Quinta-Feira Santa

24 de Março de 2016

 

 

Missa Vespertina da Ceia do Senhor

 

Segundo uma antiquíssima tradição da Igreja, são proibidas neste dia todas as Missas sem participação do povo.

De tarde, à hora mais conveniente, celebra-se a Missa da Ceia do Senhor, com plena participação de toda a comunidade local; nela, todos os sacerdotes e ministros exercem o seu ofício próprio.

Os sacerdotes que tiverem concelebrado na Missa crismal, ou tiverem celebrado para utilidade dos fiéis, podem novamente concelebrar nesta Missa vespertina.

Onde o exigir o interesse pastoral, o Ordinário do lugar pode permitir a celebração de outra Missa nas igrejas, oratórios públicos ou semipúblicos nas horas vespertinas e, em casos de verdadeira necessidade, até da parte da manhã, mas só para os fiéis que de nenhum modo podem tomar parte na Missa vespertina. Deve evitar-se, no entanto, que tais celebrações se façam em proveito de pessoas particulares ou possam prejudicar a Missa vespertina principal.

A sagrada comunhão só pode ser distribuída aos fiéis dentro da Missa. Aos doentes, porém, pode levar-se a comunhão a qualquer hora do dia.

O sacrário deve estar completamente vazio. Para a comunhão do clero e dos fiéis, consagre-se nesta Missa pão suficiente para hoje e amanhã.

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Toda a minha glória está na cruz, S. Marques, NRMS 61

cf. Gal 6, 14

Antífona de entrada: Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. N'Ele está a nossa salvação, vida e ressurreição. Por Ele fomos salvos e livres.

 

Diz-se o Glória. Enquanto se canta este hino, tocam-se os sinos, que não voltarão a tocar-se até à Vigília Pascal, a não ser que a Conferência Episcopal ou o Ordinário do lugar julguem oportuno estabelecer outra coisa.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Toda a nossa glória está na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal.5,14). À volta da mesa, iniciámos com Jesus e como Jesus, o caminho do amor, o caminho da sua entrega, até ao fim. Nesta santíssima noite, recebemos de Jesus o dom da Eucaristia e do sacerdócio ministerial, recebemos o mandamento novo do amor. Verdadeiramente, a noite em que Jesus ia ser entregue é a noite do amor humilde, do amor levado ao extremo, do amor, que se passa e trespassa e nos ultrapassa, até nos lavar e transformar a todos por dentro. Invoquemos o Senhor!

 

Kyrie

 

- Senhor, Cordeiro sem mancha que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós! 

- Cristo, Senhor e Mestre que servis na humildade, tende piedade de nós! 

- Senhor, Sacerdote Eterno que nos chamais à entrega da nossa vida, tende piedade de nós!

 

 

Monição ao Glória

 

Terminada a Quaresma, entramos no Tríduo Pascal da Paixão, Sepultura e Ressurreição de Jesus. Diante desta entrega de amor, abre-se o nosso coração agradecido e compadecido, em exultação e irrompe dos nossos lábios um hino de louvor.

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que nos reunistes para celebrar a Ceia santíssima em que o vosso Filho Unigénito, antes de Se entregar à morte, confiou à Igreja o sacrifício da nova e eterna aliança, fazei que recebamos, neste sagrado banquete do Seu amor, a plenitude da caridade e da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A primeira leitura recorda-nos a Páscoa judaica que era essencialmente uma acção de graças pelas intervenções salvíficas de Deus junto do povo eleito e uma proclamação da sua esperança na libertação definitiva.

 

Êxodo 12, 1-8.11-14

1Naqueles dias, o Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto: 2«Este mês será para vós o princípio dos meses; fareis dele o primeiro mês do ano. 3Falai a toda a comunidade de Israel e dizei-lhe: No dia dez deste mês, procure cada qual um cordeiro por família, uma rês por cada casa. 4Se a família for pequena demais para comer um cordeiro, junte-se ao vizinho mais próximo, segundo o número de pessoas, tendo em conta o que cada um pode comer. 5Tomareis um animal sem defeito, macho e de um ano de idade. Podeis escolher um cordeiro ou um cabrito. 6Deveis conservá-lo até ao dia catorze desse mês. Então, toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao cair da tarde. 7Recolherão depois o seu sangue, que será espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. 8E comerão a carne nessa mesma noite; comê-la-ão assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 11Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. Comereis a toda a pressa: é a Páscoa do Senhor. 12Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei-de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primogénitos, desde os homens até aos animais. Assim exercerei a minha justiça contra os deuses do Egipto, Eu, o Senhor. 13O sangue será para vós um sinal, nas casas em que estiverdes: ao ver o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos pelo flagelo exterminador, quando Eu ferir a terra do Egipto. 14Esse dia será para vós uma data memorável, que haveis de celebrar com uma festa em honra do Senhor. Festejá-lo-eis de geração em geração, como instituição perpétua».

