PASTORAL

O PRESBÍTERO NO MEIO DOS OUTROS HOMENS

 

 

 

 

 

Papa Francisco

 

 

Na manhã do passado dia 20 de Novembro, o Papa Francisco concedeu uma audiência aos participantes no Congresso organizado pela Congregação para o Clero para comemorar o cinquentenário da promulgação de dois decretos do Concílio Vaticano II: “Optatam totius” e “Presbyterorum ordinis”.

No seu discurso, de que damos o texto quase completo, o Papa Francisco deixa ricos conselhos de ordem pastoral para a vida e o ministério dos presbíteros de hoje.

 

 

Senhores Cardeais,

caros irmãos bispos e sacerdotes,

irmãos e irmãs!

 

Dirijo uma cordial saudação a cada um e exprimo um sincero agradecimento ao Cardeal Stella e à Congregação para o Clero, que me convidaram a participar neste Congresso, cinquenta anos após a promulgação dos decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum ordinis.

Peço desculpas por ter alterado o primeiro projecto, que era que eu viesse ter convosco, mas vistes que não havia tempo e até aqui cheguei atrasado.

Não se trata de uma “evocação histórica”. Estes dois decretos são sementes que o Concílio lançou no campo da vida da Igreja; no decurso destas cinco décadas elas cresceram e tornaram-se uma árvore frondosa, certamente com algumas folhas secas, mas sobretudo com muitas flores e frutas que embelezam a Igreja de hoje. Voltando a percorrer o caminho trilhado, este Congresso mostrou esses frutos e constituiu uma oportuna reflexão eclesial sobre o trabalho que falta fazer neste campo tão vital para a Igreja. Ainda há trabalho por fazer!

Optatam totius e Presbyterorum ordinis foram recordados juntos, como as duas metades de uma única realidade: a formação dos sacerdotes, que distinguimos em inicial e permanente, mas que para eles constitui uma única experiência de discipulado. Não foi por acaso que o Papa Bento XVI, em Janeiro de 2013 (motu proprio Ministrorum institutio), deu uma forma concreta, jurídica, a esta realidade, atribuindo à Congregação para o Clero também a competência sobre os Seminários. Deste modo, o mesmo Dicastério pode começar a ocupar-se da vida e do ministério dos presbíteros desde o momento da entrada no Seminário, trabalhando para que as vocações sejam promovidas e cultivadas, e possam culminar na vida de padres santos. O caminho para a santidade de um padre começa no Seminário!

Uma vez que a vocação ao sacerdócio é um dom que Deus dá a alguns para o bem de todos, gostaria de compartilhar convosco alguns pensamentos, precisamente a partir da relação entre os sacerdotes e outras pessoas, seguindo o n. 3 de Presbyterorum ordinis, no qual se encontra como que um pequeno compêndio de teologia do sacerdócio, tomado da Carta aos Hebreus: “Os presbíteros, tomados dentre os homens e constituídos a favor dos próprios homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecerem dons e sacrifícios pelos pecados, vivem portanto no meio dos outros homens como irmãos no meio dos irmãos”.

Consideremos estes três momentos: “tomados dentre os homens”, “constituídos a favor dos homens”, presentes “no meio dos outros homens”.

 

Tomados dentre os homens

 

O sacerdote é um homem que nasce num determinado contexto humano; ali aprende os primeiros valores, absorve a espiritualidade do povo, habitua-se aos relacionamentos. Também os padres têm uma história, não são “cogumelos” que surgem imprevistamente na catedral no dia da sua ordenação. É importante que os formadores e os próprios padres recordem isto e saibam ter em conta essa história pessoal ao longo do caminho de formação. No dia da ordenação digo sempre aos sacerdotes, aos novos sacerdotes: recordai-vos de onde fostes tomados, do rebanho, não vos esqueçais da vossa mãe e da vossa avó. Isto dizia Paulo a Timóteo, e eu também o digo hoje. Isto quer dizer que não se pode ser sacerdote julgando que foi formado no laboratório, não; começa na família com a “tradição” da fé e com toda a experiência da família. É necessário que a fé seja personalizada, porque é a pessoa concreta que é chamada ao discipulado e ao sacerdócio, tendo em conta, em todo o caso, que é só Cristo o Mestre a quem se segue e se configura.

Neste sentido, apraz-me recordar aquele fundamental “centro de pastoral vocacional” que é a família, igreja doméstica e primeiro e fundamental lugar de formação humana, onde pode germinar nos jovens o desejo de uma vida concebida como caminho vocacional, a percorrer com empenho e generosidade.

Na família e em todos os outros contextos comunitários – escola, paróquia, associações, grupos de amigos – aprendemos a manter relações com pessoas concretas, deixamo-nos moldar por esse relacionamento, e tornamo-nos o que somos também graças a elas.

