um hindu e três muçulmanos da Síria, Paquistão e Malí.

 

 

MORTE DE CRISTO

E MISERICÓRDIA DIVINA

 

Na Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro, presidida pelo Santo Padre Francisco, o pregador da Casa Pontifícia Frei Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., explicou a morte de Cristo como prova suprema da misericórdia de Deus.

 

“A morte de Cristo devia ser para todos a prova suprema da misericórdia de Deus para com os pecadores. É por isso que ela não tem sequer a majestade de certa solidão, mas é enquadrada, antes, entre dois ladrões. Jesus quis ser amigo dos pecadores até ao fim: por isso morreu como eles e com eles. O ódio e a ferocidade dos ataques terroristas desta semana em Bruxelas ajudam-nos a entender a força divina contida nas últimas palavras de Cristo: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34). Não importa quão grande o ódio dos homens; o amor de Deus tem sido, e será, cada vez maior. Para nós é dirigida, nas actuais circunstâncias, a exortação do Apóstolo Paulo: "Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem" (Rom 12, 21).

“É hora de perceber que o oposto da misericórdia não é a justiça, mas a vingança. Jesus não opôs a misericórdia à justiça, mas à lei de talião: "olho por olho, dente por dente". Perdoando os pecados, Deus não renuncia à justiça, mas à vingança; Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23). Jesus Cristo, na cruz, não pediu ao Pai que vingasse a sua causa; pediu-lhe que perdoasse os seus algozes.

“Temos que desmitificar a vingança! Ela tornou-se um mito penetrante, que contamina tudo e todos, começando pelas crianças. Grande parte das histórias levadas à tela e aos jogos electrónicos são histórias de vingança. Metade, se não mais, do sofrimento que há no mundo (quando não se trata de males naturais) vem do desejo de vingança, seja nas relações entre as pessoas, seja nas relações entre países e povos”.

 

 

ENCONTRO DO PAPA COM

SUPERIOR GERAL DOS LEFEBVRIANOS

 

No passado dia 1 de Abril o Papa Francisco recebeu o Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (lefebvrianos), D. Bernard Fellay, num encontro privado na Casa de Santa Marta, no Vaticano. No dia seguinte, D. Bernard Fellay esteve reunido com o Secretário da Comissão Pontifícia “Ecclesia Dei”, o arcebispo Mons. Guido Pozzo.

 

Em Setembro passado, antes de iniciar o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o Papa tinha determinado que, durante o Jubileu da Misericórdia, todos os católicos se podem confessar de forma válida e lícita a sacerdotes da FSSPX:

“Uma última consideração é dirigida aos fiéis que por diversos motivos sentem o desejo de frequentar as igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade São Pio X. Este Ano Jubilar da Misericórdia não exclui ninguém. De diversas partes, alguns irmãos Bispos referiram-me acerca da sua boa-fé e prática sacramental, porém unida à dificuldade de viver uma condição pastoralmente árdua. Confio que no futuro próximo se possam encontrar soluções para recuperar a plena comunhão com os sacerdotes e os superiores da Fraternidade. Entretanto, movido pela exigência de corresponder ao bem destes fiéis, estabeleço por minha própria vontade que quantos, durante o Ano Santo da Misericórdia, se aproximarem para celebrar o Sacramento da Reconciliação junto dos sacerdotes da Fraternidade São Pio X, recebam valida e licitamente a absolvição dos seus pecados”.

O encontro durou 40 minutos e decorreu numa atmosfera cordial. O estatuto canónico da Fraternidade não foi directamente abordado, e decidiu-se que as actuais relações continuarão sem pressa.

 

 

PRÓXIMAS VIAGENS DO PAPA

 

O Papa Francisco vai realizar uma Viagem apostólica à Arménia, em Junho, e à Geórgia e Arzebaijão, no fim de Setembro.

 

A visita do Papa ao Cáucaso, nas periferias da Europa e em regiões onde o cristianismo é minoritário, acontece no seguimento dos convites das autoridades religiosas e civis dos respectivos países.