 

Temos aqui, num texto de tipo catequético-litúrgico, a promulgação da lei da Páscoa judaica como «instituição perpétua», a ser festejada por todas as gerações (v. 14). Na origem desta festa da «Páscoa» – dum étimo semítico: salto festivo – parece estar uma antiga festa de pastores nómadas, própria da Primavera, a época em que nascem os cordeiros; então sacrificavam um cordeiro recém-nascido e com o seu sangue faziam ritos a implorar protecção e a fecundidade. Também pela época da Primavera parece que havia outra festa, a dos «Ázimos», com o sentido de novidade e rotura com o passado (o fermento). As duas festas vieram a fundir-se numa só. A Torá terá assumido estas duas festas, dando-lhes o novo e profundo significado que neste texto legal fica bem assinalado, para celebrar a libertação do Egipto.

A ceia pascal é celebrada na noite de 14 para 15 do mês de Nisan (Março/Abril), a noite da lua cheia que se seguia ao equinócio da primavera, pois o 1° dia do mês era o 1º dia da lua nova; então se comiam os pães ázimos, isto é, sem fermento (do grego a-zymê, em hebraico, os matsôth) durante os sete dias da festa, de 15 a 21 de Nisan. O cordeiro imolado recordava aquele outro cordeiro com cujo sangue os israelitas marcaram as suas portas para que o «o flagelo exterminador» ali não atingisse ninguém. A própria palavra «Páscoa», com uma etimologia muito discutida, pode provir do étimo psh, que significa saltar, passar por cima de, prestando-se a significar o flagelo mortal que passou ao largo das casas dos israelitas (cf. Ex 12, 27) na região de Guéssen ou Góxen. Neste texto a palavra é entendida como a passagem do Senhor, a fim de libertar o seu povo. O pão sem fermento lembrava a pressa com que os israelitas saíram do Egipto, tendo de levar consigo a massa do pão antes de ter fermentado (Ex 12, 34.39).

No entanto, a celebração da Páscoa não era para os israelitas uma mera recordação agradecida da libertação duma escravidão passada, mas era algo que os orientava para uma libertação futura completa e definitiva, que se haveria de dar com a vinda do Messias. Havia mesmo uma crença judaica em que o Messias viria numa noite de Páscoa: «nesta noite foram libertados, e nela também serão libertos». Esta alegre esperança manifestava-se no costume, que ainda hoje se mantém, de deixar um lugar vazio à mesa, para alguém que chegue na última hora, que afortunadamente poderia ser o profeta Elias, precursor do Messias. De facto, um dia o próprio Messias havia de se pôr à mesa da ceia pascal, rodeado dos seus discípulos, para então inaugurar a era da autêntica e definitiva libertação. Jesus é o verdadeiro cordeiro pascal (1 Cor 5, 7; Jo 19, 36) que se oferece em sacrifício, com cujo sangue somos redimidos e com cuja carne somos alimentados no banquete eucarístico, prelúdio do banquete celeste (cf. Mc 14, 25). Os samaritanos ainda hoje celebram a Páscoa como se descreve neste texto do Êxodo, sem refeição solene, sem vinho e à pressa. Os judeus celebram-na como refeição solene; já era assim no tempo de Jesus, em razão de já terem saído da escravidão para a liberdade; mas, em vez de comerem sentados como habitualmente, comiam recostados sobre esteiras ou divãs, apoiando-se sobre o braço esquerdo, a partir da época helenística (cf. Lc 22, 14).

 

Salmo Responsorial    Sl 115 (116), 12-13.15-16bc.17-18 (R. cf. 1 Cor 10, 16)

 

Monição: A ceia do Senhor é a Páscoa da Nova Aliança que substitui a do Antigo Testamento. Por isso dizemos que a comunhão do sangue de Cristo é cálice de bênção.

