Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Missa da Vigília

24 de Dezembro de 2015

 

Esta Missa diz-se na tarde do dia 24 de Dezembro, antes ou depois das Vésperas I do Natal.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Vinde, Senhor, P. Borda, NRMS 7 (II)

 

cf. Ex 16, 6-7

Antífona de entrada: Hoje sabereis que o Senhor vem salvar-nos. Amanhã vereis a sua glória.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Ultimam-se os trabalhos para a reunião de família nesta feliz noite de Natal, para que todos se sintam bem à volta da mesma mesa.

A família reúne-se para esperar junta a chegada do Redentor do mundo que vem ao nosso encontro.

Também nós estamos aqui a celebrar a Vigília do Natal com o mesmo espírito. É a esperança que nos mantém unidos.

 

Acto penitencial

 

Peçamos ao Senhor que purifique o nosso coração, para que recebamos em festa Jesus Menino que vem para nos salvar.

Peçamos perdão de todas as manchas que desagradam aos Seus divinos olhos e prometamos um esforço sério para nos emendarmos.

 

(Tempo de silêncio. Sugerimos o esquema penitencial A)

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que todos os anos nos alegrais com a esperança da salvação, concedei-nos a graça de vermos sem temor vir um dia como Juiz Aquele que em alegria recebemos como Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Isaías insiste em que Deus não Se esqueceu nem revogou as prometas feitas ao Seu Povo eleito. Ele será o predilecto do Senhor.

Esta promessa é também para cada um de nós, Nunca temos razão para duvidar do amor de Deus por nós, seja qual for a nossa vida errada.

 

Isaías 62, 1-5

2Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. 2Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis da terra a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. 3Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. 4Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta»; mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. 5Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.

 

Neste trecho, extraído da parte central do Terceiro Isaías (Is 56, 1 – 66, 24), em que se anuncia uma salvação universal a parir de Jerusalém, temos aqui um belo canto a esta cidade (Sião), que o Profeta anseia por ver renovada após a prova do exílio de Babilónia.

1 «A sua justiça», ao aparecer paralela a «a sua salvação» (1b) e a «a tua glória» (v. 2), vê-se que se trata duma justiça que visa mais a acção de Deus que salva e glorifica Jerusalém, do que o simples restabelecimento dos direitos espezinhados. Esta «justiça que desponta como a aurora» é o prenúncio e a figura da vinda de Jesus Cristo à terra, o «Sol da Justiça» (cf. Mal 3, 20). A Vulgata (já não assim a Nova Vulgata) tinha personificado (na linha da Septuaginta) esta «justiça» e esta «salvação», traduzindo por «justo» e «salvador» (iustus eius et salvator eius). Se o profeta, em primeira intenção, visa a restauração de Jerusalém após o exílio, a profecia tem o seu pleno cumprimento com a vinda do Messias.

4-5 «Abandonada»: Jerusalém, durante o exílio, é comparada a uma esposa abandonada. Este anúncio feliz tem um cumprimento imediato e imperfeito com o regresso do cativeiro de Babilónia, mas o seu pleno cumprimento dá-se na Igreja, a nova Jerusalém (cf. Apoc 21, 2), a fiel «Esposa» de Cristo, «santa e imaculada» (Ef 5, 27). «O teu Construtor te desposará»: a Nova Vulgata, contra o que seria de esperar, manteve a tradução da Vulgata: «os teus filhos te desposarão», mas não assim as traduções modernas em geral (apesar da pontuação massorética); a confusão deve-se a que as mesmas consoantes hebraicas de bnyk, podem traduzir-se das duas maneiras, conforme as vogais adoptadas; a tradução grega dos LXX optou pela versão que fazia mais sentido, «o teu construtor», na linha tradicional de apresentar Deus como esposo do seu povo.

 

Salmo Responsorial     Sl 88 (89), 4-5.16-17. 27 e 29 (R. 2a)

 

Monição: A única resposta possível a tanta bondade do Senhor para connosco é entoar um cântico de acção de gratidão.

Vivamos permanentemente em acção de graças pelas maravilhas que Deus opera em nosso favor.

