21º Domingo Comum

23 de Agosto de 2015

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Escutai, Senhor, a prece, M. Carneiro, NRMS 90-91

Salmo 85, 1-3

Antífona de entrada: Inclinai o vosso ouvido e atendei-me, Senhor, salvai o vosso servo, que em vós confia. Tende compaixão de mim, Senhor, que a Vós clamo dia inteiro.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A liturgia da Palavra deste domingo convida-nos a reflectir sobre a nossa atitude diante de Deus que Se nos revela.

Na primeira leitura, tirada do Antigo Testamento, Josué pede ao povo uma resposta clara que expresse as suas disposições para com Deus; o mesmo nos é apontado no Evangelho em que Jesus, perante a dispersão de muitos discípulos, escuta uma resposta decidida dos Apóstolos.

A segunda leitura exorta-nos à escolha do relacionamento que devemos ter com os outros.

Na estrada da nossa vida impõem-se-nos escolhas: que caminho devemos tomar? Que caminho escolhemos?

Conscientes de que a nossa adesão a Jesus Cristo envolve dúvidas e perplexidades que levam, muitas vezes, a hesitar no Seu decidido seguimento, peçamos perdão ao Senhor.

 

Oração colecta: Senhor Deus, que unis os corações dos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo ame o que mandais e espere o que prometeis, para que, no meio da instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontra as verdadeiras alegrias. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Josué, antes de exigir ao povo que sirva apenas Javé, declara diante de todos a sua própria escolha. O povo responde-lhe sem hesitações.

 

Josué 24, 1-2a.15-17.18b

Naqueles dias, 1Josué reuniu todas as tribos de Israel em Siquém. Convocou os anciãos de Israel, os chefes, os juízes e os magistrados, que se apresentaram diante de Deus. 2aJosué disse então a todo o povo: 15«Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se os deuses que os vossos pais serviram no outro lado do rio, se os deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha família serviremos o Senhor». 16Mas o povo respondeu: «Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses; 17porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair, a nós e a nossos pais, da terra do Egipto, da casa da escravidão. Foi Ele que, diante dos nossos olhos, realizou tão grandes prodígios e nos protegeu durante o caminho que percorremos entre os povos por onde passámos. 18bTambém nós queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus».

 

A leitura é tirada do capítulo final do livro de Josué, uma obra impregnada do espírito e da teologia do Deuteronómio, que celebra a fidelidade do amor de Deus e apela para uma correspondência fiel à escolha gratuita do seu amor. A obra termina com o relato da Grande Assembleia de Siquém, para a ratificação da Aliança, cujo rito, à maneira dos pactos hititas, não aparece na leitura (vv. 25-27). O povo decidiu livremente escolher a Yahwéh, melhor dito, decidiu não O abandonar. Josué, com vigorosa decisão, adianta-se com o seu exemplo: «eu e minha família serviremos o Senhor» (v. 15); o povo responde: «também nós queremos servir o Senhor, pois Ele é o nosso Deus» (v. 18b). Como então, ainda hoje a fidelidade e a santidade do povo depende muito da decidida fidelidade dos seus chefes e daqueles fiéis cujo bom exemplo deixa rasto.

1 «Siquém». Cidade ligada à vida dos Patriarcas (Gn 12, 6; 33, 18), na Samaria, entre os montes Garizim e Ebal, que os arqueólogos localizaram a 2 km a Sul de Nablus. Já não existia no tempo de Jesus, por ter sido destruída por João Hircano, em 128 a. C.

15 «Amorreus». Designação frequente no A.T., como forma muito genérica para indicar os habitantes da Palestina antes dos hebreus. Para os especialistas de História os amorreus são povos semitas que pelo ano 2.000 se fixaram na Mesopotâmia, Síria e Palestina. A sua primeira metrópole foi Mari, na margem ocidental do médio Eufrates, mas no seu apogeu foi Babilónia.

 

Salmo Responsorial    Sl 33 (34), 2-3.16-17.18-19.20-21.22-23 (R. 9a)

 

Monição: Como nos domingos anteriores, o salmo de meditação é tirado do salmo 33 no seguimento da catequese sobre o Pão da Vida, recordando a ajuda nos tempos difíceis.

