ENCÍCLICA

UMA ECOLOGIA INTEGRAL

 

 

 

Cardeal Peter Turkson

Presidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz

 

 

Com data de 24 de Maio de 2015, Solenidade de Pentecostes, o Papa Francisco publicou a sua segunda Encíclica, “Laudato si’ – sobre o cuidado da casa comum”.

Damos a seguir a apresentação feita pelo Cardeal Peter Turkson, Presidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz, na conferência de imprensa no Vaticano (18-VI-2015).

Título da Redacção de CL.

 

 

Eminências, Excelências, Senhores convidados, ilustres representantes dos media, todos aqueles que nos seguem na rádio e na televisão, Senhoras e Senhores, caros amigos

 

Antes de mais, dirijo-vos uma saudação do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz, honrado por ter sido chamado para ajudar o Santo Padre no seu ensinamento magisterial na elaboração da Carta Encíclica Laudato si' *.

As mais cordiais boas-vindas aos apresentadores do texto, que são:

– Sua Eminência o Metropolita de Pergamo, John Zizioulas, em representação do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla e da Igreja Ortodoxa, que nos vai falar da teologia e da espiritualidade, com que a encíclica se abre e se fecha.

– O Prof. John Schellnhuber, fundador e diretor do Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto Climático, que aqui representa as ciências naturais com as quais a Encíclica entra em diálogo profundo. Parabéns pela sua nomeação como membro ordinário da Pontifícia Academia das Ciências, que também contribuiu significativamente para a Encíclica.

– A Prof. Carolyn Woo, Presidente da Catholic Relief Services, e ex-decana do Mendoza College of Business, da Universidade de Notre Dame, que representa os setores da economia, das finanças, dos negócios e do comércio, cujas respostas para os grandes desafios ambientais são tão cruciais.

– A professora Valeria Martano, romana e professora há 20 anos nos subúrbios de Roma, testemunha da degradação ambiental e humana, e também das “melhores práticas” que são um sinal de esperança.

A presença deles e tudo o que nos vão dizer, recordam-nos que a Encíclica “Laudato si' – sobre o cuidado da casa comum” se coloca, desde o início, em diálogo com todas as pessoas, organizações e instituições que compartilham esta mesma preocupação. Elas encaram perspectivas diferentes, que a situação do mundo nos faz descobrir cada vez mais entrelaçadas e complementares: as riquezas da fé e da tradição espiritual, a seriedade do trabalho de investigação científica, o empenho concreto, a vários níveis, para um desenvolvimento equitativo e sustentável.

Este tipo de diálogo também esteve presente no método de redação que o Santo Padre quis para a redação da Encíclica. Ele baseou-se numa ampla série de contributos. Alguns, em particular os de muitas Conferências Episcopais de todos os continentes, estão indicados nas notas. Os nomes de outras pessoas que participaram nas várias fases deste trabalho, até naquela, cada vez mais complexa, da tradução e da impressão, permanecem na sombra. O Senhor saberá recompensar a sua generosidade e dedicação.

 

Como já é claro para todos, a Encíclica toma o nome da invocação de São Francisco de Assis “Louvado sejais, meu Senhor” que, no “Cântico das criaturas”, recorda que a terra, nossa casa comum, “se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços” (n. 1). A referência a São Francisco indica também a atitude na qual se baseia toda a Encíclica, que é a da contemplação orante, e nos convida a olhar para o “poverello de Assis” como uma fonte de inspiração. Como afirma a Encíclica, São Francisco é “o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. (…) Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (n. 10).

No centro do percurso da Laudato si’, encontramos esta interrogação: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” O Papa Francisco continua: “Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária”. Isto leva a interrogar-se sobre o sentido da existência e sobre os valores que estão na base da vida social: “Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra?". Se não nos fazemos estas perguntas básicas – diz o Pontífice – “não creio que as nossas preocupações ecológicas possam alcançar efeitos importantes” (n. 160).

