TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

ORAÇÃO PELO CUIDADO DA NATUREZA

 

 

 

 

 

Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap.

Pregador da Casa Pontifícia

 

 

 

Na tarde do dia 1 de Setembro passado, o Papa Francisco presidiu na Basílica de São Pedro à Liturgia da Palavra por ocasião do primeiro Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação.

Depois da proclamação do Evangelho de S. Mateus (6, 23-24), o pregador da Casa Pontifícia, padre Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., pronunciou a homilia, da qual oferecemos aos leitores o excerto publicado em L’Osservatore Romano, ed. port., 3-IX-2015.

 

 

 

Abençoando-os, Deus disse-lhes «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra» (Gen 1, 28).

Estas palavras em tempos recentes suscitaram uma forte crítica. Elas, escreveu alguém, ao atribuir ao homem um domínio indiscriminado sobre o resto da Natureza, estão na origem da actual crise ecológica. Inverteu-se a relação do mundo antigo, sobretudo dos gregos, que via o homem em função do cosmos e não o cosmos em função do homem (Lynn White, The historical roots of our ecologic crisis, em «Science», 1967, e em «Ecology and religion in history», 1974).

Penso que esta crítica, como tantas análogas dirigidas ao texto bíblico, parte do facto de que se interpretam as palavras da Bíblia à luz de categorias seculares que lhe são alheias. «Dominai», não tem aqui o significado que o termo assume fora da Bíblia. Para a Bíblia, o modelo último do dominus, do senhor, não é o soberano político que explora os seus súbditos, mas é o próprio Deus, Senhor e Pai.

O domínio de Deus sobre as criaturas certamente não está dirigido ao próprio interesse, mas ao das criaturas que Ele cria e protege. Há um paralelismo evidente: como Deus é o dominus do homem, assim o homem deve ser o dominus do resto da criação, isto é, responsável por ela e seu guardião. O homem foi criado para ser «à imagem e semelhança de Deus», não por padrões humanos. O sentido do domínio do homem é explicitado pelo que segue pouco depois no texto: «O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden para que o cultivasse e o guardasse» (Gen 2, 15). Isto é expresso muito bem na prece Eucarística IV, onde se diz dirigindo-nos a Deus: «À vossa imagem formastes o homem, às suas mãos laboriosas confiastes o universo, para que na obediência a vós, seu Criador, exercesse o domínio sobre toda a criação».

Portanto, a fé num Deus Criador e no homem feito à imagem de Deus, não é uma ameaça, mas antes uma garantia para a criação, e a mais forte de todas. Diz que o homem não é dono absoluto das outras criaturas; deve prestar contas daquilo que recebeu. A parábola dos talentos tem aqui a sua aplicação primordial: a terra é o talento que todos juntos recebemos e do qual devemos prestar contas.

A ideia de uma relação idílica entre o homem e o cosmos, fora da Bíblia, além do mais, é uma invenção literária. A opinião dominante entre os filósofos pagãos da época tendia a fazer do mundo material, seguindo o exemplo de Platão, o produto de um deus de segunda categoria (o Deuteros theos, o Demiurgo), ou até, como dirá Marcião, obra de um deus mau, diferente do Deus revelado por Jesus Cristo. O anseio era libertar-se da matéria, não libertar a matéria. Uma visão que, no tempo de Francisco de Assis, revivia na heresia dos cátaros.

Uma prova de que não é a visão bíblica que favoreceu a prevaricação do homem sobre a criação é que o mapa da poluição não coincide com o da difusão da religião bíblica nem de outras religiões, mas coincide antes com a de uma industrialização selvagem, voltada só para o lucro, e com a da corrupção que fecha a boca a todos os protestos e resiste a todos os poderes.

Ao lado da grande afirmação de que homens e coisas provêm de um único princípio, a narração bíblica põe em evidência, isto sim, uma hierarquia de importância que é a mesma hierarquia da vida e que vemos inscrita em toda a Natureza. O mineral serve o vegetal que dele se nutre, o vegetal serve o animal (é o boi que come a erva e não o contrário!), e todos os três servem a criatura racional que é o homem.

Esta hierarquia é a favor da vida, não contra ela. Por exemplo, ela é violada quando se fazem despesas insensatas para alguns animais (e não decerto para os que estão em perigo de extinção!), enquanto se deixa morrer de fome e de doenças milhões de crianças sob os próprios olhos. Alguém gostaria de abolir totalmente a hierarquia entre os seres, estabelecida pela Bíblia e ínsita na Natureza. Chegou-se até a idealizar e desejar um universo futuro sem a presença nele da espécie humana, considerada prejudicial para o resto da criação. Chamam «ecologia profunda» (é o caso do site VHEMT – Voluntary human extinction movement). Mas isto é claramente um contra-senso. Seria como se uma imensa orquestra fosse reduzida a executar uma maravilhosa sinfonia, mas no vazio total, sem que esteja alguém a escutá-la e os próprios músicos fossem surdos.