 

Refrão:        Saboreai e vede como o Senhor é bom.

 

A toda a hora bendirei o Senhor,

o seu louvor estará sempre na minha boca.

A minha alma gloria-se no Senhor:

escutem e alegrem-se os humildes.

 

Os olhos do Senhor estão voltados para os justos

e os ouvidos atentos aos seus rogos.

A face do Senhor volta-se contra os que fazem o mal,

para apagar da terra a sua memória.

 

Os justos clamaram e o Senhor os ouviu,

livrou-os de todas as suas angústias.

O Senhor está perto dos que têm o coração atribulado

e salva os de ânimo abatido.

 

Muitas são as tribulações do justo,

mas de todas elas o livra o Senhor.

Guarda todos os seus ossos,

nem um só será quebrado.

 

A maldade leva o ímpio à morte,

os inimigos do justo serão castigados.

O Senhor defende a vida dos seus servos,

não serão castigados os que n’Ele se refugiam.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Todos desejamos ser servidos, todos pretendemos mandar. Esta leitura exorta-nos à disponibilidade para servir a todos, a exemplo de Cristo que veio para servir e não para ser servido.

 

Efésios 5, 21-32

Irmãos: 21Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. 22As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, 23porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador. 24Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos. 25Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela. 26Ele quis santificá-la, purificando-a no baptismo da água pela palavra da vida, 27para a apresentar a Si mesmo como Igreja cheia de glória, sem mancha nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santa e imaculada. 28Assim devem os maridos amar as suas mulheres, como os seus corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. 29Ninguém, de facto, odiou jamais o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja; 30porque nós somos membros do seu Corpo. 31Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua mulher, e serão dois numa só carne. 32É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja.

 

Terminamos hoje com a leitura respigada de Efésios, precisamente com a referência aos deveres dos esposos cristãos. Marido e mulher encontravam-se numa situação nova relativamente à vida das outras pessoas casadas com quem conviviam, por isso o amor, o respeito e a obediência são focados numa nova perspectiva, a da união indissolúvel e da mútua entrega entre Cristo e a Igreja. S. Paulo parte da consideração duma analogia em que o marido representa Cristo e a esposa a Igreja, por isso as suas exortações têm como pano de fundo esta representação. Mas de modo nenhum ele pretende reduzir os deveres e as relações familiares a este figurino. Ele foca os aspectos que se enquadram nesta semelhança. Assim, ao dizer, «as mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor» (v. 22), não pretende negar o que diz antes: «sede submissos uns aos outros» (v. 21), ou contradizer o princípio da igualdade de dignidade e direitos já dado por assente em Gálatas: «já não há diferença entre judeu e grego, nem entre escravo e livre, nem entre homem e mulher» (Gal 3, 28). Se sublinha para a mulher o dever de submissão é em virtude da analogia estabelecida, pois também o marido tem que ser submisso à mulher (cf. v. 21); mas também poderíamos pensar que S. Paulo, como bom psicólogo, fala em concreto da submissão para a mulher, aludindo a que o coração (a mulher) tem de se submeter à razão (o homem). De qualquer modo, não se opõe à justa promoção da mulher, o que aliás não é mais do que uma das consequências da doutrina cristã bem entendida e bem vivida, sem que com isso se queira dizer que já nem tem em nada que se submeter ao marido, pois também o marido, para ser bom marido, tem que se submeter à mulher, e, afinal, quando a submissão é ditada pelo amor e respeito mútuos, não é deprimente, mas libertadora.

32 «É grande este mistério...» A Vulgata diz «sacramento», não no sentido técnico da Teologia, mas no sentido de algo sagrado que contém um significado oculto. Ora este significado é grande, importantíssimo, do mais alto alcance, pela sua referência a Cristo e à Igreja. Com isto, S. Paulo ensina que o Criador, ao unir o homem e a mulher em matrimónio, deixou-nos uma figura ou «tipo» da união de Cristo com a Igreja, união que é una, indissolúvel e santificante. Daqui que o Concílio de Trento tenha dito que este texto paulino insinua a sacramentalidade do Matrimónio cristão.