Um bom padre, portanto, é antes de mais um homem com a sua própria humanidade, que conhece a sua história, com as suas riquezas e as suas feridas, e que aprendeu a estar em paz com ela, alcançando a serenidade de fundo, própria de um discípulo do Senhor. A formação humana é, portanto, uma necessidade para os padres, para que aprendam a não ser dominados pelas suas limitações, mas antes a fazer frutificar os seus talentos.

Um padre que seja homem pacificado saberá difundir serenidade ao seu redor, mesmo em tempos difíceis, transmitindo a beleza do relacionamento com o Senhor. Pelo contrário, não é normal que um padre seja frequentemente triste, nervoso ou duro de carácter; não é bom e não faz bem, nem ao padre nem ao seu povo. Se tens uma doença, se és neurótico, vai ao médico. Ao médico espiritual e ao médico clínico: dar-te-ão pastilhas que te farão bem, ambos. Mas, por favor, que os fiéis não paguem pela neurose dos padres! Não maltratar os fiéis; para eles, proximidade de coração.

Nós, sacerdotes, somos apóstolos da alegria, anunciamos o Evangelho, isto é, a “boa nova” por excelência; certamente, não somos nós a dar força ao Evangelho – alguns pensam que sim –, mas podemos favorecer ou obstaculizar o encontro entre o Evangelho e as pessoas. A nossa humanidade é o “vaso de barro” em que guardamos o tesouro de Deus, um vaso que devemos cuidar, para transmitir bem o seu precioso conteúdo.

Um padre não pode perder as suas raízes, permanece sempre um homem do povo e da cultura que o geraram; as nossas raízes ajudam-nos a recordar quem somos e para onde Cristo nos chamou. Nós, sacerdotes, não caímos do Céu, mas somos chamados, chamados por Deus, que nos toma “dentre os homens”, para nos constituir “a favor dos homens”. Permiti que vos conte uma história. Numa diocese, há anos ... Não numa diocese, não, na Companhia havia um padre muito bom, jovem, com dois anos de padre. Entrou em crise, falou com o pai espiritual, com os seus superiores, com os médicos, e disse: “Eu vou-me embora, não aguento mais, vou-me embora”. Pensando nestas coisas – eu conhecia a sua mãe, gente humilde –, disse-lhe: “Por que não vais ter com a tua mãe e lhe falas disto?”. Ele foi, passou todo o dia com a mãe e voltou mudado. A mãe deu-lhe duas “bofetadas” espirituais, disse-lhe três ou quatro verdades, ajudou-o a centrar-se, e ele foi para a frente. Porquê? Porque foi até à raiz. Por isso, é importante não tirar a raiz de onde viemos. No Seminário deve-se fazer a oração mental ... Sim, claro, isso deve-se fazer, aprender ... Mas, antes de mais, reza como te ensinou a tua mãe, e assim vai-se em frente. Mas a raiz está sempre aí, a raiz da família, como aprendeste a rezar quando eras criança, até com as mesmas palavras, recomeça a rezar assim. Depois, andarás avante na oração.

 

A favor dos homens

 

Este é um ponto fundamental da vida e do ministério dos presbíteros. Respondendo à vocação de Deus, torna-se padre para servir os irmãos e as irmãs. As imagens de Cristo que temos como referência para o ministério dos padres são claras: Ele é o “Sumo Sacerdote”, do mesmo modo próximo de Deus e próximo dos homens; é o “Servo”, que lava os pés e se aproxima dos mais débeis; é o “Bom Pastor”, que tem sempre como fim o cuidado do rebanho.

São as três imagens para as quais devemos olhar, pensando no ministério dos padres, enviados para servirem os homens, para os levar a alcançar a misericórdia de Deus, para lhes anunciar a sua Palavra de vida. Não somos sacerdotes para nós mesmos e a nossa santificação está intimamente relacionada com a do nosso povo, a nossa unção com a sua unção: tu és ungido para o teu povo. Saber e recordar que foram “constituídos para o povo” – povo santo, povo de Deus – ajuda os padres a não pensarem em si, a serem autoridade mas não autoritários, firmes mas não duros, alegres mas não superficiais, em suma, pastores mas não funcionários. Hoje, em ambas as Leituras da Missa, vê-se claramente a capacidade de se alegrar que tem o povo, quando é restabelecido e purificado o Templo, e pelo contrário a incapacidade de alegria que têm os chefes dos sacerdotes e os escribas perante a expulsão dos vendedores do Templo por parte de Jesus. Um padre deve aprender a alegrar-se, nunca deve perder a capacidade de alegria: se a perder, há algo que não vai bem. Digo-vos sinceramente, eu tenho medo da rigidez, tenho medo. Sacerdotes rígidos ..., para longe! Mordem! E vêm-me à mente as palavras de Santo Ambrósio, no século IV: “Onde há misericórdia, está o Espírito do Senhor; onde há rigidez, estão somente os seus ministros”. O ministro sem o Senhor torna-se rígido, e isto é um perigo para o povo de Deus. Pastores, não funcionários.