 

Refrão:        Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.

 

Concluí uma aliança com o meu eleito,

fiz um juramento a David meu servo:

Conservarei a tua descendência para sempre,

estabelecerei o teu trono por todas as gerações.

 

Feliz o povo que sabe aclamar-Vos

e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto.

Todos os dias aclama o vosso nome

e se gloria com a vossa justiça.

 

Ele me invocará: ‘Vós sois meu Pai,

meu Deus, meu Salvador’.

Assegurar-lhe-ei para sempre o meu favor,

a minha aliança com ele será irrevogável.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo, na sinagoga de Antioquia da Pisídia, dá um vibrante testemunho acerca da divindade de Jesus Cristo, Filho de David.

Ele é verdadeiramente o Salvador prometido aos Patriarcas e anunciado ao longo dos séculos pelos Profetas.

 

 

Actos 13, 16-17.22-25

Naqueles dias, 16Paulo chegou a Antioquia da Pisídia. Uma vez em que ele estava na sinagoga, levantou-se, fez sinal com a mão e disse: «Homens de Israel e vós que temeis a Deus, escutai: 17O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais e fez deles um grande povo, quando viviam como estrangeiros na terra do Egipto. 22Depois, com seu braço poderoso, tirou-os de lá. Por fim, suscitou-lhes David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. 23Da sua descendência, Deus fez nascer, segundo a sua promessa, um Salvador, Jesus. 24João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’».

 

Temos aqui um pequeno extracto do primeiro discurso de Paulo em Actos: uma breve síntese da história da salvação, que culmina em Jesus Cristo. Foi seleccionada a parte do texto que põe em evidência que, de acordo com as promessas de Deus, «Jesus, é o Salvador de Israel», sendo «da descendência de David» (v. 23); o último elo da corrente profética que prepara a sua vinda é João.

16 Os «tementes a Deus» eram os gentios simpatizantes do judaísmo, que aderiam ao seu monoteísmo e esperança messiânica; embora não se sujeitassem às práticas da lei judaica, frequentavam a liturgia sinagogal.

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: O Evangelho transmite-nos o último grito de esperança no nascimento do Salvador do mundo. Aclamemo-lo com fé, amor e devoção, cantando aleluia.      

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS 16

 

Amanhã cessará a malícia na terra

e reinará sobre nós o Salvador do mundo.

 

 

Evangelho

 

Forma longa São Mateus 1, 1-25       Forma breve: São Mateus 1, 18-25

[1Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Farés gerou Esrom; Esrom gerou Arão; 4Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naásson; Naásson gerou Sálmon; Sálmon gerou, de Raab, Booz; 5Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. 6David, da mulher de Urias, gerou Salomão; 7Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; 8Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; 9Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; 10Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, durante o desterro de Babilónia. 12Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; 13Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor; 4Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; 15Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacob; 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 17Assim, todas estas gerações são: de Abraão a David, catorze gerações; de David ao desterro de Babilónia, catorze gerações; do desterro de Babilónia até Cristo, catorze gerações].

18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». 24Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. 25E não a tinha conhecido, quando Ela deu à luz um filho, a quem ele pôs o nome de Jesus.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pela linha do esposo, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes. Pensa-se que isto obedece a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim, o número 14, ao ser reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é já aludida na genealogia, apresentada na 1ª parte (facultativa) da leitura de hoje, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo não se diz que José gerou, mas, pelo contrário: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16, à letra «da qual Jesus foi gerado» – entenda-se – por Deus).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e aquilo que deveria ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante), ou simplesmente «tornar público» o mistério da sua maternidade. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela a esclarecer o assunto? Mas pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da concepção de Jesus, poderia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar sempre em Deus.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Na mesma linha de S- Jerónimo, S. Bernardo diz que S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...». O texto sagrado poderia mesmo traduzir-se assim, com X. Léon-Dufour e outros: «porque sem dúvida (gar) o que foi gerado nela é obra do Espírito Santo, mas (dè) Ela dará à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus» (exercendo assim para Ele a missão de pai). Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus. Mateus, em face do papel providen­cial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (...) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido...». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade, o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexivo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9, 18.