Francisco visita a Arménia nos dias 24 a 26 de Junho deste ano, acolhendo o convite de Sua Santidade Karekin II, Supremo Patriarca e Catholicos de todos os Arménios, das autoridades civis e da Igreja Católica.

Karekin II é 132.º patriarca dos arménios, foi eleito em 1999 e é líder espiritual de seis milhões de cristãos; visitou oficialmente o Vaticano em duas ocasiões, em 2008 quando foi recebido por Bento XVI, e a 8 de Maio de 2014, sendo recebido por Francisco; em 2001, João Paulo II realizou uma viagem à Arménia.

A visita do Papa à Geórgia e ao Azerbaijão vai decorrer entre os dias 30 de Setembro e 2 de Outubro deste ano, após convite de Sua Santidade e Beatitude Elias II, Catholicos Patriarca de toda a Geórgia, e das Autoridades civis e religiosas da Geórgia e do Azerbaijão.

Em Novembro de 1999 o Papa João Paulo II visitou a Geórgia, em retribuição de uma visita do presidente georgiano Shevardnadze e de Elias II ao Vaticano, tendo assinado com o Catholicos patriarca de toda a Geórgia uma declaração conjunta com um “apelo em favor da paz”.

O Papa Francisco tem prevista ainda a viagem a Cracóvia (Polónia), entre os dias 27 e 31 de Julho, para participar na Jornada Mundial da Juventude.

 

 

PERSEGUIÇÕES SÃO O PÃO NOSSO DE CADA DIA NA IGREJA

 

Na homilia da Missa na Casa de Santa Marta, no passado dia 12 de Abril, o Santo Padre afirmou que as perseguições são o pão-nosso de cada dia na Igreja. Umas são violentas, outras são mais educadas e baseadas em leis.

 

O que aconteceu a Estevão e era descrito pela liturgia do dia na leitura dos Actos dos Apóstolos, também hoje acontece a tantos mártires que são mortos pela sua fé em Cristo – declarou o Santo Padre na sua homilia: “A perseguição é o pão-nosso de cada dia na Igreja”.

Francisco observou que, quando fazemos turismo em Roma e “vamos ao Coliseu”, pensamos que os mártires eram aqueles que foram “mortos pelos leões”. Mas os mártires – continuou o Papa – “são homens e mulheres de todos os dias”, como aqueles “cristãos que festejavam a Páscoa no Paquistão e foram martirizados”.

Existem perseguições sanguinárias, como quando alguém faz explodir uma bomba na saída de uma Missa – disse o Santo Padre –, mas também há outras, fantasiadas de modernidade e de progresso, e que se realizam através de leis. Uma perseguição – disse Francisco – que podemos chamar “um pouco ironicamente” de “educada”: é a “perseguição que tira ao homem a liberdade, também a de objecção de consciência”.

O Papa concluiu a sua homilia recordando que a vida dos cristãos continua e segue em frente, não obstante estas perseguições, porque o Senhor estará sempre connosco.

 

 

QUESTÕES ACERCA DA NOVA EXORTAÇÃO

 

Na conferência de imprensa durante o voo de regresso da ilha de Lesbos, na tarde do sábado 16 de Abril, dois jornalistas questionaram o Papa Francisco acerca da recente Exortação Apostólica sobre a Alegria do amor na família: 

 

Francis Rocca (Wall Street Journal): Se me permite, gostaria de fazer uma pergunta sobre outro evento dos últimos dias, a sua Exortação Apostólica. Como bem sabe, tem havido muita discussão sobre um dos muitos pontos depois da publicação: alguns defendem que nada mudou no que diz respeito à disciplina que rege o acesso aos sacramentos para os divorciados recasados, e que a lei e a práxis pastoral e, claro, a doutrina permanecem assim; outros, ao contrário, sustentam que muita coisa mudou e que há muitas novas aberturas e possibilidades. A pergunta é para uma pessoa, um católico que quer saber: existem novas possibilidades concretas que não existiam antes da publicação da Exortação ou não?