Estas questões nascem de uma constatação: hoje a terra, nossa irmã, maltratada e saqueada, lamenta-se; e os seus gemidos unem-se aos de todos os pobres e de todos os “descartados” do mundo. O Papa Francisco convida-nos a escutá-los, solicitando a todos e a cada um – indivíduos, famílias, comunidades locais, nações e comunidade internacional – uma “conversão ecológica”, segundo a expressão de São João Paulo II, isto é, a “mudar de rumo”, assumindo a responsabilidade e a beleza de um compromisso pelo “cuidado da casa comum”. Fá-lo retomando as palavras do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu, aqui representado por Sua Eminência o Metropolita João de Pérgamo: «Quando os seres humanos destroem a diversidade na criação de Deus [...], contribuem para as alterações climáticas [...], contaminam as águas, o solo, o ar… tudo isso é pecado» ” (n. 8).

Ao mesmo tempo, o Papa Francisco reconhece que no mundo se vai difundindo a sensibilidade pelo meio ambiente e pela preocupação pelos danos que ele está a sofrer. Com base nesta constatação, o Papa mantém um olhar de confiante esperança na possibilidade de reverter o curso: “A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum” (n. 13). “O ser humano ainda é capaz de intervir de forma positiva” (n. 58). “Nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se” (n. 205).

Precisamente na chave do caminho de conversão e de esperança num futuro renovado, o Papa Francisco coloca no centro da Encíclica o conceito de ecologia integral, como um paradigma capaz de articular a relação fundamental da pessoa com Deus, consigo mesma, com os outros seres humanos, com a criação. Vale a pena escutar as suas próprias palavras, no n. 139:

“Quando falamos de «meio ambiente», fazemos referência também a uma particular relação: a relação entre a Natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos de considerar a Natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. As razões, pelas quais um lugar se contamina, exigem uma análise do funcionamento da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, das suas maneiras de entender a realidade. Dada a amplitude das mudanças, já não é possível encontrar uma resposta específica e independente para cada parte do problema. É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As directrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da Natureza”.

Este é o quadro em que vão colocados os diversos temas tratados pela Encíclica, que nos diversos capítulos são retomados e continuamente enriquecidos a partir de perspectivas diferentes (cf. n. 16). Por exemplo, a íntima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta; a convicção de que tudo no mundo está intimamente ligado; a crítica do novo paradigma e as formas de poder que derivam da tecnologia; o valor próprio de cada criatura; o sentido humano da ecologia; a necessidade de debates sinceros e honestos; a grave responsabilidade da política internacional e local; a cultura do descarte e a proposta de um novo estilo de vida; e o convite a procurar outros modos de compreender a economia e o progresso – este é o tema da Prof. Carolyn Woo (n. 16.)

 

A encíclica articula-se em seis capítulos, cuja sucessão descreve um percurso preciso.

O ponto de partida (cap. I) é constituído pela escuta espiritual dos melhores resultados científicos hoje disponíveis em matéria de meio ambiente, para “deixar-se tocar por ela em profundidade e dar uma base concreta ao percurso ético e espiritual seguido” (n. 15). A ciência é o instrumento privilegiado através do qual podemos escutar o grito da terra. Abordam-se assim questões extremamente complexas e urgentes, como nos explicará o Prof. John Schellnhuber, algumas das quais – como as alterações climáticas e, sobretudo, as suas causas – são objeto de um acalorado debate no campo científico. O objetivo da Encíclica não é o de intervir neste debate, que é competência dos cientistas, e muito menos o de estabelecer exatamente em que medida as alterações climáticas são uma consequência da ação humana. O Santo Padre já o recordava em 15 de Janeiro passado no voo de Sri Lanka para as Filipinas. Na perspetiva da Encíclica – e da Igreja – é suficiente que a atividade humana seja um dos fatores que explicam as alterações climáticas, para que derive daí uma responsabilidade moral grave de fazer tudo o que estiver em nosso poder para reduzir o nosso impato e evitar os efeitos negativos sobre o meio ambiente e sobre os pobres.