Como é tranquilizador, neste contexto, escutar de novo as palavras do Salmo 8 que queremos fazer nossas nesta vigília de oração: «Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós ali fixastes: que é o homem para vos lembrardes dele, o filho do homem para dele cuidardes? De facto, fizeste-lo pouco menos que um deus, de glória e de honra o coroastes. Destes-lhe poder sobre as obras das vossas mãos, tudo submetestes sob os seus pés: todos os rebanhos e manadas, até mesmo os animais selvagens, as aves do céu e os peixes do mar, e tudo o que sulca os caminhos do mar. Ó Senhor, nosso Deus, como é grande o vosso Nome em toda a terra!».

 

Francisco é a prova viva da contribuição que a fé em Deus pode dar ao esforço comum para a salvaguarda da criação. O seu amor pelas criaturas é uma consequência directa da sua fé na paternidade universal de Deus. Ainda não havia as razões práticas que temos hoje para nos preocupar pelo futuro do planeta: poluição atmosférica, escassez de água potável... A sua é uma ecologia pura sem fins utilitaristas, ainda que legítimos, que nós temos hoje. As palavras de Jesus, «Um só é o vosso Pai, o celeste; vós sois todos irmãos» (cf. Mt 23, 8-9), são para ele suficientes. Para ele, elas não são um princípio abstracto; são o horizonte constante dentro do qual vive e pensa. Fortalecido por esta certeza, ele quis pôr o mundo inteiro «em estado de fraternidade e de louvor».

As fontes franciscanas referem-nos os sentimentos com que Francisco se pôs a escrever o seu cântico: «Quero, para louvor a Deus e minha consolação e edificação do próximo, compor um novo Louvor ao Senhor pelas suas criaturas. Todos os dias usamos as criaturas e sem elas não podemos viver, e nelas o género humano ofende muito o Criador. E todos os dias mostramo-nos ingratos por este grande benefício, e não louvamos como deveríamos ao nosso Criador e dador de todo o bem». Sentou-se, concentrou-se para reflectir, e a seguir disse: «Altíssimo, todo-poderoso, bom Senhor...» (Leggenda Perugina, 43, «Fontes Franciscanas», 1592).

As palavras do santo que define como belo o sol, belo o irmão fogo, claras e belas as estrelas, são o eco daquele «E Deus viu que tudo era bom», da narração da criação.

O pecado de fundo contra a criação, que precede todos os outros, é não escutar a sua voz, condená-la irremediavelmente – diria são Paulo – à vaidade, à insignificância (cf. Rom 8, 18 s.). O próprio Apóstolo fala de um pecado fundamental que chama impiedade, ou «sufocar a verdade». Diz que é o pecado de quem, «embora conhecendo Deus, não lhe dá glória nem lhe dá graças» como convém a Deus. Portanto, não é só o pecado dos ateus que negam a existência de Deus, é também o pecado dos crentes de cujos corações nunca saiu um entusiasmado «Glória a Deus nas alturas», nem um comovido «Graças a Vós, Senhor». A Igreja põe nos nossos lábios as palavras para o fazer quando, no Glória da Missa, nos leva a dizer: «Nós Vos louvamos, nós Vos bendizemos, nós Vos adoramos, nós Vos glorificamos, nós Vos damos graças pela vossa imensa glória».

«Os céus e a terra – diz com frequência a Escritura – estão cheios da sua glória». Estão, por assim dizer, grávidos. Mas eles não podem, sozinhos, «dar à luz». Como a mulher grávida, têm também necessidade das mãos hábeis de uma parteira para dar à luz aquilo de que estão «grávidos». E estas «parteiras» da glória de Deus deveríamos ser nós. Quanto teve que esperar o universo, que longo percurso teve que fazer, para chegar a este ponto! Milhões e biliões de anos, durante os quais a matéria, através da sua opacidade, avançava com dificuldade rumo à luz da consciência, como a seiva que do subsolo sobe para o topo da árvore para se expandir em flor e fruto. Esta consciência foi finalmente alcançada, quando apareceu no universo «o fenómeno humano». Mas agora que o universo alcançou a sua meta, exige que o homem cumpra o seu dever, que assuma, por assim dizer, a direcção do coro e entoe para todos o «Glória a Deus nas alturas!».