Papa Francisco: Eu poderia dizer «sim» e… ponto final. Mas seria uma resposta demasiado pequena. Recomendo a todos vós que leiais a apresentação feita pelo Cardeal Schönborn, que é um grande teólogo. Ele é membro da Congregação para a Doutrina da Fé e conhece bem a doutrina da Igreja. Naquela apresentação, a sua pergunta terá a resposta. Obrigado!

Guénois (Le Figaro): É uma pergunta complementar. Com efeito, não se compreendeu por que motivo Vossa Santidade escreveu aquela famosa nota na Exortação Amoris laetitia sobre os problemas dos divorciados recasados – a nota 351. Porquê uma coisa tão importante numa pequena nota? O Santo Padre previu oposições ou quis dizer que este ponto não é assim tão importante?

Papa Francisco: Ouça! Um dos últimos Papas, referindo-se ao Concílio, disse que havia dois Concílios: o Vaticano II, que se realizava na Basílica de São Pedro, e o outro, o «Concilio dos media». Quando convoquei o primeiro Sínodo, a grande preocupação da maioria dos media era esta: poderão receber a comunhão os divorciados recasados? E, como eu não sou santo, isto provocou-me um pouco de aborrecimento e também um pouco de tristeza. Porque penso: Mas aquele media que diz isto e aquilo, não se dá conta de que o problema importante não é este? Não se dá conta de que a família está em crise em todo o mundo? E a família é a base da sociedade! Não se dá conta de que os jovens não querem casar-se? Não se dá conta de que a queda da natalidade na Europa faz chorar? Não se dá conta de que a falta de trabalho e as oportunidades de emprego fazem com que o pai e a mãe assumam dois trabalhos, e as crianças crescem sozinhas e não aprendem a crescer em diálogo com o pai e a mãe? Estes são os grandes problemas! Não me lembro dessa nota, mas com certeza se uma tal coisa aparece em nota é porque foi dita na Evangelii gaudium. De certeza! Deve ser uma citação da Evangelii gaudium. Não me lembro do número, mas de certeza é isso.

 

 

VISITA DO PAPA À ILHA DE LESBOS

 

No passado domingo 17 de Abril, o Papa Francisco disse que viu “muita dor” na sua visita à ilha grega de Lesbos, no dia anterior, e recordou em especial a história de martírio de uma jovem morta por terroristas, porque “não quis negar Cristo”.

 

“Quero relatar um caso particular: um jovem, ainda não tem 40 anos, que encontrei ontem [sábado] com os seus dois filhos. Ele é muçulmano e contou-me que se casou com uma jovem cristã. Amavam-se e respeitavam-se um ao outro. Infelizmente, esta jovem foi degolada por terroristas porque não quis negar Cristo e abandonar a sua fé. É uma mártir”, declarou, perante milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro para a recitação da oração do Regina Caeli.

O Papa passou cinco horas na ilha de Lesbos, tendo conversado em privado com o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, antes de visitar um campo de refugiados e homenagear os migrantes que morreram no mar, acompanhado pelo patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu, e pelo arcebispo ortodoxo de Atenas, Jerónimo II.

Francisco explicou que a presença dos dois responsáveis ortodoxos quis simbolizar “a unidade na caridade” de todos os cristãos.

O pontífice recordou a visita a um dos campos de refugiados, onde se encontraram com pessoas oriundas “do Irão, do Afeganistão, da Síria, de África, de tantos países”.

“Cumprimentámos cerca de 300 pessoas, uma a uma, nós os três – o patriarca Bartolomeu, o arcebispo Jerónimo e eu. Muitos deles eram crianças e algumas dessas crianças assistiram à morte dos pais e dos seus amigos, afogados no mar”, realçou.

No regresso a Roma, o Papa trouxe consigo três famílias refugiadas da Síria, num total de 12 pessoas, incluindo seis menores.

Os custos do acolhimento e estadia destas famílias vai ser suportado pelo Vaticano, com o apoio inicial da comunidade católica de Santo Egídio, em Roma, ao nível da habitação, educação e emprego.

