A PALAVRA DO PAPA

INSTRUMENTOS DA MISERICÓRDIA DIVINA

 

 

Na manhã do passado dia 4 de Março, o Papa Francisco recebeu em audiência os membros da Penitenciaria Apostólica e sacerdotes recém-ordenados e seminaristas, reunidos nos dias anteriores em Roma para o “Curso sobre o foro interno”, a quem dirigiu um discurso inspirado na Bula do Ano Santo da Misericórdia:

 

Queridos irmãos, bom dia!

 

Sinto-me feliz por me encontrar convosco, durante a Quaresma do Ano Jubilar da Misericórdia, por ocasião do anual Curso sobre o foro interno. Saúdo cordialmente o Cardeal Piacenza, Penitenciário-Mor, e agradeço-lhe as suas gentis expressões. Saúdo o Regente – que tem um rosto tão bondoso, deve ser um bom confessor! –, os Prelados, os Oficiais e os funcionários da Penitenciaria, os Colegas dos penitenciários ordinários e extraordinários das Basílicas Papais – cujas presenças foram aumentadas precisamente por ocasião do Jubileu – e todos vós, participantes no Curso, que se propõe ajudar os novos sacerdotes e os seminaristas que estão prestes a ser ordenados a formar-se para administrar bem o Sacramento da Reconciliação. Com efeito, a celebração deste Sacramento requer uma adequada e actualizada preparação, a fim de que quantos dele se aproximam possam «tocar com a mão a grandeza da misericórdia, fonte de verdadeira paz interior» (cf. Bula Misericordiae vultus, 17).

«O mistério da fé cristã parece encontrar nesta palavra – “misericórdia” – a sua síntese. Ela tornou-se viva, visível e atingiu o seu cume em Jesus de Nazaré» (cf. ibid., 1). Neste sentido, a misericórdia, antes de ser uma atitude ou uma virtude humana, é a opção definitiva de Deus a favor de todo o ser humano para a sua salvação eterna; opção selada com o sangue do Filho de Deus.

Esta divina misericórdia pode alcançar gratuitamente todos quantos a invocam. Com efeito, a possibilidade do perdão está deveras aberta a todos, aliás está escancarada, como a maior das “portas santas”, porque coincide com o próprio coração do Pai, que ama e espera todos os seus filhos, de modo particular os que erraram mais e estão afastados. A misericórdia do Pai pode alcançar qualquer pessoa de muitas maneiras: através da abertura de uma consciência sincera; por meio da leitura da Palavra de Deus que converte o coração; mediante um encontro com uma irmã ou um irmão misericordiosos; nas experiências da vida que nos falam de feridas, de pecado, de perdão e de misericórdia.

Há contudo o “caminho certo” da misericórdia, e percorrendo-o passa-se da possibilidade para a realidade, da esperança para a certeza. Este caminho é Jesus, o qual tem «o poder na terra de perdoar os pecados» (Lc 5, 24)) e transmitiu esta missão à Igreja (cf. Jo 20, 21-23). O Sacramento da Reconciliação é portanto o lugar privilegiado para fazer a experiência da misericórdia de Deus e celebrar a festa do encontro com o Pai. Nós esquecemos este último aspecto com muita facilidade: eu vou, peço perdão, sinto o abraço do perdão e esqueço-me de fazer uma festa. Não é doutrina teológica, mas eu diria, forçando um pouco, que a festa faz parte do Sacramento: é como se fizesse também parte da penitência, a festa que devo fazer com o Pai que me perdoou.

Quando, como confessores, vamos ao confessionário para acolher os irmãos e as irmãs, devemos recordar-nos sempre de que somos instrumentos da misericórdia de Deus para eles; portanto, estejamos atentos a não pôr obstáculo a este dom de salvação! O confessor é, ele próprio, um pecador, um homem sempre necessitado de perdão; ele é o primeiro que não pode viver sem a misericórdia de Deus, que o “escolheu” e o “constituiu” (cf. Jo 15, 16) para esta grande finalidade. Por conseguinte, deve predispor-se sempre com uma atitude de fé humilde e generosa, tendo como único desejo que todo o fiel possa fazer a experiência do amor do Pai. Nisto não nos faltam irmãos santos para os quais olhar: pensemos em Leopoldo Mandic e Pio da Pietrelcina, cujas relíquias venerámos há um mês no Vaticano. E também – se me permitem – um da minha família: o padre Cappello.

