TEMAS LITÚRGICOS

Povo que caminha, com Cristo, para a Jerusalém celeste

 

A procissão de entrada da Missa

 

 

Ter o privilégio de concelebrar com o Santo Padre é um motivo de alegria especial para um sacerdote. Fazê-lo na noite santa em que o Senhor ressuscitou, na Vigília Pascal em S. Pedro, é uma experiência incrível. Tendo tido essa oportunidade, um sacerdote descrevia-a com emoção e minúcia, de tal forma que fazia a todos viver esses momentos. O círio que brilha na escuridão da basílica. As luzes que se vão espalhando, espalhando, ao longo da nave imensa. Por fim, com a procissão chegada junto do altar, ao som do terceiro canto de «Lumen Christi», as luzes da basílica acendem-se de uma só vez. A sensação é impressionante. Parece que se faz dia.

- Esse ano colocaram-nos junto do altar e não participámos na procissão. Quando as luzes se acenderam, eu ainda estava a terminar de acender a minha vela. Inicialmente, senti uma certa contrariedade. Depois, esse mesmo pormenor ajudou-me a reflectir e a pensar no significado daquela procissão.

Explicou então como ali, na longuíssima nave de S. Pedro, se podia vislumbrar simbolicamente os dois mil anos da História da Igreja. A escuridão inicial da basílica simbolizava as trevas nas quais estava mergulhada a humanidade sem Deus. E o Pai, na sua imensa misericórdia, não consegue deixá-la entregue a si própria. Por isso, envia o seu Filho unigénito, como luz verdadeira, que ilumina todo o homem.[1]

Uma a uma, aquelas velas foram-se acendendo, simbolizando a luz de Cristo que, pelo Baptismo, se acende em cada um dos neófitos. E naquela procissão, em que o Círio atravessa a enorme basílica, como Cristo através dos séculos, podia-se ver a fé a expandir-se, a luz a propagar-se na escuridão. De um para um, ora à direita ora à esquerda, à frente e atrás. Assim recebeu cada um de nós essa luz. Vinda através dessa cadeia ininterrupta desde a luz que brilhou nas trevas, há dois mil anos, e que agora continua a brilhar. Efectivamente, colocado no presbitério, diante do olhar de todos, aquela vela singular sublinhava o hoje da celebração com o ano inscrito em números vermelhos. 

A basílica incendiou-se de luz no momento em que o Círio Pascal chegou ao altar. É o momento em que vamos celebrar a liturgia. Em que o Céu se une à terra. Porque existe uma só celebração, no Céu e na terra.[2] Um momento intemporal. Uma janela para a eternidade. Um momento em que, por antecipação, poderemos saborear já o Céu. Sim, sobre o altar vamos tornar presente e participar no mistério Pascal: a Paixão, morte e ressurreição de Cristo.[3]

 

Penso que a descrição desta procissão, embora seja singular e única no calendário litúrgico anual, nos pode ajudar a olhar com outros olhos para outra, com a qual estamos tão familiarizados: a procissão de entrada na Missa. Trata-se, por contraste, da procissão mais simples e comum da liturgia. Mas está também carregada de simbolismo. Nela, o sacerdote caminha em direcção ao altar para celebrar o santo sacrifício, assim como Jesus foi em direcção a Jerusalém, para se entregar por nós. Ao colocarmo-nos de pé, acolhemo-lo e, cantando juntos o cântico de entrada, unimo-nos a Ele e unimo-nos entre nós, dispomo-nos a acompanhar Cristo, a segui-Lo, a celebrar com Ele.

«A procissão também expressa a consciência que a Igreja tem de si mesma como “povo em caminho”. Este movimento processional indica pois o caminho que a Igreja peregrinante percorre até à Jerusalém celeste»[4].

Num texto destinado a ajudar os acólitos a valorizarem este momento, alguém escreveu:

«Esta procissão não é uma simples ida ao altar, mas uma via riquíssima em significados. Os acólitos e o sacerdote caminham para o altar, onde se tornará presente e se participará no sacrifício da Cruz.

»À frente vai a Cruz Processional, precedida pelo turíbulo. Após a cruz, vão dois acólitos levando as velas; estas recordam a palavra do Senhor: “Vós sois a Luz do Mundo!”, e anunciam a presença de Deus na história da humanidade. Após as velas, seguem os restantes acólitos, que caminham à frente do sacerdote. Podemos pensar neles como os profetas que precederam a Nosso Senhor e o anunciaram. Atrás de todos, vem o sacerdote, paramentado com a casula, que simboliza o povo que o sacerdote carrega sobre os seus ombros: É Cristo que caminha em direcção ao Calvário.

 »Este simples rito, riquíssimo, dá o tom da celebração. Os acólitos caminham sérios, sabendo para onde estão a ir. Para onde a Cruz vai, eles irão atrás: É a Via Crucis novamente».

Sem dúvida que se caminha para o calvário, mas também para a ressurreição de Cristo[5] e para o triunfo final de Cristo na Jerusalém celeste.

