24º Domingo Comum

13 de Setembro de 2015

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Deus, vinde em meu auxílio, F. da Silva, NRMS 53

 

cf. Sir 36, 18

Antífona de entrada: Dai a paz, Senhor, aos que em Vós esperam e confirmai a verdade dos vossos profetas. Escutai a prece dos vossos servos e abençoai o vosso povo.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Corremos o risco de cair num certo pessimismo ao falar do futuro da Igreja e da eficácia do cristianismo. Perante a descristianização progressiva das pessoas e das famílias, ao mesmo tempo que um ambiente social anti-cristão se vai instalando, poderíamos ser tentados a pensar que o cristianismo tem os dias contados.

Deus é fiel e não deixará ficar vencidos os que nele confiam e por Ele arriscam a sua vida. Desta esperança fundada na confiança que temos no Senhor nos fala a Liturgia da Palavra deste 24.º Domingo do Tempo Comum.

 

Acto penitencial

 

Quando se apresentam as dificuldades em viver com verdade a nossa vocação baptismal, somos tentados a diminuir a sua exigência. Não queremos deixar de ser cristãos, mas também não queremos que nos peçam sacrifícios.

Peçamos perdão ao Senhor da nossa falta de congruência na vida e, com a certeza da Sua ajuda, prometamos emenda de vida.

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

•   Para as nossas dúvidas sem fundamento e faltas de confiança em Vós,

    quando chega a hora da verdade de mostrarmos de sermos valentes,

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

•   Para as nossas hesitações cobardes, quando é necessário arriscar,

    e fugimos às responsabilidades assumidas pelo nosso Baptismo,

    Cristo, misericórdia!

 

    Cristo, misericórdia!

 

•   Para a confiança em nós de que podemos vencer as dificuldades,

    sem a ajuda da oração confiante, e frequência dos Sacramentos,

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Deus, Criador e Senhor de todas as coisas, lançai sobre nós o vosso olhar; e para sentirmos em nós os efeitos do vosso amor, dai-nos a graça de Vos servirmos com todo o coração. Por Nosso Senhor...

 

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Isaías é chamado por Deus a testemunhar a Palavra da salvação e, para cumprir essa missão, enfrenta a perseguição, a tortura, a morte.

Todavia, o profeta está consciente de que a sua vida não foi um fracasso: quem confia no Senhor e procura viver na fidelidade aos seus desígnios, triunfará sobre a perseguição e a morte. Os primeiros cristãos viram neste “servo de Jahwéh” a figura de Jesus.

 

Isaías 50, 5-9a

5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. 8O meu advogado está perto de mim. Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário?  Que se apresente! 9aO Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me?

 

A leitura é extraída do 3º poema dos célebres Cantos do Servo de Yahwéh, que aparecem dispersos pelo Segundo Isaías. Trata-se de um poema literariamente bem estruturado em estrofes iniciadas da mesma forma: «O Senhor Deus». Neste texto é o próprio Servo (cf. v. 10) quem é apresentado a falar. Apresenta-se «a falar como um discípulo» (v. 4), embora não se trate de um discípulo qualquer: é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: «a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7, 16; cf. 14, 24). Segundo o que os Evangelhos deixam ver, a Tradição cristã primitiva logo viu nesta figura uma representação profética de Jesus Cristo e da sua Paixão, ao arrepio das expectativas messiânicas da época.

5 «Eu não resisti nem recuei». Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 «Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam». Um pleno cumprimento deu-se no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Lc 22, 63-64; etc.

 

Salmo Responsorial    Sl 114 (116), 1-2.3-4.5-6.8-9 (R. 9)

 

 

Monição: O salmo de meditação que a liturgia nos convida a cantar, como ressonância da Palavra de Deus proclamada leva-nos a manifestar a nossa plena confiança em Deus no meio das muitas dificuldades da vida presente.

Façamos dele a nossa oração plena de confiança, especialmente quando nos sentirmos mais oprimidos.

 

Refrão:        Andarei na presença do Senhor

                     sobre a terra dos vivos.