 

 

REFUGIADOS NA EUROPA

 

No passado dia 19 de Abril, o Papa Francisco pediu perdão aos refugiados pela indiferença e falta de acolhimento que encontram depois de atravessarem o mar para chegar à Europa.

 

“Perdoai a reclusão e a indiferença das nossas sociedades que temem a mudança de vida e de mentalidade que a vossa presença pede”, declarou, numa videomensagem pelos 35 anos de fundação do Centro Astalli, a sede italiana do Serviço dos Jesuítas aos Refugiados (JRS).

Segundo o Papa, é preciso ver como “irmão” quem tem de fugir da sua terra “por causa da opressão, da guerra, de uma Natureza desfigurada pela poluição e pela desertificação, ou da injusta distribuição dos recursos do planeta”.

“Cada um de vós, refugiados que bateis à nossa porta, tem o rosto de Deus, é a carne de Cristo. A vossa experiência de dor e de esperança recorda-nos que somos todos estrangeiros e peregrinos”, assinalou.

Francisco contestou a visão dos migrantes e refugiados como “um peso”, pedindo antes que sejam entendidos como um “dom” e como uma “ponte que une povos distantes”, promovendo o encontro entre culturas e religiões.

A intervenção deixou uma palavra de estímulo a todos os que trabalham no Centro Astalli, “exemplo concreto e diário de acolhimento”: “Continuem a caminhar com coragem ao lado dos migrantes: eles conhecem os caminhos que levam à paz porque conhecem o odor acre da guerra”, concluiu o Papa.

A intervenção acontece um dia depois de vários relatos que dão conta da morte de cerca de 400 migrantes e refugiados num naufrágio no mar Mediterrâneo.

 

 

JUBILEU DOS ADOLESCENTES

 

O Jubileu dos adolescentes começou a ser celebrado no passado sábado 23 de Abril, com a celebração do sacramento da Reconciliação na Praça de São Pedro, ocasião em que o Papa Francisco se uniu aos outros sacerdotes presentes no local, para confessar.

 

A Praça de São Pedro estava transformada num confessionário ao ar livre, com 150 sacerdotes prontos a ouvir os participantes, em várias línguas, ao longo de oito horas. O Papa confessou 16 jovens na Praça de São Pedro, onde esteve entre as 11h30 e as 12h45, horas locais.

O Jubileu dos adolescentes reuniu em Roma 70 mil participantes, com idades entre os 13 e os 16 anos, provenientes de todas as dioceses de Itália e também de Portugal, Espanha, França e Inglaterra.

Mais tarde, decorreu uma vigília de festa e oração no Estádio Olímpico de Roma. O Papa associou-se numa vídeo-mensagem transmitida nos ecrãs gigantes do estádio, em que lhes disse que a vida sem Jesus é como um telemóvel sem sinal.

“Estou certo de que isto também acontece convosco: às vezes o telemóvel fica sem sinal, nalguns lugares. Pois bem, lembrem-se que, se Jesus não está em nossa vida, é como não ter sinal. Não se consegue falar e fechamo-nos em nós mesmos”, declarou.

No domingo 24 de Abril, o Papa presidiu à Missa do Jubileu dos adolescentes, onde apresentou uma reflexão sobre a liberdade, sublinhando que esta implica “saber dizer não”.

“A liberdade não é poder fazer sempre aquilo que me apetece: isto torna-nos fechados, distantes, impede-nos de ser amigos abertos e sinceros”, advertiu.

O Papa falou ainda do desejo de “afecto e ternura” na adolescência, aconselhando os presentes na Praça de São Pedro a viver estes sentimentos sem querer “possuir”, respeitando a liberdade do outro, “porque o amor é livre”.

“Se ouvirdes a voz do Senhor, revelar-vos-á o segredo da ternura: cuidar da outra pessoa, o que significa respeitá-la, protegê-la e esperar por ela”, realçou.

O amor, prosseguiu, é uma “responsabilidade” para toda a vida e um “compromisso diário” de quem sabe “realizar grandes sonhos”.

