Homenagem e gratidão

NA HORA DA DESPEDIDA ATÉ AO CÉU

 

A notícia chegou de repente, inesperada e irreversível, com a dureza de uma despedida sem possibilidade de adiamento: Faleceu Mons. Doutor Alfredo Melo. Pouco depois chegaram mais alguns pormenores: um acidente, no final da celebração do padroeiro da paróquia, S. Pedro, atirou-o para o hospital de Viseu, onde veio a falecer.

Enche de luz e calor esta escuridão a certeza de que nada acontece sem que o Senhor o permita. E quando o faz, é porque um grande bem pode nascer daí para nós. De facto, depois que esta luz se apagou na terra, a beleza da sua vida começou a manifestar-se aos nossos olhos.

Alfredo Melo foi colaborador assíduo de Celebração Litúrgica, desde poucos anos depois da sua fundação, com celebrações e homilias e com artigos doutrinais. Foi também o responsável pela secção “Direito e Pastoral”.

Resta-nos agora exarar aqui o nosso testemunho de amizade e gratidão, ao mesmo tempo que pedimos ao Senhor o tenha luz da glória.

 

As raízes humanas

 

Alfredo de Almeida Melo nasceu no dia 15 de Novembro de 1937 em Casal Vasco, uma aldeia da Beira Alta, a 5 quilómetros da sede do concelho de Fornos de Algodres, distrito da Guarda, e diocese de Viseu, no seio duma família profundamente cristã.

Seu pai, artesão considerado, possuía também uma aptidão nata para o teatro e compôs diversas peças representadas na freguesia. O filho herdou e fez render este seu talento como aluno e educador do seminário da sua Diocese.

Foi ordenado sacerdote no Seminário Maior desta diocese, no dia 26 de Junho de 1960, pelo Bispo da Diocese D. José da Cruz Moreira Pinto (1928-1964).

Anos mais tarde, o P. Alfredo prestar-lhe-ia homenagem de gratidão, ensaiando e dirigindo com mestria o coro do seminário que executou, nas suas exéquias, a Missa de Requiem, de L. Perosi. Sob a sua regência, este coro actuou diversas vezes em concertos e ao serviço da Rádio Nacional. Graças aos seus dotes musicais, o coro do Seminário atingiu com ele grande nível.

Terminado com distinção o Curso de Teologia no Seminário Maior de Viseu, dados os seus notáveis dotes de inteligência e de carácter, aqui ficou como superior e professor até 1967. Ainda como seminarista, foi o primeiro chefe do Agrupamento 121 de escuteiros do Seminário, tendo revelado grandes qualidades de líder, animador, actor, músico e poeta.

 

Sacerdote de Cristo

 

No ano de 1967 foi estudar Liturgia para Madrid no Instituto de Pastoral. Desejoso de uma formação segura e intensa, cursou ao mesmo tempo Direito Canónico, aproveitando em 1968 um curso extraordinário que se iniciou na Universidade de Navarra, enquanto continuava o Curso de Liturgia à distância. Nesta Universidade veio a fazer o doutoramento com uma tese sobre os Conselhos Pastorais, obtendo a classificação máxima pelo seu trabalho.

Ao regressar a Viseu, em 1970, foi professor de Direito Canónico e de Liturgia no Seminário Maior, membro do Tribunal Diocesano e director do Clube Juvenil Viriato. Em 1975, ajudou a cuidar das paróquias de Santiago de Cassurrães e Póvoa de Cervães nas ausências do seu pároco por motivos de estudos.

Foi nomeado pároco de Povolide no dia 27 de Novembro de 1977 e permaneceu nesta paróquia até ao dia do seu falecimento. Esta nomeação, facilitou-lhe que pudesse cuidar durante anos da Casa Viriato, que foi uma estalagem doada para os apostolados com jovens e adultos, por um casal de benfeitores paroquianos de Povolide.

Fez importantes obras de remodelação artística da sua igreja paroquial, que adornou com belos vitrais. Criou, construiu e geriu nesta sua paróquia o Centro Paroquial Social, onde se tem vindo a prestar assistência a idosos e doentes. A médica deste Centro exaltava as suas qualidades governativas de ponderação e de saber ouvir.

Teve vários mandatos como arcipreste, foi membro do Conselho Presbiteral e do Colégio de Consultores. Teve um papel importante na redação dos Estatutos do Clero da Diocese de Viseu. Exerceu o cargo de Vigário Judicial da Diocese de Viseu entre os anos 1993 e 2006. Em 2001, foi nomeado Monsenhor pelo Papa São João Paulo II.

No dia 7 de Setembro de 2006, o Bispo de Viseu nomeou-o Vigário Geral da Diocese, cargo que exerceu de forma exemplar e edificante para todos, até ao dia do seu falecimento.

