DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR

DIa MUndial Da JUVENTUDE

20 de Março de 2016

 

 

Neste dia, a Igreja recorda a entrada de Cristo, o Senhor, em Jerusalém, para consumar o seu mistério pascal. Por isso, em todas as Missas se comemora esta entrada do Senhor na cidade santa: ou com a procissão, ou com a entrada solene antes da Missa principal, ou com a entrada simples antes das outras Missas. A entrada solene (mas sem procissão) pode repetir-se antes de outras Missas que se celebram com grande assistência de fiéis.

 

 

A. Comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém

 

 

Primeira forma: Procissão

 

À hora marcada, reúnem-se todos numa igreja secundária ou noutro lugar apropriado fora da igreja para a qual se dirige a procissão. Os fiéis levam ramos na mão.

O sacerdote e o diácono, revestidos de paramentos vermelhos próprios da Missa, dirigem-se para o lugar onde o povo está reunido. O sacerdote, em vez da casula, pode levar o pluvial, que deporá terminada a procissão.

Entretanto, canta-se a antífona seguinte ou outro cântico apropriado.

 

Mt 21, 9

Antífona: Hossana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel. Hossana nas alturas.

 

O sacerdote, ao chegar, saúda o povo na forma habitual. Depois exorta os fiéis a participarem activa e conscientemente na celebração deste dia, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Juventude. Somos todos convidados a peregrinar, conjuntamente com os jovens, rumo a Cristo.

Nesta peregrinação interior iniciamos a Semana Santa com uma acção litúrgica que pode parecer desorientadora: rememoramos, por um lado, o triunfo de Cristo, entre palmas e hossanas, e, por outro, a Sua Paixão e Morte que nos leva a pensar em Sexta-Feira Santa. Na procissão de ramos, celebramos a entrada de Jesus em Jerusalém; na proclamação solene da Paixão, começamos já a celebrar o Mistério Pascal.

Aproximemo-nos, pois, mais de Jesus e procuremos compreender melhor o Seu plano redentor.

 

Seguidamente, o sacerdote, de mãos juntas, diz uma das seguintes orações:

 

 

Oremos.

Deus eterno e omnipotente, santificai com a vossa bênção estes ramos, para que, acompanhando a Cristo nosso Rei nesta celebração festiva, mereçamos entrar com Ele na Jerusalém celeste. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Ou:

 

Aumentai, Senhor, a fé dos que esperam em Vós e ouvi com bondade as nossas humildes súplicas, para que, aclamando com estes ramos a Cristo vitorioso, permaneçamos unidos a Ele e dêmos fruto abundante de boas obras. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Terminada a oração, asperge os ramos com água benta, sem dizer nada.

A seguir, faz-se a proclamação do Evangelho da entrada do Senhor, segundo o texto evangélico correspondente a cada um dos ciclos. Esta proclamação é feita do modo habitual pelo diácono, ou, na falta dele, pelo sacerdote.

 

Evangelho

 

São Lucas 19, 28-40

Naquele tempo, 28Jesus seguia à frente dos seus discípulos, subindo para Jerusalém. 29Quando Se aproximou de Betfagé e de Betânia, perto do Monte das Oliveiras, enviou dois discípulos 30e disse-lhes: «Ide à povoação que está em frente e, ao entrardes nela, encontrareis um jumentinho preso, que ainda ninguém montou. Soltai-o e trazei-o. 31Se alguém perguntar porque o soltais, respondereis: ‘O Senhor precisa dele’». 32Os enviados partiram e encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito. 33Quando estavam a soltar o jumentinho, os donos perguntaram: «Porque soltais o jumentinho?» Eles responderam: 34«O Senhor precisa dele». 35Então levaram-no a Jesus e, lançando as capas sobre o jumentinho, fizeram montar Jesus. 36Enquanto Jesus caminhava, o povo estendia as suas capas no caminho. 37Estando já próximo da descida do Monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto, 38dizendo: «Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas!». 39Alguns fariseus disseram a Jesus, do meio da multidão: «Mestre, repreende os teus discípulos». 40Mas Jesus respondeu: «Eu vos digo: se eles se calarem, clamarão as pedras».

 

A cena reveste-se de um carácter de entronização messiânica de Jesus, ao cumprir-se a profecia de Zac 9, 9, e ao ser aclamado com o Salmo de entronização do Rei-Messias: Salm 119 (118), 26.

28 «Subindo para Jerusalém», isto é, vindo de Jericó, pelo caminho a pique que levaria umas 5 ou 6 horas e que vai dar a Betfagé (casa dos figos), entre Betânia e o cimo do Monte das Oliveiras.

39 «Clamarão as pedras». Fórmula proverbial, clara e enérgica, tão ao jeito de Jesus, com que confirma perante os próprios adversários a sua dignidade messiânica e a sua realeza; isto era já uma realidade tão importante e notória, que, se os homens se negam a reconhecê-la, será a própria natureza muda a proclamá-la. Por outro lado, Jesus já tinha cumprido a sua missão de pregar o Evangelho e de instruir os Apóstolos, por isso não havia que temer qualquer tumulto popular, ao apresentar-se solenemente como Messias-Rei.

 

Depois do Evangelho, conforme as circunstâncias, pode fazer-se uma breve homilia. A anunciar o começo da procissão, o sacerdote ou outro ministro idóneo pode fazer uma admonição, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Imitemos, irmãos caríssimos, a multidão que aclamava Jesus na cidade santa de Jerusalém, e caminhemos em paz.

 

Inicia-se a procissão em direcção à igreja onde é celebrada a Missa.

