Solenidade de Todos os Santos

1 de Novembro de 2015

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor deu aos Santos a glória eterna, M. Carvalho, NRMS 59

 

Antífona de entrada: Exultemos de alegria no Senhor, celebrando este dia de festa em honra de Todos os Santos. Nesta solenidade alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A santidade de muitos homens e mulheres do nosso tempo é fruto da conversão realizada pelo Evangelho; não só daqueles que foram proclamados oficialmente santos pela Igreja, mas também dos que, com naturalidade e no dia-a-dia da vida, deram sinal da sua fidelidade a Cristo e viveram uma santidade fiel e genuína no mais escondido da vida familiar, profissional e social.

Como escutaremos nas leituras de hoje, cada um de nós, como discípulo de Cristo, começou este caminho de acesso à santidade e esta é a festa de toda a família cristã na terra como no céu. Mas, como em todas as famílias, nós que ainda aqui nos encontramos, talvez não nos tenhamos comportado tão bem quanto o dom recebido de Deus.

Peçamos, pois, perdão ao Senhor e a todos os irmãos, confessando os nossos pecados.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os méritos de Todos os Santos, dignai-Vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Na leitura que vamos escutar, o profeta recorre a uma visão para descrever a felicidade dos mártires e dos santos na sua condição celeste, invisível.

 

Apocalipse 7, 2-4.9-14

2Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: 3«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». 4E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. 10E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». 11Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: 12«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». 13Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». 14Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».

 

Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap.8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a protecção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio.

2-4 «O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo». Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade: por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9, 4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. «Cento e quarenta e quatro mil» é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, «representam toda a Igreja sem restrição» (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6, 16) e são a mesma «multidão imensa que ninguém podia contar» (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70.

11 «Os (24) Anciãos». Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que «são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante da Igreja». «Os 4 Viventes» (à letra, «animais»), uma tradução preferível a: «os 4 animais», uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4, 7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente «visão» apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Ireneu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado.

12 «Amen! Bênção, glória…»: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro.

14 «A grande tribulação». Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras.

«Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». «Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1 Jo 1, 7)».

 

Salmo Responsorial         Sl 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6)

 

Monição: O salmo de hoje proclama as condições de entrada no Templo de Deus. Ele anuncia também a bem-aventurança dos corações puros. Nós somos este povo imenso que marcha ao encontro do Deus santo.

 

Refrão:          Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

 

Do Senhor é a terra e o que nela existe,

o mundo e quantos nele habitam.

Ele a fundou sobre os mares

e a consolidou sobre as águas.

 

Quem poderá subir à montanha do Senhor?

Quem habitará no seu santuário?

O que tem as mãos inocentes e o coração puro,

o que não invocou o seu nome em vão.

 

Este será abençoado pelo Senhor

e recompensado por Deus, seu Salvador.

Esta é a geração dos que O procuram,

que procuram a face de Deus.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Desde o nosso baptismo, somos chamados filhos de Deus e o nosso futuro tem a marca da eternidade.

 

1 São João 3, 1-3

Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. 3Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.

 

A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade.

1 «E somo-lo de facto». S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que «o mundo», sem fé, não pode captar nem apreciar.

2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe 1, 4) pela graça. «Semelhantes a Deus», desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já «agora somos». «O veremos tal como Ele é». Esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, «face a face» (cf. 1 Cor 13, 12).

3 «Purifica-se a si mesmo». A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: «como Ele é puro»; efectivamente, os puros de coração hão-de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5, 8).

 

Aclamação ao Evangelho              Mt 11, 28

 

Monição: Talvez demos demasiada importância aos bens deste mundo, o que nos cansa e oprime. Como nos aconselha Jesus, se os aplicarmos na construção do amor seremos por Ele aliviados e consolados.

