MULHER

IGUAIS, SIM, MAS A DIFERENÇA SEXUAL CONTA

 

 

 

 

Ana Cristina Villa

 

 

Publicamos a seguir a entrevista a Ana Cristina Villa, que dirige a “Secção Mulher” do Conselho Pontifício para os Leigos, realizada para ACEPRENSA por Letícia Sánchez.

A partir da reflexão que se faz naquele organismo, Ana Cristina fala da confusão actual sobre a identidade da mulher, da conciliação entre trabalho e família, da igualdade de direitos e das diferenças entre homem e mulher,

Ana Cristina Villa Betancourt, colombiana (Medellín, 1971), estudou Filosofia e Teologia na Universidade Pontifícia Gregoriana, na especialidade de Teologia Patrística. Pertence à Fraternidade Mariana da Reconciliação, Sociedade de vida apostólica laical fundada em 1991em Lima (Peru).

 

 

A confusão actual sobre a identidade da mulher

Depois das muitas mudanças na vida das mulheres nas últimas décadas, não há alguma confusão sobre o que significa ser mulher?

– Talvez seja o resultado normal de demasiadas mudanças que se deram em muito pouco tempo e que ainda não acabámos de digerir. Muitas mudanças foram muito positivas, mas ao mesmo tempo perdemos alguns elementos fundamentais. Acrescentaria que todo este fenómeno se deu num contexto cultural de confusão antropológica geral, que não é somente das mulheres: o nosso é um mundo que sabe muito de muitas coisas, mas pouco sobre o ser humano, a sua interioridade, o dramatismo da sua existência, os seus anelos e desejos profundos, a sua vida e a sua morte...

Como se isto não bastasse, está a mudança cultural fortíssima que se deu nas últimas décadas com a revolução sexual. Trata-se de uma revolução não política, mas antropológica, que afecta profundamente a vida dos homens e das mulheres e a relação entre ambos. Além disso, fá-lo num âmbito que toca o mais íntimo das pessoas, os seus afectos, a sua apreciação pessoal, o sentido da sua vida... As relações entre homens e mulheres eram um aspecto da vida humana que se vivia no meio de certezas e que, pelo contrário, agora é fonte de incertezas, medos. A sexualidade passou de ser um âmbito íntimo que tocava o mais profundo da pessoa a ser ventilada a torto e a direito. Passou de exigir um compromisso por toda a vida a ser um encontro casual que não implica compromisso... As mulheres podem exercer a sexualidade como os homens, graças às tecnologias químicas e contraceptivas que hoje se proporcionam como se fossem um elemento necessário para a vida, mesmo um direito humano. Como é que isso não vai mudar a visão que de si mesmos têm os homens e as mulheres? Como é que isso não vai afectar as relações entre ambos?

Ligado ao anterior, está o tema da perda do valor da maternidade. A sociedade não a aprecia, não a apreciam as próprias pessoas, os homens e as mulheres. É pouco apreciada como vocação de vida.

Tudo isto faz com que no nosso tempo a identidade da mulher esteja muito longe de ser algo que se dê por sabido. Penso que algo semelhante acontece com a identidade masculina, também esta hoje não está clara. É necessário que cada um construa a sua própria identidade, a sociedade não a dá feita. Isto pode ter muito de positivo, pois dá espaço à liberdade de cada um..., mas também pode ser fonte de não poucas frustrações se essa construção não é fácil ou se não há certezas a tomar como fundamento.

Como explicar à mulher de hoje que tem de “reencontrar-se” com a sua identidade como mulher, quando vivemos uns momentos em que – aparentemente – a mulher tem cada vez mais direitos e a sua condição – no âmbito familiar, laboral, etc. – é cada vez mais parecida à dos homens?

– No nosso tempo deu-se um passo, de uma perspectiva em que parecia que o destino das pessoas estava inscrito na sua biologia, para outra em que o corpo não conta para nada, não importa se é homem ou mulher à hora de pensar como realizar-se como pessoa. Mas nenhuma destas duas atitudes é apropriada. Que valor tem o corpo humano, o meu próprio corpo, no meu projecto de vida? Não é uma dimensão do meu ser, do meu ser pessoa, que devo ter em conta para o meu projecto de vida, de realização de mim mesmo no amor?

João Paulo II ofereceu à Igreja ensinamentos que respondiam a estes desafios; com a sua série de catequeses conhecida como “teologia do corpo” e os documentos que bebem desta teologia, como por exemplo Mulieris dignitatem, Familiaris consortio ou a Carta às Mulheres, entre outros. O Magistério do Papa João Paulo II oferece nestes temas uma visão avançada, um pensamento que ainda temos de acabar de descobrir e aplicar em todas as suas consequências. É uma visão da pessoa humana que integra e inclui a corporeidade, compreendendo a humanidade na sua condição sexuada e explicando como a sua vocação ao amor passa por assumir esta condição e integrá-la no próprio projecto de amor. Neste sentido, a mulher e o homem têm hoje de reencontrar-se, reencontrar a beleza e a linguagem da própria masculinidade e feminilidade e integrá-los no próprio projecto de vida.