Ou:               Caminharei na terra dos vivos

                     na presença do Senhor.

Ou:               Aleluia.

 

Amo o Senhor,

porque ouviu a voz da minha súplica.

Ele me atendeu

no dia em que O invoquei.

 

Apertaram-me os laços da morte,

caíram sobre mim as angústias do além,

vi-me na aflição e na dor.

Então invoquei o Senhor:

«Senhor, salvai a minha alma».

 

Justo e compassivo é o Senhor,

o nosso Deus é misericordioso.

O Senhor guarda os simples:

estava sem forças e o Senhor salvou-me.

 

Livrou da morte a minha alma,

das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés.

Andarei na presença do Senhor,

sobre a terra dos vivos.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Tiago recomenda na sua carta, que não haja na Igreja acepção de pessoas no trato. Todos são igualmente filhos de Deus.

Esta igualdade no trato deve ser cuidadosamente observada nas assembleias litúrgicas, evitando tratar de modo diferente os pobres e os ricos.

 

Tiago 2, 14-18

Meus irmãos: 14De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? 15Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, 16e um de vós lhe disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? 17Assim também a fé sem obras está completamente morta. 18Mas dirá alguém:  «Tu tens a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé.

 

Tiago começa a desenvolver aqui a ideia subjacente a toda a carta: a coerência da vida com a fé, com uma argumentação repetitiva para insistir na mesma ideia nuclear, expressa em termos equivalentes (v. 14.17.18.20.26). Conjugando o método sapiencial e exemplos vivos do A. T. com a pedagogia estóica de perguntas retóricas e de interlocutores fictícios, obtém um belo efeito, desperta o interesse do leitor e convence. Na leitura de hoje o ensino gira à volta duma situação típica, a saber, a do crente que não presta assistência ao irmão (v. 14-17; cf. 1 Jo 3,17).

17 «Assim também a fé sem obras está completamente morta». S. Tiago não está em oposição a S. Paulo, como Lutero afirmou, mas coloca-se noutro ponto de vista distinto. S. Paulo quer demonstrar aos judaizantes que as obras da Lei de Moisés são inúteis para obter a salvação, que só Cristo nos traz. S. Tiago pretende visar os crentes que não vivem a fé, e, segundo pensam alguns, apoiando-se numa interpretação abusiva de S. Paulo, o qual também não deixa de apelar para a necessidade das boas obras, uma vez recebido o dom da graça (cf. Rm 2, 6; 6, 15-22; 8, 4.12-13; 12, 9-21; 1 Cor 13, 2-3; Gl 5, 6.19-22). O mesmo texto de Gn 15,6 é citado por ambos: S. Paulo para ensinar a gratuidade da justificação (Rm 4,2-3; Gl 3,5-7), S. Tiago para inculcar a necessidade duma fé coerente e activa (mais adiante, nos vv. 20-23). S. Paulo tem diante de si a lei judaica e situa-se na fase que precede a justificação, ao passo que S Tiago considera o cristão, o homem já justificado, que tem de viver a sua fé com obras de amor a Deus e ao próximo, e não considera aqui as observâncias próprias do judaísmo. Os ensinamentos estão em plena concordância com o Evangelho: «Nem todo o que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus» (Mt 7, 21).

 

Aclamação ao Evangelho        cf. Gal 6, 14

 

Monição: Não temos outro título de glória, nem outro queremos ter, a não ser o de sermos filhos de Deus amados em Jesus Cristo.

Manifestemos esta alegria aclamando O Evangelho que nos vai ser anunciado.

 

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação – 4,F. Silva, NRMS 50-51

 

Toda a minha glória está na cruz do Senhor,

por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 8, 27-35

Naquele tempo, 27Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?» 28Eles responderam: «Uns dizem João Baptista; outros, Elias;  e outros, um dos profetas». 29Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias». 30Ordenou-lhes então severamente  que não falassem d’Ele a ninguém. 31Depois, começou a ensinar-lhes  que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos,  pelos sumos sacerdotes e pelos escribas; de ser morto e ressuscitar três dias depois. 32E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas. Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O. 33Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus,  mas só as dos homens». 34E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 35Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».