À frente vai o turiferário com o turíbulo aceso (se se usa o incenso); depois, no meio de dois ministros com velas acesas, o cruciferário com a cruz ornamentada; segue-se o sacerdote com os outros ministros: finalmente, os fiéis com os ramos na mão.

 

Cântico: As crianças de Jerusalém, M. Faria, NRMS 25

 

Á entrada da procissão na igreja, canta-se o responsório seguinte ou outro cântico alusivo à entrada do Senhor.

 

V. Ao entrar o Senhor na cidade santa, as crianças de Jerusalém, com ramos de palmeira, anunciaram a ressurreição da vida, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

V. Quando o povo ouviu dizer que Jesus vinha para Jerusalém, saiu ao seu encontro com ramos de palmeira, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

Cântico de entrada: Hossana ao Filho de David, Az. Oliveira, NRMS 29

 

Ao chegar ao altar, o sacerdote faz-lhe a devida reverência e, conforme as circunstâncias, incensa-o. Seguidamente, dirige-se para a sua cadeira (depõe o pluvial e veste a casula) e, omitindo tudo o mais, diz, como conclusão da procissão, a oração colecta da Missa. Terminada esta oração, a Missa continua na forma habitual.

 

A Missa deste domingo é dotada de três leituras, que muito se recomendam, se não há um motivo pastoral que aconselhe outra coisa.

Dada a importância da leitura da Paixão do Senhor, compete ao sacerdote, tendo em conta a natureza de cada grupo de fiéis, a opção de ler apenas uma das duas leituras que precedem o Evangelho, ou apenas a história da Paixão, se for necessário, mesmo na forma breve.

Isto vigora apenas para as Missas celebradas com participação do povo.

 

B. Missa

 

Depois da procissão ou da entrada solene, o sacerdote começa a Missa com a oração colecta.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Esta leitura tirada das profecias de Isaías é o terceiro cântico do Servo do Senhor. Nela facilmente identificamos este Servo com o aconteceu a Jesus nas mãos dos soldados de Pilatos.

 

Isaías 50, 4-7

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

O texto é tirado do II Isaías e corresponde aos primeiros 4 vv. do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste canto (v. 10). De qualquer modo, considera-se como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): «O Senhor Deus»; na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo; na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta; na terceira, a fortaleza no meio das dores.

4 Apresenta-se «a falar como um discípulo», embora não se trate de um discípulo qualquer; é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: «a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7, 16; cf. 14, 24).

5 «Não resisti nem recuei». Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 «Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam». Os evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…

 

Salmo Responsorial    Sl 21 (22), 8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)

 

Monição: No Salmo responsorial, que vamos proclamar, sentimos a solidão e o sofrimento de Jesus, mas também descobrimos a esperança e a vitória do Messias. Ao proferi-lo, procuremos descobrir a maneira de participar na Sua obra redentora começada na Paixão.

 

Refrão:     Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

 

Todos os que me vêem escarnecem de mim,

estendem os lábios e meneiam a cabeça:

«Confiou no Senhor, Ele que o livre,

Ele que o salve, se é seu amigo».

 

Matilhas de cães me rodearam,

cercou-me um bando de malfeitores.

Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,

posso contar todos os meus ossos.

 

Repartiram entre si as minhas vestes

e deitaram sortes sobre a minha túnica.

Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,

sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

 

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,

hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.

Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,

glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,

reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O homem das dores, humilhado, o Senhor diante de Quem se dobram todos os joelhos, é a Pessoa que dá a razão de ser à nossa vida de cristãos. Ao aspirarmos à «exaltação» não nos poderemos esquecer do caminho da «humilhação» que se nos apresenta nas veredas desta vida.

 

Filipenses 2, 6-11

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 «De condição divina». Literalmente: «existindo em forma de Deus». Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus «tinha um ser como Deus, um ser divino».

«Não se valeu da sua igualdade com Deus». O texto original foi simplificado no texto litúrgico, pois há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão: a) «Não considerou como um roubo o ser igual a Deus»; b) «Não considerou como algo a roubar (=algo cobiçado) o ser igual a Deus». No primeiro caso, considera-se o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo); no segundo, em sentido passivo (coisa cobiçada). A Vulgata, seguida pela Nova Vulgata, traduz: «não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus» (sentido activo). Segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossa tradução litúrgica, considera o termo grego com sentido passivo e teríamos: «não considerou como algo cobiçado (harpagmón). Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22) e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer «semelhante aos homens» (v. 7).

7 «Mas aniquilou-se a si próprio», à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). «Assumindo a condição de servo», o que não significa a condição social de escravo, mas a «forma» (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do «servo de Yahwéh», o a que se refere a primeira leitura de hoje; «tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem», não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é «semelhante» (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15).

8 «Humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz». Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!

9-10 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o desfecho dum história trágica com que tudo acabou. Estamos perante o sublime paradoxo da sua «exaltação»: foi «por isso» mesmo que «Deus» (não Ele próprio, mas o Pai, ho Theós com artigo) «O exaltou» de modo singularíssimo (à letra, acima de tudo o que existe, tendo na devida conta a preposição hypér na composição do verbo grego), o que se deu na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o «nome» que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes de todos os tempos; já não se trata simplesmente do nome usado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, mas trata-se do mesmo nome com que o próprio Deus é designado nos LXX para traduzir o nome divino «Yahwéh» – «Senhor».

11 A todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – «toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor» (mais expressivo sem artigo, como no original grego) e o seu domínio sobre toda a criação – «no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai» (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente, ao traduzir: «proclame que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai»).

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 56 (como hoje pensa a generalidade dos estudiosos), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola.