 

Aleluia

 

Cântico: J. Duque, NRMS 21

 

Vinde a Mim, vós todos os que andais cansados e oprimidos

e Eu vos aliviarei, diz o Senhor.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 5, 1-12a

Naquele tempo, 1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos 2e Ele começou a ensiná-los, dizendo: 3«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. 4Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. 5Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. 12aAlegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

As oito bem-aventuranças, a que se junta uma nona (v. 11) a reforçar a oitava, constituem como o frontispício do Sermão da Montanha (Mt 5 – 7), «a expressão mais perfeita da mensagem evangélica, um dos mais altos cumes do pensamento humano, talvez o mais elevado» (G. Danieli); com razão disse Gandhi: «foi o discurso da montanha que me reconciliou com o cristianismo». As bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, dirigidas a todas as pessoas e a todos os tempos, não apenas aos ouvintes imediatos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano e hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são a expressão de qualquer espécie de «ressentimento» dos pobres e desafortunados em face dos poderosos, dos ricos e satisfeitos, mas são antes um grito de protesto e de provocação lançado ao conceito de felicidade baseada na posse das riquezas, no gozo dos prazeres, na força, no poder e na fama. De modo nenhum elas são uma «ética para uso dos débeis», mas são um ideal de vida para almas fortes e generosas, uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade; como o demonstra a vida dos santos. Chamamos a atenção para a motivação da felicidade em cada uma das bem-aventuranças: «porque…»: a felicidade não está na pobreza, na aflição, na perseguição, mas no seguimento de Jesus, pobre, aflito, manso, faminto e sedento, misericordioso, puro, pacificador, perseguido, o que dá direito ao gozo das promessas de Cristo. Assim se exprime Bento XVI em Jesus de Nazaré: «As bem-aventuranças são a transposição da Cruz e da Ressurreição para a existência dos discípulos» (p. 110); e ainda: «Quem lê o texto com atenção nota que as bem-aventuranças são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura […]. Nas bem-aventuranças aparece o mistério do próprio Cristo, chamando-nos à comunhão com Ele» (p. 111).

3 «Bem-aventurados». Esta tradução (em vez de «felizes») vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: «deles é» (não diz «deles será»). Mas não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena. As bem-aventuranças têm uma dimensão escatológica e actual: correspondem a um futuro já iniciado.

«Os pobres em espírito». Como bom catequista, Mateus não deixa de especificar «em espírito», para que fique bem claro que não é o caso de uma mera situação económico-social, mas de uma atitude interior de humildade diante de Deus, de reconhecimento da própria carência de méritos e da absoluta necessidade da misericórdia de Deus para ser salvo. O desprendimento dos bens e a austeridade de vida são uma consequência desta atitude de espírito própria de quem se apoia não nos bens criados, mas só em Deus. Ao dizer «em espírito» (tô pneûmati, um dativo de relação), e não, como no v. 8, «de coração» (tê kardía: no seu íntimo, diante de Deus, em contraposição com o exterior), a expressão conota um sentido dinâmico, de acção, e portanto uma pobreza que corresponde a uma opção, isto é, uma «pobreza voluntária». É de notar que a formulação de Mateus é uma expressão religiosa coincidente com a dos textos de Qumrã (cf. 1QM, 14, 7: ‘anawê rûah).

4-5 A ordem destes versículos não é transmitida da mesma maneira em todos os manuscritos, por isso a fórmula que aparecia antes nos catecismos tem outra ordem que corresponde a uns poucos de manuscritos gregos e à Vulgata, diferente da que temos aqui; pensa-se que a ordem original teria sido alterada, a fim de facilitar a memorização e a compreensão, juntando frases semelhantes, dado o paralelismo entre os pobres e os humildes (os mansos) e entre os que choram (os aflitos) e os que têm fome e sede.

«Os que choram», isto é, os aflitos. A consolação dos que estão aflitos é um dos bens messiânicos (Is 61, 1-3; cf. Lc 4, 1ss) que Jesus garante aos seus discípulos (cf. Jo 16, 20-22). A consolação é uma forma emotivamente concreta de designar a salvação esperada e trazida por Cristo (cf. Lc 2, 25; Act 3, 20; 2 Tes 2, 16-17). O verbo na passiva «serão consolados» é uma forma reverente de se referir a Deus como agente, sem ter de o nomear (passivum divinum), equivalente a «Deus os consolará».

