3º Domingo Comum

24 de Janeiro de 2016

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Cantai ao Senhor um cântico novo, Az. Oliveira, NRMS 48

 

Salmo 95, 1.6

Antífona de entrada: Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, terra inteira. Glória e poder na sua presença, esplendor e majestade no seu templo.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Igreja, mergulhada no Mistério da Páscoa do Senhor, renova em cada Domingo a possibilidade de redimensionar a vida diante do acontecimento de Cristo morto e ressuscitado. Este mesmo acontecimento chama-nos à capacidade de excluirmos do nosso horizonte uma visão sociológica da Igreja, mas abertos à universalidade de dons concedidos à Igreja na sua expressão vivencial e humana. A liturgia é a assembleia convocada pelo Senhor para que, nela, se participe na Glória prometida com a gratidão de quem faz a experiência de ter sido salvo em Cristo Jesus.

 

Oração colecta: Deus todo-poderoso e eterno, dirigi a nossa vida segundo a vossa vontade, para que mereçamos produzir abundantes frutos de boas obras, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A leitura que vamos escutar, retirada do Livro de Neemias, é uma das passagens bíblicas que melhor exprime o lugar central que tem a Palavra de Deus na liturgia e, consequentemente, na vida de cada crente. Somos assembleia convocada por Deus, para que o mesmo Deus seja o centro do nosso existir.

 

Neemias 8, 2-4a.5-6.8-10

Naqueles dias, 2o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. 3Desde a aurora até ao meio dia, fez a Leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a Leitura do Livro da Lei. 4aO escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, 5Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. 6Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todos responderam, erguendo as mãos: «Amen! Amen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor. 8Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. 9Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –. 10Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».

 

Estamos num dos momentos mais expressivos da vida do povo eleito, após o desterro de Babilónia, uma das pedras miliárias da sua história: marca a reconstrução da vida da nação, a instauração oficial do judaísmo propriamente dito, em que o acento já não se põe tanto no Templo, mas na Lei, por isso a sua leitura não aparece feita no lugar sagrado, mas «no largo situado diante da Porta das Águas» (v. 3).

2 «Esdras», o grande organizador do Povo de Deus após o desterro, em pleno séc. V a. C., como comunidade judaica, uma fraternidade religiosa, uma verdadeira «igreja» estruturada na Lei de Moisés. «O primeiro dia sétimo mês, isto é, do mês correspondente a Setembro-Outubro, chamado «Tisri»; este dia correspondia ao início dos sete dias da festa dos Tabernáculos (parece que coincidia com a festa do Ano Novo), que o capítulo 9 deixa ver como anterior à festa da Expiação, um artifício para mostrar como a leitura da Lei levou à penitência, ligada ao Yôm Kippur (cf. Lv 23, 26-32).

9 «Todo o povo chorava», naturalmente, ao tomar consciência bem clara de que tinha quebrantado a Lei, merecendo os castigos nela cominados. De qualquer modo, a contrição não devia impedir a alegria, antes pelo contrário, pois era a ocasião asada para uma solene renovação da aliança (cf. capítulo 10).

 

Salmo Responsorial     Sl 18 B (19), 8.9.10.15 (R. Jo 6, 63c)  

 

Monição: A vida do Homem é sustentada pela riqueza da Palavra de Deus. Por mais voltas que o nosso coração possa dar, a sua alegria, o seu conforto e o seu amparo dependem sempre da continua firmeza com que Deus se dirige a cada homem e que com ele quer entrar em comunhão.

 

Refrão:        As vossas palavras, Senhor,

                     são espírito e vida.

 

A lei do Senhor é perfeita,

ela reconforta a alma;

as ordens do Senhor são firmes,

dão sabedoria aos simples.

 

Os preceitos do Senhor são rectos

e alegram o coração;

Os mandamentos do Senhor são claros

e iluminam os olhos.

 

O temor do Senhor é puro

e permanece eternamente;

os juízos do Senhor são verdadeiros,

todos eles são rectos.