 

Sugestões para a homilia

 

• A “impaciência de Deus”

Deus quer a santidade na terra

Tudo será renovado

Somos a alegria de Deus

• Deus virá sem demora

Um de nós. Genealogia

Filho da Virgem Maria

S. José, Pai de Jesus

 

 

1. A “impaciência de Deus”

 

O Senhor assumiu a nossa impaciência, o desejo ardente de um mundo melhor que só pode ter origem na vinda de Jesus.

 

a) Deus quer a santidade na terra. Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis da terra a tua glória.

O mundo tinha chegado aos limites da resistência ao mal e ao infortúnio: guerras, desigualdade social e escravatura, divinização do vício e do crime, opressão dos pobres e humildes, desorientação total.

Hoje vivemos num grande mal estar: injustiças, crime organizado, insegurança a todos os níveis e opressão invisível, mas real, sobre os que querem ser fieis a Deus.

Tudo isto tem como causa a ausência de Deus da sociedade. Até os símbolos religiosos estão em causa. Em muitas nações é proibido proclamar a verdade sobre a vida, o matrimónio e a família.

Este Natal é mais uma promessa de que Deus está do nosso lado e quer mudar as coisas, se Lhe dermos oportunidade para o fazer.

Queremos um mundo novo, mas ele tem de começar dentro de cada um de nós, pelo acolhimento ao Senhor na Sua Lei em nosso coração. Nada pode mudar sem que cada um de nós procure mudar primeiro.

Que Ele não tenha dizer como a Santa Teresa, que se queixava dos males que encontrava no mundo: “Teresa, Eu quis, mas os homens não quiseram”.

Estas crises mundiais que nos preocupam são crises de santos. Eles têm sido, ao longo da história, os grandes revolucionários, os transformadores do mundo: S. João Bosco, para a juventude trabalhadora e desalojada nas grandes cidades;

 

b) Tudo será renovado. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta»; mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo.

• Um novo rosto. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará.

• Somos o tesouro de Deus. Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus.

• Acabou a nossa orfandade. Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta»; mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo.

Não procuremos razões para este amor louco de Deus por nós, porque não as há. Tudo nasce da Sua misericórdia infinita.

A verdade, é que sendo o homem uma ínfima criatura, em comparação com a grandeza do universo, é o único ser criado que Deus amou em razão de Si mesmo.

Fez-nos à Sua imagem e semelhança e elevou-nos à Sua grandeza, pela graça santificante, chamando-nos a participar, já na terra, da sua natureza divina, e vocacionando-nos para uma eterna comunhão com a Santíssima Trindade e com todos os Anjos e santos na ciência, no amor e na felicidade.

 

c) Somos a alegria de Deus. Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.

A nossa alegria nesta noite de Natal encontra o seu verdadeiro sentido se o nosso coração está alegre, com uma alegra que nasce do encontro com Jesus Cristo, da amizade com Ele.

Precisamos de um corajoso acto de fé para aceitarmos como verdadeiro que Deus nos ama e Se alegra com o nosso amor, depois de tantos pecados e infidelidades que temos cometido.

O que Ele quer de nós é que detestemos o pecado e nos apressemos a voltar ao Senhor com toda a confiança, quando tropeçarmos e cairmos.

No Evangelho, Jesus fala-nos muitas vezes da alegria que Lhe causa o nosso regresso em termos que nos encantam: a ovelha reencontrada que o pastor, longe de a humilhar e castigar, recebe com alegria; a exultação da mulher que encontra a dracma perdida; a festa que o pai organiza para colher o seu filho pródigo que tinha andado desorientado na vida.

Neste texto de Isaías – a confirmar ao Povo de Deus a continuação da aliança feita no Sinai – o Senhor recorre a figuras que nos são acessíveis para reafirmar este amor fiel: a alegria com o jovem recebe a sua esposa no casamento; e alegria que a esposa é sempre para o marido.