 

Aclamação ao Evangelho        cf. Jo 6, 63c.68c

 

Monição: A maioria dos homens, em geral, perante a opção do seguimento de Cristo prefere retirar-se, mas somente o Senhor tem palavras de espírito e vida, que levam à abertura do próprio coração aos outros.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação – 3, F. da Silva, NRMS 50-51

 

As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida:

Vós tendes palavras de vida eterna.

 

 

Evangelho

 

São João 6, 60-69

Naquele tempo, 61muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram: «Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?» 62Jesus, conhecendo interiormente que os discípulos murmuravam por causa disso, perguntou-lhes: «Isto escandaliza-vos? 63E se virdes o Filho do homem subir para onde estava anteriormente? 64O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida. 65Mas, entre vós, há alguns que não acreditam». Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início, quais eram os que não acreditavam e quem era aquele que O havia de entregar. 66E acrescentou: «Por isso é que vos disse: Ninguém pode vir a Mim, se não lhe for concedido por meu Pai». 67A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele. 68Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» Respondeu-Lhe Simão Pedro: «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. 69Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».

 

A reacção dos ouvintes de Jesus às suas palavras de revelação no discurso eucarístico passa da discussão (vv. 41.52) e do escândalo (v. 61) ao abandono da parte de muitos discípulos que já tinham aderido a Ele (v. 67). No meio deste descalabro ergue-se a voz de Pedro, em nome dos Doze, numa confissão de fé clara, firme e decidida, que permanece como o ponto de referência da fé recta e como paradigma de comunhão entre todos aqueles que ao longo dos tempos hão-de seguir a Cristo.

60-71. As palavras de Jesus não são palavras «duras» (v. 60), mas são «espírito e vida» (v. 64); não são palavras humanas, pois são a revelação do espírito de Deus e dão a vida eterna; por isso têm de ser acolhidas com fé, com a fé, humilde e firme, de Pedro (v. 69). As palavras de Jesus são espírito, mas de modo nenhum isto significa que são palavras para serem entendidas num sentido espiritual e figurado (como pensam muitos protestantes); elas não são palavras humanas, se o fossem, é que haveria razão para o escândalo.

69. «O Santo de Deus»: este título, apesar das variantes textuais (na Vulgata aparece Christus Filius Dei, por influência da confissão de Pedro em Mt 16, 16) está mais bem documentado. Não aparece nunca como título messiânico, a não ser na boca dos demónios (Mc 1,24; Lc 4,34); «sendo o Santo de Deus, Jesus não pertence à esfera terrestre, mas à ultra-terrena, ao mundo do divino, e encontra-se com Deus numa relação que nenhum outro ser tem, porque Deus o santificou e o enviou ao mundo (10, 16), por isso Ele, e só Ele, pode dar a vida eterna» (A. Wikenhauser). Segundo J. Ratzinger, estas palavras, o Santo de Deus, «recordam-nos também o embaraço de Pedro ao ver-se na proximidade do Santo depois da pesca milagrosa, que lhe faz experimentar, de modo dramático, a miséria do seu ser pecador» (Jesus de Nazaré, cap. IX).

 

Sugestões para a homilia

 

Disponibilidade para servir

Actualização permanente da nossa opção

A identificação com Cristo

 

Disponibilidade para servir

Ao ouvirmos a liturgia da Palavra deste domingo, instintivamente somos levados a fixar-nos na segunda leitura, tirada da Carta de S. Paulo aos Efésios. É uma longa exortação com que S. Paulo termina a carta que temos vindo a escutar nestes domingos. O trecho de hoje é muito utilizado na liturgia dos casamentos e refere-se ao ambiente de amor que deve unir os esposos, para que a vida em casal e em família seja rica em dons de Deus.

Geralmente esta leitura não agrada nada às mulheres quando S. Paulo afirma “Sede submissas aos vossos maridos, como ao Senhor” e dá razões desta posição. Na realidade, Paulo não faz senão aplicar a elas o princípio fundamental da vida cristã: que cada um deve considerar-se servo dos outros.

Afinal, de onde nascem os desaguisados, as desavenças e as altercações nas nossas famílias? Não nascerão do facto de cada um querer predominar sobre os outros: o marido sobre a mulher, os pais sobre os filhos e estes sobre os pais? Todos querem ser servidos, mandar, e se não há ninguém disposto a submeter-se e a cumprir as ordens recebidas, as conversas azedam, levanta-se a voz, surgem as discussões e as zangas.