 

Aceitai as palavras da minha boca

e os pensamentos do meu coração

estejam na vossa presença:

Vós, Senhor, sois o meu amparo e redentor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A experiência da Fé requer um olhar atento à multiplicidade de dons que Deus concede à Igreja. A leitura que vamos escutar é rica na explicação que faz do dom que cada um de nós representa na comunidade cristã, revelando que todos somos essenciais na nossa experiência como Igreja, Corpo Místico de Cristo.

 

Forma longa: 1 Coríntios 12, 12-30;    forma breve: 1 Coríntios 12, 12-14.27

Irmãos: 12Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. 13Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. 14De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos.

 [15Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 16E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 17Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? 18Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. 19Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? 20Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. 21O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». 22Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; 23os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: 24os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados. Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, 25para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros. 26Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele.]

27Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte.

[28Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. 29Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? 30Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar?]

 

Continuamos hoje a leitura do domingo anterior, fazendo a apologia da unidade da Igreja dentro da legítima diversidade: «Assim como o corpo...». A comparação não é original, mas da literatura profana. S. Paulo adapta-a maravilhosamente à Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver rivalidades e divisão: «Vós sois Corpo de Cristo» (v. 27). Já está aqui latente a doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e Efésios. No entanto, ainda não se considera de facto a Igreja universal, o Corpo de Cristo (com artigo); apenas se considera que os cristãos de Corinto são um organismo – «corpo» (sem artigo!) – dependente de Cristo e com a mesma vida de Cristo (v. 27).

13 «E a todos nos foi dado beber um único Espírito». Os exegetas, tendo em conta que no v. anterior já se tinha falado do Baptismo, pensam que pode haver aqui uma referência ao Sacramento da Confirmação, pois que então estes Sacramentos se costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-61).

27 «Seus membros, cada um por sua parte». A Vulgata diz: «membros uns dos outros», devido a uma confusão de palavras gregas: «melos» (membro) por «meros» (parte).

 

Aclamação ao Evangelho          Lc 4, 18

 

Monição: A passagem do Evangelho que vamos escutar, retirada do início da narração evangélica de São Lucas, assegura a importância que tem um bom e seguro conhecimento da vida de Cristo. Esta preocupação descrita por S. Lucas faz com que a nossa escuta do Evangelho seja possibilidade de Salvação, onde as promessas de Deus são certezas no acontecimento salvífico de Cristo.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação-2, F. da Silva, NRMS 50-51

 

O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres,

a proclamar aos cativos a redenção.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

1Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, 2como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, 3também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, 4para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado.

14Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. 16Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. 17Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: 18«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos 19e a proclamar o ano da graça do Senhor». 20Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

 

A leitura faz preceder o início da pregação de Jesus (4, 14) do célebre prólogo do III Evangelho (1, 1-4) da autoria de Lucas, que se mostra como um historiador sério e um bom cultor da língua grega de cunho clássico.

1 «Muitos». Referência à grande diversidade de escritores, em que se devem incluir os escritos inspirados: um primitivo Evangelho de Mateus e o Evangelho de S. Marcos, fontes que utilizou abundantemente. Sobre outros escritos prévios nada de certo sabemos, mas a crítica interna dos Evangelhos faz-nos entrever nos Sinópticos a preexistência de pequenos fragmentos que deixaram rastos na falta de conexão entre muitas perícopes e no agrupamento artificial de vários episódios sobre um mesmo tema. É natural que tais documentos parciais e provisórios se tenham perdido, ao aparecerem os Evangelhos canónicos.

«Factos que se realizaram entre nós». O Evangelho transmite-nos factos realmente acontecidos e muito próximos, daquela mesma época, por isso diz: «entre nós».