«Os mansos», tradução que consideramos preferível à adoptada e proposta por um bom número de exegetas. Com efeito, se bem que a tradução «os humildes» corresponda ao hebraico (‘anawîm: pobres) da passagem paralela do Salmo 37, 10-11 (mas traduzido pelos LXX por praeîs: mansos, e assim também pela Vulgata e Neovulgata: mansueti), a verdade é que a mansidão é uma noção que tem grande relevo em Mateus, pois o próprio Jesus se apresenta como «manso e humilde» (Mt 11, 29), na linha das profecias de Is 42, 1-4 (citada em Mt 12, 18-21) e de Zac 9, 9 (citada em Mt 21, 5). Por isso não nos parece que em Mateus a 1ª e a 3ª bem-aventuranças sejam simplesmente equivalentes; «mansos» são os humildes, mas com um matiz particular: são os que vencem o mal com o bem, não com a violência, mas com o perdão e com a bondade, como se insiste no mesmo sermão da montanha (Mt 5, 21-26.38-42.43-48; 6, 12.14-15). Estes são, não apenas os que são afáveis, ou simplesmente os não violentos, mas especificamente os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. «Possuirão a terra» (prometida como herança), isto é, «a pátria celeste», figurada na terra prometida ao povo eleito (cf. Hebr 4, 2, 11; 11, 10.16; 12, 22; 13, 14).

6 «Fome e sede de justiça», isto é, uma fome mais espiritual do que material, pela especificação: de justiça. Estamos assim diante duma noção de natureza religiosa, central no discurso da montanha (cf. 5, 10.20; 6, 1.31.33): a submissão à vontade de Deus e aos seus desígnios de amor, uma vida justa, inocente, santa e perfeita (cf. 5, 48).

7 «Os misericordiosos»: o tema da misericórdia é central no Evangelho, pois dela o homem é extremamente necessitado e também está muito presente em Mateus; com efeito, Jesus é cheio de misericórdia (cf. 9, 36; 9, 9-13; 12, 1-7) para com os necessitados que a Ele clamam (cf. 9, 27; 15, 22; 17, 15; 20, 30.34); e esta tem de ser a atitude do discípulo para obter a misericórdia divina (cf. 6, 14-15; 18, 23-35); e é pelas obras de misericórdia que todos hão-de ser julgados sem apelo (cf. 25, 31-46).

8 «Os puros de coração», dado o contexto dos ensinamentos de Jesus, não se trata de uma simples pureza ritual que satisfaz uma série de requisitos externos para se estar em condições de realizar actos de culto (recordem-se as prescrições de Lv 11 – 16 relativos a alimentos, nascimento, actividade sexual, doença e morte), mas de uma pureza moral, que não fica hipocritamente em exterioridades farisaicas (cf. Mt 23, 25-26), mas vai, na linha da pregação dos profetas (cf. Is 1, 15-16; 29, 13; Salm 24, 3-4; 51, 12; Prov 22, 11), até ao mais profundo do interior da pessoa, onde nascem os desejos e as intenções (cf. Mt 15, 1-20; 5, 28; 12, 34). A pureza do coração é fundamentalmente a rectidão total dos pensamentos, das palavras e das acções, não apenas as boas intenções, segundo o Salmo 24, 3-4, que parece estar na base desta bem-aventurança (cf. Tg 4, 8; 1 Tim 1, 5; 2 Tim 2, 22; Hebr 10, 22). Não se limita à castidade, mas pressupõe-na e exige-a de modo particular, para se entrar em comunhão com Deus – para «ver a Deus» (cf. Hebr 12, 14; Apoc 22, 3-4; 1 Jo 3, 3; Catecismo da Igreja Católica, nº 2517-2533).

9 «Os que promovem a paz». Alguns exegetas preferem a tradução pacíficos, indicando o espírito conciliador, sereno, tolerante, indulgente e paciente (cf. Tg 3, 3-18), mas a maioria pensa que se trata não só dos pacíficos, mas daqueles que se empenham em activamente promover a paz entre os homens (e também – podíamos acrescentar – a paz dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo); estes «serão chamados…», uma expressão semítica que corresponde a «serão de verdade filhos de Deus» (cf. Mt 5, 45).

10 «Os que sofrem perseguição por amor da justiça» (cf. 1 Pe 3, 14), isto é, ao fim e ao cabo, por causa de Jesus (cf. Mt 10, 24-28), por viver piamente (cf. 2 Tim 3, 12). Esta «justiça», como na 4ª bem-aventurança, não é a justiça dos homens, mas corresponde à plena adesão à vontade de Deus, numa vida recta e santa.