 

Como conciliar trabalho e família

Um dos grandes problemas do dia a dia das mulheres é o de conciliar trabalho e família. Tem solução real, que satisfaça plenamente as exigências que provêm de ser mãe e mulher trabalhadora ao mesmo tempo? O que pensa a Igreja sobre isto?

– Sobre o que pensa a Igreja, não é difícil encontrar no Magistério dos últimos papas que a Igreja vê como algo muito positivo a presença da mulher em todos os âmbitos da vida pública e a sua inserção no mundo do trabalho (já o Papa João XXIII lhe chamou um “sinal dos tempos”). Mas ao mesmo tempo, desde os primeiros anos, o Magistério se pronunciou para pedir que esta inserção não fosse à custa do seu papel fundamental na família. A Igreja pensa que é muito importante a contribuição que as mulheres podem dar à sociedade através da sua integração em todos os âmbitos onde podem oferecer a sua perspectiva, o seu profissionalismo, o seu trabalho; exorta a que dêem a sua contribuição enquanto mulheres, isto é, sem se masculinizarem, sem perderem o peculiar “génio” de que foram dotadas, mas ao contrário oferecendo-o como uma contribuição que enriquece a vida pública. E pede também que não se descuide nem se desvalorize a preciosa contribuição que dá quem trabalha para a vida familiar, na qual o papel da mulher é capital.

Agora, como realizar isto na prática não é algo para o qual o Magistério possa dar soluções concretas. Penso que isso tem de passar pelo discernimento de cada um e de cada casal: como concretamente harmonizar as exigências da vida profissional de ambos e as exigências da família que, juntos, estão a formar. Isto não é um problema só das mulheres, é um problema dos casais. Há muitas maneiras de resolver, cada casal tem de encontrar a sua.

As mulheres podem fazer tudo? É injusto que elas tenham de fazer mais renúncias? É difícil para algumas mulheres aceitarem que elas têm um papel único e que, por mais cooperação que tenham do marido, há coisas em que elas são insubstituíveis, especialmente nos primeiros anos da vida dos filhos. A gravidez, o aleitamento, são exemplos mais claros; mas também o vínculo especial que a mulher forma com o seu filho. Enfim, cada casal tem de encontrar a sua forma, mas também é preciso considerar que pai e mãe não são a mesma coisa, cada um tem o seu papel e cada um tem as suas contribuições e são necessários ambos, complementares na sua riqueza, para o crescimento e a educação dos filhos.

 

A questão fundamental do nosso tempo

A mulher é em tudo igual ao homem? Não é esta a causa de muitas confusões posteriores?

– Claro que não! Igual dignidade, igual humanidade, iguais direitos, igual valor enquanto criaturas de Deus, iguais enquanto ambos somos imagem e semelhança de Deus. Mas esta igualdade não implica que a diferença sexual não conte, ou seja algo meramente biológico, externo, sem consequências nas outras dimensões do humano. Penso que tinha razão Luce Irigaray quando dizia que cada época tem uma questão fundamental para pensar e que a diferença sexual é a questão fundamental do nosso tempo. A confusão de que fala é a das mulheres que, para entrarem na vida pública – económica, política, empresarial – se masculinizam, põem de lado alguns traços próprios da sua feminilidade, pois isso parecia ser fundamental para a sua plena inserção. Iguais, mas diferentes, essa é a riqueza da questão da diferença sexual. As diferenças contam e são uma riqueza da qual não podemos nem devemos prescindir.

Que projectos têm sido realizados a partir da “Secção Mulher” do Conselho Pontifício para os Leigos e que projectos há em mente?

– A “Secção Mulher” trabalha promovendo o estudo de temas sobre a vida e a vocação das mulheres a partir das ricas intuições que fornece o Magistério Pontifício. Nos últimos anos celebrámos congressos e seminários e trabalhámos na publicação das suas actas em várias línguas; além disso, desde 2009 trabalhámos para criar um site com informação e reflexões sobre o tema da vocação da mulher, e fomos criando uma biblioteca online de recursos sobre a mulher escritos com a mente da Igreja. Trata-se de uma biblioteca muito útil para quem queira estudar os temas da cambiante e desafiante situação das mulheres e pensá-los com a mente da Igreja. Também contactamos constantemente com conferências episcopais e associações de mulheres, assim como com intelectuais católicos especialistas nestas questões: www.laici.va/content/laici/es/sezioni/donna.hmtl.

Temos vários projectos para o futuro imediato. Concretamente, no mês de Dezembro de 2015 celebra-se um seminário de estudo sobre o tema “Mulheres e Trabalho”, no qual se vai meditar, à luz das constantes chamadas feitas pelo Papa Francisco, para que se instaure um sistema económico e social que tenha o ser humano – homem e mulher – no centro. Vamos procurar lançar luz sobre a contribuição específica que as mulheres trabalhadoras fazem para a edificação de estruturas económicas mais ricas de humanidade, e examinar as riquezas e dificuldades do trabalho feminino.

 

 

 

 


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