 

O texto da leitura pode ser considerada como um ponto de charneira na estrutura do Evangelho de S. Marcos. Os vv. 27-29 encerram a primeira parte do Evangelho, com a confissão de fé de Pedro, «Tu és o Messias», a qual não é mais uma resposta entre tantas acerca da pessoa de Jesus, mas é a resposta certa, a resposta da fé à pergunta implícita ao longo da redacção: «Quem é este homem?» Os vv. 30-35 iniciam a segunda parte do Evangelho de Marcos, em que Jesus começa uma instrução aprofundada aos discípulos, revelando a natureza da sua condição de Messias, contra tudo o que era de esperar, bem posto em evidência na oposição frontal do próprio Pedro, que «não compreende as coisas de Deus» (vv. 32-33).

 34-35 «Renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me…» Esta passagem evangélica, em termos fortemente paradoxais – um recurso semítico frequente em Jesus para chamar a atenção para um ensinamento importante e a não esquecer –, é uma daquelas que todos os cristãos deviam saber de cor, a par com as outras fórmulas do catecismo (cf. Cathechesi tradendæ). Aceitar e abraçar a cruz é fundamental para o homem alcançar a salvação: para viver é preciso morrer. O fim do homem é o próprio Deus, não é gozar dos bens deste mundo, que são puros meios. Para se chegar a Deus é preciso «renegar-se a si mesmo», renunciando ao comodismo, egoísmo, apego aos bens terrenos, e «tomar a sua cruz», abraçando os sacrifícios que acarreta o dever bem cumprido. Na expressão do Catecismo da Igreja Católica, no nº 2015: «O caminho da perfeição passa pela Cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual. O progresso espiritual implica a ascese e a mortificação, que conduzem gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças».

 

Sugestões para a homilia

 

• A Redenção pela Cruz

O cristianismo, escola de fortaleza

Confiança no Senhor

Deus, minha fortaleza

• Seguir Jesus Cristo

Falsas imagens de Jesus

Jesus, nossa Salvação

Condições para O seguir

 

1. A Redenção pela Cruz

 

O profeta Isaías procura, no texto da 1.ª Leitura, consolar o Povo Israelita, exilado em Babilónia e tratado como escravo.

Como promessa de consolação, manifesta a figura do Messias que há-de salvar o Povo de Deus pelo sofrimento.

 

a) O cristianismo, escola de fortaleza. «O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam

Temos um horror instintivo ao que nos pede sacrifício. Uma grande parte das nossas acções e escolhas explica-se pelo princípio do menor esforço. O que dá menos trabalho, o que exige menos esforço é o que escolhemos.

Aplicado à vida espiritual pode significar falta da virtude cardeal da fortaleza e, portanto, uma capitulação constante contra o que Deus quer de cada um de nós.

Também aqui se podem aplicar as palavras de Jesus: «Se o sal perde a sua força, com que se salgará? Para nada mais serve Senão para ser deitado fora e pisado pelos homens

O cristianismo na vida e muitas pessoas é sal que perdeu a sua força e, portanto, já não serve para nada. Muitas pessoas procuram camuflar esta falta com os muitos sinais religiosos que ostentam por todo o lado. A virtude da fortaleza ensina-nos a ajuda-nos a caminhar ao ritmo de Deus. Manifesta-se na vida como uma moeda com duas faces:

• Leva-nos a aguentar a pé firme perante os obstáculos que nos impedem de fazer a vontade de Deus. A tentação sugere-nos que encontremos um desconto para a exigência de Deus. Quando começamos por ceder a isto, acabamos derrotados. Os mártires de todos os tempos aguentaram os sofrimentos e a perda da via natural, sem recuar, até à morte.

• Leva-nos também a empreender coisas difíceis e árduas, para fazer a vontade de Deus.

