DIREITO E PASTORAL

MISERICÓRDIA E ESMOLA

 

 

 

Papa Francisco

 

 

No passado sábado 9 de Abril, o Papa Francisco dedicou a audiência especial do Jubileu do Ano da Misericórdia à Esmola.

Num tom exortativo, o Santo Padre apontou algumas ideias que podem ajudar os cristãos a viver este aspecto da misericórdia mesmo nos tempos actuais; e talvez levar também os párocos a organizar esta tarefa assistencial nas suas paróquias.

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

 

O Evangelho que ouvimos permite-nos descobrir um aspecto essencial da misericórdia: a esmola. Dar esmola pode parecer uma coisa simples, mas devemos prestar atenção a não esvaziar este gesto do grande conteúdo que possui. Com efeito, a palavra «esmola» deriva do grego e significa precisamente «misericórdia». Por conseguinte, a esmola deveria conter em si toda a riqueza da misericórdia. E dado que a misericórdia tem numerosos caminhos, múltiplas modalidades, também a esmola se expressa de tantas maneiras, para aliviar o mal-estar de quantos estão em necessidade.

O dever da esmola é tão antigo como a Bíblia. O sacrifício e a esmola eram dois deveres que uma pessoa religiosa tinha que cumprir. Há páginas importantes no Antigo Testamento, nas quais Deus exige uma atenção particular pelos pobres que são, ora indigentes, ora estrangeiros, ora órfãos ou viúvas. E na Bíblia isto é um refrão contínuo: o necessitado, a viúva, o estrangeiro, o forasteiro, o órfão... é um refrão. Porque Deus quer que o seu povo olhe para estes nossos irmãos; aliás, diria que estão precisamente no centro da mensagem: louvar a Deus com o sacrifício e louvar a Deus com a esmola.

Juntamente com a obrigação de se recordar deles, é dada também uma indicação preciosa: «Livremente lhe darás, e que o teu coração não seja maligno, quando lhe deres» (Deut 15, 10). Isto significa que a caridade exige, antes de tudo, uma atitude de alegria interior. Oferecer misericórdia não pode ser um peso nem um tédio de que nos libertar depressa. E quanta gente se justifica por não dar esmola dizendo: «Mas como será este? Talvez este a quem darei esmola vá comprar vinho para se embriagar». Mas se ele se embebeda, é porque não tem outro caminho! E tu, o que fazes às escondidas, quando ninguém te vê? E tu és juiz daquele pobre homem que te pede uma moeda para um copo de vinho? Apraz-me recordar o episódio do velho Tobias que, depois de ter recebido uma grande quantia de dinheiro, chamou o seu filho e instruiu-o com estas palavras: «Dá esmola dos teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, Deus tampouco se desviará de ti» (Tob 4, 7-8). São palavras muito sábias que ajudam a compreender o valor da esmola.

Jesus, como ouvimos, deixou-nos um ensinamento insubstituível a este propósito. Antes de tudo, pede-nos que não demos esmola para sermos louvados e admirados pelos homens devido à nossa generosidade: faz de maneira que a tua mão direita não saiba o que faz a esquerda (cf. Mt 6, 3). Não é a aparência que conta, mas a capacidade de parar para olhar directamente para a pessoa que pede ajuda. Cada um de nós pode perguntar: «Sou capaz de parar e de olhar para o rosto, para os olhos, da pessoa que me está a pedir ajuda? Sou capaz? Por conseguinte, não devemos identificar a esmola com a simples moeda oferecida de modo apressado, sem olhar para a pessoa e sem parar a falar com ela para compreender do que tem realmente necessidade. Ao mesmo tempo, devemos distinguir entre os pobres e as várias formas de mendicidade que não prestam um bom serviço aos verdadeiros pobres. Em síntese, a esmola é um gesto de amor que se dirige a quantos encontramos; é um gesto de atenção sincera a quem se aproxima de nós e pede a nossa ajuda, feita em segredo, onde só Deus vê e compreende o valor do gesto realizado.

Mas dar esmola deve ser para nós também um sacrifício. Recordo uma mãe: tinha três filhos, de seis, cinco e três anos, mais ou menos. E ensinava sempre aos filhos que se devia dar esmola àquelas pessoas que a pediam. Estavam a almoçar: cada um comia um bife à milanesa, como se diz na minha terra, «empanado». Batem à porta. O mais velho vai abrir e volta: «Mãe, é um pobre que pede de comer». «Que fazemos?», pergunta a mãe. «Damos-lhe — dizem todos — damos-lhe!» — «Bem: pega em metade do teu bife, tu noutra metade, e tu noutra, e faça duas sandes» — «Ah, não, mãe, não!» — «Não? Dá do teu, daquilo que te custa a dar». É este o envolver-se com o pobre. Eu privo-me de alguma coisa de meu para o dar a ti. E aos pais digo: educai os vossos filhos a dar assim esmola, a ser generosos com o que têm.

Façamos então nossas as palavras do apóstolo Paulo: «Em tudo vos tenho mostrado que assim, trabalhando, convém acudir aos fracos e lembrar-se das palavras do Senhor Jesus, porquanto ele mesmo disse: “É maior felicidade dar que receber!”» (Act 20, 35; cf. 2 Cor 9, 7). Obrigado!

 

 

 

 

 

 

 

 


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