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O  EPISCOPADO

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

 

«Se alguém aspira ao episcopado, deseja uma nobre missão» (I Tim 3,1), diz S. Paulo. Subentende-se: se deseja servir mais abnegadamente o Povo de Deus, carregando uma cruz maior do que a do «simples» presbiterado, uma cruz e um encargo cheios de riscos humanos e sobrenaturais; e se está disposto a aceitar uma solidão maior do que a de qualquer chefe político, pois, por mais conselheiros de que se rodeie, só pode distribuir funções; não a sua pessoal e plena responsabilidade.

Questão antiga e de sempre, que já S. João Crisóstomo descrevia na sua terceira homilia sobre os «Actos dos Apóstolos», com um realismo quase aflitivo, vendo-se ele próprio sujeito a esses perigos, e dirigindo-se àqueles que vêem o episcopado «uma honra e descanso». «Se tivesses em conta que o bispo pertence a todos; que deve levar a carga de todos; que o perdão que a outros se outorga (…) a ele se nega; que quando outros caiem num pecado todos os desculpam, mas ninguém o escusa a ele; então não te precipitarias sobre tais dignidades.

«O bispo está exposto a todas as línguas, ao juízo de todos, sábios ou néscios; e até de noite sofre com os cuidados diários; é alvo de todo o tipo de invejas e dos rancores de muitos. Não falo dos que fazem tudo para agradar (…) Falo dos que vigiam pelas vossas almas e antepõem a salvação dos súbditos à sua (…) Se quem tem dez filhos em casa se vê obrigado a cuidar deles sem descanso, quem tantíssimos tem (…) de quanta virtude necessita! Dirás tu: mas, ao fim e ao cabo, tributam-lhe honras. Quais? Os mais miseráveis são capazes de cobri-lo de injúrias (…) Além disso, se não dá esmolas a todos, vadios e desocupados, acometem-no com infinitas recriminações. Perante os príncipes, tem-se medo; perante o bispo, não. Ninguém tem medo de acusá-lo e incriminá-lo. Para com o bispo não vale nada o temor de Deus! Quem é capaz de explicar o cuidado que ele deve ter no ensino e na pregação e nas dificuldades das ordenações de presbíteros? (…) Não se podem dar ordens autoritariamente. Se o bispo se impõe com excesso, chamam-lhe cruel; se não se impõe, frio e insensível (…) Se recebe um clero pervertido, duvida sobre o que há-de fazer quanto aos pecados passados. Porque são dois os princípios em que se há-de basear: não abandonar o que está perdido e não escandalizar os outros…» Se os remove, denuncia-os; se os coloca noutras funções, pode prejudicar os fiéis… «Se se irrita, se se ri, se se entrega ao sono para descansar (…) muitos se escandalizam (…) muitos recordam com saudade os prelados anteriores e se mofam do presente; e não o fazem para louvar aqueles, mas pelo gosto de morder no actual, e trazem à conversa os Auxiliares e os presbíteros…»

Sirva-nos de consolo que S. João Crisóstomo viveu em época mais agreste do que a nossa e que seria exagero aplicar o que diz aos tempos de agora, mas o desabafo contém lições perenes; e sirva de consolo aos bispos saber que noutros tempos a carga talvez fosse maior. Toda a questão reside em aplicar em primeiro lugar aos Prelados, além do respeito devido, pelo menos a mesma justiça, compreensão e caridade – e o mesmo sentido sobrenatural - que procuramos usar com toda a gente, até com os maiores pecadores.

 

 

 

 

 


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