TEMAS LITÚRGICOS

A paramentação: umbral da liturgia celeste

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

Certo dia escutei um sacerdote contar, com grande pormenor, a sua participação numa beatificação que ocorreu em Roma, na Praça de S. Pedro, presidida por S. João Paulo II. Descreveu-nos todos os pormenores que se tiveram em conta na própria madrugada da grande celebração litúrgica. No entanto, um momento especialmente esperado, era a oportunidade de cumprimentar o Papa, minutos antes de começar a cerimónia. No clímax da narração, porém, contou como surgiram alguns imprevistos que os demoraram um pouco mais e, apesar dos esforços, chegaram junto do local onde João Paulo II se paramentava uns instantes depois do mesmo. Faltava ainda um pedaço para que a cerimónia tivesse início, no entanto, o Papa já se tinha começado a paramentar. Por isso, o seu secretário fez-lhes sinal de que já não seria possível falar com o Papa. Olharam-no e viram-no muito concentrado, alheado de tudo e de todos, absolutamente centrado no que iria acontecer dentro de alguns minutos: iria celebrar a Santa Missa.

No número anterior recordámos a ligação entre a ordenação sacerdotal e o Baptismo sublinhada no acto de se paramentar, de se «revestir» com os paramentos litúrgicos, simbolizando o revestir-se de Cristo. Fazemo-lo em cada Eucaristia. Cada vez que a celebramos voltamos a «este evento. O "revestir-se de Cristo", é representado sempre de novo em cada Santa Missa mediante o revestir-nos dos paramentos litúrgicos.»[1]

Com que atitude os devemos colocar? Quais os sentimentos? Que palavras dirigir ao Senhor?

Esses instantes imediatamente anteriores à celebração, curtos e, por vezes, de grande azáfama, são momentos de graça que nos ajudarão a subir ao altar da misericórdia de Deus, onde Cristo se vai entregar pelos nossos pecados e alimentar-nos com o seu Corpo e com a sua Palavra.

Pensando no Ano Santo e nestes instantes prévios à celebração da Santa Missa, vinha-me à memória a imagem de uma pessoa que, ao passar uma porta santa, se detinha no limiar, contemplava o umbral, pareceu-me mesmo que olhava para as mãos e, depois, para o chão. Por fim, lentamente, com unção, quase que com solenidade, atravessava o umbral e entrava no Templo. Este pequeno gesto fez-me reflectir e veio-me à cabeça o momento do sacerdote se paramentar. Ele está no umbral do Céu. Vai participar na liturgia celeste. É lógico que olhe para a porta, para o que há para lá dela e que olhe também para si (aquilo que fez, as mãos, e por onde andou, o chão) e se disponha para celebrar os santos mistérios.

Efectivamente, na tradição, precisamente para ajudar a fomentar essa atitude, havia uma série de ritos e orações. Basta pensar no simples gesto de lavar as mãos na sacristia: «pode ser um primeiro recordatório para o sacerdote da necessidade que tem de se purificar, de se converter antes de entrar a celebrar os sagrados mistérios»[2]. Nalgumas sacristias ainda se pode ver a inscrição da oração:

Da, Domine, virtutem manibus meis ad abstergendam omnem maculam; ut sine pollutione mentis et corporis valeam tibi servire. Dai às minhas mãos, Senhor, o poder de se abster de toda a mácula: para que eu vos possa servir sem mancha do corpo e da alma.[3]

É um gesto. Não interessa se acabei de lavar as mãos ou se as tenho limpas. Trata-se de um gesto que ajuda o sacerdote a pôr a cabeça no Senhor (Da, Domine), na sua alma e a fomentar o desejo de O servir (tibi servire), de não se procurar a si próprio, mas a Deus, para ser canal da graça, ponte entre os fiéis e Deus.

Neste sentido, dizia Bento XVI a propósito do amicto que antigamente se usava:

«No passado e nas ordens monásticas ainda hoje ele era colocado primeiro sobre a cabeça, como uma espécie de capucho, tornando-se assim um símbolo da disciplina dos sentidos e do pensamento necessário para uma justa celebração da Santa Missa. Os pensamentos não devem vaguear aqui e ali por detrás das preocupações e das expectativas da vida quotidiana; os sentidos não devem ser atraídos pelo que ali, no interior da Igreja, casualmente os olhos e os ouvidos gostariam de captar. O meu coração deve abrir-se docilmente à palavra de Deus e estar recolhido na oração da Igreja, para que o meu pensamento receba a sua orientação das palavras do anúncio e da oração[4]

O facto de conseguir guardar uns instantes de recolhimento antes da celebração da Eucaristia, permite este momento de «cair em si», como o filho pródigo. Momento para consciencializar quem somos, quem é o nosso Pai e prepararmos o coração: «Vou ter com meu Pai e dizer-lhe…»[5].

