DOCUMENTAÇÃO

CARDEAL JOSEPH RATZINGER

 

ANTE A ELEIÇÃO DO NOVO PAPA

 

Damos a seguir alguns excertos da homilia que, na sua qualidade de Decano do Colégio Cardinalício, o Cardeal Joseph Ratzinger pronunciou na Missa «pela eleição do Romano Pontífice» que concelebrou com todos os Cardeais eleitores na Basílica de São Pedro, na manhã do dia em que se iniciava o Conclave, 18 de Abril passado.

A homilia apresenta as necessidades mais prementes da Igreja de hoje, a enfrentar pelo Papa a ser eleito, e que possivelmente teriam sido objecto de reflexão dos Cardeais nas reuniões plenárias anteriores ao Conclave.

Título e subtítulos da Redacção da CL.

 

Nesta hora de grande responsabilidade, escutemos com particular atenção o que nos diz o Senhor com as suas próprias palavras. Das três leituras, quero escolher só alguma passagem que nos afecta directamente num momento como este.

 

Pregar a misericórdia de Deus, sofrendo pelos pecados dos homens

 

A primeira leitura (Is  61, 1-3a. 8b-9) oferece o retrato profético da figura do Messias, um retrato que alcança todo o seu significado no momento em que Jesus lê este texto na sinagoga de Nazaré, quando diz: «Esta Escritura, que acabais de ouvir, cumpriu-se hoje» (Lc 4, 21). No centro deste texto profético, encontramos uma frase que - pelo menos à primeira vista - parece contraditória. Falando de si, o Messias diz que foi enviado «a pregar o ano de misericórdia do Senhor, o dia de vingança do nosso Deus» (Is 61, 2).

Escutemos, com alegria, o anúncio do ano de misericórdia: a misericórdia divina põe um limite ao mal - disse-nos o Santo Padre. Jesus Cristo é a misericórdia divina em pessoa: encontrar Cristo significa encontrar a misericórdia de Deus. O mandato de Cristo tornou-se mandato nosso através da unção sacerdotal; somos chamados a promulgar - não só com palavras, mas também com a vida e com os sinais eficazes dos sacramentos - «o ano de misericórdia do Senhor».

Mas que quer dizer Isaías quando anuncia o «dia de vingança do nosso Deus»? Jesus, em Nazaré, ao ler o texto profético, não pronunciou estas palavras, concluiu anunciando o ano da misericórdia. Foi este talvez o motivo do escândalo que aconteceu após sua pregação? Não sabemos. De todos os modos, o Senhor ofereceu o seu comentário autêntico a estas palavras com a morte na cruz. «Ele carregou os nossos pecados no seu corpo, no madeiro da cruz...», diz São Pedro (1 Pe 2, 24).

E São Paulo escreve aos Gálatas: «Cristo resgatou-nos da maldição da lei, fazendo-se ele mesmo maldição por nós, pois diz a Escritura: 'maldito todo o que está suspenso no madeiro', para que chegasse aos gentios, em Cristo Jesus, a benção de Abraão, e pela fé recebêssemos o Espírito da Promessa» (Gal 3, 13-14).

A misericórdia de Cristo não é uma graça barata, não supõe a banalização do mal. Cristo carrega no seu corpo e na sua alma todo o peso do mal, toda sua força destruidora. Ele queima e transforma o mal no sofrimento, no fogo do seu amor sofredor. O dia da vingança e o ano da misericórdia coincidem no mistério pascal, em Cristo, morto e ressuscitado.

Esta é a vingança de Deus: ele mesmo, na pessoa do Filho, sofre por nós. Quanto mais somos tocados pela misericórdia do Senhor, mais solidários somos com o seu sofrimento, mais disponíveis estamos para completar na nossa carne «o que falta aos padecimentos de Cristo» (Col 1, 24).

Fé adulta em Cristo, na verdade e na caridade

Passemos à segunda leitura, a carta aos Efésios (Ef 4, 11-18). Aqui tratam-se essencialmente três temas: em primeiro lugar, os ministérios e os carismas na Igreja, como dons do Senhor ressuscitado e elevado ao céu; depois, o amadurecimento da fé e do conhecimento do Filho de Deus, como condição e conteúdo da unidade no corpo de Cristo; e, por último, a participação comum no crescimento do Corpo de Cristo, isto é, a transformação do mundo na comunhão com o Senhor.

Detenhamo-nos só em dois pontos. O primeiro é o caminho para a «maturidade de Cristo», como diz, simplificando um pouco, o texto em italiano. Mais precisamente, deveríamos falar, segundo o texto grego, da «medida da plenitude de Cristo», à qual estamos chamados a chegar para ser realmente adultos na fé. Não devemos permanecer como crianças na fé, em estado de menoridade. E o que significa ser crianças na fé? Responde São Paulo: significa ser «levados à deriva e guiados por qualquer vento de doutrina» (Ef 4, 14). Uma descrição muito actual!

Quantos ventos de doutrina conhecemos nestas últimas décadas, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento... A pequena barca do pensamento de muitos cristãos com frequência tem sido agitada por estas ondas, levadas de um extremo a outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem; do colectivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, etc. Cada dia nascem novas seitas e realiza-se o que São Paulo diz sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a arrastar ao erro (Cf. Ef 4, 14).

Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é etiquetado com frequência como fundamentalismo; enquanto que o relativismo, isto é, deixar-se levar «guiados por qualquer vento de doutrina», aparece como a única atitude à altura dos tempos de hoje. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que deixa como última medida somente o próprio eu e as suas vontades.

Nós, porém, temos outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É Ele a medida do verdadeiro humanismo. «Adulta» não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente arraigada na amizade com Cristo. É esta amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre o verdadeiro e o falso, entre o engano e a verdade. Temos de amadurecer esta fé adulta, temos de guiar para esta fé o rebanho de Cristo. E esta fé - só a fé - que cria a unidade e se realiza na caridade.

São Paulo oferece-nos a este propósito - em contraste com as contínuas peripécias daqueles que são como crianças baloiçadas pelas ondas - uma bela frase: viver a verdade na caridade, como fórmula fundamental da existência cristã. Em Cristo, coincidem verdade e caridade. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, também na nossa vida, verdade e caridade se fundem. A caridade sem verdade seria cega; a verdade sem caridade seria como «um címbalo que tange» (1 Cor 13, 1).

A amizade com Cristo leva-nos a fazer a vontade de Deus

Passemos agora ao Evangelho (Jo 15, 9-17), de cuja riqueza quero tirar apenas duas pequenas observações. O Senhor dirige-nos estas maravilhosas palavras: «Já não vos chamo servos... chamo-vos amigos» (Jo 15, 15). Muitas vezes sentimo-nos simplesmente servos inúteis, e é verdade (cfr. Lc 17, 10). E, apesar disso, o Senhor chama-nos amigos, faz-nos seus amigos, dá-nos a sua amizade.

O Senhor define a amizade de duas maneiras. Não há segredos entre amigos: Cristo diz-nos tudo o que escuta do Pai; dá-nos sua plena confiança e, com a confiança, também o conhecimento. Revela-nos o seu rosto, o seu coração. Mostra-nos a sua ternura por nós, o seu amor apaixonado que vai até à loucura da cruz. Dá-nos a sua confiança, o poder de falar com o seu eu: «isto é o meu corpo...», «eu te absolvo...». Confia-nos o seu corpo, a Igreja. Confia às nossas fracas mentes, às nossas fracas mãos a sua verdade - o mistério do Deus Pai, Filho e Espírito Santo; o mistério do Deus que «tanto amou o mundo que deu o seu Filho único» (Jo 3, 16). Fez-nos seus amigos, e nós, como respondemos?

O segundo elemento com o qual Jesus define a amizade é a comunhão das vontades. «Idem velle – idem nolle», era também para os romanos a definição da amizade. «Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando» (Jo 15, 14). A amizade com Cristo coincide com o que expressa a terceira petição do Pai Nosso: «Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu».

Na hora de Getsemani, Jesus transformou a nossa vontade humana rebelde em vontade conformada e unida à vontade divina. Sofreu todo o drama da nossa autonomia e, precisamente colocando a nossa vontade nas mãos de Deus, dá-nos a verdadeira liberdade: «Não como eu quero, mas como tu queres» (Mt 26, 39). Nesta comunhão das vontades realiza-se a nossa redenção: ser amigos de Jesus, tornar-se amigos de Deus. Quanto mais amamos Jesus, quanto mais o conhecemos, mais cresce a nossa verdadeira liberdade e a alegria de sermos redimidos. Obrigado, Jesus, pela tua amizade!

Levar a todos o dom da fé, da amizade com Cristo

O outro elemento do Evangelho que queria mencionar é o discurso de Jesus acerca de dar fruto: «Destinei-vos para irdes e dardes fruto, e que o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). Aqui aparece o dinamismo da existência do cristão, do apóstolo: destinei-vos para irdes... Devemos estar animados por uma santa inquietação: a inquietação de levar a todos o dom da fé, da amizade com Cristo.

Em verdade, o amor, a amizade de Deus, foram-nos dados para que cheguem também aos outros. Recebemos a fé para dá-la aos outros - somos sacerdotes para servir aos outros. E temos de dar um fruto que permaneça. Mas o que fica? Dinheiro, não. Também os edifícios não ficam, nem os livros. Depois de um certo tempo, mais ou menos longo, tudo isto desaparece.

A única coisa que permanece eternamente é a alma humana, o homem criado por Deus para a eternidade. O fruto que fica, portanto, é o que semeámos nas almas humanas - o amor, o conhecimento; o gesto capaz de tocar o coração; a palavra que abre a alma à alegria do Senhor. Então, vamos e peçamos ao Senhor que nos ajude a dar fruto, um fruto que permaneça. Só assim a terra se transforma de vale de lágrimas em jardim de Deus.

Voltemos, por fim, uma vez mais, à carta aos Efésios. A carta diz - com as palavras do Salmo 68 - que Cristo, ao elevar-se aos céus, «distribuiu dons aos homens» (Ef 4, 8). O vencedor distribui dons. E estes dons são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. O nosso ministério é um dom de Cristo aos homens, para edificarem  o seu corpo - o mundo novo. Vivamos assim o nosso ministério, como dom de Cristo aos homens!

Porém, nestas horas sobretudo, peçamos com insistência ao Senhor, para que, depois do grande dom do Papa João Paulo II, nos dê de novo um pastor segundo o seu coração, um pastor que nos guie ao conhecimento de Cristo, ao seu amor e à verdadeira alegria. Amém.


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