O princípio fundamental que Paulo apresenta como comportamento de todos os membros da família cristã é a disponibilidade para servir, sendo “submissos uns aos outros”. Logo, nenhuma dominação, mas disponibilidade para servir a todos como Cristo, que não veio para ser servido mas para servir.

Ao referir-se aos maridos afirma que eles devem «amar». E, tomando como exemplo a vida do casal, diz que o amor se expressa na submissão e no serviço mútuo como modelo para todas as demonstrações de amor. Cada um deve, pois, escolher o tipo de relacionamento que deve ter com os outros, distinguindo entre o amor e o egoísmo.

Mas há necessidade de constantemente ser actualizada a nossa escolha.

 

Actualização da nossa opção

A isso nos chama atenção a primeira leitura que recorda um acontecimento decisivo na história do Povo de Deus. Para trás tinha ficado a experiência do deserto, onde os israelitas tinham passado inúmeras dificuldades, onde muitos tinham sido vítimas da incredulidade, mas onde Deus Se manifestara fiel, acompanhando e protegendo os seus.

Agora, no início de uma nova etapa da vida deste Povo, Josué quer conhecer as disposições de cada um. Medindo as suas responsabilidades, todo o Povo promete fidelidade a Deus, sem hesitações: queremos continuar com Javé que nos libertou da escravidão do Egipto e protegeu durante a travessia do deserto. Não adoraremos nenhum outro Deus. Actualizaram assim, a sua opção de serviço a Deus.

À semelhança dos israelitas depois de terem atravessado o Mar Vermelho, nós, à saída das águas do baptismo professámos solenemente a nossa fé. Mas esta escolha não foi feita de uma vez para sempre: temos de a actualizar constantemente, porque as situações mudam e a cada nova condição teremos de nos perguntar se somos fiéis a Cristo, ou se nos deixamos enganar e seguir pelos muitos deuses que nos prometem a felicidade.

De cada vez teremos de fazer ou refazer a nossa escolha para nos identificarmos com Cristo.

 

A identificação com Cristo

Jesus, no trecho do Evangelho que escutámos, no seguimento do discurso do Pão da Vida, dirige-se não já aos judeus, mas aos seus discípulos, convidando-os a decidir, de maneira deliberada, em quem ou em que desejam acreditar. Muitos discípulos não aceitam a proposta de Jesus achando-a demasiado «dura» e afastam-se.

Há um grupo, o dos Doze, que pela voz de Pedro, embora sem compreender ainda bem o que significava aquela adesão, lhe dá o consentimento. Jesus diz que é preciso identificarmo-nos com Ele. 

Nós, também hoje diante do pão eucarístico somos chamados a decidir sobre quem queremos seguir. Quem comunga o pão de Cristo deve saber muito bem qual o compromisso que assume: acolher tudo o que Jesus ensinou e aceitar identificar a própria vida à d’Ele. Quem estiver decidido a fazer apenas o que lhe agrada, quem pensa só em si mesmo e nos próprios interesses, quem não se preocupa com os irmãos que estão a passar necessidade, poderá aproximar-se da eucaristia? O seu gesto não será uma falsidade?

Só quem abrir sinceramente o coração à chamada do Pai e se deixar mover pelo Espírito está em condições de compreender e optar pela identificação com Jesus Cristo.

Esta adesão comporta muitas dúvidas, muitas perturbações e não menos hesitações, mas terá de ser uma anuência amorosa à sua proposta e, como Pedro, devemos exprimir a nossa fé rezando: «Senhor a quem iremos? Só Tu, tens palavras de vida eterna».

Somos peregrinos nesta terra. Pecadores, débeis, fatigados, carecidos de ajuda. Por isso, teremos de ter a atitude do pobre que reconhece a sua própria fragilidade e miséria e se aproxima d’Aquele que o pode curar. Para quem O recebe, com fé e sincera humildade, o pão eucarístico torna-se a cura de toda a espécie de doença e regenera todas as feridas.

Saibamos hoje reflectir nestas verdades e agir em conformidade.