11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula «porque deles é o reino dos Céus»: vv. 3.10), há aqui uma ampliação e uma aplicação directa aos ouvintes da 8ª e última bem-aventurança.

Finalmente quero chamar a atenção para a observação de Bento XVI na sua já citada obra, ao introduzir o tema das bem-aventuranças: «As bem-aventuranças não raramente são apresentadas como a alternativa do Novo Testamento a respeito do Decálogo, por assim dizer a mais elevada ética dos cristãos ante os mandamentos do Antigo Testamento. Com tal concepção distorce-se totalmente o sentido das palavras de Jesus. Jesus sempre pressupôs como evidente a validade do Decálogo (ver, por exemplo, Mc 10, 19; Lc 16, 17); no Sermão da Montanha são assumidos e aprofundados os mandamentos da segunda tábua, mas não são abolidos (Mt 5, 21-48)…» (p-109).

 

Sugestões para a homilia

 

Uma mensagem de esperança na provação.

Resposta às interrogações sobre o nosso destino

Espera confiante em Deus

 

Uma mensagem de esperança na provação.

Na primeira leitura que acabamos de escutar, o Apóstolo dirige-se a pessoas concretas a viverem em Filipos, Éfeso, Colossos e Roma. As perseguições a que foram sujeitos originaram muita destruição nas primeiras comunidades cristãs. Iriam desaparecer estas comunidades, acabadas de fundar? As visões do profeta cristão trazem uma mensagem de esperança nesta provação.

A revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro, do Ressuscitado. Ele transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que O seguem, em particular pelo martírio, e eles ainda hoje são numerosos; participam doravante no seu triunfo, numa festa eterna. São os santos de Deus, os seus discípulos, quer estejam já com Cristo no céu ou vivam ainda na terra.

Essa multidão imensa com vestes brancas e palmas na mão são aqueles que neste mundo suportaram tribulações e perseguições e deram a sua vida pelos irmãos, como fez o Cordeiro. Considerados derrotados pelos homens são, para Deus, vencedores.

Esta visão do céu dá sentido e resposta à nossa existência e ao nosso último destino, pois com o Ressuscitado, que nos acompanha, saímos seguros deste mundo sabendo que Ele nos introduz numa vida nova.

 

Resposta às interrogações sobre o nosso destino

S. João, na segunda leitura, responde às perguntas sobre o nosso destino: o Pai não espera o dia da nossa morte para nos dar esta vida divina, Ele no-la dá já hoje. É a segunda mensagem de esperança. Ela responde às nossas dúvidas sobre o destino dos defuntos. Que vieram a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser? A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já numa espera confiante a que futuro nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele, «porque havemos de O ver tal qual como Ele é» (v. 2).

 

Espera confiante em Deus

Essa espera confiante leva-nos a acompanhar Jesus ao alto do monte a que nos conduz o Evangelho deste dia. Mais que um lugar real, «monte» é qualquer local ou circunstância em que nos abrimos à Palavra de Deus.

Hoje acompanhamos Jesus sobre o monte para ouvir as suas propostas de felicidade, de sucesso, de bem-aventurança. São propostas inquietantes, porventura com nenhum sentido para quem tem na mente as promessas indicadas pela «sabedoria» dos homens.

 Dizem os homens: “Felizes vós os que tendes dinheiro – muito dinheiro – e com ele comprais crédito, comodidade, poder, segurança, bem-estar, pois é o dinheiro que comanda o mundo e nos torna mais poderosos, mais livres e mais felizes”. Jesus diz: “Felizes os pobres em espírito”, que são todos aqueles que decidem não possuir mais nada para si e pôr tudo em comum.

“Felizes vós os que respondeis à violência com uma violência ainda maior, pois só a linguagem da força é segura para lidar com a violência e a injustiça”, dizem os homens. Jesus diz: “Felizes os mansos”. Ele recusou o uso da violência, foi paciente, tolerante, fez-se servo de todos.