O passo seguinte no percurso da Encíclica (cap. II) é a recuperação das riquezas da tradição judaico-cristã, antes de mais no texto bíblico, e, depois, na elaboração teológica que se baseia nela. Esta revelação explicita a “enorme responsabilidade” do ser humano em relação à criação, a ligação íntima entre todas as criaturas e o fato de que “o meio ambiente é um bem colectivo, património de toda a humanidade e responsabilidade de todos” (n. 95).

A análise ocupa-se a seguir (cap. III) das “raízes da situação actual, de modo a individuar não apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas” (n. 15), num diálogo com a filosofia e as ciências humanas. O objetivo é elaborar o perfil de uma ecologia integral (cap. IV) que, nas suas diversas dimensões, compreenda “o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o rodeia” (n. 15), nas diversas dimensões da nossa vida, na economia e na política, nas diversas culturas, em particular nas mais ameaçadas, e até mesmo em todos os momentos de nossa vida quotidiana”.

Nesta base, o cap. V aborda a questão de saber o que podemos e devemos fazer, e propõe uma série de perspectivas de renovação da política internacional, nacional e local, dos processos decisórios no âmbito público e de negócios, da relação entre política e economia e entre as religiões e as ciências. Neste contexto inserem-se os contributos de três testemunhas romanas convidadas: a professora Valeria Martano, que vai falar, o jovem Marco Francioni e a anciã Giovanna La Vecchia, que estarão disponíveis para entrevistas.

Para o Papa Francisco é indispensável que a construção de caminhos concretos não seja abordada de modo ideológico, superficial ou reducionista. Para isso, é essencial o diálogo, um termo presente no título de todas as seções deste capítulo: “Há discussões sobre problemas relativos ao meio ambiente, onde é difícil chegar a um consenso. […] A Igreja não pretende definir as questões científicas nem substituir-se à política, mas convido a um debate honesto e transparente, para que as necessidades particulares ou as ideologias não lesem o bem comum” (n. 188).

Finalmente, com base na convicção de que “toda a mudança tem necessidade de motivações e dum caminho educativo”, o cap. VI propõe “algumas linhas de maturação humana inspiradas no tesouro da experiência espiritual cristã” (n. 15). Nesta linha, a Encíclica termina oferecendo o texto de duas orações: a primeira para compartilhar com os crentes de outras religiões, e a segunda com os cristãos, retomando a atitude de contemplação orante com que tinha começado.

A humanidade, na sua relação com o meio ambiente, enfrenta desafios cruciais, que requerem também a elaboração de políticas adequadas, que por outro lado figuram na agenda internacional. Certamente, a Laudato si’ poderá e deverá ter um impato sobre esses processos. No entanto, também um rápido exame do seu conteúdo, como o que acabo de expor, mostra que ela tem uma natureza magisterial, pastoral e espiritual, cujo alcance, amplitude e profundidade não podem ser reduzidas unicamente ao âmbito das políticas ambientais.

Obrigado!

 

 

 

 

 

 



* Isto é o que o próprio Papa declarou no avião da viagem para Manila, e por isso já é conhecido: “A encíclica: o primeiro esboço foi feito pelo Cardeal Turkson, juntamente com a sua equipe. Depois eu, com a ajuda de alguns, peguei no escrito e trabalhámos nele. Com alguns teólogos, depois, redigi uma terceira versão: enviei uma cópia à Congregação para a Doutrina da Fé, uma para a Segunda Seção da Secretaria de Estado e uma ao Teólogo da Casa Pontifícia (...). Há três semanas, recebi as respostas (...), todas construtivas. E agora vou ter toda uma semana de Março para terminá-la. Acho que no final de Março estará terminada e irá para os tradutores. Penso que, se o trabalho de tradução ficar bem (...), em Junho ou Julho poderá sair” (15 de Janeiro de 2015).


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