2 «Como no-los transmitiram...». S. Lucas não é um discípulo directo de Cristo, mas conhece com verdade os acontecimentos que vai referir através de testemunhas do máximo valor, por um lado, «testemunhas oculares» e, por outro, «ministros da palavra», isto é, do Evangelho; os mesmos que tinham a missão de pregar tinham sido antes testemunhas oculares. Entre as testemunhas oculares, como fonte de informação de Lucas, devem-se pôr os Apóstolos e, com toda a probabilidade, a SSª Virgem, as Santas Mulheres, os «irmãos de Jesus» e outras pessoas que conviveram com Ele.

3 «Também eu resolvi… escrevê-las». Isto em nada contradiz a acção de Deus ao inspirar S. Lucas, uma vez que Ele pode influir na inteligência e na vontade do homem, mesmo sem que este dê conta desse influxo. «Por ordem» (temos no original grego kathexês, que a tradução litúrgica omitiu, talvez uma errata a corrigir). Embora o seu Evangelho não seja primariamente uma biografia sistemática – uma crónica – com todos os dados possíveis sobre a vida de Jesus, também não se limita a um mero ensinamento doutrinal sobre a mensagem de Jesus. S. Lucas pretende transmitir-nos esta mensagem dentro dum vasto quadro histórico de acontecimentos, mas sem a preocupação duma minúcia cronológica maior do que aquela que as suas fontes lhe forneciam. Há, porém, como faz ver, o cuidado de uma certa ordem lógica.

3-4 «Depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens». S. Lucas não é um, mero «evangelista» que se preocupe só com transmitir uma mensagem, ele tem uma preocupação cuidadosa de tudo investigar desde o início e com um fim muito concreto, a saber, que o leitor possa «ter um conhecimento seguro do que lhe foi ensinado». É sabido que Lucas tem uma visão teológica própria; é um teólogo da história, com mentalidade de historiador; de modo nenhum um criador estórias. O pregador do Evangelho avança de mãos dadas com o historiador e o apologista.

«Ilustre Teófilo». O adjectivo faz supor que se trata de um cristão de elevada condição (um mecenas?), a pessoa a quem Lucas dedica os seus dois livros. O título de «ilustre» ou «excelentíssi­mo» usava-se para a nobreza romana e para pessoas com altos cargos na administração do Estado.

4, 14 É aqui que começa S. Lucas a narrar o ministério de Jesus com a pregação na Galileia. «Com a força do Espírito», o mesmo é dizer que com a força e poder divino que estavam em Jesus, dada a sua natureza divina. Há em S. Lucas, uma constante referência ao Espírito Santo, que é um «leitmotiv» desta obra e de Actos. Com efeito, estamos nos tempos messiânicos, e Jesus é o Messias e, como tal, portador do «Espírito do Senhor» (v. 18).

16-21 «Foi então a Nazaré». Não se sabe se S. Lucas, nesta passagem, narra a mesma visita à sua terra natal contada pelos outros evangelistas (cf. Mt 13, 54-58; Mc 6, 1-6), ou se outra, ou se funde duas visitas num único relato. De qualquer modo, ao apresentá-la logo no início da vida pública, não teve em vista uma simples ordem cronológica, mas sim uma ordem lógica, melhor dito, teológica, com o intuito de começar por fazer ver que Jesus é o Messias, aqui o «Pregoeiro (mebasser) de boas notícias (besorá, evangelho), sobre quem repousa o Espírito Santo, segundo o oráculo de Isaías (Is 61, 1-2). «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura» (v. 21) equivale a dizer «Eu sou esse pregoeiro de boas notícias aos pobres».  J. Dupont diz que, com este relato inicial, Lucas pretende, logo de entrada, sugerir a resposta a três questões fundamentais: quem é Jesus, qual a sua missão, e a quem se destina esta sua missão.

