TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

LIDERANÇA DAS MULHERES NA RESOLUÇÃO DE CONFLITOS: PERSPECTIVAS DA FÉ

 

 

 

 

Cardeal Peter Turkson

Presidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz

 

 

No passado dia 14 de Abril realizou-se na Universidade Pontifícia de São Tomás de Aquino (Roma) uma Conferência Internacional sobre a “Liderança das mulheres na resolução de conflitos: Perspectivas da fé”, organizada pela Embaixada dos Estados Unidos junto da Santa Sé, a Fundação Russell Berrie e o Centro João Paulo II para o Diálogo Interreligioso.  

Damos a seguir o discurso de abertura do Cardeal Peter Turkson, tomado do site do Pontifício Conselho para a Justiça e a Paz (www.iustitiaetpax.va).

 

 

Estou muito contente por estar aqui hoje participando nesta importante Conferência. Agradeço aos organizadores, a Embaixada dos Estados Unidos junto à Santa Sé, a Fundação Russell Berrie e o Centro João Paulo II para o Diálogo Inter-religioso [1]. É para mim uma honra abrir o painel, compartilhando algumas experiências e algumas ideias do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz sobre o envolvimento das mulheres na resolução de conflitos, na reconciliação e na construção da paz.

 

Mulheres em posições de destaque

 

Antes de passar para os seus atributos especiais, gostaria de começar por referir as contribuições das mulheres em geral. Os livros de História e muitas instituições parecem referir mais os homens do que as mulheres. Mas se olharmos, o que encontramos?

São João XXIII olhou e compartilhou o que viu na Pacem in Terris: ele dedicou um parágrafo inteiro para a crescente participação das mulheres na vida pública e política, de acordo com a sua “maior consciência da própria dignidade humana. Longe de se contentarem com um papel puramente passivo ou de permitirem ser consideradas como um simples instrumento, elas reivindicam tanto na vida familiar como na vida pública os direitos e deveres que lhes pertencem como pessoas humanas” [2].

Mas isto não era somente um fenómeno do século XX. Por exemplo, três mulheres da Idade Média que a Igreja canonizou tomaram posições chamativas em conflitos na esfera pública: Santa Catarina de Sena trabalhou diplomaticamente para alcançar a paz; Santa Joana d’Arc dirigiu as tropas para a batalha; e Santa Isabel de Portugal dirigiu-se ao campo de batalha para evitar que o seu filho e o seu marido lutassem entre si.

Menciono estas três por causa da sua relação com o conflito e a paz, nosso tema de hoje. Se olharmos para além deste tema, mulheres distintas estão por todo o lado, mesmo no espaço sideral! Começando em 1970, quatro mulheres foram proclamadas Doutoras da Igreja [3]: Santas Teresa de Ávila, Catarina de Sena, Teresa de Lisieux e Hildegarda de Bingen. Três dos seis santos padroeiros da Europa são mulheres: Santas Catarina de Sena, Brígida da Suécia e Edith Stein [4]. Na nossa Igreja, inumeráveis mulheres continuaram o ministério de cura e ensino de Jesus. Fora da Igreja, certamente, podem ser citadas muitas mais mulheres de grande cultura e em papéis proeminentes: Angela Merkel da Alemanha e a directora do FMI, Christine Lagarde, são dois exemplos notáveis. Por isso, se eu voltar agora o pensamento para os especiais atributos das mulheres, não é por desconhecimento de tantos outros atributos e realizações.

 

Mulheres, educadoras e testemunhas da paz

 

Vinte anos se passaram desde que São João Paulo II escreveu “Mulher: Educadora de Paz” para o Dia Mundial da Paz de 1995. Ele afirmou que “a paz interior vem de se saber amado por Deus e da vontade de corresponder ao seu amor. A história é rica de exemplos admiráveis de mulheres que, apoiadas nesta consciência, souberam enfrentar com sucesso difíceis situações de exploração, discriminação, violência e guerra” (n.5). 

Para dar visibilidade às Mulheres de paz, naquele mesmo ano o Conselho Pontifício organizou um encontro sobre Mulheres, Testemunhas da Paz. Várias mulheres vieram a Loreto desde locais de violência – Bósnia e Herzegovina, Burundi, Equador, Guatemala, Irlanda, etc. – para testemunharem a sua experiência dos horrores da destruição e do massacre, da deportação e da violação; mas também da forma como encontraram a força para assumir o difícil caminho da reconciliação e construção da paz nestes locais de tristeza e violência [5].

