DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

ENCONTRO COM OS JORNALISTAS

 

 

Durante o voo de regresso de Bangui a Roma, em 30-XI-2015, o Papa Francisco encontrou-se com os jornalistas, que tiveram ocasião de lhe fazer perguntas.

Damos as respostas do Papa a duas delas: o processo do Vatileaks 2; e a prevenção da SIDA pelo preservativo. 

 

O processo do Vatileaks 2

 

Cristiana Caricato (da Tv2000, televisão católica dos Bispos italianos): Santo Padre, esta manhã, enquanto estávamos em Bangui, realizava-se em Roma uma nova audiência do processo a Mons. Vallejo Balda, à Chaouqui e aos dois jornalistas. Ponho-lhe a pergunta que também muitas pessoas nos fizeram: Porquê estas duas nomeações? Como foi possível que, no processo de reforma que o Santo Padre iniciou, duas pessoas deste tipo tenham podido entrar numa Comissão, a COSEA? Pensa que se cometeu um erro?

Papa Francisco: Penso que se cometeu um erro. Mons. Vallejo Balda entrou pelo cargo que tinha e teve até agora. Ele era secretário da Prefeitura para os Assuntos Económicos, e entrou. Depois, como entrou a senhora, não tenho a certeza, mas creio que não me engano se disser – mas não tenho a certeza – que foi ele quem a apresentou como uma mulher que conhecia o mundo das relações comerciais... Trabalharam e, quando terminou o trabalho, os membros daquela comissão, que se chamava COSEA, ficaram em alguns lugares, no Vaticano. Assim sucedeu com Vallejo Balda. Mas a senhora Chaouqui não permaneceu no Vaticano, porque entrou para a comissão e depois não ficou. Alguns dizem que se irritou por isso, mas os juízes dir-nos-ão a verdade sobre as intenções, porque o fizeram... Para mim, [o que saiu] não foi uma surpresa, não me tirou o sono, porque precisamente fizeram ver o trabalho que se começou com a Comissão de Cardeais – o «C9» – de procurar a corrupção e coisas que não estavam bem. (…).

Sobre este julgamento, dei aos juízes as acusações concretas, porque o que importa, para a defesa, é a formulação das acusações. As acusações concretas, técnicas, eu não as li. Eu queria que isto terminasse antes do dia 8 de Dezembro, por causa do Ano da Misericórdia, mas creio que não se poderá fazer, porque quero que todos os advogados que os defendem tenham tempo para os defender, que haja a liberdade de defesa, toda a liberdade.

 

A prevenção da SIDA pelo preservativo

 

Jürgen Baez, da DPA, na África do Sul: Santidade, a SIDA está a devastar a África. Hoje o tratamento ajuda muitas pessoas a viverem mais tempo. Mas a epidemia continua. Só no Uganda houve 135.000 novos contagiados de SIDA, no ano passado. No Quénia, a situação é ainda pior. A SIDA é a primeira causa de morte entre os jovens africanos. Vossa Santidade encontrou crianças seropositivas e ouviu um testemunho comovente no Uganda. E todavia falou muito pouco sobre este assunto. Sabemos que a prevenção é fundamental. Sabemos também que os preservativos não são o único meio para deter a epidemia, mas são uma parte importante da resposta. Não será tempo de mudar a posição da Igreja a este respeito? Permitir o uso de preservativos para prevenir novos contágios?

Papa Francisco: A pergunta parece-me demasiado pequena e também me parece uma pergunta parcial. Sim, é um dos métodos; sobre este ponto, a moral da Igreja encontra-se – penso – diante de uma perplexidade: é o quinto ou é o sexto mandamento? Defender a vida ou que a relação sexual esteja aberta à vida? Mas este não é o problema. O problema é maior. Esta pergunta faz-me pensar naquela que uma vez fizeram a Jesus: «Diz-me, Mestre: é lícito curar ao sábado?» É obrigatório curar! Esta pergunta, se é lícito curar... Mas a desnutrição, a exploração das pessoas, o trabalho escravo, a falta de água potável: estes são os problemas. Não estejamos a questionar-nos se se pode usar este penso ou outro para uma pequena ferida. A grande ferida é a injustiça social, a injustiça do ambiente, a referida injustiça da exploração e a desnutrição. Este é o problema. Não gosto de descer a reflexões de casuística, quando as pessoas morrem por falta de água e à fome, por causa do habitat... Quando todos estiverem curados ou quando deixarem de existir estas doenças trágicas que o homem provoca, quer por causa da injustiça social, quer para ganhar mais dinheiro – pense-se no tráfico das armas! –, quando não houver estes problemas, penso que se poderá fazer a pergunta: «É lícito curar ao sábado?» Por que se continuam a fabricar armas e a comercializá-las? As guerras são a maior causa de mortalidade... Eu diria: não pensar se é lícito ou não curar ao sábado. Eu diria à humanidade: praticai a justiça e, quando todos estiverem curados, quando não houver injustiça neste mundo, podemos falar do sábado.

 


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