DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

VIAGEM APOSTÓLICA À ÁFRICA

 

 

De 25 a 30 de Novembro de 2015 o Santo Padre realizou a sua primeira Viagem Apostólica à África, primeiro ao Quénia e ao Uganda e depois à República Centro-Africana, em cuja capital Bangui quis abrir a primeira Porta Santa do Jubileu da Misericórdia.

Damos a seguir o comentário que o próprio Papa fez na audiência geral da quarta-feira, na Praça de São Pedro, em 2 de Dezembro seguinte.

 

 

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

 

Nos dias passados realizei a minha primeira Viagem Apostólica à África. A África é linda! Dou graças ao Senhor por esta sua grande dádiva, que me permitiu visitar três países: em primeiro lugar o Quénia, depois o Uganda e por fim a República Centro-Africana. Exprimo novamente o meu reconhecimento às Autoridades civis e aos Bispos destas Nações por me terem hospedado, e agradeço a todos aqueles que colaboraram, de muitas maneiras. Obrigado de todo o coração!

O Quénia é um país que representa bem o desafio planetário da nossa época: salvaguardar a criação, reformando o modelo de desenvolvimento para que seja equitativo, inclusivo e sustentável. Tudo isto se reflecte em Nairobi, a maior cidade da África Oriental, onde convivem a riqueza e a miséria: mas isto é um escândalo! Não só na África: também aqui, em toda a parte. A convivência entre riqueza e miséria é um escândalo, uma vergonha para a humanidade. Precisamente em Nairobi está a sede do Departamento das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que eu visitei. No Quénia encontrei-me com as Autoridades e os Diplomatas, e também com os habitantes de um bairro popular; encontrei-me com os chefes das várias confissões cristãs e das outras religiões, com os sacerdotes e os consagrados; encontrei-me com os jovens, muitos jovens! Em todas as ocasiões encorajei a valorizar a grande riqueza daquele país: riqueza natural e espiritual, constituída pelos recursos da terra, pelas novas gerações e pelos valores que formam a sabedoria do povo. Neste contexto, tão dramaticamente actual, tive a alegria de levar a palavra de esperança de Jesus: «Permanecei firmes na fé, não tenhais medo!». Era este o lema da visita. Uma palavra que é vivida no dia-a-dia por numerosas pessoas humildes e simples, com nobre dignidade; uma palavra testemunhada de modo trágico e heróico pelos jovens da Universidade de Garissa, assassinados no dia 2 do passado mês de Abril, porque eram cristãos. O seu sangue é semente de paz e de fraternidade para o Quénia, para a África e para o mundo inteiro.

Depois, no Uganda, a minha visita desenrolou-se no sinal dos Mártires daquele país, a cinquenta anos da sua histórica canonização feita pelo beato Paulo VI. Por isso, o lema foi: «Sereis minhas testemunhas» (Act 1, 8). Um lema que pressupõe as palavras imediatamente precedentes: «Recebereis a força do Espírito Santo», porque é o Espírito que anima o coração e as mãos dos discípulos missionários. E toda a visita no Uganda realizou-se no fervor do testemunho animado pelo Espírito Santo. Em sentido explícito, o testemunho é o serviço dos catequistas, aos quais agradeci e encorajei pelo seu empenho, que muitas vezes implica também as suas famílias. Testemunho é o da caridade, que toquei com a mão na Casa de Nalukolongo, mas que conta com a participação de muitas comunidades e associações no serviço aos mais pobres, aos deficientes e aos enfermos. Testemunho é o dos jovens que, apesar das dificuldades, conservam o dom da esperança e procuram viver em conformidade com o Evangelho, e não segundo o mundo, indo contra a corrente. Testemunhas são os sacerdotes os consagrados e as consagradas, que renovam dia após dia o seu «sim» total a Cristo e se dedicam com alegria ao serviço do povo santo de Deus. E há um outro grupo de testemunhas, mas deles falarei depois. Todo este multiforme testemunho, animado pelo mesmo Espírito Santo, é fermento para toda a sociedade, como demonstra a obra eficaz levada a cabo no Uganda na luta contra a sida e no acolhimento dos refugiados.