Mais recentemente, em Maio de 2012, este Conselho colaborou com a Catholic Peace-building Network numa Conferência sobre os desafios que os construtores da paz enfrentam hoje. “Juntamente com a deplorável exploração e vitimização das mulheres nos conflitos, as mulheres exercem uma liderança de confiança, embora escondida e não reconhecida, nas práticas de construção da paz, para as quais estão particularmente dotadas” [6].

Isto decorre da compreensão da criação de uma nova vida como algo muito especial. Todos os seres humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus [7], e é através das mulheres como mães que cada única “imagem e semelhança” entra na vida. E enquanto ambos os pais podem nutrir as novas vidas e moldar os jovens caracteres, as mulheres mantêm a responsabilidade primária com mais frequência do que os homens. Elas actuam como educadoras e testemunhas da paz em primeiro lugar na família, e depois nos locais de trabalho, na comunidade, na sociedade, na nação e na família das nações. “Quando as mulheres têm a possibilidade de transmitir plenamente os seus dons a toda a comunidade, fica positivamente transformada a própria modalidade como a sociedade é concebida e se organiza, conseguindo reflectir melhor a unidade substancial da família humana. Aqui está a premissa mais válida para a consolidação de uma paz autêntica” [8].

Além disso, as mulheres têm um papel especial na construção de pontes entre os que estão em conflito; em aliviar o sofrimento, sem qualquer discriminação; em educar as partes beligerantes a dizer «não à violência»; e em promover uma paz positiva. Pois não é suficiente (embora seja de extrema importância) que terminem as guerras. É também crucial reconstruir a sociedade nos países emergentes de conflitos mortais, a fim de se traçar a trajectória de uma paz sustentável para a sociedade [9]. A construção de novas relações entre os inimigos do tempo de guerra – um grande desafio para o qual as mulheres têm uma aptidão especial – favorece a reconstrução do “tecido social” [10] nos locais de conflito.

As mulheres têm uma capacidade especial porque “no plano de Deus elas foram criadas para acolherem uma nova vida e serem o eco criativo do amor que dá tudo” [11]. Este amor divino é imparcial; ele reconhece a dignidade inerente de cada pessoa, da qual fluem os direitos e obrigações que são universais, invioláveis ​​e inalienáveis. Tudo isto pode ser um assunto de prática diária nas famílias, e a sua aprendizagem pode ser transportada para o local de trabalho e para as relações sociais que respeitem a dignidade de cada pessoa humana. Este é o impacto final do maravilhoso ensinamento da paz nas famílias, desde o nascimento.

 

Solidariedade entre as mulheres na resolução de conflitos

 

Além disso, eu acho que é fundamental que as mulheres trabalhem juntas pela paz. Deixemos que o espírito de colaboração e solidariedade substitua toda a conduta em busca de atenção. A Beata Madre Teresa de Calcutá disse: “Eu posso fazer coisas que tu não podes, tu podes fazer coisas que eu não posso; juntos podemos fazer grandes coisas”. As mulheres necessitam de ajudar as mulheres para se tornarem plenamente conscientes da sua dignidade e dos seus pontos fortes; elas necessitam, além disso, de encontrar apoio nas contribuições valiosas que as associações, movimentos e grupos, muitos deles de carácter religioso, têm feito com êxito pela paz [12].

Além da ausência de guerra, a paz positiva oferece a oportunidade de uma nova vida, uma vida que não aceita nem violência nem injustiça, fome, sede, exploração no trabalho ou ausência de trabalho. A construção da paz das mulheres deve apontar também para uma melhor ordem mundial; e, para este fim, o nosso Conselho Pontifício está a organizar uma Conferência Internacional em Maio, sobre “As Mulheres e a Agenda de Desenvolvimento pós-2015: Os desafios dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”.

Na verdade, o ano de 2015 é um ano crucial. Os Estados-Membros das Nações Unidas estão a organizar uma Agenda de desenvolvimento pós-2015, que irá ser realizada através de uma nova reunião de ODS. Mulheres católicas querem participar neste processo; elas manifestaram o seu desejo de discutir cuidadosamente os ODS propostos para negociação e de apresentar comentários e sugestões sobre as questões sociais mais importantes que afectam as mulheres e a vida. Este será o objectivo da Conferência acima mencionada.