Somos especialmente a alegria de Deus quando fazemos um acto de contrição sincero, detestando verdadeiramente o mal feito, porque voltamos a colocar-nos no caminho do Seu Amor.

A certeza de que Ele nos ama deve acompanhar-nos toda a vida e animar-nos a regressar ao Seu Amor, seja qual for o pecado cometido. Ele recebe-nos sempre com alegria e conta com o nosso regresso.

 

2. Deus virá sem demora

 

a) Um de nós. Genealogia. «Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: Abraão gerou Isaac; [...] Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo

À primeira vista, parece-se-nos desnecessária e até cansativa a evocação desta longa enumeração de nomes bíblicos.

Na realidade, são muitas as lições que dela queremos tirar, nesta noite de vigília:

• Diz-nos antes do mais, que Jesus tem uma ascendência humana, como qualquer um de nós. Somos todos descendentes de Adão e Eva. Pertencemos à mesma família humana.

Somente sendo verdadeiro Homem – como verdadeiro Deus – poderia resgatar-nos da escravidão do pecado dos nossos primeiros pais e restituir-nos a vida divina que nos tinha sido roubada pelo Inimigo.

• Lembra-nos as muitas gerações que, ao longo de milhares de anos, suspiraram pela vinda do Salvador. Eles tiveram as mesmas aspirações que cada um de nós.

• Continuamos a ser – com eles – uma só família, não apenas humana, mas divina, porque o Filho de Deus feito Homem, assumiu-nos como seus irmãos, porque, depois do mistério da Incarnação, somos “filhos no “Filho”.

• Aparece aqui José como último elo da longa corrente. Ele garante diante dos homens a ascendência davídica de Jesus, porque as mulheres não eram mencionadas nas genealogias dos hebreus, a não ser quando o homem tinha mais de uma mulher que lhe dera filhos. Foi assim, por exemplo, no caso de David.

Mas Maria Santíssima é verdadeiramente descendente de David. Assim foi profetizada ao rei Acaz pelo profeta Isaías, também ele descendente de David.

 

b) Filho da Virgem Maria. «O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo

Há quem chame a este Evangelho a Anunciação a José, porque ele põe termo a uma longa agonia, começada logo que ele tomou conhecimento de que Maria, sua noiva, ia ser Mãe.

Tinha a certeza “física” de que ele não era o pai daquela criança; mas tinha igual certeza da fidelidade de Maria. O Menino que ia nascer não era filho de qualquer outro homem.

É possível que José tenha acompanhado Maria a casa de Isabel, e ouvisse a afirmação dela. “Donde me vem a mim que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor?”

Maria não desmentiu, mas entoou o Magnificat, confirmando e agradecendo ao Altíssimo o que n’Ele estava a acontecer.

Para José não haveria dúvidas. A sua noiva era mãe do Senhor. Que fazia ele ali, com a sua pequenez?

Começou a julgar-se um intruso num mistério a que não fora chamado e resolve retirar-se em segredo, para não lançar a mais pequena suspeita sobre o nome imaculado de Maria.

Vive num verdadeiro purgatório porque pensa que deve retirar-se e teme fazê-lo por um respeito e carinho imenso para com Nossa Senhora.

Deus, que o preparara desde sempre para o lugar único que iria ocupar na vinda ao mundo do Seu Filho, enviou-lhe um anjo em sonhos para que ficasse com a certeza de que ele – José – era “o homem certo para o lugar certo.”

José torna-se assim a melhor testemunha da virgindade de Maria, já profetizada misteriosamente ao rei Acaz.

 

c) S. José, Pai de Jesus. «Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa

Prescindindo da geração carnal, José é verdadeiro pai de Jesus. Não podemos reduzir o seu papel ao de pai adoptivo do Filho de Deus feito Homem. Quando um homem adopta uma criança, sabe perfeitamente que ela não é sua filha, porque foi gerada por outro homem. Aqui, não acontece assim.

Por outro lado, Jesus nasce de uma Mulher que lhe pertence pelo matrimónio celebrado. Uma planta que nasce num terreno nosso, pertence-nos de pleno direito.