O heroísmo escondido dos pais de família, acolhendo uma família numerosa, vivendo uma fidelidade heróica quando o outro cônjuge perdeu todo o atractivo, por doença ou por idade; os missionários de todos os tempos, ensinam-nos o que isto significa na prática.

Hoje, quando tantos dobram os joelhos diante de falsos deuses, precisamos de viver a coerência da fé. Viver a ritmo de Deus exige de nós esta fortaleza, chocando com a vida morna, tíbia, em que tantos se deixaram emaranhar.

 

b) Confiança no Senhor. «Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido

Estamos submetidos na vida terrena a uma prova de Amor e fidelidade ao Senhor. Como poderia Ele abandonar-nos? Venceremos, não segundo o modo em que concebemos a vitória, mas como Deus a vê. Ele sabe mais e escolhe para nós o melhor.

Confiar é fiar-se de alguém, fiar-se no Senhor que nos promete fazer felizes desde agora e para sempre, se nos deixarmos conduzir por Ele. Esta confiança leva-nos a seguir fielmente quem nos guia, como o cego ao que o conduz.

Por palavras, confiamos. Mas quando chega a hora da verdade, quando nos são pedidas coisas custosas, começamos a duvidar se não haverá qualquer engano nas promessas de Deus.

Os santos ajudam-nos a compreender melhor como se vive esta confiança no Senhor.

João Paulo II manifestou-o ao longo da vida, mas é durante o Pontificado que isto mais se evidenciou. Quando estava para iniciar a ida ao México, queriam dissuadi-lo, porque era muito perigosa esta viagem. Depois, quando numa nação da América Latina um grupo ensaiou uma profanação litúrgica, durante a Missa, para justificar a falsa teologia da libertação, não hesitou exclamar com toda força: “Silêncio! O que estais a fazer é um sacrilégio!” Quando o advertiam dos perigos que corriam e como tinha de se resguardar nas diversas viagens, dizia: “O lugar mais perigoso para o Papa é a Praça de S. Pedro!”  De facto, veio a ser verdade.

Bento XVI seguiu por este caminho: viajou a países muçulmanos, vai ao Líbano e diz com toda a clareza e humildade o que é preciso. Fortaleza foi já aceitar o papado, na idade em que este sacrifício lhe foi pedido por Deus. A confiança em Deus está no segredo desta acuação.

 

c) Deus, minha fortaleza. «Pretende alguém instaurar-me um processo? Compareçamos juntos. Quem é o meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio. Quem ousará condenar-me

Esta e outras crises que atravessamos poderiam levar-nos, numa visão superficial da vida, à convicção de que estamos sós na vida, sem alguém a que recorrer.

A verdade é que o Senhor procede para connosco como a mãe para com o filho pequenino. Ela sabe que a criança não tem capacidade para se defender e, por isso, o seu olhar segue-o para todo o lado. Assim nos cuida o Senhor, defendendo-nos dos perigos – se queremos aceitar a luz que nos dá – e fortalecendo-nos quando verdadeiramente queremos superar os obstáculos.

As grandes crises são permitidas por Deus porque, além de outros benefícios, purificam-nos e exercitam-nos para que possamos superar os obstáculos. Actuam como a preparação desportiva que prepara a vitória. Nada pode acontecer no mundo sem que Deus o permita antes. E quando o permite é porque dele podemos tirar bons frutos para nós.

É preciso vencer a tentação pagã que nos leva a fixarmo-nos unicamente no que os acontecimentos têm de negativo. À luz da fé descobriremos muitas pedras preciosas espalhadas por meio dos escombros que pareciam uma desgraça sem remédio. Das cinzas renasce a floresta, depois da desgraça ou crime do incêndio, de forma que o bem volta a ressurgir.

As doenças ajudam os que as tratam a florir em caridade, e os que as sofrem, em paciência e amor de Deus. Deus é a nossa fortaleza, quando nos apoiamos nesta verdade de fé. Como poderia Ele não cuidar de nós, se somos os Seus filhos bem amados?

• Deus pede aos casais que se apoiem nesta confiança n’Ele para viverem na fidelidade e aceitarem e educarem famílias numerosas e sejam amorosamente exigentes na educação dos filhos.