18 «O Espirito… me ungiu». A unção no A. T. era para pessoas que tinham uma missão especial dada por Deus: o rei (1 Sam 9, 16; 2 Sam 5, 1-13), o sacerdote (Ex 29, 7; 40, 15), o profeta (para este, pode ser em sentido simbólico: Is 61, 1; Ez 16, 9), sendo assim o messias davídico o ungido por excelência. A Teologia explicita o símbolo da unção recebida por Jesus no momento da Incarnação: designa em especial a chamada «união hipostática», em que a natureza humana é assumida pela Pessoa do Verbo. Note-se que de Jesus não se diz, como dos Santos, que recebeu graças e dons do Espírito Santo, mas diz-se que foi ungido, para indicar a plenitude de graça recebida com a união hipostática, de cuja plenitude todos nós recebemos (cf. Jo 1, 16).

«Os pobres», aparecem explicitados pelo paralelismo da segunda parte do v. 18: «os cativos, os cegos, os oprimidos». Trata-se duma noção desenhada na pregação dos profetas (cf. Sam 2, 3), fortemente espiritualizada – a dos anawim (pobres) – que é retomada por Jesus (cf. Mt 5, 3; 18, 9-14). Jesus não se dirige a uma determinada classe ou condição social, mas sobretudo àqueles que têm uma determinada atitude religiosa de indigência, humildade e abertura perante Deus, própria de quem confia na sua misericórdia, e não nos méritos ou recursos pessoais. Com efeito, o sentido desta passagem não se esgota na preocupação de Jesus pelos «pobres», que são os «presos», os «cegos», os «oprimidos», no sentido de miséria física, pois Jesus, podendo fazê-lo, não curou todos os doentes, nem resolveu todos os problemas de miséria. Jesus e a sua Igreja (cf. Lumen Gentium, n.° 8) preocupam-se pelos necessitados, mas a sua missão não se reduz à beneficência e promoção humana, nem sequer se pode centrar nela; o seu objectivo é a redenção da miséria do pecado, causa de todos os males, é a libertação da escravidão do demónio e da morte eterna.

19 «Um ano favorável». Alusão clara ao ano jubilar judaico de 50 em 50 anos (Lv 25, 8-10), em que ficavam libertos os homens e as terras que por necessidade tinham sido vendidos. Esta libertação material era uma espécie de utopia – não está suficientemente documentada a sua prática na história de Israel – que simboliza e prefigura a libertação espiritual e redenção trazida pelo Messias.

 

Sugestões para a homilia

 

1.     TODO O POVO CHORAVA, AO ESCUTAR AS PALAVRAS DA LEI: O viver como discípulos de Cristo não pode partir de pressupostos meramente humanos, mas de uma vontade imensa de colocar a ordem das coisas e das prioridades nos seus devidos lugares. Na nossa vida, quase tudo tem o seu lugar, e a boa articulação das prioridades são um verdadeiro substrato para se poder fazer um caminho de felicidade que seja profundo e autêntico. O modo como o Livro de Neemias relata o momento em que o Povo de Deus se reúne para escutar a Lei é um verdadeiro ensinamento para o modo como, também hoje, nos colocamos em atitude de escutar a Palavra, de escutar o próprio Deus. Na divina liturgia a proclamação da Palavra de Deus não é um ritual, uma norma, uma ambientação ou uma simples narração literária. Muito menos se pode olhar a proclamação da Palavra de Deus como um conjunto de ensinamentos sapienciais que justificam as nossas vidas, orientam os nossos caprichos ou elevam o coração. A divina liturgia, ao reservar um tempo para a escuta da Palavra, convida os cristãos a olharem esta mesma Palavra com os olhos da fé, ou seja, com os olhos de quem ama e acredita no Amor. Por isso, o momento da proclamação da Palavra de Deus, é o início dinâmico da intimidade do Coração de Deus com o coração de cada um de nós, o qual culminará com a comunhão do próprio Corpo do Senhor. Deste modo, a escuta da Palavra de Deus é, por antonomásia, o lugar em que o homem se predispõe a silencia-se a si e ao mundo para que o seu vazio seja preenchido pela força e pelo Amor de Deus. Só na atitude de quem escuta poder-se-á falar de experiência de fé, nomeadamente quando essa escuta se traduz em interpelação, em denúncia, em conversão e em reconhecimento das maravilhas e do Amor de Deus para connosco. Esta é a nossa alegria, uma alegria que faz chorar de emoção, porque é uma alegria que é sondada no Coração de Deus, sempre possível quando escutamos o que Ele nos fala.

