A PALAVRA DO PAPA

MARIA, MÃE DE MISERICÓRDIA

 

 

 

Por ocasião da festa de Nossa Senhora de Guadalupe, no passado dia 12 de Dezembro de 2015, o Papa Francisco celebrou a Missa na Basílica de São Pedro, no Vaticano, cuja homilia damos a seguir, como preparação próxima da sua viagem ao Santuário da cidade do México, no próximo dia 13 de Fevereiro.

 

 

«O Senhor teu Deus está no meio de ti [...]. alegra-se e exulta contigo, renova-te com o seu amor; exulta e alegra-se contigo como em dia de festa» (Sof 3, 17-18).

Estas palavras do profeta Sofonias, dirigidas a Israel, podem também ser referidas à nossa Mãe, a Virgem Maria, à Igreja e a cada um de nós, à nossa alma amada por Deus com amor misericordioso. Sim, Deus ama-nos tanto que até se alegra e rejubila connosco. Ama-nos com um amor gratuito, sem limites, sem nada esperar em troca. Ele não gosta do pelagianismo. Este amor misericordioso é o atributo mais surpreendente de Deus, a síntese na qual está resumida a mensagem evangélica, a fé da Igreja.

A palavra «misericórdia» é composta por dois vocábulos: miséria e coração. O coração indica a capacidade de amar; a misericórdia é o amor que abraça a miséria da pessoa. É um amor que «sente» a nossa indigência como se fosse sua, para nos libertar dela. «Nisto consiste o amor: não somos nós que amamos a Deus, mas é Ele que nos amou primeiro e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 9-10). «O Verbo fez-se carne» – Deus também não gosta do gnosticismo –, quis compartilhar todas as nossas fragilidades. Quis experimentar a nossa condição humana, até ao ponto de carregar a Cruz com toda a dor da existência humana. É assim a profundidade da sua compaixão e misericórdia: aniquilar-se para se converter em companhia e serviço à humanidade ferida. Nenhum pecado pode anular a sua proximidade misericordiosa, nem pode impedi-lo de conceder a graça da conversão, contanto que a invoquemos. Mais ainda, o próprio pecado faz resplandecer com maior força o amor de Deus Pai que, para resgatar o escravo, sacrificou o seu Filho. Essa misericórdia de Deus chega até nós com o dom do Espírito Santo que, no Baptismo, torna possível, gera e alimenta a vida nova dos seus discípulos. Por muito grandes e graves que sejam os pecados do mundo, o Espírito que renova a face da terra torna possível o milagre de uma vida mais humana, repleta de alegria e de esperança.

E também nós clamamos com júbilo: «O Senhor é o meu Deus, o meu Salvador!». «O Senhor está perto!», é o que nos diz o apóstolo Paulo; nada nos deve preocupar, Ele está próximo. E não está sozinho, mas com a sua Mãe. Ela dizia a São Juan Diego: «Por que tens medo? Porventura não estou aqui Eu, que sou a tua Mãe?». Está perto, Ele e a sua Mãe! A maior misericórdia reside em estar Ele no meio de nós, na sua presença e companhia. Caminha junto de nós, mostra-nos a senda do amor, levanta-nos quando caímos – e com que ternura o faz! –, sustenta-nos nas nossas fadigas, acompanha-nos em todas as circunstâncias da nossa existência. Abre-nos os olhos para que vejamos as misérias, nossas e do mundo, mas ao mesmo tempo enche-nos de esperança. «E a paz de Deus [...] haverá de guardar os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus» (Flp 4, 7), diz-nos Paulo. Esta é a fonte da nossa vida pacificada e alegre; nada nem ninguém pode roubar-nos esta paz e esta alegria, apesar dos sofrimentos e provações da vida. Com a sua ternura, o Senhor abre-nos o seu Coração, oferece-nos o seu amor. O Senhor é alérgico à rigidez! Cultivemos esta experiência de misericórdia, de paz e de esperança, durante o caminho do Advento que estamos a percorrer e à luz do Ano jubilar. Anunciar a Boa Nova aos pobres, como João Baptista, realizando obras de misericórdia, é um bom modo de esperar a vinda de Jesus no Natal. É imitar Aquele que deu tudo, entregou-se inteiramente. Essa é a sua misericórdia, sem esperar nada em troca.

Deus alegra-se e deleita-se de maneira muito especial em Maria. Numa das orações mais queridas ao povo cristão, a Salve Rainha, chamamos a Maria «Mãe da misericórdia». Ela experimentou a misericórdia divina, e acolheu no seu seio a própria fonte desta misericórdia: Jesus Cristo. Ela, que sempre viveu intimamente unida ao seu Filho, sabe melhor do que ninguém o que Ele quer: que todos os homens se salvem, que a ninguém jamais faltem a ternura e a consolação de Deus. Que Maria, Mãe da misericórdia, nos ajude a compreender quanto Deus nos ama.

A Maria Santíssima confiamos os sofrimentos e as alegrias dos povos de todo o Continente americano, que a amam como Mãe e a reconhecem como «Padroeira», com o título devoto de Nossa Senhora de Guadalupe. Que «a doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos redescobrir a alegria da ternura de Deus» (Bula Misericordiae vultus, 24). A Ela lhe pedimos neste Ano jubilar que seja uma sementeira de amor misericordioso no coração das pessoas, das famílias e das nações; que continue a repetir-nos: «Não tenhas medo, porventura não estou aqui Eu, que sou a tua Mãe, Mãe da misericórdia?» Que nos convertamos em misericordiosos, e que as comunidades cristãs saibam ser oásis e fontes de misericórdia, testemunhas de uma caridade que não admite exclusões! Para lhe pedir isto, de uma maneira forte, irei venerá-la no seu Santuário no próximo dia 13 de Fevereiro. Ali vou pedir-lhe tudo isto para a América inteira, da qual é especialmente Mãe. A Ela suplico-lhe que guie os passos do seu povo americano, povo peregrino que procura a Mãe da misericórdia e só lhe pede uma coisa: que lhe mostre o seu Filho Jesus!

 

 

 

 

 

 

 

 


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