Francisco indica-nos o caminho para uma mudança radical na nossa relação com a criação: consiste em substituir a posse pela contemplação. Ele descobriu um modo diferente de usufruir as coisas, que é contemplá-las em vez de as possuir. Pode fruir de todas as coisas, porque renunciou a possuir qualquer delas. As fontes franciscanas descrevem-nos a situação de Francisco quando compõe o seu Cântico das criaturas: «Não sendo capaz de suportar a luz natural durante o dia, nem a claridade do fogo durante a noite, ficava sempre na obscuridade em casa e na cela. Não só, mas sofria dia e noite dores atrozes nos olhos, que quase não podia repousar nem dormir, e isto aumentava e piorava estas e outras suas enfermidades» (Leggenda Perugina, 1614, «Fontes Franciscanas», 1591).

Francisco canta a beleza das criaturas quando já não é capaz de ver nenhuma delas, e até a simples luz do sol ou do fogo lhe causava dores atrozes! A posse exclui, a contemplação inclui; a posse divide, a contemplação multiplica. Uma só pessoa pode possuir um lago, um parque, e assim todos os outros ficam excluídos; milhares de pessoas podem contemplar aquele mesmo lago ou parque, e todos fruem dele sem o subtrair a ninguém. Trata-se de uma posse mais verdadeira e profunda, uma posse por dentro, não por fora, com a alma, não só com o corpo. Quantos latifundiários pararam alguma vez para admirar uma flor dos seus campos ou acariciar uma espiga do seu trigo? A contemplação permite possuir as coisas sem as açambarcar.

O exemplo de Francisco de Assis demonstra que a atitude religiosa e doxológica em relação à criação tem consequências práticas e concretas; não é algo feito no ar. Impele também a gestos concretos. Eis como o primeiro biógrafo do Santo refere alguns dos gestos concretos do Poverello: «Abraça todos os seres criados com um amor e uma devoção de que nunca se ouviu falar antes [...]. Quando os frades cortam a lenha, proíbe-lhes que despojem completamente a árvore, para que possa deitar novos rebentos. E ordena que o hortelão deixe incultos os limites ao redor da horta, para que a seu tempo o verde das ervas e o esplendor das flores cantem como é belo o Pai de toda a criação. Quer também que na horta um canteiro seja reservado às ervas olorosas e que dão flores, para que evoquem a quem as observa a recordação da suavidade eterna. Até recolhe pelos caminhos os pequenos vermes, para que não sejam pisados, e quer que às abelhas se dêem mel e óptimo vinho, para que não morram de fome no rigor do inverno» (Celano, Vita Seconda, 165).

Algumas das suas recomendações parecem escritas hoje, sob a pressão dos ambientalistas. Um dia disse ele: «Não quero ser ladrão de esmolas» (Celano, Vita Seconda, 54), isto é, receber mais do que o necessário, subtraindo assim a quem teria mais necessidade do que ele. Hoje esta regra poderia ter uma aplicação muito útil para o futuro da terra. Também nós deveríamos propor-nos: não quero ser ladrão de recursos, usando mais que o devido e subtraindo assim a quem virá depois de mim.

Certamente, Francisco não tinha a visão global e planetária do problema ecológico, mas uma visão local, imediata. Pensava naquilo que ele podia fazer e eventualmente os seus frades. Contudo, também nisto ensina-nos algo. Um slogan hoje muito em voga diz: Think globally, act locally, pensa de modo global e actua localmente. Que sentido tem, por exemplo, irar-se contra quem polui a atmosfera, os oceanos e as florestas, se não hesito em lançar na margem de um rio ou do mar um saquinho de plástico que permanecerá ali durante séculos, se alguém não o recuperar; se lanço em qualquer lugar, na estrada ou no bosque, o lixo que me incomoda; ou se sujo as paredes da minha cidade?

A salvaguarda da criação, como a paz, faz-se – diria o nosso Santo Padre Francisco – «artesanalmente», começando imediatamente por nós mesmos. A paz começa em cada um – repete-se frequentemente nas mensagens para o Dia da Paz; também a salvaguarda da criação começa por cada um. Era o que um representante ortodoxo afirmava já na Assembleia ecuménica de Basileia de 1989, sobre «Justiça, paz e salvaguarda da criação»: «Sem uma mudança do coração do homem, a ecologia não tem esperança de sucesso».

Concluo a minha reflexão. Poucas semanas antes da sua morte, São Francisco acrescentou uma estrofe ao seu Cântico, a que começa com as palavras: «Laudato si’, mi Signore, per quelli che perdonano per lo tuo amore» (Leggenda Perugina, 84). Penso que, se vivesse hoje, ele acrescentaria outra estrofe ainda ao seu cântico: Laudato si’, meu Senhor, por quantos trabalham para proteger a nossa irmã a mãe Terra, cientistas, políticos, chefes de todas as religiões e homens de boa vontade. Laudato si’, meu Senhor, por aquele que, juntamente com o meu nome, assumiu também a minha mensagem e está a difundi-la hoje em todo o mundo!

 

 

 

 

 


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