 

2.     FOMOS BAPTIZADOS PARA CONSTITUIRMOS UM SÓ CORPO: A noção de Igreja não nasce daquilo que possam ser as formulações pessoais ou sociais que a experiência subjectiva permite, nem mesmo se pode permitir que a Igreja e o seu significado se tornem reféns das arbitrariedades de tendências que possam existir ou predominar. A Igreja, à luz de toda a Sagrada Escritura, da Tradição e do Magistério, é um Corpo Orgânico, que pertence a Cristo, que caminha para o Pai e que é lugar e Templo onde o Espírito Santo assenta a Sua morada no meio dos Homens. Assim sendo, diante de tendências espiritualizantes desencarnadas do Mistério da Igreja ou de outras tendência mais sociológicas do ser da Igreja, é necessário compreender a experiência ontológica da Igreja à luz da leitura da Epistola de S. Paulo proposta para este Domingo. A Igreja, enquanto Corpo Místico de Cristo, não prescinde de nenhum dos seus membros, não distingue nenhum dos seus membros, não marginaliza nenhum dos seus membros e jamais também promove algum para além daquilo que ela pode dar pelo Baptismo: a condição de filhos de Deus. Assim sendo, rompendo com algumas categorizações mais facilitadoras das experiências e vivências de cada uma das nossas comunidades, em que alguns poderão usurpar aos outros a dignidade que todos temos no seio da Igreja, é necessário olhar com objectividade para o dom que corresponde a cada um ser no meio da sua comunidade, não só pelas suas capacidades, mas também pela sua personalidade, o seu afã de santidade e a sua intimidade com a Cabeça da Igreja, que é Cristo. Assim sendo, só é compreensível o dinamismo de Corpo de Cristo na comunidade cristã quando todos, pelo baptismo, se sentirem pertença de Jesus Cristo, articulados com Ele e sujeitos à lei do Amor manifestada na Sua entrega por esta mesma Igreja, que é o Seu Corpo.

 

3.     CUMPRIU-SE HOJE MESMO: Quando olhamos a vida de Jesus nem sempre nos é possível a clarividência de a relacionar com toda a História da Salvação, nomeadamente com tudo o que era anunciado e esperado no Povo de Israel. O acontecimento de Cristo não é um acontecimento isolado e estático no tempo, mas é transversal em toda a história de Deus com os homens. Por isso, a narração feita neste Domingo pelo Evangelista S. Lucas faz-nos perceber o Mistério de Cristo. A fama de Jesus, o modo como ensinava, a atenção que captava no seu meio não são o mais importante, até porque sabemos o modo horrendo como terminou a sua vida terrena. O importante na vida de Jesus ultrapassa o fenómeno mais especulativo, para se centrar na Sua missão de Redentor da Humanidade, à luz das promessas de Deus para com o Homem. Em Jesus cumprem-se todas as promessas e todas as esperanças, pois Ele é a Palavra Incarnada, Ele é Deus no meio dos homens. Assumindo, em Cristo, a condição humana e o mundo dos Homens, Deus cumpre tudo quanto tinha anunciado. Esta certeza, relatada hoje no Evangelho escutado, faz-nos olhar com muita intensidade para a necessária intimidade que Deus espera de nós, na medida que conhecê-lo implica uma relação de amizade intima e profunda. Nos tempos de hoje também nós somos estes “teófilos” a quem se dirige S. Lucas, porque a escuta do Evangelho nos leva a assumir a amizade e a intimidade com o Senhor como a prioridade das nossas vidas.