J. J. Silvestre, no seu comentário à procissão de entrada, para frisar este simbolismo de povo que caminha em direcção à Jerusalém celeste, recorre a um texto de Bento XVI carregado de poesia:

«Providencialmente, as palavras do Salmista descrevem a emoção da nossa alma com uma precisão tal que não teríamos ousado sequer imaginar: «Alegrei-me quando me disseram: “Vamos para a casa do Senhor!”» (Sl 121, 1). Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi: a alegria do Salmista, encerrada nas próprias palavras do Salmo, difunde-se nos nossos corações e aí suscita um eco profundo. A nossa alegria é ir à casa do Senhor, porque, como nos ensinaram os Padres, esta casa não é senão o símbolo concreto da Jerusalém do Alto, aquela que desce até nós (cf. Ap 21, 2) para nos oferecer a mais bela das moradas. «Se nela habitarmos – escreve Santo Hilário de Poitiers –, somos concidadãos dos santos e membros da família de Deus, porque é a casa de Deus» (Tract. in Psal. 121, 2). E Santo Agostinho acrescenta: «Este Salmo aspira à Jerusalém celeste... (…) No nosso exílio suspiramos, na pátria gozaremos; mas entretanto, durante o exílio, encontramos companheiros que já viram a cidade santa e convidam-nos a correr para ela» (Enarr. in Psal. 121, 2).»[6]

Que belo é saber que subimos ao altar não sozinhos, mas acompanhados por toda a Igreja. E, não só a Igreja peregrinante. Ao celebrar unimo-nos aos que já gozam da liturgia celeste. «Unimo-nos a estes peregrinos que subiam para Jerusalém e subiam os degraus do seu Templo, unimo-nos aos milhares de homens e mulheres que compreenderam que a sua peregrinação na terra haveria de encontrar a sua meta no céu, a Jerusalém eterna, tendo posto a sua confiança em Cristo para conseguirem lá chegar. Na realidade, que alegria saber que estamos circundados de maneira invisível por uma tal multidão de testemunhas!»[7]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Cf. Jo 1, 9

[2] “Com efeito, «o sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício» (Catecismo da Igreja Católica, 1367). Já o afirmava em palavras expressivas S. João Crisóstomo: «Nós oferecemos sempre o mesmo Cordeiro, e não um hoje e amanhã outro, mas sempre o mesmo. Por este motivo, o sacrifício é sempre um só. [...] Também agora estamos a oferecer a mesma vítima que então foi oferecida e que jamais se exaurirá» (Homilias sobre a Carta aos Hebreus, 17, 3: PG 63, 131).

A Missa torna presente o sacrifício da cruz; não é mais um, nem o multiplica. O que se repete é a celebração memorial, a «exposição memorial» (memorialis demonstratio), de modo que o único e definitivo sacrifício redentor de Cristo se actualiza incessantemente no tempo. Portanto, a natureza sacrificial do mistério eucarístico não pode ser entendida como algo isolado, independente da cruz ou com uma referência apenas indirecta ao sacrifício do Calvário”: S. JOÃO PAULO II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 12; «Trata-se realmente de uma única e mesma vítima, que o próprio Jesus oferece pelo ministério dos sacerdotes, Ele que um dia Se ofereceu a Si mesmo na cruz; somente o modo de oferecer-Se é que é diverso» (Conc. Ecum. de Trento, Sess. XXII, Doctrina de ss. Missæ sacrificio, cap. 2: DS 1743).

[3] «Pela Liturgia da terra participamos, por antecipação, na Liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual nos encaminhamos como peregrinos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo; com toda a milícia do exército celestial, cantamos ao Senhor um hino de glória; veneramos a memória dos Santos, esperando tomar parte na sua companhia; e aguardamos, como Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até que Ele Se manifeste como nossa vida e nós nos manifestemos com Ele na glória», SC 8.

[4] SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 48.

[5] “A Páscoa de Cristo inclui, juntamente com a paixão e morte, a sua ressurreição. Assim o lembra a aclamação da assembleia depois da consagração: «Proclamamos a vossa ressurreição». Com efeito, o sacrifício eucarístico torna presente não só o mistério da paixão e morte do Salvador, mas também o mistério da ressurreição, que dá ao sacrifício a sua coroação. Por estar vivo e ressuscitado é que Cristo pode tornar-Se «pão da vida» (Jo 6, 35.48), «pão vivo» (Jo 6, 51), na Eucaristia. S. Ambrósio lembrava aos neófitos esta verdade, aplicando às suas vidas o acontecimento da ressurreição: «Se hoje Cristo é teu, Ele ressuscita para ti cada dia» (De Sacramentis, V, 4, 26: CSEL 73, 70). Por sua vez, S. Cirilo de Alexandria sublinhava que a participação nos santos mistérios «é uma verdadeira confissão e recordação de que o Senhor morreu e voltou à vida por nós e em nosso favor» (Comentário ao Evangelho de João, XII, 20: PG 74, 726)”: S. JOÃO PAULO II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 14.

[6] BENTO XVI, Homilia na celebração das Vésperas, Catedral de Notre-Dame, Paris 12-IX-2008.

[7] Ibíd.


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