 

Refrão:     O cálice de bênção é comunhão do Sangue de Cristo.

 

Como agradecerei ao Senhor

tudo quanto Ele me deu?

Elevarei o cálice da salvação,

invocando o nome do Senhor.

 

É preciosa aos olhos do Senhor

a morte dos seus fiéis.

Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:

quebrastes as minhas cadeias.

 

Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,

invocando, Senhor, o vosso nome.

Cumprirei as minhas promessas ao Senhor,

na presença de todo o povo.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A ceia do Senhor é a Páscoa da Nova Aliança que substitui a do Antigo Testamento. Cristo foi o definitivo Cordeio pascal sacrificado durante a páscoa na cruz e partilhado na ceia eucarística.

 

1 Coríntios 11, 23-26

Irmãos: 23Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, 24partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». 25Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim». 26Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.

 

Temos aqui o relato da última Ceia, o mais antigo dos quatro que aparecem no N. T., escrito apenas uns 25 anos após o acontecimento. São Paulo diz que isto mesmo já o tinha pregado aos cristãos (v. 23) uns quatro anos atrás, durante os 18 meses em que evangelizou a cidade de Corinto, por ocasião da sua segunda viagem.

23 «Recebi do Senhor»: O original grego (com o uso da preposição apó e não pará) deixa ver que S. Paulo recebeu esta doutrina pela tradição que remonta ao Senhor e não directamente dele, por meio de alguma revelação, como alguém poderia pensar. «Na noite em que ia ser entregue»: Celebramos hoje uma dupla entrega do Senhor, a sua entrega às mãos dos seus inimigos, para a morrer pelos nossos pecados e nos ganhar a vida divina, e a entrega no Sacramento da SS. Eucaristia, como alimento desta mesma vida divina. Para o seu amor infinito, é pouco dar-se todo uma só vez por todos; quer dar-se todo a cada um de nós todas as vezes que nos disponhamos a recebê-lo!

24 «Isto é o Meu Corpo»: A expressão de Jesus é categórica e terminante, sem deixar lugar a mal entendidos. Não diz «aqui está o meu corpo», nem «isto simboliza o meu corpo», mas sim: «isto é o meu corpo», como se dissesse: este pão já não é pão, mas é o meu corpo, isto é, sou Eu mesmo. Todas as tentativas heréticas de entender estas palavras num sentido meramente simbólico, fazem violência ao texto e não têm seriedade. É certo que o verbo «ser» também pode ter o sentido de «ser como», «significar», mas isto é só quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como é que o pode significar. Atenda-se a que Jesus, com a palavra isto não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; portanto não tem sentido dizer que, com a fracção do pão, o Senhor queria representar o despedaçar do seu corpo por uma morte violenta (o corpo entregue). Jesus não podia querer dizer uma tal coisa, pois, se o quisesse dizer, havia de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era um gesto usual do chefe da mesa em todas as refeições, não sendo possível ver um outro sentido; por outro lado, o beber do cálice de modo nenhum se podia prestar a um tal sentido.

Os Apóstolos vieram a entender as palavras de Jesus no seu verdadeiro realismo, como aparecem no discurso do Pão da Vida (Jo 6, 51-58). Se Jesus não quisesse dar este sentido realista às suas palavras, também os seus discípulos e a primitiva Igreja não lho podiam dar, porque beber o sangue era algo sumamente escandaloso para gente criada no judaísmo, que ia ao ponto de proibir a comida de animais não sangrados. Se S. Paulo não entendesse estas palavras de Jesus num sentido realista, não teria podido afirmar no v. 27 (omitido na leitura de hoje): «quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor»; e no v. 29 fala de «distinguir o corpo do Senhor».

Paulo VI, na encíclica Misterium fidei, rejeitou as explicações teológicas (como a da transignificação e a da transfinalização) que não respeitem suficientemente o realismo da presença real: «Mas para que, ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera leis da natureza e constitui o maior dos milagres no seu género, é preciso seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Pois bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no seu corpo e de toda a substância no vinho no seu sangue; conversão admirável e singular à qual a Igreja justamente e com propriedade chama transubstanciação» (atenda-se a que aqui a noção de substância não é a da Física ou da Química, mas a da Metafísica).

24-25 «Fazei isto em memória de Mim». Com estas palavras, Jesus entrega aos Apóstolos (e aos seus sucessores) o poder ministerial de celebrar o Mistério Eucarístico; por isso, Quinta-Feira Santa é o dia do sacerdócio e dos sacerdotes.

25 «A Nova Aliança com o meu Sangue»: Jesus compara o seu sangue, que vai derramar na cruz, ao sangue do sacrifício da Aliança do Sinai (cf. Ex 24, 8), como sendo o novo sacrifício com que se ratifica a Nova Aliança de Deus com a Humanidade, aliança anunciada pelos profetas (Jer 31, 31-33). Na Ceia temos o mesmo sacrifício do Calvário antecipado sacramentalmente através das palavras do próprio Jesus. Na Missa temos igualmente o mesmo sacrifício da Cruz renovado e representado sacramentalmente através da dupla consagração feita pelo sacerdote que actua na pessoa e em nome de Cristo, sendo Ele o mesmo oferente principal, a mesma vítima e sendo os merecimentos os mesmos do único Sacrifício redentor a serem aplicados, Sacrifício oferecido de uma vez para sempre (efápax: cf. Hebr 9, 25-28; 10, 10.18).

26 «Anunciareis a Morte do Senhor»: No altar já não se derrama o sangue de Cristo, como na Cruz, mas oferece-se, de modo incruento, o mesmo sacrifício, renovando e representando sacramentalmente o mistério da mesma Morte que se deu no Calvário.

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 13, 34

 

Monição: Como filhos de Deus e unidos no mesmo amor, aclamemos a Cristo, Palavra de Deus.

 

Cântico: Dou-vos um mandamento novo, F dos Santos, NCT 126

 

Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:

amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.

 

 

Evangelho

 

São João 13, 1-15

1Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. 2No decorrer da ceia, tendo já o Demónio metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, 3Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, 4levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha que pôs à cintura. 5Depois, deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. 6Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?» 7Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». 8Pedro insistiu: «Nunca consentirei que me laves os pés». Jesus respondeu-lhe: «Se não tos lavar, não terás parte comigo». 9Simão Pedro replicou: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». 10Jesus respondeu-lhe: «Aquele que já tomou banho está limpo e não precisa de lavar senão os pés. Vós estais limpos, mas não todos». 11Jesus bem sabia quem O havia de entregar. Foi por isso que acrescentou: «Nem todos estais limpos». 12Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? 13Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. 14Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

 

1. «Antes da festa da Páscoa». A ceia de que aqui se fala (v. 2) não é descrita como sendo a Ceia Pascal dos Sinópticos (Mt 26, 17-35; Mc 14, 12-31; Lc 22, 7-39), mas não pode ser outra, por se tratar da mesma da noite em que Jesus foi preso. Se S. João se limita a dizer «antes da festa da Páscoa», sem precisar que era a véspera (a Preparação), é porque ele quer que se entenda a morte de Jesus como a imolação do cordeiro pascal, ao colocá-la no mesmo dia (a Preparação: 19, 31.42) em que no templo eram imolados os cordeiros para a festa; sendo assim, evita intencionalmente o dar à Última Ceia qualquer carácter pascal; e pensamos que esta pode ser uma séria razão para não falar da instituição da Eucaristia, aliás referida no discurso do Pão da Vida (cf. Jo 6, 51-58). «Amou-os até ao fim», isto é, até à consumação (19, 30), indicando o seu amor de total entrega, até à morte (cf. 15, 13; 1 Jo 3, 16; Gal 2, 20), embora com esta não termine o seu amor, pois «não só até aqui nos amou quem nos ama sempre e sem fim» (Santo Agostinho); a expressão poderia aludir também ao amor posto na realização da Eucaristia de que S. João não conta a instituição, naturalmente por já lhe ter dedicado todo o capítulo VI e, como já se disse, para evitar dar a esta ceia um carácter pascal. Outra tradução possível: «levou o seu amor por eles até ao extremo». Jesus não só amou os seus até ao último momento da sua vida terrena, mas não podia amá-los mais: amou-nos até à loucura da Cruz e da Eucaristia.