 

Aclamação ao Evangelho        Filip 2, 8-9

 

Monição: Louvamos a Jesus Cristo porque fomos remidos por Ele e não podemos ficar indiferentes à Sua generosidade para connosco.

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

 

 

Evangelho

 

Forma longa: São Lucas 22, 14 – 23, 56            Forma breve: São Lucas 23, 1-49

[N 14Quando chegou a hora, Jesus sentou-Se à mesa com os seus Apóstolos 15e disse-lhes:

J   «Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de padecer; 16pois digo-vos que não tornarei a comê-la, até que se realize plenamente no reino de Deus».

17Então, tomando um cálice, deu graças e disse:

J   «Tomai e reparti entre vós, 18pois digo-vos que não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o reino de Deus».

19Depois tomou o pão e, dando graças, partiu-o e deu-lho, dizendo:

J   «Isto é o meu corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim».

20No fim da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo:

J   «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, derramado por vós. 21Entretanto, está comigo à mesa a mão daquele que Me vai entregar. 22O Filho do homem vai partir, como está determinado. Mas ai daquele por quem Ele vai ser entregue!«

23Começaram então a perguntar uns aos outros qual deles iria fazer semelhante coisa. 24Levantou-se também entre eles uma questão: qual deles se devia considerar o maior? 25Disse-lhes Jesus:

J   «Os reis das nações exercem domínio sobre elas e os que têm sobre elas autoridade são chamados benfeitores. 26Vós não deveis proceder desse modo. O maior entre vós seja como o menor e aquele que manda seja como quem serve. 27Pois quem é o maior: o que está à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve. 28Vós estivestes sempre comigo nas minhas provações. 29E Eu preparo para vós um reino, como meu Pai o preparou para Mim: 30comereis e bebereis à minha mesa, no meu reino, e sentar-vos-eis em tronos, a julgar as doze tribos de Israel. 31Simão, Simão, Satanás vos reclamou para vos agitar na joeira como trigo. 32Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».

33Pedro respondeu-Lhe:

R  «Senhor, eu estou pronto a ir contigo, até para a prisão e para a morte».

34Disse-lhe Jesus:

J   «Eu te digo, Pedro: não cantará hoje o galo, sem que tu, por três vezes, negues conhecer-Me».

35Depois acrescentou:

J   «Quando vos enviei sem bolsa nem alforge nem sandálias, faltou-vos alguma coisa?».

N  Eles responderam que não lhes faltara nada. 36Disse-lhes Jesus:

J   «Mas agora, quem tiver uma bolsa pegue nela, bem como no alforge; e quem não tiver espada venda a capa e compre uma. 37Porque Eu vos digo que se deve cumprir em Mim o que está escrito: ‘Foi contado entre os malfeitores’. Na verdade, o que Me diz respeito está a chegar ao fim».

38Eles disseram:

R  «Senhor, estão aqui duas espadas».

N  Mas Jesus respondeu:

J   «Basta».

39Então saiu e foi, como de costume, para o Monte das Oliveiras e os discípulos acompanharam-n’O. 40Quando chegou ao local, disse-lhes:

J   «Orai, para não entrardes em tentação».

41Depois afastou-Se deles cerca de um tiro de pedra e, pondo-Se de joelhos, começou a orar, dizendo:

J   42«Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua».

43Então apareceu-Lhe um Anjo, vindo do Céu, para O confortar. 44Entrando em angústia, orava mais instantemente e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra. 45Depois de ter orado, levantou-Se e foi ter com os discípulos, que encontrou a dormir, por causa da tristeza. 46Disse-lhes Jesus:

J   «Porque estais a dormir? Levantai-vos e orai, para não entrardes em tentação».

47Ainda Ele estava a falar, quando apareceu uma multidão de gente. O chamado Judas, um dos Doze, vinha à sua frente e aproximou-se de Jesus, para O beijar. 48Disse-lhe Jesus:

J   «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?».

49Ao verem o que ia suceder, os que estavam com Jesus perguntaram-Lhe:

R  «Senhor, vamos feri-los à espada?«

50E um deles feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. 51Mas Jesus interveio, dizendo:

J   «Basta! Deixai-os».

N  E, tocando na orelha do homem, curou-o. 52Disse então Jesus aos que tinham vindo ao seu encontro, príncipes dos sacerdotes, oficiais do templo e anciãos:

J   «Vós saístes com espadas e varapaus, como se viésseis ao encontro dum salteador. 53Eu estava todos os dias convosco no templo e não Me deitastes as mãos. Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas.

54Apoderaram-se então de Jesus, levaram-n’O e introduziram-n’O em casa do sumo sacerdote. Pedro seguia-os de longe. 55Acenderam uma fogueira no meio do pátio, sentaram-se em volta dela e Pedro foi sentar-se no meio deles. 56Ao vê-lo sentado ao lume, uma criada, fitando os olhos nele, disse:

R  «Este homem também andava com Jesus«

57Mas Pedro negou:

R  «Não O conheço, mulher».

58Pouco depois, disse outro, ao vê-lo:

R  «Tu também és um deles».

N  Mas Pedro disse:

R  «Homem, não sou».

59Passada mais ou menos uma hora, afirmava outro com insistência:

R  «Esse homem, com certeza, também andava com Jesus, pois até é galileu».

60Pedro respondeu:

R  «Homem, não sei o que dizes».

N  Nesse instante, ainda ele falava, um galo cantou. 61O Senhor voltou-Se e fitou os olhos em Pedro. Então Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, quando lhe disse: ‘Antes do galo cantar, Me negarás três vezes’. 62E, saindo para fora, chorou amargamente. 63Entretanto, os homens que guardavam Jesus troçavam d’Ele e maltratavam-n’O. 64Cobrindo-Lhe o rosto, perguntavam-Lhe:

R  «Adivinha, profeta: Quem Te bateu?«

65E dirigiam-Lhe muitos outros insultos. 66Ao romper do dia, reuniu-se o conselho dos anciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes e os escribas. Levaram-n’O ao seu tribunal e disseram-Lhe:

67«Diz-nos se Tu és o Messias».

