DOCUMENTAÇÃO

ARCEBISPO DE ÉVORA

 

A FAMÍLIA

COMO LUGAR, ESCOLA E MODELO DE COMUNICAÇÃO

 

 

Para a comemoração do Dia Mundial das Comunicações Sociais, no Domingo 17 de Maio passado, D. José Alves publicou uma nota na sequência da Mensagem do Papa Francisco (cf. www.diocese-evora.pt/site):

 

Antes de mais, permitam-me que me congratule pela feliz coincidência de nos encontrarmos na data em que ocorre o Dia Internacional da Família e para falarmos da família e da comunicação social. A família é uma instituição primigénia e natural, anterior à própria sociedade e a toda a forma de religião. Mas é um tema sempre actual que se mantém na ordem do dia embora nem sempre pelas melhores razões. O papa Francisco, homem atento aos problemas, dotado de espírito inovador nas soluções, depois de ter convocado um Sínodo dos Bispos sobre a família com duas sessões, na mensagem para o 49º Dia Mundial das Comunicações Sociais, associou a família com a comunicação. Pela minha parte, considero que esta foi mais uma das suas intuições felizes.

O papa não foge às questões mas gosta de abordar além do lado negativo também os aspectos positivos. Ora, a família é mais frequentemente abordada como objecto de opiniões ou como campo de batalhas ideológicas, do que como ambiente onde se aprende a comunicar, sujeito de comunicação e comunidade comunicadora. Numa palavra, a família deve ser também considerada como lugar, escola e modelo de comunicação. E é este o tema principal da mensagem papal.

Com efeito é na família que se situa a origem da comunicação. Ainda no ventre materno, o feto estabelece a primeira comunicação através do contacto corporal, pela captação dos estados emocionais da mãe e dos sons produzidos tanto no interior como no exterior. Assim o confirma a ciência nos nossos dias e assim o afirmou S. Lucas, ao relatar o encontro entre Maria e Isabel. João Baptista exultou de alegria no ventre materno porque, à sua maneira, captou a alegria daquele encontro, que Maria tão belamente descreveu no cântico do Magnificat.

A partir deste belo ícone da visita, torna-se clara a importância do encontro interpessoal para a comunicação e da família como meio ambiente apropriado para a concretização do encontro autêntico e da comunicação entre pessoas diferentes. A própria capacidade de comunicar desenvolve-se no ambiente familiar que proporciona os ingredientes necessários para a comunicação, a saber: a aceitação, o amor, o encontro entre pessoas e a linguagem materna. O ambiente privilegiado da família é, em certo sentido, o prolongamento do ventre materno, onde a criança se sente estimulada a comunicar, porque se sente protegida, aceite e amada e lhe são proporcionados os meios de comunicação: presença corporal, emoções, afectos e uma língua materna.

As experiências gratificantes de comunicação vividas no ambiente familiar abrem caminho para a comunicação com o mundo exterior e alargam o horizonte da comunicação, com todas as suas possibilidades e condicionamentos. Condicionamentos impostos por deficiências individuais, por tensões interpessoais ou pelo mau uso das tecnologias da comunicação.

As deficiências individuais e as tensões interpessoais, experimentadas no seio da família alertam para as dificuldades da comunicação. Quando são resolvidas positivamente, abrem caminho para o relacionamento interpessoal, que cada um irá desenvolver ao longo da vida. E, no dizer do papa, transformam-se numa bênção.

O uso das novas tecnologias da comunicação é porventura um dos temas que na actualidade requer maior atenção e empenhamento por parte das famílias. As novas tecnologias da comunicação constituem uma fonte maravilhosa de informação e um meio fácil de contacto e de aproximação com os que estão longe. E, sob esse ponto de vista, devem ser saudadas como um benefício extraordinário para todos nós. Mas podem também transformar-se em barreiras de separação e muralhas de isolamento que dificultam ou, porventura, impossibilitam a comunicação interpessoal e intergeracional dos que vivem na mesma casa e fazem parte da mesma família.

Estudos recentes e cada vez mais aprofundados alertam-nos para os perigos que espreitam os incautos navegantes no mar alto das realidades virtuais. São muitos, variados, complexos e, por vezes, de efeitos perniciosos. As famílias, em muitos casos, não têm meios para uma intervenção correcta. Exige-se que as entidades oficiais, as escolas e os meios de comunicação social alertem para estes perigos, colaborem com as famílias e as ajudem a encontrar as soluções adequadas.

E termino com o desafio lançado pelo papa. A esta sociedade dotada cada vez com melhores tecnologias de comunicação e na qual, em simultâneo, aumenta a incomunicabilidade interpessoal, o papa lança o desafio de reaprender, em família e nas escolas, a arte da narrativa, construída a partir de uma trama interpessoal, que reserva a cada pessoa seu lugar e na qual tudo converge para o centro vital do encontro.

Évora, 15 de maio de 2015

 

† José, Arcebispo de Évora


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