Todo o fiel arrependido, depois da absolvição do sacerdote, tem a certeza, pela fé, de que os seus pecados deixaram de existir. Já não existem! Deus é omnipotente. Agrada-me pensar que tem uma debilidade: uma má memória. Quando Ele te perdoa, esquece-se. E isto é grandioso! Os pecados já não existem, foram cancelados pela divina misericórdia. Toda a absolvição é, de certa forma, um jubileu do coração, que faz alegrar não só o fiel e a Igreja, mas sobretudo o próprio Deus. Jesus disse: «Haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento» (Lc 15, 7). Por conseguinte, é importante que o confessor seja também um “canal de alegria” e que o fiel, depois de ter recebido o perdão, já não se sinta oprimido pelas culpas, mas possa antegozar a obra de Deus que o libertou, viver em acção de graças, pronto a reparar o mal cometido e a ir ao encontro dos irmãos com coração bondoso e disponível.

Queridos irmãos, neste nosso tempo, marcado pelo individualismo, por tantas feridas e pela tentação de se fechar, é um verdadeiro e próprio dom ver e acompanhar pessoas que se aproximam da misericórdia. Isto implica também, para todos nós, uma obrigação ainda maior de coerência evangélica e de benevolência paterna; somos guardas, e nunca donos, tanto das ovelhas, como da graça.

Voltemos a pôr no centro – e não só neste Ano jubilar! – o Sacramento da Reconciliação, verdadeiro espaço do Espírito no qual todos, confessores e penitentes, possamos fazer a experiência do único amor definitivo e fiel, o de Deus por cada um dos seus filhos, um amor que nunca desilude. São Leopoldo Mandic repetia que «a misericórdia de Deus é superior a qualquer expectativa nossa». Costumava também dizer a quem sofria: «Temos no Céu o coração de uma mãe. A Virgem, nossa Mãe, que aos pés da Cruz experimentou todo o sofrimento possível para uma criatura humana, compreende as nossas dificuldades e consola-nos». Seja sempre Maria, Refúgio dos pecadores e Mãe de Misericórdia, quem guia e sustenta o ministério fundamental da Reconciliação.

E que faço se me encontrar em dificuldade e não poder dar a absolvição? Que se deve fazer? Antes de tudo, ver se há um caminho, muitas vezes encontrámo-lo. Segundo: não limitar-se apenas à linguagem falada, mas também à linguagem dos gestos. Há pessoas que não podem falar, e com o gesto manifestam o arrependimento, a dor. E terceiro: se não se pode dar a absolvição, falar como um pai: “Ouve, por isto não posso [absolver-te], mas posso garantir que Deus te ama, que Deus te espera! Rezemos juntos a Nossa Senhora, para que te guarde; e vem, volta, porque eu esperarei por ti como Deus te espera”; e dar a bênção. Assim, esta pessoa sai do confessionário e pensa: “Encontrei um pai e não me bateu”. Quantas vezes ouviste alguém dizer: “Eu nunca me confesso, porque fui uma vez e ralharam comigo”. Mesmo no caso limite em que eu não posso absolver, que sinta o calor de um pai! Que o abençoe, e lhe diga para voltar. E também que reze um pouco com ele ou com ela. Este é sempre o ponto: ali está um pai. E também isto é festa, e Deus sabe como perdoar as coisas melhor do que nós. Mas que pelo menos possamos ser imagem do Pai.

Agradeço à Penitenciaria Apostólica o seu precioso serviço e abençoo de todo o coração a todos vós e o ministério que desempenhais como canais de misericórdia, especialmente neste tempo jubilar. Por favor, recordai-vos de rezar também por mim.

E hoje também eu irei ali, com os vossos penitenciários, para confessar em São Pedro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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