 

 

 

Fala o Santo Padre

 

«Antes de poder falar de Deus e com Deus, é preciso ouvi-lo,

e a liturgia da Igreja é a «escola» desta escuta do Senhor que nos fala.»

Prezados irmãos e irmãs

A liturgia hodierna apresenta-nos, unidos, dois trechos distintos do Evangelho de Lucas. O primeiro (1, 1-4) é o prólogo, dirigido a um certo «Teófilo»; dado que em grego este nome significa «amigo de Deus», nele podemos ver cada fiel que se abre a Deus e quer conhecer o Evangelho. O segundo trecho (4, 14-21), ao contrário, apresenta-nos Jesus que «com o poder do Espírito» vai sábado à sinagoga de Nazaré. Como bom observante, o Senhor não se subtrai ao ritmo litúrgico semanal e une-se à assembleia dos seus compatriotas na oração e na escuta das Escrituras. O rito prevê a leitura de um texto da Tora, ou dos Profetas, seguida de um comentário. Naquele dia, Jesus ergueu-se para ler e encontrou um trecho do profeta Isaías que começa assim: «O espírito do Senhor repousa sobre mim, / porque o Senhor me consagrou pela unção; / enviou-me a levar a boa nova aos humildes» (61, 1). Orígenes comenta: «Não é por acaso que ele abriu o rolo e encontrou o capítulo da leitura que profetiza acerca dele, mas também isto foi obra da providência de Deus» (Homilias sobre o Evangelho de Lucas, 32, 3). Com efeito, após ter terminado a leitura, num silêncio repleto de atenção, Jesus disse: «Hoje cumpriu-se este oráculo que [agora] vós acabais de ouvir» (Lc 4, 21). São Cirilo de Alexandria afirma que o «hoje», inserido entre a primeira e a última vinda de Cristo, está vinculado à capacidade que o fiel tem de ouvir e de se arrepender (cf. pg 69, 1241). Mas, num sentido ainda mais radical, o próprio Jesus é o «hoje» da salvação na história, porque leva a cumprimento a plenitude da redenção. O termo «hoje», muito querido a são Lucas (cf. 19, 9; 23, 43), leva-nos ao título cristológico preferido pelo mesmo evangelista, ou seja, «salvador» (sōtēr). Já nas narrações da infância, ele é apresentado com as palavras que o anjo dirigiu aos pastores: «Hoje nasceu-vos na Cidade de David um Salvador, Cristo Senhor» (Lc 2, 11).

Caros amigos, este trecho interpela-nos «hoje» também a nós. Antes de tudo, faz-nos pensar no nosso modo de viver o domingo: dia do descanso e da família, mas antes ainda dia a dedicar ao Senhor, participando na Eucaristia, na qual nos alimentamos do Corpo e Sangue de Cristo e da sua Palavra de vida. Em segundo lugar, no nosso tempo dispersivo e distraído, este Evangelho convida-nos a interrogar-nos sobre a nossa capacidade de escuta. Antes de poder falar de Deus e com Deus, é preciso ouvi-lo, e a liturgia da Igreja é a «escola» desta escuta do Senhor que nos fala. Enfim, diz-nos que cada momento pode tornar-se um «hoje» propício para a nossa conversão. Cada dia (kathēmeran) pode tornar-se o hoje salvífico, porque a salvação é história que continua para a Igreja e para cada discípulo de Cristo. Este é o sentido cristãos do «carpe diem»: aproveita o hoje em que Deus te chama para te conceder a salvação!

A Virgem Maria seja sempre o nosso modelo e a nossa guia, para sabermos reconhecer e acolher, em cada dia da nossa vida, a presença de Deus, Salvador nosso e de toda a humanidade.

Papa Bento XVI, Angelus, Praça de São Pedro, 27 de Janeiro de 2013

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Oremos a Deus Pai todo-poderoso,

para que a Palavra revelada e o trabalho de cada dia

se tornem, para todos os homens, fonte de salvação,

e peçamos (ou: e cantemos), confiadamente:

R. Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Senhor, nós temos confiança em Vós.

