DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

UMA FESTA DE FAMÍLIAS NO MÉXICO

 

 

Durante a Viagem apostólica ao México, milhares de famílias mexicanas reuniram-se na tarde de 15 de Fevereiro no Estádio de Tuxtla Gutiérrez, no território de Chiapas, para um encontro de festa e de testemunhos com o Papa.

Damos a seguir um excerto do discurso do Papa Francisco a respeito dos problemas que afectam actualmente as famílias. 

 

 

Hoje vemos e experimentamos, em várias frentes, como a família está a ser fragilizada e está a ser posta em discussão. Julgando-a um modelo já ultrapassado e sem lugar nas nossas sociedades e, a pretexto de modernidade, favorece-se cada vez mais um sistema baseado no modelo do isolamento. E vão-se inoculando nas nossas sociedades – e dizem-se sociedades livres, democráticas, soberanas! – vão-se inoculando colonizações ideológicas que as destroem e acabamos por ser colónias de ideologias destruidoras da família, da célula da família, que é a base de toda a sociedade sã.

Sem dúvida, viver em família não é sempre fácil e, muitas vezes, é doloroso e árduo. Contudo, como disse já mais de uma vez (referindo-me à Igreja, mas penso que se pode aplicar também à família), prefiro uma família ferida que cada dia procura harmonizar o amor, a uma família e sociedade enfermiça pelo confinamento e/ou a comodidade do medo de amar. Prefiro uma família que procura uma vez e outra recomeçar a uma família e sociedade narcisista e obcecada com o luxo e o conforto. «Quantos filhos tendes?» «Nenhum; não temos porque, claro, gostamos de sair nas férias, fazer turismo, queremos comprar uma quinta». O luxo e a comodidade; e os filhos ficam para trás. E, quando quisestes ter um…, já o tempo tinha passado. Que grande dano faz isto! Prefiro uma família com o rosto cansado pelos sacrifícios à família com rostos maquilhados que não entendem de ternura e compaixão. Prefiro um homem e uma mulher, como o senhor Aniceto e a esposa, com o rosto enrugado pelas lutas de todos os dias, que, passados mais de cinquenta anos, continuam a amar-se, como se vê; e o filho aprendeu a lição pois fazem vinte e cinco anos de casados. Estas são as famílias! Há pouco perguntei ao senhor Aniceto e à sua senhora, quem teve mais paciência nestes cinquenta e tantos anos: «Os dois, padre». Com efeito na família, para se chegar ao que eles chegaram, é preciso ter paciência, amor, é preciso perdoar-se. «Mas, padre, uma família perfeita nunca discute!» Mentira! Até é conveniente que discutam de vez em quando, e, se voar algum prato, não tenham medo. O único conselho é que não terminem o dia sem fazer a paz; porque, se acabam o dia em guerra, vão acordar já em «guerra fria», e a «guerra fria» é muito perigosa na família, porque vai escavando por debaixo das rugas da fidelidade conjugal. Obrigado pelo testemunho de se amarem durante mais de cinquenta anos. Muito obrigado!

E para variar um pouco de tema, mas sempre a propósito de rugas, recordo o testemunho duma grande actriz – uma actriz latino-americana de cinema – quando, já próxima da casa dos sessenta, se começaram a ver as rugas na cara e aconselharam-lhe um «arranjo», um «arranjito» para poder continuar a trabalhar bem. A sua resposta foi muito clara: «Estas rugas custaram-me muito trabalho, muito esforço, muita aflição e uma vida sobrecarregada; nem por sonhos lhes quero tocar, são os vestígios da minha história». E continuou a ser uma grande actriz. No casal, acontece o mesmo. A vida matrimonial tem que se renovar todos os dias. E, como disse antes, prefiro famílias enrugadas, com feridas, com cicatrizes, mas continuam a caminhar para diante; porque estas feridas, estas cicatrizes, estas rugas são fruto da fidelidade a um amor que nem sempre foi fácil. O amor não é fácil; não é fácil, não. Mas é a coisa mais linda que um homem e uma mulher podem trocar entre si: o verdadeiro amor, para toda a vida.

 


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