Tratou desde o início, em 1991, do processo diocesano de beatificação da Madre Rita de Jesus, beatificada em 28 de maio de 2006. O bom trabalho aqui demonstrado levou a que fosse chamado para o processo de beatificação dos videntes de Fátima na diocese de Leiria, onde chegou mesmo a exercer por algum tempo o cargo de Vigário Judicial.

Era uma pessoa que transmitia uma grande serenidade à sua volta. Com um modo de ser discreto, fez um apostolado vastíssimo com inúmeras pessoas que o viam como alguém próximo e amigo. Entre as pessoas que o conheceram e trabalharam com ele, a noção de que era um sacerdote que vivia completamente para a sua missão é unânime. Correspondeu belamente ao ideal sacerdotal: alegre, douto e desportista, “hasta en lo material”.

Foi um pároco modelar e demonstrou muito zelo pastoral e cuidado pelos doentes. Todos recordam a sua piedade eucarística e uma terna devoção ao Coração Imaculado de Maria que não se cansou de difundir.

No dia 26 de Junho de 2010, dia em que celebrava as suas bodas de ouro sacerdotais, presidiu a uma Missa Solene na Sé de Viseu, em memória de S. Josemaria Escrivá, a quem devia desde os primeiros anos do sacerdócio o estímulo da sua vocação à santidade no exercício do ministério. Estava profundamente feliz e agradecido a Deus pelo dom inefável do sacerdócio.

Escolheu como pagela para o seu Jubileu Sacerdotal a imagem do Santo Cristo do Santuário de Torreciudad (Espanha) e duas frases que citou com muita frequência a partir dessa data até ao fim da sua vida e que os seus paroquianos conheciam tão bem: “Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor” (Salmo 88) e “Com alegria, nenhum dia sem Cruz” (São Josemaria).

 

A despedida

 

No dia 29 de Junho de 2015, depois de ter celebrado com os seus paroquianos a festa de São Pedro e São Paulo com Santa Missa e Procissão, ao retirar-se para sua casa caiu acidentalmente numas escadas e teve uma fratura muito grave na cabeça. Foi levado para o Hospital de São Teotónio em Viseu e lá recebeu os últimos sacramentos. Faleceu na manhã do dia seguinte, 30 de Junho, por volta das 10h00.

A notícia comoveu muitas pessoas porque era, entre outras coisas, completamente inesperada. Tinha algumas limitações físicas próprias da idade, mas nada levava a prever um chamamento do Senhor tão repentino.

O seu corpo foi velado no Centro Pastoral de Viseu e depois transladado para a sua paróquia de Povolide onde uma multidão imensa o esperava bastante emocionada. 

Teve exéquias solenes presididas pelo Senhor Bispo de Viseu, D. Ilídio Pinto Leandro, com a participação do Bispo da Guarda, que era grande amigo seu, e mais de cento e cinquenta sacerdotes de Viseu e de outras dioceses. A igreja estava completamente cheia de fiéis e a maioria nem conseguiu entrar no templo, tal era a quantidade de pessoas que quiseram estar presentes.

Depois da Santa Missa, os seus restos mortais foram levados em procissão para o cemitério local no qual foi piedosamente sepultado no mesmo local onde estavam enterrados os seus pais.

 

Colaborador de Celebração Litúrgica

 

Em Janeiro de 1970 nasceu a revista Celebração Litúrgica, promovida por um grupo de sacerdotes que desejavam prestar ajuda aos seus colegas nos primeiros passos da reforma litúrgica conciliar. Não havia textos e, muito menos, subsídios para a preparação da homilia. Juntamente com estes recursos, publicavam-se notas de exegese, sugestões musicais para as celebrações, músicas de salmos responsoriais, artigos de índole pastoral e notícias sobre a vida da Igreja

Alfredo Melo aceitou com generosidade colaborar nesta revista, logo que foi convidado, porque a via como ajuda aos sacerdotes. Deste os primeiros anos da década de setenta que o seu nome aparece entre os colaboradores.

Para mostrar a sua prontidão generosa em mandar a sua colaboração basta o seguinte exemplo:

Logo que chegou aos ouvidos de quem escreve estas notas a dolorosa notícia da sua morte, redigiu imediatamente a colaboração do Dr. Alfredo e mandou-a para a redacção. Veio de lá, com prontidão, a resposta: a colaboração dele já tinha sido recebida. Note-se que não chegara ainda a data limite para a entregar.

Aqui fica a nossa gratidão, com a certeza de que é secundada por todos os que beneficiaram dos seus escritos e exemplo, com uma prece para que, junto de Deus, nos continue a ajudar.

 

Fernando Silva


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