Ou: Senhor, vinde em nosso auxílio.

 

1. Pela Igreja católica e por todas as comunidades separadas,

 para que tenham verdadeiro desejo da unidade

 e respeitem as riquezas espirituais umas das outras,

 oremos.

 

2. Pela nossa Pátria e por todas as nações,

 para que progridam na paz e na justiça,

 em liberdade, respeito mútuo e concórdia,

 oremos.   

 

3. Por aqueles que anunciam o Evangelho,

 para que o Espírito os ensine a falar como Jesus,

 ao explicar a Palavra na sinagoga de Nazaré,

 oremos.     

 

4. Por todos os que sofrem e desanimam,

 para que Deus venha em sua ajuda

 e os confirme na esperança e na alegria,

 oremos.   

 

5. Por todos nós aqui reunidos no Senhor,

 para que hoje se cumpra também em nós

 a passagem da Escritura que escutámos,

 oremos.    

 

Concedei, Senhor, à vossa Igreja

a graça de saber anunciar, com fidelidade,

a Boa Nova que o vosso Filho Jesus Cristo

proclamou na sinagoga de Nazaré.

Ele que vive e reina por todos os séculos dos séculos.

 

 

 

 

 

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: O Amor de Deus Repousa em Mim, M. Luis, NCT 388

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, e santificai os nossos dons, a fim de que se tornem para nós fonte de salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: F. dos Santos, NCT 201

 

Monição da Comunhão

 

No Evangelho escutávamos que “estavam fixos em Jesus os olhos de toda a Sinagoga”. Assim deve acontecer connosco, já não com a incredulidade ou desconfiança dos Judeus, mas com a certeza de quem olha para Jesus e deseja saborear n’Ele e por Ele a Salvação esperada desde os tempos antigos. Abeiremo-nos de Jesus para participar da Sua Vida.

 

Cântico da Comunhão: Cantemos um Salmo de Glória, Az. Oliveira, NRMS 84

 

Salmo 33, 6

Antífona da comunhão: Voltai-vos para o Senhor e sereis iluminados, o vosso rosto não será confundido.

 

Ou

Jo 8, 12

Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor. Quem Me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.

 

Oração depois da comunhão: Deus omnipotente, nós Vos pedimos que, tendo sido vivificados pela vossa graça, nos alegremos sempre nestes dons sagrados. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Na leitura do Livro de Neemias escutávamos o modo como terminou aquele magnifico momento em que celebravam as maravilhas de Deus. Hoje, ao terminar a Santa Missa, somos convidados a sair com a mesma intensidade de vida que outrora experimentou o Povo de Deus no tempo de Neemias: “Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a Nosso Senhor, portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza”.

 

Cântico final: Somos Testemunhas, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

 

Homilias Feriais

 

3ª SEMANA

 

2ª Feira, 25-I: A conversão de S. Paulo.

Act 22, 3-16 ou Act 9, 1-22 / Mc 16, 15-18

Caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?

S. Paulo deduzirá destas palavras de Cristo (Leit.) a doutrina do Corpo Místico de Cristo: o que se faz a um dos membros faz-se à Cabeça, o que acontece a um membro repercute-se em todos os outros.

Contribuiremos para a unidade da Igreja se oferecemos as incomodidades de cada dia, se cumprirmos melhor os nossos deveres e lhes dermos um maior sentido sobrenatural. E contribuiremos para a expansão da Igreja, seguindo o mandato de Cristo, através da proclamação da Boa Nova (Ev.).

 

3ª Feira, 26-I: S. Timóteo e Tito: conselhos para ambientes difíceis.

2 Tim 1, 1-8 ou Tit 1, 1-5 / Lc 10, 1-9

Ide, olhai que vos mando em missão como cordeiros para o meio dos lobos.

Timóteo e Tito foram dois discípulos e colaboradores de S. Paulo. Tiveram a seu cargo as igrejas de Éfeso e Creta.