 

Fala o Santo Padre

 

«Também Judas teria podido ir-se embora, como fizeram muitos discípulos:

e por isso, a sua culpa mais grave foi a falsidade, que é a marca do diabo.»

Meditámos nos domingos passados sobre o discurso do «pão da vida», que Jesus pronunciou na sinagoga de Cafarnaum depois de ter dado de comer a milhares de pessoas com cinco pães e dois peixes. Hoje, o Evangelho apresenta a reacção dos discípulos àquele discurso, uma reacção que o próprio Cristo, conscientemente, provocou. Antes de tudo, o evangelista João — que estava presente com os outros apóstolos — refere que «a partir de então muitos dos seus discípulos voltaram atrás e já não andavam com Ele» (Jo 6, 66). Por quê? Porque não acreditaram nas palavras de Jesus, que dizia: Eu sou o pão vivo que desceu do céu, quem comer a minha carne e beber o meu sangue viverá eternamente (cf. Jo 6, 51.54); deveras palavras que neste momento dificilmente são aceites, compreensíveis. Esta revelação — como disse — era para eles incompreensível, porque a entendiam em sentido material, mas naqueles palavras estava prenunciado o mistério pascal de Jesus, no qual Ele se teria oferecido a si mesmo pela salvação do mundo: a nova presença na Sagrada Eucaristia.

Ao ver que muitos dos seus discípulos se iam embora, Jesus dirigiu-se aos Apóstolos dizendo: «Também vós quereis retirar-vos?» (Jo 6, 67). Como noutras situações, é Pedro quem responde em nome dos Doze: «Senhor, para quem havemos nós de ir? — Também nós podemos reflectir: para quem havemos nós de ir? — Tu tens palavras de vida eterna e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus» (Jo 6, 68-69). Temos sobre este trecho um bonito comentário de Santo Agostinho, que diz, numa das suas pregações sobre João 6: «Vede como Pedro, por graça de Deus, por inspiração do Espírito Santo, compreendeu? Por que compreendeu? Porque acreditou. Tu tens palavras de vida eterna. Tu dás-nos a vida eterna, oferecendo-nos o teu corpo [ressuscitado] e o teu sangue [a ti mesmo]. E nós acreditamos e conhecemos. Não diz: conhecemos e depois acreditamos, mas acreditamos e depois conhecemos. Acreditamos para poder conhecer; de facto, se tivéssemos querido conhecer antes de crer, não teríamos conseguido nem conhecer nem crer. O que acreditámos e o que conhecemos? Que Tu és o Cristo Filho de Deus, ou seja, que Tu és a própria vida eterna, e na carne e no sangue nos dás aquilo que Tu mesmo és» (Comentário ao Evangelho de João, 27, 9). Assim disse santo Agostinho numa das suas pregações aos seus crentes.

Por fim, Jesus sabia que também entre os doze Apóstolos havia um que não acreditava: Judas. Também Judas teria podido ir-se embora, como fizeram muitos discípulos; aliás, talvez devesse ir-se embora, se tivesse sido honesto. Ao contrário, ficou com Jesus. Não ficou por fé, nem por amor, mas com o propósito secreto de se vingar do Mestre. Por quê? Porque Judas se sentia traído por Jesus, e decidiu que por sua vez o teria traído. Judas era um zelote, e queria um Messias vencedor, que guiasse uma revolta contra os Romanos. Jesus desiludiu estas expectativas. O problema é que Judas não se foi embora, e a sua culpa mais grave foi a falsidade, que é a marca do diabo. Por isso, Jesus disse aos Doze: «Um de vós é um demónio!» (Jo 6, 70). Peçamos à Virgem Maria, para que nos ajude a crer em Jesus, como são Pedro, e a ser sempre sinceros com Ele e com todos.

Papa Bento XVI, Angelus, Castel Gandolfo, 26 de Agosto de 2012

 

Oração Universal

 

Oremos a Deus Pai Omnipotente,

por  intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo,

dizendo:

 

Senhor, ajudai-nos na identificação com Cristo.

 

1.     Que o Santo Padre, o Papa, sucessor de Pedro,

seja iluminado com a luz do Espírito Santo,

a fim de ter força e coragem para enfrentar

todas as contestações do mundo,

oremos, irmãos.