3 «Jesus, sabendo...». Lavar os pés era um ofício exclusivo de escravos (1 Sam 25, 41) e os rabinos chegavam a explicitar que só se devia impor esse humilhante serviço a escravos que não fossem da raça hebraica, baseando-se em Lv 25, 39. Jesus, ao sujeitar-se a esse trabalho aviltante, tem bem presente o seu poder e a sua dignidade de Filho de Deus. A oposição decidida de Pedro mostra o profundo choque causado pela atitude do Senhor. Não se pode estabelecer o momento exacto do lava-pés, pois não estavam previstas lavagens dos pés na Ceia, mas apenas o lavar das mãos; o que Jesus realiza é antes de mais uma acção simbólica, à maneira dos profetas. Talvez a discussão travada na Ceia sobre quem seria o maior dos Apóstolos (cf. Lc 22, 24) tenha levado Jesus a dar-lhes uma lição com o seu gesto: é maior aquele que mais serve. Aparecem dois significados no gesto de Jesus: um simbólico e outro de exemplo a imitar. Nos vv. 6-11, sobressai mais o valor simbólico: Jesus é quem purifica os seus dos seus pecados e sem isso não se pode ter parte com Ele (v. 8), purificação que é um efeito da sua Morte redentora. Nos vv. 14-15, Jesus propõe o seu exemplo para ser imitado: «Eu vos lavei os pés, sendo Mestre e Senhor, também vós deveis lavar os pés uns aos outros», isto é, prestar aos outros todos os serviços, mesmo os mais humildes e humilhantes. Ter autoridade na Igreja (e também na sociedade civil) não é ter à disposição os outros para ser servido, mas é estar à disposição de todos para os servir eficazmente. A vida cristã consiste em imitar o exemplo de Jesus Cristo: 1 Pe 2, 21; 1 Jo 2, 6; Fil 2, 5; 1 Cor 11, 1; Ef 5, 1; 1 Tes 1, 6...

 

Sugestões para a homilia

 

Eucaristia, a presença da misericórdia

 

O mistério da Encarnação ansiava que Jesus ficasse connosco até ao fim dos tempos na Eucaristia. Por este milagre, o maior do Seu amor, Jesus permanece entre nós sob a forma de pão e vinho, não apenas para nosso alimento espiritual, mas também para que Lhe façamos companhia.

Na Eucaristia, Cristo está totalmente presente, tal e como está no céu. A Eucaristia, explica o Papa Leão XIII, contém “numa variedade de milagres, todas as realidades sobrenaturais” (Encíclica Mirae Caritatis).

A Eucaristia é o essencial da devoção à Divina Misericórdia e muitos dos elementos desta devoção são eucarísticos na sua essência (particularmente a imagem, o terço à Divina Misericórdia e a Festa da Misericórdia). A imagem, com os seus raios vermelhos e brancos, apresenta Jesus Eucarístico, cujo Coração foi trespassado e que agora derrama sangue e água como fonte de misericórdia para nós. É a imagem da oferta expiatória de misericórdia que nos foi dado por Deus e tornado presente em cada Missa.

Por várias vezes no seu Diário, Santa Faustina escreve ter visto os raios proceder não da imagem mas da Santa Hóstia. E uma vez, enquanto o sacerdote expunha o Santíssimo Sacramento, viu que os raios da imagem trespassaram a Hóstia e daí se difundiam até cobrir o mundo inteiro (cf. Diário, 441). Assim deveríamos ver, com olhos de fé, em cada Hóstia, o Salvador Misericordioso derramando-se como uma fonte de misericórdia para nós.

Este conceito da Eucaristia como fonte de graça e misericórdia, encontra-se não apenas no Diário de Santa Faustina, mas também, obviamente, na doutrina da Igreja. A Igreja ensina claramente que todos os sacramentos estão dirigidos para a Eucaristia e dela retiram a sua força. Por exemplo, na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, lemos: “Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja” (SC 10).

Não nos surpreende, então, que Santa Faustina tivesse tanta devoção à Eucaristia. No seu Diário escreveu sobre a Eucaristia de forma muito intensa:

- Um grande mistério acontece durante a Santa Missa... Um dia saberemos o que Deus fez por nós em cada Missa e o dom que nela nos prepara. Só o seu amor divino pode permitir que nos seja dado tal oferta... Uma fonte de vida que brota com tanta doçura e força... (Diário, 914).