• Pede a todos nós uma revisão dos compromissos do baptismo, para os vivermos com maior fidelidade. Maria e José são modelos desta confiança em Deus, na aceitação da maternidade virginal, com todas as incompreensões a  que se arriscavam, na fuga para o Egipto e em todas as ocasiões da vida.

 

2. Seguir Jesus Cristo

 

Jesus retirou-Se com os Apóstolos para o lado das nascentes do rio Jordão e aproveitou este momento de tranquilidade para interpelá-los acerca do modo como encaravam a missão de Jesus. Tratava-se de uma forma delicada de os levar a reflectir sobre o momento que estavam a viver.

 

a) Falsas imagens de Jesus. «Jesus partiu com os seus discípulos para as povoações de Cesareia de Filipe. No caminho, fez-lhes esta pergunta: “Quem dizem os homens que Eu sou?” Eles responderam: “Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas”».

Ao falar de Jesus Cristo, Salvador, há uma pergunta prévia a fazer: Que salvação esperam d’Ele as pessoas? Esperam alguma coisa depois desta vida? Como concretizam as pessoas a esperança da salvação eterna?

Encontramos nas pessoas com quem vivemos muitas falsas imagens de Jesus.

• Muitas desconhecem completamente quem é e que papel tem nas suas vidas. O maior inimigo de Deus no mundo de hoje é a ignorância. Consequentemente, vivem como se Ele não existisse. Alguns arrogam-se uma certa jactância, como se o ignorar tudo o que se refere ao cristianismo aumentasse a sua grandeza.

• Há cristãos que praticam uma certa devoção, mas sem qualquer compromisso prático na vida. Religião e vida, templo e comportamento no meio da rua, nos negócios, nas conversas, funcionam como dois compartimentos estanques que nada têm a ver um com o outro. Comovem-se com uma procissão ou qualquer outra manifestação de religiosa, mas depois esquecem tudo isso no dia a dia.

• Para outros, Jesus Cristo é um socorro ocasional de que se lança mão numa doença ou qualquer outro aperto da vida. Fazem uma promessa, “pagam-na” e tudo fica por aí.

• Há ainda os cristãos com a preocupação de uma certa vida interior que deixaram cair na rotina; ou vivem “de pé atrás”, defendendo-se das exigências de Deus, pondo limites drásticos à generosidade de cada dia.

O importante é que façamos d’Ele o Amigo íntimo de todas os momentos, procurando aumentar esta intimidade cada vez mais, o nosso irmão mais velho que nos serve de referência e modelo em todos os momentos.

 

b) Jesus, nossa Salvação. «Jesus então perguntou-lhes: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” Pedro tomou a palavra e respondeu: “Tu és o Messias”.»

A pergunta de Cristo ressoa ao ouvido de cada um de nós: “E tu, quem dizes que Eu sou?” O homem perdeu-se e Deus enviou o Seu Filho a fim de o reencaminhar para o Céu.

Para isso, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo, tornou-se nosso irmão, Deus e Homem verdadeiro, para assumir, como pessoais, as nossas dívidas contraídas pelo pecado de Adão e pelos nossos pecados pessoais.

Pagou a dívida dos nossos pecados pela Sua Paixão e Morte, e Ressuscitou ao terceiro Dia. Põe à disposição de cada um de nós todos os tesouros da graça. Basta que nós manifestemos, por um pequeno gesto, que aceitamos a Sua ajuda para Ele nos enriquecer com todas as graças.

Deixou tudo extremamente facilitado para que nos pudéssemos salvar. Estabeleceu como porta a Igreja e do Céu o Baptismo, mas aceita que seja a vontade dos pais a manifestar o desejo de o receber, quando o que vai ser baptizado é pequenino e não é capaz de o fazer; permite que seja qualquer pessoa a baptizar, mesmo que ainda não seja cristã, desde que faça tudo como a Igreja ensina e tenha a intenção de fazer o que ela faz; e admite outras formas de baptismo quando o da água não é possível: de desejo ou martírio.