No cumprimento da sua missão, encontraram o cenário profetizado por Cristo: «Como cordeiros no meio de lobos» (Ev.). Para ajudá-los, S. Paulo escreveu, desde a sua prisão em Roma, as chamadas Epístolas Pastorais, recomendando-lhes como cuidar dos pobres e dos fiéis, para se manterem firmes na fé, como lhes ensinara (Leit.). São conselhos também para nós, quando encontrarmos as dificuldades do ambiente.

 

4ª Feira, 27-I: Deus quer conversar connosco.

2 Sam 7, 4-17 / Mc 4, 1-20

Não entendeis esta parábola? O que o semeador semeia é a palavra.

«Na sagrada Escritura, a Igreja encontra igualmente o seu alimento e a sua força, porque nela não recebe uma palavra humana, mas o que ela é na realidade: a palavra de Deus (Ev.). Nos livros sagrados, com efeito, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos, a conversar com eles» (CIC, 104).

Procuremos ler, se possível, todos os dias, o Novo Testamento, e ouvir com muita atenção a proclamação da palavra de Deus na Missa. É o nosso Pai que nos fala, que conversa connosco. Assim fez com David. Enviou-lhe uma extensa mensagem através do profeta Natã (Leit.).

 

5ª Feira, 28-I: A Verdade: fidelidade e luz.

2 Sam 7, 18-19. 24-29 / Mc 4, 21-25

Quem sou eu, Senhor, quem é a minha casa, para me terdes feito chegar àquilo que sou?

«David é, por excelência, o rei segundo o coração de Deus. Ungido de Deus, a sua oração é adesão à promessa divina (Leit.), confiança amorosa e alegre nAquele que é o único Rei e Senhor» (CIC, 2579).

A confiança de David está apoiada nas palavras de Deus: Vós é que dizeis palavras de Verdade (Leit.). Podemos confiar plenamente na verdade e fidelidade das palavras de Deus. É essa Verdade, que é Cristo, que há-de iluminar o nosso dia e cada uma das nossas acções: a Verdade não se pode esconder debaixo da cama (Ev.).

 

6ª Feira, 29-I: O bom fruto da semente divina.

2 Sam 11, 1-4. 5-10. 13-17 / Mc 4, 26-34

O reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. Dorme e levanta-se enquanto a semente germina e cresce.

A palavra do Senhor compara-se à semente lançada ao campo; depois, por força própria, a semente germina e cresce até ao tempo da messe. Deus serve-se do que é pequeno para agir no mundo e nas almas (Ev.). Assim aconteceu com os Apóstolos, os primeiros cristãos, etc. Agora cada um de nós é o grão de mostarda em relação à tarefa da recristianização do ambiente.

Mas o demónio também se serve de pequenos descuidos (má semente) para conduzir as almas ao pecado. Foi o que aconteceu com o rei David: deixou crescer a semente da sensualidade, cometeu adultério e foi causa da morte de um seu general (Leit.). É semente que não devemos deixar crescer.

 

Sábado, 30-I: A inveja, a humildade e a fé.

2 Sam 12, 1-7. 10-17 / Mc 4, 35-41

Apoderou-se da ovelha do pobre e mandou-a preparar para o seu hóspede.

Quando o profeta Natã quis estimular o arrependimento do rei David, contou-lhe esta história do pobre, que só possuía uma ovelha, e o rei, com muitos rebanhos, que acabou por tirar-lha (Leit.). A inveja pode conduzir aos maiores crimes: «Foi precisamente pela inveja do demónio que a morte entrou no mundo» (CIC, 2538).

Para evitar a inveja precisamos viver a virtude da humildade, que nos ajudará a desejar só bem do próximo. E também a fé, pela qual pomos toda a confiança em Deus. Jesus tem pena da falta de fé dos seus discípulos: «como é que não tendes fé?» (Ev.).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Ricardo Cardoso

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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