- Todo o bem que há em mim devo-o à Sagrada Comunhão (Diário, 1392). Aqui está o segredo da minha santidade (Diário, 1489). Uma só coisa me sustém e isso é a Sagrada Comunhão.

- Da Eucaristia retiro força, nela está a minha fortaleza. Temo a vida se algum dia não vier a receber a Sagrada Comunhão... Jesus escondido na Hóstia é tudo para mim... Não saberia como glorificar a Deus se não tivesse a Eucaristia em meu coração (Diário, 1037).

- Oh, Hóstia viva, minha única fortaleza, fonte de amor e de misericórdia, abraça o mundo inteiro, fortifica as almas débeis. Oh, bendito seja o instante e o momento em que Jesus nos deixou o Seu misericordiosíssimo Coração (Diário, 223).

 

“Na Misericórdia de Deus o mundo encontrará a paz, e o homem, a felicidade.

Sede testemunhas da Misericórdia!”

(Juan Pablo II)

 

Na homilia comentam-se os grandes mistérios que neste dia se comemoram: a instituição da sagrada Eucaristia e do sacramento da Ordem e o mandato do Senhor sobre a caridade.

 

Lava-pés

 

Monição ao Lava-pés

 

Seguindo o exemplo de Cristo, o sacerdote prepara-se agora para lavar os pés a 12 pessoas (neste ano, às crianças do 3º ano, que se preparam para o batismo e eucaristia), tal como Jesus lavou os pés aos seus discípulos. Comentando este passo, diz-nos o Papa Francisco: “O Senhor envolve-Se e envolve os seus, pondo-Se de joelhos, diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: «Sereis felizes se o puserdes em prática» (Jo 13, 17). Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (E.G.24).

Quando acabar de lavar os pés e de os limpar, o Presidente inclina-se sobre cada um dos amigos e estes põem-lhe as mãos em cima da cabeça e ambos rezam em silêncio. Durante o tempo do lava-pés entoamos alguns cânticos meditativos, para reencontrar a paz e o silêncio interior. E procuramos meditar nas questões que a homilia nos suscitou no coração.

 

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Elevemos as nossas súplicas a Jesus,

que lavou os pés aos Apóstolos

e, nesta noite, nos deu o mandamento novo,

o sacerdócio e a Eucaristia.

Digamos cheios de confiança:

 

R. Senhor, rico em misericórdia, ouvi-nos.

 

1.  Pela Igreja, de portas abertas:

para que saia continuamente ao encontro dos seus filhos, envolvendo e envolvendo-se,

pondo-se de joelhos diante dos pobres, para os lavar, amar e servir. Oremos, irmãos.

 

2.  Pelos bispos, sacerdotes e diáconos:

para que saibam viver a misericórdia, pondo-se ao serviço dos mais fracos,

dos mais sós, dos doentes, tocando neles a carne ferida de Cristo. Oremos, irmãos.

 

3.  Pelos que governam o mundo: para que saibam fazer do poder um serviço, na defesa dos indefesos, na promoção dos mais pequenos, na ajuda aos que mais precisam. Oremos, irmãos.

 

4.  Por todos nós: para que participemos frutuosamente na Eucaristia,

através da conversão do coração, da comunhão sacramental com o Senhor,

do serviço humilde à comunidade e do compromisso missionário no mundo. Oremos, irmãos.

 

P – Senhor Jesus Cristo,

dai-nos a graça de participar frutuosamente

no mistério da Eucaristia, para a glória do Pai,

que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Ao iniciar-se a liturgia eucarística, pode organizar-se uma procissão dos fiéis com oferta para os pobres.

Entretanto, canta-se a antífona Ubi caritas ou outro cântico apropriado.

 

Ofertório com os sinais sacramentais

 

Apresentar ao sacerdote a água, o pão de trigo, e os óleos benzidos na Missa crismal:

 

1.  Pão (píxide com hóstias) para alimento de vida eterna.

2.  O vinho (cálice com vinho) da alegria da fé em Cristo.

3.1. O óleo de fortaleza, para os catecúmenos, que se preparam para o batismo (levado por um membro da Equipa do Batismo)

3.2. O óleo do crisma, que dignifica e embeleza os batizados e, posto nas mãos, unge os consagrados, pelo Sacramento da Ordem; (levado por um crismando ou crismado)

3.3. O óleo da unção dos doentes, que prepara para o encontro decisivo com Deus Consolador e Salvador. (levado por um MEC ou Visitador de doentes)

 

Retomar cântico de ofertório, até concluir incensação.

 

Cântico do ofertório: Cantemos ao Senhor que nos salvou, M. Faria, NRMS 1 (I)

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor, a graça de participar dignamente nestes mistérios, pois todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício realiza-se a obra da nossa redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio da Santíssima Eucaristia: p. 1254 [658-770]

 

Santo: Santo I, H. Faria, NRMS 103-104

 

Saudação da paz

 

Senhor Jesus Cristo, vós dissestes aos vossos apóstolos: «Tomai e comei todos».  Que todos nós, que hoje comemos do mesmo pão, vivamos unidos num mesmo amor, numa mesma caridade. Vós que viveis com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

Monição da Comunhão

 

Eis Cristo Jesus. Ele é o verdadeiro pão descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente.

Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Felizes…

 

Cântico da Comunhão: Tomai e bebei, diz o Senhor, F. da Silva, NRMS 25

1 Cor 11, 24.25

Antífona da comunhão: Isto é o meu Corpo, entregue por vós; este é o cálice da nova aliança no meu Sangue, diz o Senhor. Fazei isto em memória de Mim.

 

Terminada a distribuição da comunhão, deixa-se sobre o altar a píxide com as partículas para a comunhão do dia seguinte. A Missa conclui com a oração depois da comunhão:

 

Cântico de acção de graças: O cálice de benção, F. da Silva, NRMS 21

 

Oração depois da comunhão: Deus eterno e omnipotente, que hoje nos alimentastes na Ceia do vosso Filho, saciai-nos um dia na ceia do reino eterno. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Trasladação do Santíssimo Sacramento

 

Terminada a oração, o sacerdote, de pé, diante do altar, põe incenso no turíbulo e, de joelhos, incensa por três vezes o Santíssimo Sacramento. Em seguida, toma o véu de ombros, pega na píxide e cobre-a com as extremidades do véu.

Organiza-se a procissão, com círios e incenso, indo à frente o cruciferário com a cruz, e leva-se o Santíssimo Sacramento, através da igreja, para o lugar da reserva, preparado numa capela convenientemente ornamentada. Entretanto canta-se o hino Pange, lingua (Canta, Igreja, o Rei do mundo) – excepto as duas últimas estrofes – ou outro cântico apropriado.

Chegada a procissão ao lugar da reserva, o sacerdote depõe a píxide. Seguidamente, põe incenso no turíbulo e, de joelhos, incensa o Santíssimo Sacramento. Entretanto canta-se o Tantum ergo sacramentum. Depois fecha-se o tabernáculo ou urna da reserva.

Depois de algum tempo de oração em silêncio, o sacerdote e os ministros fazem a genuflexão e retiram-se para a sacristia.

Segue-se a desnudação do altar e, se possível, retiram-se as cruzes da igreja. Se algumas ficam na igreja, é conveniente cobri-las.

Os que tomaram parte na Missa vespertina não são obrigados à celebração das Vésperas.

Exortem-se os fiéis, tendo em conta as circunstâncias e as diversas situações locais, a dedicar algum tempo da noite à adoração do Santíssimo Sacramento. A partir da meia noite, porém, esta adoração faz-se sem solenidade.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

“O ato de adoração fora da Santa Missa prolonga e intensifica aquilo que se fez na própria celebração litúrgica. Com efeito, «somente na adoração pode maturar um acolhimento profundo e verdadeiro” (Sac. Carit., 66). “Sem momentos prolongados de adoração, as nossas tarefas facilmente se esvaziam de significado; quebrantamo-nos com o cansaço e as dificuldades, e o ardor apaga-se” EG 262). Iremos levar em procissão o Santíssimo Sacramento, para a adoração. Não há despedida, uma vez que o Tríduo pascal, agora iniciado, só se concluirá com a celebração da vigília pascal.

 

Cântico final: Celebremos o mistério, F. da Silva, NRMS 77-79

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:   Nuno Westwood

Nota Exegética:            Geraldo Morujão

Homilias Feriais:           Nuno Romão

Sugestão Musical:        Duarte Nuno Rocha

 


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