Na Sua liberalidade infinita estabeleceu que mesmo sem baptismo, quando uma pessoa vive rectamente, procurando fazer a vontade de Deus, entrará no Reino dos céus.

E se temos a desgraça de perder a vida divina que recebemos no Baptismo, pelo pecado mortal, a qualquer dia da noite ou do dia, a porta da casa do Pai e os seus braços estão sempre abertos para nos receberem festivamente.

A vida recebida no Baptismo há-de crescer até continuar por toda a eternidade no Céu. Na verdade, a vida eterna começa na vida da terra.

 

c) Condições para O seguir. «disse-lhes: “Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á”».

Depois da revelação da Sua divindade, Jesus sabe que os Doze continuam a sonhar com um Messias triunfalista que há-de reconduzir Israel à grandeza perdida, no meio de triunfos.

Depois de Se dar a conhecer como o Messias anunciado pelos profetas, Jesus anuncia sempre a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. O mesmo fez depois da Transfiguração no Tabor.

Nos somos chamados a acompanhá-l’O com a nossa cruz de cada dia, até à glorificação final. Mas o sofrimento em qualquer das suas formas causa-nos verdadeiro pavor. Parece-nos um caminho sem sentido, diametralmente oposto à felicidade que procuramos. E, no entanto, não há qualquer engano.

O sofrimento é a escola de muitas virtudes humanas.

Escola de fortaleza. Passamos a vida a fugir do que nos custa renúncia e sacrifício. Este horror ao sacrifício leva-nos ou pode levar-nos a muitos descaminhos. Cometem-se grandes crimes por causa do medo do que custa. Abortos, homicídios, cedências cobardes em matéria de fé.

Os mártires de todos os tempos dão-nos o exemplo de enfrentar com coragem aquilo que inclui sofrimento, quando isso é da vontade de Deus. Sem a ajuda da graça não conseguimos superar este medo doentio que nos impede de alcançar a maturidade.

• ´Fé, esperança e amor. Só com os olhos em Deus se pode enfrentar, sem recuar um passo coisas que fazem sofrer.

Escola de confiança. Temos a certeza que Ele nunca nos deixa sós. Defende-nos e assiste-nos sempre.

Para vencer esta limitação do medo ao sofrimento temos de fazer como aquele que está a fazer uma recuperação física. Começar com pequenos movimentos dos membros, até chegar à normalidade: fechar uma porta devagar, sem a jogar de longe; levantar-se pontualmente da cama; aperfeiçoar um trabalho até ao último pormenor; sorrir quando a doença. O cansaço ou a má disposição aconselhavam outra coisa; etc.

Com Maria em toda a sua vida, mas especialmente em pé, junto à Cruz de seu Filho, aprendemos a não voltar a carta ao sofrimento.

 

Fala o Santo Padre

 

«A vocação da Igreja e do cristão é servir; e fazê-lo, como o próprio Senhor,

gratuitamente e a todos sem distinção.»

[…] Neste domingo em que o Evangelho nos interpela sobre a verdadeira identidade de Jesus, sentimo-nos a caminhar com os discípulos na estrada que leva às aldeias da região de Cesareia de Filipe. «E quem dizeis vós que Eu sou?» (Mc 8, 29): pergunta-lhes Jesus. O momento escolhido para lhes colocar esta questão não é sem significado. Jesus encontra-se num ponto de viragem decisiva da sua vida. Sobe para Jerusalém, para o lugar onde será realizado, através da cruz e ressurreição, o acontecimento central da nossa salvação. É também em Jerusalém que, depois de todos estes acontecimentos, vai nascer a Igreja. E, neste momento decisivo, Jesus começa por perguntar aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que Eu sou?» (Mc 8, 27), recebendo deles respostas muito variadas: João Batista, Elias, um profeta… Ainda hoje, como ao longo dos séculos, aqueles que, de diversas maneiras, se cruzaram com Jesus no seu caminho têm a sua resposta a dar. São abordagens que podem ajudar a encontrar o caminho da verdade. Mas as mesmas, embora não sejam necessariamente falsas, são insuficientes, porque não atingem o cerne da identidade de Jesus. Só alguém que aceite seguir pelo seu caminho, viver em comunhão com Ele na comunidade dos discípulos, é que pode ter um verdadeiro conhecimento. Tal é o caso de Pedro, que, desde há algum tempo, vive com Jesus e que agora responde: «Tu és o Messias» (Mc 8, 29). Resposta certa, sem dúvida alguma; mas ainda insuficiente, dado que Jesus sente a necessidade de a especificar. Ele entrevê que as pessoas poderiam servir-se desta resposta para desígnios que não são os seus, para suscitar falsas esperanças temporais sobre Ele. Não se deixa bloquear nos simples atributos do libertador humano que muitos esperam.