O povo de Deus e toda a humanidade são destinatários da missão dos sacerdotes, para a qual tende todo o trabalho de formação. A formação humana, a intelectual e a espiritual confluem naturalmente na formação pastoral, à qual fornecem instrumentos, virtudes e disposições pessoais. Quando tudo isto se harmoniza e se amalgama com um genuíno zelo missionário, no decurso do caminho de uma vida inteira, o padre pode realizar a missão confiada por Cristo à sua Igreja.

 

No meio dos outros homens

 

Finalmente, o que nasceu do povo, com o povo deve permanecer; o padre está sempre “no meio dos outros homens”, não é um profissional da pastoral ou da evangelização, que vem e faz o que deve – talvez, bem, mas como se fosse uma tarefa – e depois vai-se embora, para viver uma vida separada. É padre para estar no meio da gente: proximidade. E permiti-me, irmãos bispos, falar também da nossa proximidade com os nossos padres. Isto vale também para nós! Quantas vezes ouvimos os lamentos dos padres: “Telefonei ao bispo, porque tenho um problema ... O secretário, a secretária disse-me que está muito ocupado, que está fora, que não pode receber-me antes de três meses ...” . Duas coisas. Primeira: um bispo está sempre ocupado, graças a Deus, mas se tu, bispo, recebes um telefonema de um padre e não podes recebê-lo porque tens muito trabalho, pelo menos pegas no telefone, chama-lo e dizes-lhe: “É urgente? Não é urgente? Vem ter comigo tal dia ...”. Assim, ele sente-se próximo. Há bispos que parecem fugir dos padres ... Proximidade, pelo menos um telefonema! Isto é amor de pai, fraternidade. E outra coisa. “Não, tenho uma conferência em tal cidade e depois faço uma viagem à América, e depois ...”. Mas, ouve lá, o decreto de residência de Trento ainda está em vigor! E, se não te sentes capaz de ficar na diocese, renuncia, e anda pelo mundo fazendo outro apostolado muito bom. Mas, se és bispo de uma diocese, residência. Estas duas coisas: proximidade e residência. Esta é para nós, bispos. Faz-se padre para estar no meio da gente.

O bem que os padres podem fazer nasce sobretudo da sua proximidade e de um terno amor pelas pessoas. Não são filantropos ou funcionários, os padres são pais e irmãos. A paternidade de um sacerdote faz muito bem.

Proximidade, entranhas de misericórdia, olhar amoroso: fazer experimentar a beleza de uma vida vivida segundo o Evangelho e o amor de Deus, que também se torna concreto através dos seus ministros. Deus nunca rejeita! E aqui penso no confessionário. Sempre se podem encontrar caminhos para dar a absolvição. Acolher bem. Mas, por vezes, não se pode absolver. Há padres que dizem: “Não, disto não te posso absolver, podes ir”. Este não é o caminho. Se não podes dar a absolvição, explica e diz: “Deus ama-te muito, Deus ama-te. Para chegares a Deus, há muitos caminhos. Eu não te posso dar a absolvição, dou-te a bênção. Mas, volta, volta sempre aqui, todas as vezes que vieres, dar-te-ei a bênção como sinal de que Deus te ama”. E aquele homem ou aquela mulher vai-se embora cheio de alegria, porque encontrou o ícone do Pai, que nunca rejeita: de uma forma ou de outra, abraçou-o.

Um bom exame de consciência para um padre é também este: se o Senhor voltasse hoje, onde me encontraria? “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6, 21). E o meu coração, onde está? No meio da gente, rezando com e pela gente, participando nas suas alegrias e sofrimentos, ou ao contrário no meio das coisas do mundo, nos negócios terrenos, nos meus “espaços” privados? Um padre não pode ter um espaço privado, porque está sempre com o Senhor ou com o povo. Penso naqueles padres que conheci na minha cidade, quando não havia central telefónica e dormiam com o telefone na mesinha de cabeceira e, a qualquer hora que a gente chamasse, levantavam-se para dar a Unção: ninguém morria sem os sacramentos! Nem sequer no descanso tinham um espaço privado. Isto é zelo apostólico. A resposta a esta pergunta: onde está o meu coração? pode ajudar todo o padre a orientar a sua vida e o seu ministério para o Senhor.

O Concílio deixou à Igreja “pérolas preciosas”. Como o mercador do Evangelho de Mateus (13, 45), hoje andamos à busca delas, para encontrar novo impulso e novos instrumentos para a missão que o Senhor nos confia.

(…..)

Espero que o fruto dos trabalhos deste Congresso – com tantos conferencistas competentes, provenientes de regiões e culturas diversas – possa ser oferecido à Igreja como uma útil actualização dos ensinamentos do Concílio, dando uma contribuição para a formação dos sacerdotes, aqueles que já são e aqueles que o Senhor quererá conceder-nos, para que, configurados cada vez mais a Ele, sejam bons padres segundo o coração do Senhor, não funcionários! E obrigado pela paciência.

 

 

 


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