A terceira etapa da viagem foi a República Centro-Africana, no coração geográfico do continente: trata-se precisamente do coração da África! Na realidade, na minha intenção esta visita era a primeira, porque aquele país procura sair de um período muito difícil, de conflitos violentos e de tanto sofrimento para a população. Por isso quis abrir precisamente ali, em Bangui, com uma semana de antecipação, a primeira Porta Santa do Jubileu da Misericórdia, como sinal de fé e de esperança para aquele povo e, simbolicamente, para todas as populações africanas, as mais necessitadas de resgate e de conforto. O convite de Jesus aos discípulos: «Passemos à outra margem» (Lc 8, 22), era o lema para a República Centro-Africana. «Passar à outra margem», em sentido civil, significa deixar atrás de si a guerra, as divisões e a miséria, e escolher a paz, a reconciliação e o desenvolvimento. Mas isto pressupõe uma «passagem» que se verifica nas consciências, nas atitudes e nas intenções das pessoas. E neste nível, é decisiva a contribuição das comunidades religiosas. Por isso, encontrei-me com as Comunidades evangélicas e com a muçulmana, compartilhando a oração e o empenho pela paz. Com os sacerdotes e os consagrados, mas também com os jovens, pudemos partilhar a alegria de sentir que o Senhor ressuscitado está connosco na barca, é Ele quem a guia rumo à outra margem. E finalmente na última Missa, no estádio de Bangui, na festa do apóstolo André, renovámos o compromisso de seguir Jesus, nossa esperança, nossa paz, o Rosto da Misericórdia divina. Esta última Missa foi maravilhosa: esta repleta de jovens, um estádio de jovens! Mais de metade da população da República Centro-Africana são menores de idade, têm menos de 18 anos: uma promessa para ir em frente!

Gostaria de dizer uma palavra sobre os missionários. Homens e mulheres que deixaram a pátria, tudo... Quando eram jovens, partiram para lá, levando uma vida de trabalho muito árduo, às vezes dormindo no chão. A certa altura, encontrei em Bangui uma freira, era italiana. Via-se que era idosa: «Quantos anos tem?», perguntei-lhe. «81». «Mas não eram muitos, dois mais do que eu». Esta freira estava lá desde que tinha 23-24 anos: toda a vida! E como ela, muitas! Estava com uma criança. E a criança, em italiano, dizia-lhe: «Avó!». E a freira disse-me: «Eu não sou daqui, mas do país vizinho, do Congo; vim de canoa, com esta menina». São assim os missionários: corajosos! «E o que faz a irmã?». «Eu sou enfermeira, também estudei um pouco aqui e tornei-me parteira: fiz nascer 3.280 crianças». Assim mo disse. Toda a vida inteira pela vida, pela vida dos outros. E como esta freira, há muitas outras: muitas irmãs, muitos padres, muitos religiosos que consomem a vida para anunciar Jesus Cristo. É bonito ver isto. É lindo!

Gostaria de dizer uma palavra aos jovens. Mas há poucos, porque parece que na Europa a natalidade é um luxo: natalidade zero, natalidade 1%. Mas dirijo-me aos jovens: pensai no que fazeis da vossa vida. Pensai naquela freira e em muitas outras como ela, que deram a vida e tantas morreram lá. A missionariedade não é fazer proselitismo: aquela irmã dizia-me que as mulheres muçulmanas vão ter com elas porque sabem que as freiras são boas enfermeiras que as curam bem, e não dão catequese para as converter! Dão testemunho; depois, às que quiserem dão a catequese. Mas testemunho: esta é a grande missionariedade heróica da Igreja. Anunciar Jesus Cristo com a própria vida! Dirijo-me aos jovens: pensa o que queres fazer da tua vida. É o momento de pensar e de pedir ao Senhor que te faça escutar a sua vontade. Mas por favor, não excluas a possibilidade de te tornares missionário, para levar o amor, a humanidade e a fé a outros países. Não para fazer proselitismo: não! Isso fazem os que buscam outra coisa. A fé prega-se em primeiro lugar com o testemunho e depois com a palavra. Lentamente.

Louvemos juntos o Senhor por esta peregrinação à terra da África, e deixemo-nos orientar pelas suas palavras-chave: «Permanecei firmes na fé, não tenhais medo!»; «Sereis minhas testemunhas»; «Passemos à outra margem».

 


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