Anunciando aos seus discípulos que terá de sofrer, ser condenado à morte e depois ressuscitar, Jesus quer fazer-lhes compreender quem Ele é verdadeiramente. Um Messias sofredor, um Messias servo, e não um libertador político omnipotente. Ele é o Servo obediente à vontade de seu Pai até ao ponto de perder a sua vida. É o que anunciava já o profeta Isaías na primeira leitura. Assim Jesus vai contra o que muitos esperavam d’Ele. A sua afirmação choca e desconcerta. E ouve-se o protesto de Pedro, que O censura, recusando para o seu Mestre o sofrimento e a morte. Jesus mostra-se severo com ele, e faz-lhe compreender que aquele que quiser ser seu discípulo deve aceitar ser servo, como Ele Se fez Servo.

Seguir Jesus significa tomar a própria cruz para O acompanhar pelo seu caminho, um caminho incómodo que não é o do poder nem da glória terrena, mas o que leva necessariamente a renunciar a si mesmo, a perder a sua vida por Cristo e pelo Evangelho, a fim de a salvar. É que nos foi dada a certeza de que este caminho leva à ressurreição, à vida verdadeira e definitiva com Deus. Decidir acompanhar Jesus Cristo que Se fez o Servo de todos exige uma intimidade cada vez maior com Ele, colocando-se atentamente à escuta da sua Palavra, a fim de tirar dela a inspiração para o nosso agir. […]

Irmãos e irmãs, o caminho por onde Jesus nos quer conduzir é um caminho de esperança para todos. A glória de Jesus revela-se no momento em que, na sua humanidade, Ele Se mostra mais frágil, especialmente na encarnação e na cruz. É assim que Deus manifesta o seu amor, fazendo-Se servo, dando-Se a nós. Porventura não é este um mistério extraordinário, por vezes difícil de admitir? O próprio apóstolo Pedro só o compreenderá mais tarde.

Na segunda leitura, São Tiago lembrou-nos como este seguimento de Jesus, para ser autêntico, exija actos concretos: «Pelas obras, te mostrarei a minha fé» (Tg 2, 18). Servir é uma exigência imperativa para a Igreja, de modo que os cristãos são verdadeiros servos à imagem de Jesus. O serviço é um elemento constitutivo da identidade dos discípulos de Cristo (cf. Jo 13, 15-17). A vocação da Igreja e do cristão é servir; e fazê-lo, como o próprio Senhor, gratuitamente e a todos sem distinção. Assim, servir a justiça e a paz, num mundo onde a violência não cessa de alongar o seu rasto de morte e destruição, é uma urgência de modo a comprometer-se em prol duma sociedade fraterna, para edificar a comunhão. […]

Todo o ministério, toda a função na Igreja é primariamente um serviço a Deus e aos irmãos. É este espírito que deve animar todos os baptizados, uns em relação aos outros, especialmente através dum compromisso efectivo a favor dos mais pobres, dos marginalizados, daqueles que sofrem, para que seja preservada a dignidade inalienável de toda a pessoa. […]

Papa Bento XVI, Homilia em Beirute, 16 de Setembro de 2012

 

Oração Universal

 

Depois que a Palavra de Deus foi proclamada,

despertando em nós a confiança no Senhor,

apresentemos-Lhe todas nossas intenções,

para que as acolha no Seu divino Coração.

Oremos (cantando):

 

    Senhor! Sede Vós a nossa fortaleza!

 

1. Pelo Santo Padre, Bispos, Presbíteros e Diáconos,

    para que nos ajudem a viver como filhos de Deus,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor! Sede Vós a nossa fortaleza!

 

2. Pelos que desanimam na procura de Jesus Cristo,

    para que o Senhor os faça descobrir a beleza da fé,

    oremos, irmãos.

    Senhor! Sede Vós a nossa fortaleza!

 

3. Pelos pais de família e demais educadores da fé,

    para que revelem aos jovens a beleza de Cristo,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor! Sede Vós a nossa fortaleza!

 

4. Pelos que têm dificuldades de ordem económica,

    para que encarem esta crise iluminados pela fé,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor! Sede Vós a nossa fortaleza!

 

5. Pelos que se dão generosamente ao voluntariado,

    para que vejam nele a alegria de servir a Cristo,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor! Sede Vós a nossa fortaleza!

 

6. Pelos defuntos que são purificados das suas faltas,

    para que o Senhor os receba quanto antes no Céu,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor! Sede Vós a nossa fortaleza!

 

Senhor, que nos chamais a caminhar na vida

por entre sombras e espinhos até ao Céu:

iluminai com a luz da fé os nossos passos,

para que, na alegria, Vos sirvamos sempre,

até Vos contemplarmos na felicidade eterna.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

O mesmo Jesus que dialogava com os Doze, pelos caminhos da Galileia está agora connosco, nesta celebração da Eucaristia e a ela preside.

Torna-se visível a Sua presença pelo ministério do sacerdote. Por meio dele operará o prodígio da transubstanciação, isto é, a mudança de toda a substância do pão e do vinho no Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

 

Cântico do ofertório: Confiarei no meu Deus, F. da Silva, NRMS 106

 

Oração sobre as oblatas: Ouvi, Senhor, com bondade as nossas súplicas e recebei estas ofertas dos vossos fiéis, para que os dons oferecidos por cada um de nós para glória do vosso nome sirvam para a salvação de todos. Por Nosso Senhor...

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Saudação da Paz

 

Para gozarmos a paz que Jesus Cristo nos oferece, temos de o colocar, com a Sua Lei do Amor, no centro da nossa vida.

Manifestemos este desejo, ao trocar entre nós o sinal litúrgico da paz.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Neste momento em que vamos comungar, ressoa de novo em nosso coração a pergunta de Jesus ao Apóstolos: “E vós? Quem dizeis que Eu sou?”

Respondamos, como Pedro, com um acto de fé, enquanto contemplamos a hóstia consagrada: “Vós sois o Messias”, o Filho de Deus vivo, que Vos entregais a nós sob as aparências do pão e do vinho.

E adoremos, como Tomé no Cenáculo: “Meu Senhor e meu Deus!”

 

Cântico da Comunhão: Saciastes o vosso povo, F. da Silva, NRMS 90-91

Salmo 35, 8

Antífona da Comunhão: Como é admirável, Senhor, a vossa bondade! A sombra das vossas asas se refugiam os homens.

Ou:           Salmo 35, 8

O cálice de bênção é comunhão no Sangue de Cristo; e o pão que partimos é comunhão no Corpo do Senhor.

 

Cântico de acção de graças: A toda a hora bendirei o Senhor, M. Valença, NRMS 60

 

Oração depois da Comunhão: Senhor nosso Deus, concedei que este sacramento celeste nos santifique totalmente a alma e o corpo, para que não sejamos conduzidos pelos nossos sentimentos mas pela virtude vivificante do vosso Espírito. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Ao longo desta semana, procuremos ter bem presente a recomendação de Jesus: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».

Saibamos perder a vida, renunciando a nós, e encontraremos a felicidade verdadeira.

 

Cântico final: Senhor fica connosco, M. Carneiro, NRMS 94

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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