A tal ponto isto é verdade, que José aparece várias vezes no Evangelho mencionado como pai. Só no lamentável acolhimento de Jesus em Nazaré se diz que pensavam que Jesus era filho segundo a carne – de José.

Nossa Senhora, depois do encontro de Jesus no Templo de Jerusalém não hesita em dizer a Jesus: «Por que procedeste assim para connosco? Eis que Teu pai e eu te buscávamos, cheios de aflição.» (Lc 2, ).

Jesus reconhecia esta paternidade «e era-lhes submisso.» Não há outro fundamento para esta submissão. Jesus reconhecia em José Seu verdadeiro pai, exceptuando a geração carnal.

De facto, José, a partir desta manifestação do anjo, entrega-se à sua missão com toda a generosidade e entusiasmo.

Arranja, em Belém, um lugar onde Ele possa vir à luz deste mundo. É a ele que o anjo se dirige em sonhos, para acautelar o Menino da perseguição de Herodes foge com ele para o Egipto, tomando todas as precauções para que o Menino não corra qualquer perigo. A ele se dirige o anjo em sonhos, para que regresse à sua terra.

Trata-o com indescritível carinho durante a infância, Ensina-O a falar, a andar e a integrar-se numa comunidade humana.

Alimenta generosamente com o seu trabalho de artesão e ensina-Lhe – quando já adolescente – uma profissão com que possa ganhar a vida.

Com Maria e José, esperemos com alegria o nascimento do Salvador e adoremo-l’O como nosso Deus e Salvador.

 

Fala o Santo Padre

 

«Como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta? Haveria lugar para eles?»

Amados irmãos e irmãs!

A beleza deste Evangelho não cessa de tocar o nosso coração: uma beleza que é esplendor da verdade. Não cessa de nos comover o facto de Deus Se ter feito menino, para que nós pudéssemos amá-Lo, para que ousássemos amá-Lo, e, como menino, Se coloca confiadamente nas nossas mãos. Como se dissesse: Sei que o meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar.

Sempre de novo me toca também a palavra do evangelista, dita quase de fugida, segundo a qual não havia lugar para eles na hospedaria. Inevitavelmente se põe a questão de saber como reagiria eu, se Maria e José batessem à minha porta. Haveria lugar para eles? E recordamos então que esta notícia, aparentemente casual, da falta de lugar na hospedaria que obriga a Sagrada Família a ir para o estábulo, foi aprofundada e referida na sua essência pelo evangelista João nestes termos: «Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram» (Jo 1, 11). Deste modo, a grande questão moral sobre o modo como nos comportamos com os prófugos, os refugiados, os imigrantes ganha um sentido ainda mais fundamental: Temos verdadeiramente lugar para Deus, quando Ele tenta entrar em nós? Temos tempo e espaço para Ele? Porventura não é ao próprio Deus que rejeitamos? Isto começa pelo facto de não termos tempo para Deus. Quanto mais rapidamente nos podemos mover, quanto mais eficazes se tornam os meios que nos fazem poupar tempo, tanto menos tempo temos disponível. E Deus? O que diz respeito a Ele nunca parece uma questão urgente. O nosso tempo já está completamente preenchido. Mas vejamos o caso ainda mais em profundidade. Deus tem verdadeiramente um lugar no nosso pensamento? A metodologia do nosso pensamento está configurada de modo que, no fundo, Ele não deva existir. Mesmo quando parece bater à porta do nosso pensamento, temos de arranjar qualquer raciocínio para O afastar; o pensamento, para ser considerado «sério», deve ser configurado de modo que a «hipótese Deus» se torne supérflua. E também nos nossos sentimentos e vontade não há espaço para Ele. Queremo-nos a nós mesmos, queremos as coisas que se conseguem tocar, a felicidade que se pode experimentar, o sucesso dos nossos projectos pessoais e das nossas intenções. Estamos completamente «cheios» de nós mesmos, de tal modo que não resta qualquer espaço para Deus. E por isso não há espaço sequer para os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros. A partir duma frase simples como esta sobre o lugar inexistente na hospedaria, podemos dar-nos conta da grande necessidade que há desta exortação de São Paulo: «Transformai-vos pela renovação da vossa mente» (Rm 12, 2). Paulo fala da renovação, da abertura do nosso intelecto (nous); fala, em geral, do modo como vemos o mundo e a nós mesmos. A conversão, de que temos necessidade, deve chegar verdadeiramente até às profundezas da nossa relação com a realidade. Peçamos ao Senhor para que nos tornemos vigilantes quanto à sua presença, para que ouçamos como Ele bate, de modo suave mas insistente, à porta do nosso ser e da nossa vontade. Peçamos para que se crie, no nosso íntimo, um espaço para Ele e possamos, deste modo, reconhecê-Lo também naqueles sob cujas vestes vem ter connosco: nas crianças, nos doentes e abandonados, nos marginalizados e pobres deste mundo.