 

Maria, modelo da paz

 

Maria, a Mãe de Deus, concebeu, deu à luz e criou Jesus Cristo e acompanhou-o na sua morte na Cruz. A proximidade com Maria na oração é a autêntica fonte do envolvimento das mulheres para a paz e a reconciliação. “Maria, Rainha da paz, com a sua maternidade, com o exemplo da sua disponibilidade às necessidades dos outros, com o testemunho da sua dor, está junto das mulheres do nosso tempo. Viveu, com profundo sentido de responsabilidade, o projecto que Deus queria realizar nela para a salvação da humanidade inteira” [13]. Maria pode ensinar-nos toda a importância do acompanhamento, de andar junto das pessoas apanhadas na dinâmica desumana dos conflitos mortais [14].

Através da sua proximidade com Maria e o seu filho, a Beata Madre Teresa tornou-se uma apóstola da paz no mundo. Ela foi uma construtora da paz ao longo da sua vida através do serviço aos mais pobres dos pobres. Como ela disse, “hoje todos parecem estar numa tal terrível pressa, ansiosos por maiores desenvolvimentos e maiores riquezas e assim por diante, de modo que os pais têm muito pouco tempo para os seus filhos. Os pais têm muito pouco tempo um para o outro, e no lar começa a ruptura da paz do mundo”.

 

Conclusão

 

Gostaria de concluir exprimindo o meu desejo de um empenho renovado e duradouro das mulheres para a paz em todos os níveis e em todas as esferas da existência humana, com a sua capacidade especial na criação de uma nova vida e com a sua participação em todas as esferas da actividade humana. Assim como Jesus recusou mandar Maria para ajudar a sua irmã Marta nas tarefas domésticas [15], devemos resistir às velhas tendências infelizes de limitar as ideias dos papéis das mulheres.

No Angelus do Dia Internacional da Mulher de 2015, o Papa Francisco sublinhou a grande necessidade da presença das mulheres nas nossas vidas: “Um mundo no qual as mulheres são marginalizadas é um mundo estéril, porque as mulheres não só dão a vida mas transmitem-nos a capacidade de ver além – elas vêem além –, transmitem-nos a capacidade de compreender o mundo com um olhar diverso, sentir as coisas com um coração mais criativo, paciente, terno” [16]. Que estes olhos diferentes incluam uma nova capacidade dos homens para reconhecerem as capacidades especiais das mulheres e colaborarem com elas: que não haja competição entre o homem e a mulher ao tentarem construir a paz; que todos aspirem pela complementaridade, colaboração e cooperação.

Desejo também que todas as mulheres possam ser ajudadas sempre a escolherem a vida e a tomarem o seu lugar no lado da vida, uma vez que “na violação do direito à vida de cada ser humano está contida também em germe a inaudita violência da guerra” [17]. E, finalmente, pensemos nas avós, tias, mães, filhas, irmãs e todas as mulheres consagradas que, nas suas vidas diárias, trabalham em silêncio e anonimamente para a paz. Nós não conhecemos o teu rosto, mas o teu rosto é o rosto do amor! Obrigado!

 

 



[1] Com sinceros agradecimentos à Doutora Livia Stoppa e a Mr. Robert Czerny, pelo apoio na elaboração e edição destas notas.

[2] Pacem in Terris, 41. Isto aparece como um dos três “Sinais dos tempos”.

[3] As duas primeiras pelo Papa Paulo VI, a terceira por São João Paulo II, a quarta pelo Papa Bento XVI.

[4] Nomeadas por S. João Paulo II, em 1999.

[5] Sétimo Centenário da Santa Casa de Loreto, Mulheres: testemunhas da paz, Mensagem de Loreto, 14-15 de Outubro de 1995.

[6] Cfr. Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz, Il Concetto di Pace, Attualità della “Pacem in Terris” nel 50° Anniversario della “Pacem in Terris” (1963-2013), pág. 611.

[7] Cf. Gen 1, 27.

[8] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1995, 1º de Janeiro de 1995, n.9.

[9] Cfr. Appleyby S., Challenges to Peacebuilding. Closing Statement, http://cpn.nd.edu/assets/70299/appleby_closing_talk_final.pdf.

[10] Ibid.

[11] Sétimo Centenário da Santa Casa de Loreto, Mulheres: testemunhas de paz, Mensagem de Loreto, 14-15 de Outubro de 1995.

[12] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1995, 1º de Janeiro de 1995, n. 5.

 

[13] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1995, 1º de Janeiro de 1995, n.12.

[14] Cfr. Appleyby S., Challenges to Peacebuilding. Closing Statement, http://cpn.nd.edu/assets/70299/appleby_closing_talk_final.pdf.

[15] Cf. Lc 10, 38-42.

[16] Papa Francisco, Angelus, 8 de Março de 2015.

[17] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1995, 1º de Janeiro de 1995, n.10.


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