Os homens dizem: “Felizes vós os que não tendes razões para chorar, porque a vossa vida é uma festa, porque tendes tudo para serdes felizes: casa com piscina, carro com ar condicionado, amigos poderosos, uma conta bancária interessante e um bom emprego arranjado pelo vosso amigo ministro”. Jesus diz: “Felizes os que choram”, vós que experimentais uma dor intensa diante desta sociedade e vos sentis por isso insatisfeitos e esperais de Deus a salvação, pois sereis consolados.

 “Felizes vós os que realizais os vossos desejos sem vos deixardes comover pela miséria e pelo sofrimento dos outros, dizem os homens, pois quem se comove e tem misericórdia acabará por nunca ser eficaz neste mundo tão competitivo”. Jesus diz: “Felizes os misericordiosos”, aqueles que se empenham a fim de que as pessoas necessitadas encontrem aquilo de que precisam.

Os homens dizem: “Felizes vós os que mentis e fingis astutamente para obterdes o que quereis, pois a verdade e a boa-fé arruínam muitas carreiras e esperanças de sucesso”. Jesus diz: “Felizes os sinceros e puros de coração”, pois a Ele apenas interessa a lealdade e a rectidão de conduta em relação ao irmão.

 “Felizes vós os que não tendes medo da guerra, da competição, que sois duros e insensíveis, que não tendes medo de lutar contra os outros e sois capazes de os vencer, pois só assim podereis ser homens e mulheres de sucesso”. Jesus diz: “Felizes os que promovem a paz entre os homens”. O que torna o mundo melhor, a paz ou a guerra?

Os homens dizem: “Felizes vós os que dizeis que é mais seguro e mais fácil compactuar com os poderosos estando sempre de acordo com eles, pois só assim podeis subir na vida e ter êxito na vossa carreira”. Jesus diz: “Felizes os que são perseguidos por cumprirem a vontade de Deus”, pois a única força capaz de acabar com a espiral de violência é o amor e o perdão.

Depois de reflectirmos no interior do nosso coração todas as propostas que escutamos, apenas nos resta uma atitude de identificação cristã: a espera confiante na Palavra de Deus, que nos permite chamar-lhe Pai e nos dá a possibilidade de sermos, em Cristo, seus filhos no caminho da santidade.

Saibamos nós corresponder ao seu amor numa verdadeira santidade de vida.

 

Fala o Santo Padre

 

«Esta festa faz-nos pensar na Igreja na sua dupla dimensão:

a Igreja a caminho no tempo e a que celebra a festa sem fim, a Jerusalém celeste.»

 

Queridos irmãos e irmãs!

Temos hoje a alegria de nos encontrarmos na solenidade de Todos os Santos. Esta festa faz-nos reflectir sobre o dúplice horizonte da humanidade, que exprimimos simbolicamente com as palavras «terra» e «céu»: a terra representa o caminho histórico, o céu a eternidade, a plenitude da vida em Deus. E assim esta festa faz-nos pensar na Igreja na sua dupla dimensão: a Igreja a caminho no tempo e a que celebra a festa sem fim, a Jerusalém celeste. Estas duas estão unidas pela realidade da «comunhão dos santos»: uma realidade que começa aqui na terra e alcança o seu cumprimento no Céu. No mundo terreno, a Igreja é o início deste mistério de comunhão que une a humanidade, um mistério totalmente centrado em Jesus Cristo: foi Ele que introduziu no género humano esta dinâmica nova, um movimento que a conduz a Deus e ao mesmo tempo à unidade, à paz em sentido profundo. Jesus Cristo – diz o Evangelho de João (11, 52) – morreu «para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos», e esta sua obra prossegue na Igreja que é inseparavelmente «una», «santa» e «Católica». Ser cristão, pertencer à Igreja significa abrir-se a esta comunhão, como uma semente que se abre na terra, morrendo, e germina para o alto, para o céu.