Na narração do Natal, há ainda outro ponto que gostava de reflectir juntamente convosco: o hino de louvor que os anjos entoam depois de anunciar o Salvador recém-nascido: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens do seu agrado». Deus é glorioso. Deus é pura luz, esplendor da verdade e do amor. Ele é bom. É o verdadeiro bem, o bem por excelência. Os anjos que O rodeiam transmitem, primeiro, a pura e simples alegria pela percepção da glória de Deus. O seu canto é uma irradiação da alegria que os inunda. Nas suas palavras, sentimos, por assim dizer, algo dos sons melodiosos do céu. No canto, não está subjacente qualquer pergunta sobre a finalidade; há simplesmente o facto de transbordarem da felicidade que deriva da percepção do puro esplendor da verdade e do amor de Deus. Queremos deixar-nos tocar por esta alegria: existe a verdade; existe a pura bondade; existe a luz pura. Deus é bom; Ele é o poder supremo que está acima de todos os poderes. Nesta noite, deveremos simplesmente alegrar-nos por este facto, juntamente com os anjos e os pastores.

E, com a glória de Deus nas alturas, está relacionada a paz na terra entre os homens. Onde não se dá glória a Deus, onde Ele é esquecido ou até mesmo negado, também não há paz. Hoje, porém, há correntes generalizadas de pensamento que afirmam o contrário: as religiões, mormente o monoteísmo, seriam a causa da violência e das guerras no mundo; primeiro seria preciso libertar a humanidade das religiões, para se criar então a paz; o monoteísmo, a fé no único Deus, seria prepotência, causa de intolerância, porque pretenderia, fundamentado na sua própria natureza, impor-se a todos com a pretensão da verdade única. É verdade que, na história, o monoteísmo serviu de pretexto para a intolerância e a violência. É verdade que uma religião pode adoecer e chegar a contrapor-se à sua natureza mais profunda, quando o homem pensa que deve ele mesmo deitar mão à causa de Deus, fazendo assim de Deus uma sua propriedade privada. Contra estas deturpações do sagrado, devemos estar vigilantes. Se é incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o «não» a Deus restabeleceria a paz. Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem. Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros. Os tipos de violência arrogante que aparecem então com o homem a desprezar e a esmagar o homem, vimo-los, em toda a sua crueldade, no século passado. Só quando a luz de Deus brilha sobre o homem e no homem, só quando cada homem é querido, conhecido e amado por Deus, só então, por mais miserável que seja a sua situação, a sua dignidade é inviolável. Na Noite Santa, o próprio Deus Se fez homem, como anunciara o profeta Isaías: o menino nascido aqui é «Emmanue – Deus-connosco» (cf. Is 7, 14). E verdadeiramente, no decurso de todos estes séculos, não houve apenas casos de mau uso da religião; mas, da fé no Deus que Se fez homem, nunca cessou de brotar forças de reconciliação e magnanimidade. Na escuridão do pecado e da violência, esta fé fez entrar um raio luminoso de paz e bondade que continua a brilhar.

Assim, Cristo é a nossa paz e anunciou a paz àqueles que estavam longe e àqueles que estavam perto (cf. Ef 2, 14.17). Quanto não deveremos nós suplicar-Lhe nesta hora! Sim, Senhor, anunciai a paz também hoje a nós, tanto aos que estão longe como aos que estão perto. Fazei que também hoje das espadas se forjem foices (cf. Is 2, 4), que, em vez dos armamentos para a guerra, apareçam ajudas para os enfermos. Iluminai a quantos acreditam que devem praticar violência em vosso nome, para que aprendam a compreender o absurdo da violência e a reconhecer o vosso verdadeiro rosto. Ajudai a tornarmo-nos homens «do vosso agrado»: homens segundo a vossa imagem e, por conseguinte, homens de paz.

Logo que os anjos se afastaram, os pastores disseram uns para os outros: Coragem! Vamos até lá, a Belém, e vejamos esta palavra que nos foi mandada (cf. Lc 2, 15). Os pastores puseram-se apressadamente a caminho para Belém – diz-nos o evangelista (cf. 2, 16). Uma curiosidade santa os impelia, desejosos de verem numa manjedoura este menino, de quem o anjo tinha dito que era o Salvador, o Messias, o Senhor. A grande alegria, de que o anjo falara, apoderara-se dos seus corações e dava-lhes asas.

Vamos até lá, a Belém: diz-nos hoje a liturgia da Igreja. Trans-eamus – lê-se na Bíblia latina – «atravessar», ir até lá, ousar o passo que vai mais além, que faz a «travessia», saindo dos nossos hábitos de pensamento e de vida e ultrapassando o mundo meramente material para chegarmos ao essencial, ao além, rumo àquele Deus que, por sua vez, viera ao lado de cá, para nós. Queremos pedir ao Senhor que nos dê a capacidade de ultrapassar os nossos limites, o nosso mundo; que nos ajude a encontrá-Lo, sobretudo no momento em que Ele mesmo, na Santa Eucaristia, Se coloca nas nossas mãos e no nosso coração.

Vamos até lá, a Belém! Ao dizermos estas palavras uns aos outros, como fizeram os pastores, não devemos pensar apenas na grande travessia até junto do Deus vivo, mas também na cidade concreta de Belém, em todos os lugares onde o Senhor viveu, trabalhou e sofreu. Rezemos nesta hora pelas pessoas que actualmente vivem e sofrem lá. Rezemos para que lá haja paz. Rezemos para que Israelitas e Palestinianos possam conduzir a sua vida na paz do único Deus e na liberdade. Peçamos também pelos países vizinhos – o Líbano, a Síria, o Iraque, etc. – para que lá se consolide a paz. Que os cristãos possam conservar a sua casa naqueles países onde teve origem a nossa fé; que cristãos e muçulmanos construam, juntos, os seus países na paz de Deus.

Os pastores apressaram-se… Uma curiosidade santa e uma santa alegria os impelia. No nosso caso, talvez aconteça muito raramente que nos apressemos pelas coisas de Deus. Hoje, Deus não faz parte das realidades urgentes. As coisas de Deus – assim o pensamos e dizemos – podem esperar. E todavia Ele é a realidade mais importante, o Único que, em última análise, é verdadeiramente importante. Por que motivo não deveríamos também nós ser tomados pela curiosidade de ver mais de perto e conhecer o que Deus nos disse? Supliquemos-Lhe para que a curiosidade santa e a santa alegria dos pastores nos toquem nesta hora também a nós e assim vamos com alegria até lá, a Belém, para o Senhor que hoje vem de novo para nós. Ámen.

 

Papa Bento XVI, Basílica Vaticana, 24 de Dezembro de 2012

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Nesta noite santíssima do nascimento do Salvador,

em que as famílias se reúnem à mesa para celebrar

o Seu nascimento segundo a nossa condição humana,

oremos, por mediação de santa Maria e de José,

ao Menino que vem, jubiloso ao encontro dos homens.

Oremos (cantando) com alegre confiança:

 

    Vinde, Senhor, e não tardeis mais!