“Ai dos jovens que não sabem, não ousam sonhar. Se um jovem da vossa idade não é capaz de sonhar, já está reformado”, observou num improviso que gerou gargalhadas entre os participantes.

Francisco sublinhou por diversas vezes a importância da oração e da espiritualidade, atenta à presença de Jesus que espera “pacientemente” por cada pessoa.

Na homilia começara por apresentar o amor como “o cartão de cidadão do cristão”, que exige gestos concretos.

Como exemplo apresentou os campeões desportivos, que se treinam “duramente”, todos os dias.

“Que o vosso programa diário sejam as obras de misericórdia: treinai-vos com entusiasmo nelas, para vos tornardes campeões de vida, campeões de amor”, apelou.

“Assim sereis reconhecidos como discípulos de Jesus, tereis o cartão de cidadão de cristão, e asseguro-vos, dou-vos a certeza de que a vossa alegria será plena”, concluiu.

 

 

PROCESSO DE BEATIFICAÇÃO

DE JOVEM DO OPUS DEI

 

No passado dia 26 de Abril, o Papa Francisco autorizou à Congregação das Causas dos Santos a promulgação de decretos relativos a doze causas de canonização. Entre estas encontra-se o decreto sobre a heroicidade das virtudes de Montse Grases (1941-1959), uma jovem do Opus Dei, que por isso passa a ser Venerável.

 

Ao conhecer o anúncio feito pela Santa Sé, o prelado do Opus Dei, D. Javier Echevarría, comentou: «Tenho o grande desejo de que o exemplo de Montse continue a ajudar muitas raparigas e muitos rapazes jovens a proporem-se viver uma vida de generosa entrega ao Senhor no matrimónio, no celibato apostólico, na vida religiosa ou no sacerdócio».

Maria Montserrat Grases – Montse – nasceu em Barcelona, em 1941. Foi a segunda de nove filhos. O seu temperamento era vivo e espontâneo. Na família assimilou alguns dos traços característicos do seu carácter: a alegria, a simplicidade, a generosidade e a preocupação pelos outros. Gostava de desporto, de música, das danças populares da sua terra e de participar em peças de teatro. Tinha muitas amizades.

Os seus pais ensinaram-lhe a tratar a Deus com confiança e, à medida que crescia, ajudaram-na a lutar para viver as virtudes cristãs e a consolidar a sua vida espiritual. Em 1954, começou a frequentar um centro do Opus Dei. Os meios de formação cristã que aí recebeu contribuíram também para o seu amadurecimento humano e espiritual.

Aos 16 anos apercebeu-se que Deus a chamava a este caminho da Igreja e — depois de meditar, orar e pedir conselho — solicitou ser admitida no Opus Dei. A partir de então, empenhou-se com maior decisão e constância em procurar a santidade na sua vida quotidiana. Esforçou-se por ter um relacionamento constante com Deus, descobrir a vontade divina no cumprimento dos seus deveres, cuidar, por amor, dos pequenos detalhes e fazer felizes os que a rodeavam. Conseguiu transmitir a muitos dos seus familiares e amizades a paz que dá viver junto de Deus.

Pouco antes de fazer 17 anos, foi-lhe diagnosticado um cancro (sarcoma de Ewing) no fémur da perna esquerda. A doença durou nove meses e provocou-lhe dores muito intensas, que aceitou com serenidade e com fortaleza. Também enquanto esteve doente, manifestava uma alegria contagiosa. Aproximou de Deus muitas amigas e companheiras de turma que a iam visitar. Encontrou Jesus e Nossa Senhora na dor. Aqueles que estiveram junto dela foram testemunhas da sua progressiva união com Deus. Uma das suas amigas afirma que, quando a via rezar, tocava a sua proximidade com Cristo.

Morreu no dia 26 de Março de 1959, Quinta-feira Santa. Muitas pessoas manifestaram que a sua vida tinha sido heróica e exemplar. A partir de então, esta fama de santidade foi aumentando progressivamente.

 


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