Os Santos – os que a Igreja proclama tais, mas também todos os santos e santas que só Deus conhece, e que também hoje celebramos – viveram intensamente esta dinâmica. Em cada um deles, de modo pessoal, Cristo tornou-se presente, graças ao seu Espírito que age mediante a Palavra e os Sacramentos. Com efeito, o estar unidos a Cristo, na Igreja, não anula a personalidade, mas abre-a, transforma-a com a força do amor, e confere-lhe, já aqui na terra, uma dimensão eterna. Em síntese, significa conformar-se com a imagem do Filho de Deus (cf. Rm 8, 29), realizando o projecto de Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança. Mas esta inserção em Cristo abre-nos – como disse – também na comunhão com todos os outros membros do seu Corpo místico que é a Igreja, uma comunhão que é perfeita no «Céu», onde não há qualquer isolamento, qualquer concorrência ou separação. Na festa de hoje, é-nos antecipada a beleza desta vida de total abertura ao olhar de amor de Deus e dos irmãos, na qual temos a certeza de alcançar Deus no outro e do outro em Deus. Com esta fé cheia de esperança nós veneramos amanhã os fiéis defuntos. Nos santos vemos a vitória do amor sobre o egoísmo e sobre a morte: vemos que seguir Cristo conduz à vida, à vida eterna, e dá sentido ao presente, a cada momento que passa, porque o enche de amor, de esperança. Só a fé na vida eterna nos faz amar deveras a história e o presente, mas sem se prender, na liberdade do peregrino, que ama a terra porque tem o coração no Céu.

A Virgem Maria nos obtenha a graça de crer firmemente na vida eterna e de nos sentirmos verdadeira comunhão com os nossos queridos defuntos.

Papa Bento XVI, Angelus, Praça de São Pedro, 1 de Novembro de 2012

 

Oração Universal

 

Oremos a Deus Pai Omnipotente,

por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo,

dizendo:

 

Senhor, ajudai-nos a ser santos.

 

1.       Que o Santo Padre, o Papa, os Bispos,

Presbíteros e Diáconos sejam pobres de coração,

para que estejam libertos de tudo

o que possa entravar a sua liberdade,

oremos, irmãos.

 

2.       Que sejamos capazes de aceitar um certo abandono,

para que, no meio do sofrimento ou da confusão,

confiemos sempre em Deus,

oremos, irmãos

 

3.       Que todos os membros da família cristã,

estejam disponíveis para servir os seus irmãos,

não se centrem em si próprios,

mas se abram misericordiosamente

aos que esperam os seus gestos de amor,

oremos, irmãos.

 

4.       Que saibamos crer, esperar e amar,

para sermos santos, razão por que Jesus

nos escolheu e chamou,

oremos, irmãos.

 

5.       Que com simplicidade no dia-a-dia

da nossa existência, no lar, no trabalho

e em todos os lugares, saibamos sempre

dar testemunho da fidelidade a Cristo,

oremos, irmãos.

 

6.       Que todos os santos no céu, nos ajudem a superar

os momentos mais difíceis desta vida terrena,

 e nos ajudem a provar a realização prometida

da vida que não acaba,

 oremos, irmãos.

 

Ouvi, Senhor, as nossas preces

e dignai-vos atender aos nossos rogos

por intermédio de Jesus Cristo vosso Filho,

Nosso Senhor, que é Deus convosco,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Aceitai, Senhor, a nossa alegria, M. Carneiro, NRMS 73-74

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, os dons que Vos apresentamos em honra de Todos os Santos e fazei-nos sentir a intercessão daqueles que já alcançaram a imortalidade. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio

 

A glória da nova Jerusalém, nossa mãe

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste, onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Recebamos com fé e sincera humildade o pão eucarístico, que ele se torne a cura de todas as nossas fragilidades e nos ajude a sermos santos, a fim de nos identificarmos com Cristo.

 

Cântico da Comunhão: Louvai nações do universo, M. Simões, 63

Mt 5, 8-10

Antífona da Comunhão: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

 

Cântico de acção de graças: Povos da terra, louvai ao Senhor, M. Simões, NRMS 55

 

Oração depois da Comunhão: Nós Vos adoramos, Senhor nosso Deus, única fonte de santidade, admirável em todos os Santos, e confiadamente Vos pedimos a graça de chegarmos também nós à plenitude do vosso amor e passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Depois de termos escutado a Palavra do Senhor que nos foi dirigida nesta celebração, saibamos ser pobres no íntimo do nosso coração; estejamos sempre voltados para um futuro que esperamos seja melhor; e que, todos os sinais que encontrarmos nesta procura nos encham de alegria e nos façam desenvolver no caminho da santidade.

 

Cântico final: Queremos ser construtores, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:          António Elísio Portela

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                  Duarte Nuno Rocha

 

 


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