 

1. Pelo Santo Padre, o Papa, pelos Bispos, Sacerdotes e Diáconos da Igreja,

    para que o Senhor lhes conceda a graça de celebrar o Natal com alegria,

    oremos irmãos.

 

    Vinde, Senhor, e não tardeis mais!

 

2. Pelos que celebram este Natal com luto recente por um familiar ou amigo,

    para que o Senhor os encha de consolação e esperança no Seu nascimento,

    oremos irmãos.

 

    Vinde, Senhor, e não tardeis mais!

 

3. Pelos sem abrigo que sofrem a frieza e o desamparo das outras pessoas,

    para que o Senhor desperte em nossos corações a verdadeira fraternidade,

    oremos irmãos.

 

    Vinde, Senhor, e não tardeis mais!

 

4. Por todos doentes e moribundos que já não conseguem celebrar este Natal,

    para que Jesus menino os acompanhe nesta longa viagem para a eternidade,

    oremos irmãos.

 

    Vinde, Senhor, e não tardeis mais!

 

5. Por todos nós que nesta noite celebramos a Vigília do nascimento de Jesus,

    para que mantenhamos o coração desperto ao nascimento do nosso Salvador,

    oremos irmãos.

 

    Vinde, Senhor, e não tardeis mais!

 

6. Pelas pessoas que partiram para a vida eterna e ainda estão a ser purificadas,

    para que o Senhor perdoe os seus pecados e as acolha quanto antes no Céu,

    oremos irmãos.

 

    Vinde, Senhor, e não tardeis mais!

 

Senhor, que vindes ao nosso encontro neste Natal:

ensinai-nos e ajudai-nos a celebrá-lo com alegria,

para nos tornarmos dignos de alcançar o Paraíso.

Vós que sois Deus, com o Pai, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Depois de ter assumido as nossas limitações humanas, o Senhor decidiu-se fazer-Se pão para nosso Alimento: pão da Palavra e Pão da Eucaristia.

Alimentados na Mesa da Palavra, Ele prepara agora para nós o Pão Eucarístico – o Seu Corpo e Sangue – pelo mistério da transubstanciação em que Ele, pelo ministério do sacerdote, muda em Seu Corpo e Sangue o pão e o vinho que levamos ao altar.

 

Cântico do ofertório: Ó vós que andais buscando, M. Simões, NRMS 47

 

Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, ao vosso povo a graça de celebrar com renovado fervor a vigília da grande solenidade, na qual nos revelais o princípio da nossa redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio do Natal: p. 457 [590-702] ou 458-459

 

No Cânone Romano, diz-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) próprio. Também nas Orações Eucarísticas II e III se faz a comemoração própria: Reunidos na vossa presença.

 

Santo: Az. Oliveira, NRMS 8 (II)

 

Saudação da Paz

 

Jesus é o Príncipe da Paz e vem trazer-nos a verdadeira paz de que todos nós precisamos urgentemente.

É esta paz que devemos desejar uns aos outros, no gesto de reconciliação mútua a que a Liturgia nos convida.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Com quis nascer para a terra na humilde gruta de Belém, o Senhor quer agora descer à pobreza do nosso coração, dando-Se-nos em Alimento divino.

Em Belém havia pobreza, mas não faltava o amor e o carinho de Maria Santíssima e de José.

Procuremos que Ele encontre em nós uma grande fé, humildade profunda e um amor imenso que deseja ser fiel para sempre.

 

Cântico da Comunhão: O Senhor do universo, F. da Silva, NRMS 21

cf. Is 40, 5

Antífona da comunhão: Brilhará a glória do Senhor e toda a terra verá a salvação de Deus.

 

Oração depois da comunhão: Fortalecei, Senhor, os vossos fiéis na celebração do nascimento do vosso Filho Unigénito, que neste divino sacramento Se fez nossa comida e nossa bebida, Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Celebremos este Natal à mesa de família com a maior alegria possível, e estejamos atentos a todos os que connosco celebram este Natal.

Feliz Natal para a vossa família para todos os que vos são queridos.

 

Cântico final: Não Demoreis, Ó Salvador do Mundo, M. Borda, NRMS 31

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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