Bento XVI recorda precisamente esta parábola ao olhar para os textos da oração que acompanhavam o acto de colocar a alva. Evoca a veste dominical que o pai ofereceu ao filho pródigo quando regressou a casa esfarrapado e sujo:

«Quando nos aproximamos da liturgia para agir na pessoa de Cristo todos nos apercebemos de quanto estamos longe d'Ele; quanta sujeira existe na nossa vida. Só Ele nos pode dar a veste dominical, tornar-nos dignos de presidir à sua mesa, de estar ao seu serviço».[6]

Daí que se recitasse a oração:

«Dealba me, Domine, et munda cor meum; ut, in sanguine Agni dealbatus, gaudiis perfruar sempiternis».[7].

Revesti-me, Senhor, com a túnica de pureza, e limpai o meu coração, para que, banhado no Sangue do Cordeiro, mereça gozar das alegrias eternas.

O termo latino, branquear (dealbare), é forte e entra mais facilmente pelos olhos (branqueia-me, Senhor, torna-me branco, puro), uma vez que o sacerdote está, nesse momento, a colocar uma túnica branca que o cobre da cabeça aos pés. A alva é portanto, um símbolo da graça santificante recebida no Baptismo, e é considerada também um símbolo da pureza de coração necessária para o ingresso na graça eterna da contemplação de Deus no Céu,[8] de que a Eucaristia é penhor.

Nesta oração há uma clara referência a Ap 7,14. Bento XVI comenta-o da seguinte forma:

«Assim, as orações recordam também as palavras do Apocalipse segundo as quais as vestes dos 144.000 eleitos não eram dignas de Deus por seu mérito. O Apocalipse comenta que eles tinham lavado as suas vestes no sangue do Cordeiro e que deste modo elas estavam brancas como a luz. Já quando era pequeno, perguntei: mas quando se lava uma coisa no sangue, certamente não fica branca! A resposta é: o "sangue do Cordeiro" é o amor de Cristo crucificado. É este amor que torna brancas as nossas vestes sujas; que torna fidedigno e iluminado o nosso espírito obscurecido; que, apesar de todas as nossas trevas, nos transforma a nós próprios em "luz no Senhor". Ao vestir a alva deveríamos recordar-nos: Ele sofreu também por mim. E só porque o seu amor é maior do que todos os meus pecados, posso representá-lo e ser testemunha da sua luz

  No entanto, o Papa não fica apenas com esta imagem. Vai recordar a veste nupcial da qual Jesus nos fala na parábola do banquete de Deus. E vai servir-se de um comentário de S. Gregório Magno que irá sublinhar a necessidade de nos revestirmos do amor misericordioso de Deus:

«Nas homilias de São Gregório Magno encontrei a este propósito uma reflexão digna de realce. Gregório distingue entre a versão de Lucas da parábola e a de Mateus. Ele está convicto de que a parábola de Lucas fala do banquete nupcial escatológico, enquanto segundo ele a versão transmitida por Mateus trataria a antecipação deste banquete nupcial na liturgia e na vida da Igreja. Em Mateus e só em Mateus de facto o rei vai à sala apinhada para ver os seus hóspedes. E eis que nesta multidão encontra também um hóspede sem hábito nupcial, que depois é posto fora, nas trevas. Então Gregório pergunta:  "Mas que espécie de hábito era o que ele não tinha?

Todos os que estão reunidos na Igreja receberam o hábito novo do baptismo e da fé; caso contrário não estariam na Igreja. Portanto, o que falta ainda? Que hábito nupcial deve ainda ser acrescentado?". O Papa responde:  "A veste do amor". E infelizmente, entre os seus hóspedes aos quais tinha oferecido o hábito novo, a veste branca da vida nova, o rei encontra alguns que não vestem o hábito cor de púrpura do dúplice amor para com Deus e para com o próximo. "Em que condição nos queremos aproximar da festa do céu, se não vestimos o hábito nupcial isto é, o amor, o único que nos pode tornar livres?", pergunta o Papa. Uma pessoa sem amor é escura dentro. As trevas externas, de que fala o Evangelho, são apenas o reflexo da cegueira interior do coração (cf. Hom. 38, 8-13).[9]

No momento de subir ao altar de Deus o sacerdote pode recordar a necessidade desta veste, a da caridade, a do amor misericordioso. É a meta para este Ano Santo e certamente poderemos aproveitar esses momentos únicos, em que nos situamos no umbral da liturgia celeste, para receber o abraço do Pai e deixar que, pela sua grande misericórdia, nos revista com o amor do Seu Filho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] BENTO XVI, Missa crismal, 5.IV.2007.

[2] SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 36

[3] DEPARTAMENTO DAS CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS DO SUMO PONTÍFICE, «A vestição dos paramentos litúrgicos e as respectivas orações», www.vatican.va, 16.II.2010

[4] BENTO XVI, Missa crismal, 5.IV.2007.

[5] Lc 15, 18

[6] BENTO XVI, Missa crismal, 5.IV.2007

[7] DEPARTAMENTO DAS CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS DO SUMO PONTÍFICE, «A vestição dos paramentos litúrgicos e as respectivas orações», www.vatican.va, 16.II.2010

[8] Cfr. Mateus 5, 8

[9] BENTO XVI, Missa crismal, 5.IV.2007.


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