N  Jesus respondeu-lhes:

J   «Se Eu vos disser, não acreditareis 68e, se fizer alguma pergunta, não respondereis. 69Mas o Filho do homem sentar-Se-á doravante à direita do poder de Deus».

70Disseram todos:

R  «Tu és então o Filho de Deus?«

N  Jesus respondeu-lhes:

J   «Vós mesmos dizeis que Eu sou».

71Então exclamaram:

R  «Que necessidade temos ainda de testemunhas? Nós próprios o ouvimos da sua boca».]

1Levantaram-se todos e levaram Jesus a Pilatos. 2Começaram a acusá-l’O, dizendo:

R  «Encontrámos este homem a sublevar o nosso povo, a impedir que se pagasse o tributo a César e dizendo ser o Messias-Rei».

3Pilatos perguntou-Lhe:

R  «Tu és o Rei dos judeus?«

N  Jesus respondeu-lhe:

J   «Tu o dizes».

4Pilatos disse aos príncipes dos sacerdotes e à multidão:

R  «Não encontro nada de culpável neste homem».

5Mas eles insistiam:

R  «Amotina o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui».

6Ao ouvir isto, Pilatos perguntou se o homem era galileu; 7e, ao saber que era da jurisdição de Herodes, enviou-O a Herodes, que também estava nesses dias em Jerusalém. 8Ao ver Jesus, Herodes ficou muito satisfeito. Havia bastante tempo que O queria ver, pelo que ouvia dizer d’Ele, e esperava que fizesse algum milagre na sua presença. 9Fez-Lhe muitas perguntas, mas Ele nada respondeu.10Os príncipes dos sacerdotes e os escribas que lá estavam acusavam-n’O com insistência. 11Herodes, com os seus oficiais, tratou-O com desprezo e, por troça, mandou-O cobrir com um manto magnífico e remeteu-O a Pilatos. 12Herodes e Pilatos, que eram inimigos, ficaram amigos nesse dia. 13Pilatos convocou os príncipes dos sacerdotes, os chefes e o povo, e disse-lhes:

14«Trouxestes este homem à minha presença como agitador do povo. Interroguei-O diante de vós e não encontrei n’Ele nenhum dos crimes de que O acusais. 15Herodes também não, uma vez que no-l’O mandou de novo. Como vedes, não praticou nada que mereça a morte. 16Vou, portanto, soltá-l’O, depois de O mandar castigar».

17Pilatos tinha obrigação de lhes soltar um preso por ocasião da festa. 18E todos se puseram a gritar:

R  «Mata Esse e solta-nos Barrabás».

19Barrabás tinha sido metido na cadeia por causa de uma insurreição desencadeada na cidade e por assassínio. 20De novo Pilatos lhes dirigiu a palavra, querendo libertar Jesus. 21Mas eles gritavam:

R  «Crucifica-O! Crucifica-O!«

22Pilatos falou-lhes pela terceira vez:

R  «Mas que mal fez este homem? Não encontrei n’Ele nenhum motivo de morte. Por isso vou soltá-l’O, depois de O mandar castigar».

23Mas eles continuavam a gritar, pedindo que fosse crucificado, e os seus clamores aumentavam de violência. 24Então Pilatos decidiu fazer o que eles pediam: 25soltou aquele que fora metido na cadeia por insurreição e assassínio, como eles reclamavam, e entregou-lhes Jesus para o que eles queriam. 26Quando O conduziam, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para a levar atrás de Jesus. 27Seguia-O grande multidão de povo e mulheres que batiam no peito e se lamentavam, chorando por Ele. 28Mas Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes:

J   «Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos; 29pois dias virão em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram’. 30Começarão a dizer aos montes: ‘Caí sobre nós’; e às colinas: ‘Cobri-nos’. 31Porque, se tratam assim a madeira verde, que acontecerá à seca?».

32Levavam ainda dois malfeitores para serem executados com Jesus. 33Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-n’O a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. 34Jesus dizia:

J   «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem».

N  Depois deitaram sortes, para repartirem entre si as vestes de Jesus. 35O povo permanecia ali a observar. Por sua vez, os chefes zombavam e diziam:

R  «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito».

36Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:

37«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».

38Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus». 39Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo:

R  «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».

40Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:

R  «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? 41Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável».

42E acrescentou:

R  «Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza».

43Jesus respondeu-lhe:

J   «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

44Era já quase meio-dia, quando as trevas cobriram toda a terra, até às três horas da tarde, porque o sol se tinha eclipsado. 45O véu do templo rasgou-se ao meio. 46E Jesus exclamou com voz forte:

J   «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito».

N  Dito isto, expirou. (Todos ajoelham para uma pausa em silêncio) 47Vendo o que sucedera, o centurião deu glória a Deus, dizendo:

R  «Realmente este homem era justo».

48E toda a multidão que tinha assistido àquele espectáculo, ao ver o que se passava, regressava batendo no peito. 49Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que O acompanhavam desde a Galileia, mantinham-se à distância, observando estas coisas.

 [50Havia um homem chamado José, da cidade de Arimateia, que era pessoa recta e justa e esperava o reino de Deus. Era membro do Sinédrio, 51mas não tinha concordado com a decisão e o proceder dos outros. 52Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. 53E depois de o ter descido da cruz, envolveu-o num lençol e depositou-o num sepulcro escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado. 54Era o dia da Preparação e começavam a aparecer as luzes do sábado. 55Entretanto, as mulheres que tinham vindo com Jesus da Galileia acompanharam José e observaram o sepulcro e a maneira como fora depositado o corpo de Jesus. 56No regresso, prepararam aromas e perfumes. E no sábado guardaram o descanso, conforme o preceito.]

 

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente e com grande intensidade dramática por todos os quatro Evangelistas é a sua Paixão. Ela é a culminância de toda a vida e obra redentora de Cristo. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência, do modo mais significativo, tanto o seu amor infinito por todos e cada um de nós (cf. Gal 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gal 1, 4).

N.B. – Podem, ver-se mais comentários sobre a Paixão do Senhor, em Sexta-feira Santa. Limitamo-nos a anotar os pormenores exclusivos de S. Lucas, nomeadamente coisas que põem em evidência a misericórdia e a preocupação pelos outros que Jesus manifesta, quando era Ele quem devia merecer toda a atenção em horas tão aflitivas. Assim, temos mais pormenores no relato da Ceia, começando pela manifestação do desejo ardente que Jesus tinha de celebrar esta Páscoa (22, 15-16) e conservando o pormenor do ritual judaico da bênção e entrega do 1º cálice (22, 17); a oração especial para que a fé de Pedro não desfaleça e o encargo pastoral de confirmar na fé os seus irmãos (22, 31-32); o episódio das duas espadas (Lc 22, 35-38); Jesus cura o criado ferido pela espada de Pedro (22, 51); Jesus diante de Herodes (23, 6-12); Pilatos declara Jesus inocente (23, 13-16); Jesus consola as mulheres a caminho do Calvário (23, 27-31); Jesus pede perdão ao Pai para os que o crucificam (23, 34); o diálogo com o ladrão arrependido (23, 40-43); o véu do santuário que se rasga ao meio (23, 45); as palavras de Jesus ao expirar: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (23, 46); a multidão que regressa do Calvário contrita, batendo no peito (23, 48); o regresso das mulheres do túmulo, que preparam perfumes e essências, mas observando o repouso sabático (23, 56).

 

Sugestões para a homilia

 

O Servo sofredor e as dificuldades da comunidade de Filipos

Manifestação da bondade e misericórdia de Jesus na narração da Paixão

 

O Servo sofredor e as dificuldades da comunidade de Filipos

Acabamos de escutar a profecia de Isaías que nos relata o terceiro «cântico do Servo Sofredor». A missão do Servo evoca os aspectos da sua existência: acolhimento da Palavra de Deus, fidelidade na sua transmissão, perseguição e descrição antecipada dos sofrimentos do Messias Redentor. Muito tempo antes de Jesus nascer, portanto, este profeta anunciara que o Messias não seria um vencedor, mas um derrotado, alguém que oferece a sua própria vida. A tradição cristã viu sempre nestes cânticos um anúncio da morte redentora de Jesus e da Sua ressurreição.

A segunda leitura reporta-nos à comunidade de Filipos, da qual S. Paulo se orgulhava, por ser uma comunidade exemplar. Mas, como acontece até nas melhores comunidades, nela surgiram algumas invejas, incompreensões, a tentação de mandar, de ter poder, de se impor aos outros por parte de alguns que a ela pertenciam.

Por isso, na sua carta, S. Paulo recomenda a humildade e o serviço a exemplo do que acontecera com o Mestre. E recorda que o caminho percorrido por Jesus não se concluiu com a humilhação e morte na cruz, mas com a Sua exaltação e glorificação.

Decerto que nas nossas comunidades também encontramos as mesmas dificuldades que se apresentavam na comunidade de Filipos, o que nos leva a reflectir sobre o exemplo de Cristo. Este tempo quaresmal que agora começa deve, pois, levar-nos a uma maior sensibilidade para as nossas atitudes de compreensão, bondade e misericórdia para com os outros.

A isso nos conduz a narração da Paixão descrita por S. Lucas, no Evangelho.

 

Manifestação da bondade e misericórdia de Jesus na narração da Paixão

         Percorrendo esta narração confrontamo-nos com a instituição da Eucaristia. Somente S. Lucas refere a observação de Jesus, depois de tomar o pão e dar graças: «Fazei isto em memória de Mim». Neste «partir o pão» está resumida toda a sua vida, partida e doada aos homens. Só aquele que parte a própria vida pelos outros pode partir o pão eucarístico com pureza de coração. Se assim não for a repetição do gesto litúrgico e a respectiva comunhão será um rito esvaziado e um gesto mentiroso.

Logo após a instituição da Eucaristia os apóstolos discutem entre si qual deles seria o maior. Jesus toma a palavra para explicar que na nova comunidade, a Igreja, a única autoridade é apenas o serviço. Servir como Jesus mede-se a partir de baixo, da disponibilidade, da amabilidade, do respeito, da capacidade para dialogar e compreender.

Os que mais servem são os maiores. São grandes, porque possuem um coração grande, com capacidade para acolher, perdoar, para amar aqueles que são desprezados pelos que têm por seu lado a força, o poder, os títulos ou os cargos.

Outra manifestação da misericórdia e bondade de Jesus reporta-nos ao Horto das Oliveiras. A fim de impedira a afronta, a violência e a injustiça contra o seu Mestre, os apóstolos pegam nas espadas. Um deles corta a orelha direita do servo do sumo-sacerdote. Jesus, num gesto de bondade e misericórdia, «tocando na orelha do homem, curou-o.»       

A mensagem é esclarecedora: o discípulo não só não pode agredir ninguém, mas deve estar pronto a curar as feridas provocadas pelos outros.

Igualmente, Jesus tem um gesto de bondade e misericórdia para com Pedro que, depois de ter renegado o Mestre em casa do sumo-sacerdote, saiu e começou a chorar. «O Senhor, voltando-Se, fixou os olhos em Pedro» sem o recriminar. Este gesto indica a sua compreensão e confiança perante a fraqueza do seu discípulo. Quem é humilhado e envergonhado pelos seus erros, se não se sente acolhido e estimado, apesar dos seus falhanços, acaba por se fechar em si mesmo, sem indício de recuperação. Como Jesus, cada cristão deve ser compreensivo com a fraqueza dos irmãos, olhando-os com um olhar que deve ir mais além daquilo que os olhos podem divisar, procurando transmitir um clarão de amor e compreensão que os ajude a recomeçar.

Herodes representa todos aqueles que procuram Jesus apenas porque esperam obter d’Ele alguma graça, ou prodígio particular. Interpreta os que se fazem cristãos por pensarem que com as orações ou práticas religiosas poderão gozar de melhor saúde, mais sorte, sucesso na vida, ou alcance dos seus objectivos. Ora, o verdadeiro cristão deve ser aquele que pratica o amor, a misericórdia, a bondade em favor do irmão necessitado, porque assim o ensinou Jesus.

Na cruz contemplamos Jesus rodeado por dois ladrões. Um deles ultrajava-O, o outro não. Este, chamando por Jesus, pede-lhe: «Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza». E Jesus responde-lhe: «Hoje estarás comigo no Paraíso». A sua bondade e misericórdia tornam a revelar-se perante estes infelizes que erraram na vida. Depois de cumprir a sua peregrinação nesta terra, volta para o Pai, mas leva consigo alguém que nos representa a todos: um pecador recuperado pelo seu amor.

Aproveitemos a lição que a liturgia deste domingo nos apresenta e sintamos em nós mesmos a recomendação que o Papa Francisco faz aos jovens que se encontrarão em Julho, em Cracóvia, na XXXI Jornada Mundial da Juventude: «... já alguma vez sentiste pousar sobre ti este olhar de amor infinito que, para além de todos os teus pecados, limitações e fracassos, continua a confiar em ti e a olhar com esperança para a tua vida? Estás consciente do valor que tens diante de um Deus que, por amor, te deu tudo?».

Pensemos nisto e recordemos que «na cruz, podemos tocar a misericórdia de Deus e deixar-nos tocar pela sua própria misericórdia.»

 

Fala o Santo Padre

 

«Os jovens devem dizer ao mundo: é bom sair de nós mesmos

para levar Jesus às periferias do mundo e da existência.»

 

1. Jesus entra em Jerusalém. A multidão dos discípulos acompanha-O em festa, os mantos são estendidos diante d’Ele, fala-se dos prodígios que realizou, ergue-se um grito de louvor: «Bendito seja o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!» (Lc 19, 38).

Multidão, festa, louvor, bênção, paz: respira-se um clima de alegria. Jesus despertou tantas esperanças no coração, especialmente das pessoas humildes, simples, pobres, abandonadas, pessoas que não contam aos olhos do mundo. Soube compreender as misérias humanas, mostrou o rosto misericordioso de Deus e inclinou-Se para curar o corpo e a alma.

Assim é Jesus. Assim é o seu coração, que nos vê a todos, que vê as nossas enfermidades, os nossos pecados. Grande é o amor de Jesus! E entra em Jerusalém assim com este amor que nos vê a todos. É um espectáculo lindo: cheio de luza luz do amor de Jesus, do amor do seu coração, de alegria, de festa.

No início da Missa, também nós o reproduzimos. Agitámos os nossos ramos de palmeira. Também nós acolhemos Jesus; também nós manifestamos a alegria de O acompanhar, de O sentir perto de nós, presente em nós e no nosso meio, como um amigo, como um irmão, mas também como rei, isto é, como farol luminoso da nossa vida. Jesus é Deus, mas desceu a caminhar connosco como nosso amigo, como nosso irmão; e aqui nos ilumina ao longo do caminho. E assim hoje O acolhemos. E aqui temos a primeira palavra que vos queria dizer: alegria! Nunca sejais homens e mulheres tristes: um cristão não o pode ser jamais! Nunca vos deixeis invadir pelo desânimo! A nossa alegria não nasce do facto de possuirmos muitas coisas, mas de termos encontrado uma Pessoa: Jesus, que está no meio de nós; nasce do facto de sabermos que, com Ele, nunca estamos sozinhos, mesmo nos momentos difíceis, mesmo quando o caminho da vida é confrontado com problemas e obstáculos que parecem insuperáveis… e há tantos! E nestes momentos vem o inimigo, vem o diabo, muitas vezes disfarçado de anjo, e insidiosamente nos diz a sua palavra. Não o escuteis! Sigamos Jesus! Nós acompanhamos, seguimos Jesus, mas sobretudo sabemos que Ele nos acompanha e nos carrega aos seus ombros: aqui está a nossa alegria, a esperança que devemos levar a este nosso mundo. E, por favor, não deixeis que vos roubem a esperança! Não deixeis roubar a esperança… aquela que nos dá Jesus!

2. Segunda palavra. Para que entra Jesus em Jerusalém? Ou talvez melhor: Como entra Jesus em Jerusalém? A multidão aclama-O como Rei. E Ele não Se opõe, não a manda calar (cf. Lc 19, 39-40). Mas, que tipo de Rei seria Jesus? Vejamo-Lo… Monta um jumentinho, não tem uma corte como séquito, nem está rodeado de um exército como símbolo de força. Quem O acolhe são pessoas humildes, simples, que possuem um sentido para ver em Jesus algo mais; têm o sentido da fé que diz: Este é o Salvador. Jesus não entra na Cidade Santa, para receber as honras reservadas aos reis terrenos, a quem tem poder, a quem domina; entra para ser flagelado, insultado e ultrajado, como preanuncia Isaías na Primeira Leitura  (cf. Is 50, 6); entra para receber uma coroa de espinhos, uma cana, um manto de púrpura (a sua realeza será objecto de ludíbrio); entra para subir ao Calvário carregado com um madeiro. E aqui temos a segunda palavra: Cruz. Jesus entra em Jerusalém para morrer na Cruz. E é precisamente aqui que refulge o seu ser Rei segundo Deus: o seu trono real é o madeiro da Cruz! Vem-me à mente aquilo que Bento XVI dizia aos Cardeais: Vós sois príncipes, mas de um Rei crucificado. Tal é o trono de Jesus. Jesus toma-o sobre Si… Porquê a Cruz? Porque Jesus toma sobre Si o mal, a sujeira, o pecado do mundo, incluindo o nosso pecado, o pecado de todos nós, e lava-o; lava-o com o seu sangue, com a misericórdia, com o amor de Deus. Olhemos ao nosso redor… Tantas feridas infligidas pelo mal à humanidade: guerras, violências, conflitos económicos que atingem quem é mais fraco, sede de dinheiro, que depois ninguém pode levar consigo, terá de o deixar. A minha avó dizia-nos (éramos nós meninos): a mortalha não tem bolsos. Amor ao dinheiro, poder, corrupção, divisões, crimes contra a vida humana e contra a criação! E também – como bem o sabe e conhece cada um de nós -os nossos pecados pessoais: as faltas de amor e respeito para com Deus, com o próximo e com a criação inteira. E na cruz, Jesus sente todo o peso do mal e, com a força do amor de Deus, vence-o, derrota-o na sua ressurreição. Este é o bem que Jesus realiza por todos nós sobre o trono da Cruz. Abraçada com amor, a cruz de Cristo nunca leva à tristeza, mas à alegria, à alegria de sermos salvos e de realizarmos um bocadinho daquilo que Ele fez no dia da sua morte.

3. Hoje, nesta Praça, há tantos jovens. Desde há 28 anos que o Domingo de Ramos é a Jornada da Juventude! E aqui aparece a terceira palavra: jovens! Queridos jovens, vi-vos quando entráveis em procissão; imagino-vos fazendo festa ao redor de Jesus, agitando os ramos de oliveira; imagino-vos gritando o seu nome e expressando a vossa alegria por estardes com Ele! Vós tendes um parte importante na festa da fé! Vós trazeis-nos a alegria da fé e dizeis-nos que devemos viver a fé com um coração jovem, sempre: um coração jovem, mesmo aos setenta, oitenta anos! Coração jovem! Com Cristo, o coração nunca envelhece. Entretanto todos sabemos – e bem o sabeis vós – que o Rei que seguimos e nos acompanha, é muito especial: é um Rei que ama até à cruz e nos ensina a servir, a amar. E vós não tendes vergonha da sua Cruz; antes, abraçai-la, porque compreendestes que é no dom de si, no dom de si, no sair de si mesmo, que se alcança a verdadeira alegria e que com o amor de Deus Ele venceu o mal. Vós levais a Cruz peregrina por todos os continentes, pelas estradas do mundo. Levai-la, correspondendo ao convite de Jesus: «Ide e fazei discípulos entre as nações» (cf. Mt 28, 19), que é o tema da Jornada da Juventude deste ano. Levai-la para dizer a todos que, na cruz, Jesus abateu o muro da inimizade, que separa os homens e os povos, e trouxe a reconciliação e a paz. Queridos amigos, na esteira do Beato João Paulo II e de Bento XVI, também eu, desde hoje, me ponho a caminho convosco. Já estamos perto da próxima etapa desta grande peregrinação da Cruz. Olho com alegria para o próximo mês de Julho, no Rio de Janeiro. Vinde! Encontramo-nos naquela grande cidade do Brasil! Preparai-vos bem, sobretudo espiritualmente, nas vossas comunidades, para que o referido Encontro seja um sinal de fé para o mundo inteiro. Os jovens devem dizer ao mundo: é bom seguir Jesus; é bom andar com Jesus; é boa a mensagem de Jesus; é bom sair de nós mesmos para levar Jesus às periferias do mundo e da existência. Três palavras: alegria, cruz, jovens.

Peçamos a intercessão da Virgem Maria. Que Ela nos ensine a alegria do encontro com Cristo, o amor com que O devemos contemplar ao pé da cruz, o entusiasmo do coração jovem com que O devemos seguir nesta Semana Santa e por toda a nossa vida. Assim seja.

Papa Francisco, Praça de São Pedro, XXVIII Jornada Mundial da Juventude, Domingo, 24 de março de 2013

 

Oração Universal

 

Neste Domingo de Ramos na Paixão do Senhor,

com toda a coragem e confiança,

invoquemos a Deus Pai todo-poderoso,

rogando com muita fé:

 

Pela Paixão de vosso Filho, atendei Senhor, as nossas preces.

 

1.     Ajudai, Senhor, o Santo Padre, Bispos, Presbíteros e Diáconos

a testemunhem com a sua vida

a salvação operada em Jesus Cristo,

oremos, irmãos.

 

2.     Auxiliai todos os cristãos

a terem uma maior sensibilidade,

compreensão, bondade e misericórdia

para com todos os irmãos,

oremos, irmãos.

 

3.     Ajudai-nos nas nossas comunidades

a saber servir, compreender, dialogar e respeitar

todos os que a ela pertencem,

sem imposição das nossas próprias ideias,

oremos, irmãos.

 

4.     Amparai os jovens na sua peregrinação a Cracóvia.

Que o espírito de renovação e entusiasmo,

no seguimento a Jesus,

os acompanhem nessa jornada,

oremos, irmãos.

 

5.     Que a experiência quaresmal hoje começada,

nos impulsione a vivermos reconhecidos a Deus,

por todas as graças que nos tem concedido

e a convertermos o nosso coração

às recomendações de Jesus,

oremos, irmãos.

 

Senhor Deus,

Pai de amor infinito,

que com a Paixão de vosso Filho

derrubastes todas as barreiras

que impediam a comunicação com o céu,

vossa morada, e a terra, casa dos homens,

ouvi a nossa oração e concedei-nos aquilo que vos pedimos.

Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,

que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Monição do ofertório

 

As ofertas que apresentamos sobre o altar interpretam todas as preocupações da nossa vida quotidiana, as alegrias e as esperanças. Aceitai-as, Senhor, como sinal da abertura do nosso coração à vossa vontade.

 

Cântico do ofertório: Amai como Eu vos amei, J. Santos, NRMS 87

 

Oração sobre as oblatas: Pela paixão do vosso Filho Unigénito, apressai, Senhor, a hora da nossa reconciliação: concedei-nos, por este único e admirável sacrifício, a misericórdia que nossos pecados não merecem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. E nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Sendo inocente, entregou-Se à morte pelos pecadores; não tendo culpas, deixou-Se condenar pelos culpados. A sua morte redimiu os nossos pecados e a sua ressurreição abriu-nos as portas da salvação.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: M. Luis, NCT nº 297

 

Monição da Comunhão

 

A comunhão do Corpo e Sangue de Cristo identifica-nos com Ele. Saibamos, a partir desta íntima união, viver um cristianismo coerente, testemunhal, em bondade, compreensão e misericórdia, e que seja verdadeiramente responsável.

 

Cântico da Comunhão: Pai, se este cálice, F. da Silva, NRMS 25

Mt 26, 42

Antífona da comunhão: Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-Se a tua vontade.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor é clemente, M. Simões, NRMS 1 (I)

 

Oração depois da comunhão: Saciados com estes dons sagrados, nós Vos pedimos, Senhor: assim como, pela morte do vosso Filho, nos fizestes esperar o que a nossa fé nos promete, fazei-nos também chegar, pela sua ressurreição, às alegrias do reino que esperamos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Ao revivermos a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, saibamos manifestar a nossa boa vontade em vivermos de acordo com o Mistério que agora celebramos. Deixemo-nos tocar pela misericórdia e saibamos acolher o dom do amor gratuito de Deus, que nos amou infinitamente para nos tornar capazes de amar como Jesus, sem medida.

 

Cântico final: Ó cruz bendita, M. Borda, NRMS 43

 

 

Homilias Feriais

 

SEMANA SANTA

 

2ª Feira, 21-III: Acompanhar Cristo durante a Paixão (I)

Is 42, 1-7 / Jo 12, 1-11

Eis o meu servo, a quem protejo, enlevo da minha alma, para que leve a justiça às nações.

A Semana Santa recorda-nos a profecia do 'servo sofredor': «Ele mostra também que, para 'entrar na glória', tem de passar pela Cruz em Jerusalém. A paixão de Jesus é da vontade do Pai. O Filho age como servo de Deus (Leit.)» (CIC 555).

Vamos encontrar também aqueles que estiveram mais em contacto com a paixão de Cristo. Um deles é Judas, que protesta contra os pormenores de carinho para com o Senhor. Outra é Maria de Betânia, que derramou sobre Ele uma libra de perfume caro (Ev.). Sejamos igualmente generosos no acompanhamento do Senhor durante estes dias.

 

3ª Feira, 22-III: Acompanhar Cristo durante a Paixão (II).

Is 49, 1-6 / Jo 13, 21-33. 36-38

Não basta que sejas meu servo. Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra.

Os cânticos do servo anunciam o sentido da paixão de Jesus: luz para as nações e salvação para todos os povos (Leit.).

Hoje encontramos mais dois intervenientes na Paixão (Ev.). Judas abandona apressadamente a sala, onde estava o Senhor com os seus discípulos, para combinar o modo de o entregar aos seus inimigos. Mas Pedro manifesta total disposição de entregar a sua vida pelo Senhor. Lembremo-nos das vezes que o abandonámos e manifestemos-lhe o desejo de o acompanhar sempre, apesar das dificuldades.

 

4ª Feira, 23-III: Acompanhar Cristo durante a Paixão (III).

Is 50, 4-9 / Mt 26,14-25

Onde queres que façamos os preparativos para comermos a Páscoa?

«Na véspera da sua Paixão, Jesus fez desta última Ceia com os Apóstolos (Ev.) o memorial da sua oblação voluntária ao Pai para salvação das almas (CIC 610).

Façamos igualmente uma cuidadosa preparação para esta Páscoa: ofereçamos ao Senhor as indelicadezas que tiverem connosco; ajudemos os que estiverem cansados; ouçamos com mais cuidado a palavra de Deus (Leit.). Aumentemos também o desejo de nos reunirmos com Ele e os discípulos, para celebrarmos a instituição da Eucaristia nesta próxima 5ª Feira e sempre que participarmos na Santa Missa.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:   A. Elísio Portela

Nota Exegética:            Geraldo Morujão

Homilias Feriais:           Nuno Romão

Sugestão Musical:        Duarte Nuno Rocha

 


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