 

2.     Que os Bispos, Presbíteros, Diáconos,

religiosos e leigos responsáveis, à imitação de  Pedro,

procurem mostrar com a palavra e a vida

a identificação com Cristo,

oremos, irmãos.

 

3.     Que todos os membros da família cristã,

se mentalizem da disponibilidade para servir,

sendo “submissos uns aos outros”,

oremos, irmãos.

 

4.     Que saibamos refazer a nossa escolha,

a fim de nos identificarmos com Cristo,

que não veio para ser servido, mas para servir,

oremos, irmãos.

 

5.     Que não nos deixemos enganar

no seguimento dos muitos deuses deste mundo,

que falsamente nos prometem a felicidade,

oremos, irmãos.

 

6.     Que, como peregrinos nesta terra,

saibamos reconhecer a própria fragilidade

e encontremos na comunhão eucarística,

recebida conscientemente,

a força para vencer todas as dificuldades,

oremos, irmãos.

 

Ouvi, Senhor, as nossas preces

e dignai-vos atender aos nossos rogos,

por intermédio de Jesus Cristo vosso Filho,

Nosso Senhor, que é Deus convosco,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Cristo amou a Igreja, J. Santos, NRMS 71-72

 

Oração sobre as oblatas: Senhor, que pelo único sacrifício da cruz, formastes para Vós um povo de adopção filial, concedei à vossa Igreja o dom da unidade e da paz. Por Nosso Senhor.

 

Santo: M. Luis, NCT 297

 

Monição da Comunhão

 

Recebamos com fé e sincera humildade o pão eucarístico e que ele se torne a cura de todas as nossas fragilidades e nos ajude a nos identificarmos com Cristo.

 

Cântico da Comunhão: Eu vim para que tenham vida, F. da Silva, NRMS 70

Salmo 103, 13-15

Antífona da comunhão: Encheis a terra, Senhor, com o fruto das vossas obras. Da terra fazeis brotar o pão e o vinho que alegra o coração do homem.

 

Ou

Jo 6, 55

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, diz o Senhor, e Eu o ressuscitarei no último dia.

 

Cântico de acção de graças: Pelo Pão do teu Amor, H. Faria, NRMS 2 (II)

 

Oração depois da comunhão: Realizai em nós plenamente, Senhor, a acção redentora da vossa misericórdia e fazei-nos tão generosos e fortes que possamos ajudar-Vos em toda a nossa vida. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Depois de termos escutado a Palavra do Senhor que nos foi dirigida nesta celebração, saibamos escolher o relacionamento com os outros distinguindo entre o amor e o egoísmo.

Actualizemos constantemente as nossas escolhas sem nos deixamos enganar e seguir pelos muitos deuses que nos prometem a felicidade.

Sempre que recebermos o pão eucarístico sejamos conscientes do compromisso que assumimos: acolher tudo o que Jesus ensinou e aceitar identificar a própria vida à d’Ele.

 

Cântico final: Uma certeza nos guia, M. Carneiro, NRMS 11-12

 

 

Homilias Feriais

 

21ª SEMANA

 

2ª Feira, 24 de Agosto: S. Bartolomeu: O elogio da veracidade.

Ap 21, 9-14 / Jo 1, 45-51

A muralha da cidade tinha na base doze reforços salientes, e neles doze nomes: os doze Apóstolos do Cordeiro.

Jesus escolheu os doze Apóstolos, que são as pedras do alicerce da nova Jerusalém (Leit.). Ao referir-se a S. Bartolomeu destacou nele a virtude da veracidade (Ev.). «A verdade ou veracidade é a virtude que consiste em mostrar-se verdadeiro nos actos e em dizer a verdade nas palavras, evitando a duplicidade, a simulação e a hipocrisia» (CIC, 2505).

O ambiente está muito cheio de falsidade e mentira. Muitos meios de comunicação social transmitem muitas falsidades, acabando por alterar os comportamentos morais da sociedade. Procuremos apoiar-nos muito em Jesus, que é a Verdade, e nos ensinamentos da Igreja.

 

3ª feira, 25 de Agosto: Luta para manter o coração limpo.

1 Tes 2, 1-8 / Mt 23, 23-26

Fariseu cego! Purifica primeiro o interior do copo e do prato, para o exterior ficar limpo também.

Jesus não concorda com o comportamento dos fariseus que, na maior parte dos casos, se limitava a aparência, a uma fachada, descuidando o mais importante: a limpeza do coração (Ev.). De facto, é do coração do homem que procedem os maus pensamentos, a cobiça, inveja, a soberba, etc. Obteremos esta limpeza se pedirmos a ajuda a Deus e mantivermos uma luta constante, para evitar os pensamentos que nos afastam de Deus e dos outros.

S. Paulo recorda que na pregação da Boa Nova teve muita ajuda de Deus: «Encontrámos no nosso Deus muita ajuda para vos anunciar o seu Evangelho, no meio de grandes lutas» (Leit.).

 

4ª Feira, 26 de Agosto: A palavra de Deus, palavra de Vida.

1 Tes 2, 9-13 / Mt 23, 27-32

 

Depois de haverdes recebido a palavra de Deus quisestes aceitá-la, não como palavra humana, mas como palavra de Deus, que realmente é.

 

«Na Sagrada Escritura a Igreja encontra continuamente o seu alimento e a sua força, porque nela não recebe apenas uma palavra humana, mas o que ela é na realidade: a palavra de Deus» (Leit.) (CIC, 104). Para termos força interior precisamos tomar este alimento diariamente, pelo menos durante alguns minutos.

Não nos limitemos apenas a uma leitura. Procuremos assimilar bem o que lemos para depois levá-lo à prática. Senão poderá acontecer-nos o mesmo que aos fariseus: «por fora mostram-se vistosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos» (Ev.).

 

5ª Feira, 27 de Agosto: Os diferentes encontros com Jesus.

1 Tes 3, 713 / Mt 24, 42-51

Vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora em que virá o Senhor. Por isso, estai vós também preparados.

A partir da Ascensão, a vinda de Cristo na glória está iminente. Este advento escatológico pode dar-se em qualquer altura (Ev.). Na Santa Missa recordamos isto mesmo, depois da Consagração: «Anunciamos a vossa morte... Vinde Senhor Jesus».

Para preparar este momento. Jesus recomenda-nos vigilância: preparar bem os encontros com Ele na Eucaristia, na oração, nas horas de trabalho, na vida familiar, no descanso. E S. Paulo recomenda também a santidade: «Uma santidade irrepreensível, diante de Deus e nosso Pai, por ocasião da vinda de Jesus» (Leit.).

 

6ª Feira, 28 de Agosto: Santidade: vigilância e comunhão.

1 Tes 4, 1-8/ Mt 25, 1-13

É esta, com efeito, a vontade de Deus: que vos santifiqueis.

Para cumprirmos a vontade de Deus e sermos santos (Leit.), precisamos estar vigilantes (Ev.).«À vigilância opõe-se a negligência ou falta de solicitude devida, que procede de uma certa falta de vontade» (S. Tomás). Foi o que aconteceu às virgens insensatas (Ev.). Pelo contrário, estaremos vigilantes se procurarmos lutar por viver bem as coisas correntes de cada dia (o azeite); se procurarmos viver a fortaleza, que se opõe à preguiça e ao desalento.

Na Comunhão recebemos Jesus, o próprio autor da graça, que nos vem santificar. É o alimento que conserva, aumenta e fortalece a vida sobrenatural.

 

Sábado, 29 de Agosto: Martírio de S. João Baptista

Jer 1, 17-19 / Mc 6, 17-29

O guarda foi decapitá-lo (a João Baptista) na cadeia, trouxe num prato a cabeça dele e entregou-a à jovem.

«João Baptista, precedendo Jesus com o espírito e o poder de Elias, dá testemunho dEle pela sua pregação, pelo seu baptismo de conversão e, finalmente, pelo seu martírio (Ev.)» (CIC, 523).

Deus preparou-o para que não tivesse medo de ninguém, nem sequer do poderoso Herodes: «Não tremas diante daqueles a quem te envio» (Leit.). Orientou a sua pregação para a conversão, como faria depois também Jesus: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho». Ofereçamos também a nossa vida, colaborando na obra da Redenção. Para isso, temos os nossos pequenos 'martírios diários e correntes', e o compromisso de impregnar a sociedade com a Boa Nova.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         António E. Portela

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial