18.º Domingo Comum

2 de Agosto de 2015

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Eu vim para que tenham vida, F. da Silva, NRMS 70

Salmo 69, 2.6

Antífona de entrada: Deus, vinde em meu auxílio, Senhor, socorrei-me e salvai-me. Sois o meu libertador e o meu refúgio: não tardeis, Senhor.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Eucaristia é o lugar onde o homem sacia a sua fome. Por isso, à semelhança do Domingo passado, também hoje a Igreja reforça os seus filhos através de leituras que fazem alusão a este verdadeiro alimento que é o próprio Cristo. É-nos dada a possibilidade de reforçarmos o que a Eucaristia apresenta em toda a sua plenitude: o Sacrifício de Cristo. Este mesmo acontecimento na sua complexidade pascal é, na vida dos crentes, a fonte donde brota toda a sua razão de existir.

 

Oração colecta: Mostrai, Senhor, a vossa imensa bondade aos filhos que Vos imploram e dignai-Vos renovar e conservar os dons da vossa graça naqueles que se gloriam de Vos ter por seu criador e sua providência. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A gratuidade da fé atenta contra a lógica economicista do mundo. Os critérios da humanidade requerem a complexidade da troca, até mesmo quando a troca é da liberdade pessoal por algum outro aparente bem. Por este motivo, na leitura que vamos escutar, o povo prefere a mediocridade da escravidão aos desafios da incondicional gratuidade da salvação e libertação operadas por Deus.

 

Êxodo 16, 2-4.12-15

2Naqueles dias, toda a comunidade dos filhos de Israel começou a murmurar no deserto contra Moisés e Aarão. 3Disseram-lhes os filhos de Israel: «Antes tivéssemos morrido às mãos do Senhor na terra do Egipto, quando estávamos sentados ao pé das panelas de carne e comíamos pão até nos saciarmos. Trouxestes-nos a este deserto, para deixar morrer à fome toda esta multidão». 4Então o Senhor disse a Moisés: «Vou fazer que chova para vós pão do céu. O povo sairá para apanhar a quantidade necessária para cada dia. Vou assim pô-lo à prova, para ver se segue ou não a minha lei. 12Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Vai dizer-lhes: 'Ao cair da noite comereis carne e de manhã saciar-vos-eis de pão. Então reconhecereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus'». 13Nessa tarde apareceram codornizes, que cobriram o acampamento, e na manhã seguinte havia uma camada de orvalho em volta do acampamento. 14Quando essa camada de orvalho se evaporou, apareceu à superfície do deserto uma substância granulosa, fina como a geada sobre a terra. 15Quando a viram, os filhos de Israel perguntaram uns aos outros: «Man-hu?», quer dizer: «Que é isto?», pois não sabiam o que era. Disse-lhes então Moisés: «É o pão que o Senhor vos dá em alimento».

 

Este relato é tirado daquela parte do Êxodo que refere a caminhada pelo deserto em direcção ao monte Sinai, o cenário da Aliança que é o ponto central do livro (Ex 15, 22 – 17, 16). As grandes contrariedades desta duríssima viagem são remediadas por uma extraordinária providência divina que multiplica os seus prodígios, engrandecidos por toda a tradição posterior: o saneamento das águas amargas (Ex 15, 22-27), o abundante envio de alimento, o maná e as codornizes (Ex 16), o fornecimento de água em horas de sede desesperada (Ex 17, 1-7) e a vitória sobre os amalecitas (Ex 17, 8-16).

2-4 «Israel começou a murmurar… Então o Senhor disse…» O autor sagrado insiste em pôr em evidência o impressionante contraste entre as queixas persistentes do povo sem fé e a fidelidade amorosa de Deus, que, apesar das murmurações contra Ele, está sempre pronto a vir em socorro deste povo (cf. Ex 14, 11; 15, 24; 17, 3; Nm 11, 1.4; 14, 2; 20, 2; 21, 4-5).

13 «Apareceram codornizes». O aparecimento das codornizes costuma ser entendido como um fenómeno natural, embora providencial; ainda hoje enormes bandos destas aves pousam na península do Sinai, nos seus voos periódicos entre as regiões quentes da África e as zonas mais temperadas da Europa e da Ásia; cansadas pelo longo voo sobre o Mar Vermelho, facilmente podem ser apanhadas.

14 «Apareceu uma fina substância granulosa». O maná aqui descrito parece ter semelhanças com uma espécie de resina açucarada que o tamariz ou tamargueira da península do Sinai (tamarix manífera) continua a segregar, quando picadas por insectos, que ali existem (em vias de extinção); as gotas brancas que se formam na casca da planta solidificam com o ar fresco da noite e chegam a cair no chão, em pequenos grãos. Se não se apanham cedo, o sol derrete-as aos 20 graus centígrados (cf Ex 16, 21). Os beduínos do Sinai ainda hoje aproveitam este produto como guloseima e exportavam-no até há pouco para doçaria.

15 A verificação destes fenómenos naturais nada tira à visão de fé com que o autor sagrado pretende exaltar a providência de Deus, apresentando-os como uma das maravilhas de Deus a favor do seu povo. A providência ordinária, bem vistas as coisas, não significa menos amor ou menos poder divino, como poderia pensar uma mentalidade milagreira. O próprio nome «maná» presta-se a um jogo de palavras, a partir duma etimologia popular, que põe em evidência a surpresa que havia de marcar a memória e a tradição religiosa deste povo em face do sucedido. Com efeito, maná diz-se em hebraico «man», que também é um pronome interrogativo aramaico, significando «que coisa?»(é isto=hu). O dom do maná espevitará a fé e a gratidão do povo de Deus ao longo dos séculos, por isso, há-de ser recordado e engrandecido com sucessivas actualizações: «nem só de pão vive o homem» (Dt 8, 3); «um trigo do Céu… pão dos fortes» (Salm 78, 24-25; 105, 40), «alimento do Céu, pão dos anjos, pão sem esforço, capaz de todos os sabores e adaptado a todos os gostos, que se acomodava ao gosto de quem o comia e se transformava segundo o desejo de cada um» (Sab 16, 20-21); mas sobretudo há-de servir de figura da SS. Eucaristia (cf. Jo 6, 32 e o Evangelho deste domingo).

 

Salmo Responsorial    Salmo 77 (78), 3.4bc.23-24.25.54 (R. 24b )

 

Monição: O anúncio da Fé também parte da experiência que o homem faz de Deus. Olhando as maravilhas e a fidelidade manifestadas pelo Senhor, é impossível não cantar e testemunhar as certezas que nos são concedidas a partir da bondade d’Aquele que as realiza. Escutemos e cantemos as certezas de quem saboreou o pão que lhes foi dado do Céu.

 

Refrão:        O Senhor deu-lhes o pão do céu.

 

Nós ouvimos e aprendemos,

os nossos pais nos contaram

os louvores do Senhor e o seu poder

e as maravilhas que Ele realizou.

 

Deu suas ordens às nuvens do alto

e abriu as portas do céu;

para alimento fez chover o maná,

deu-lhes o pão do céu.

 

O homem comeu o pão dos fortes!

Mandou-lhes comida com abundância

e introduziu-os na sua terra santa,

na montanha que a sua direita conquistou.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Se a certeza da bondade de Deus nos fortalece, então a dúvida coloca-se acerca de que mecanismo ou circunstância nos poderá separar deste mesmo amor de Deus. Para S. Paulo, a vida jamais pode ser vivida em futilidades ao jeito dos pagãos. À luz do mistério de Cristo somos chamados a renovarmo-nos continuamente em ordem a uma santidade verdadeira.

 

Efésios 4, 17.20-24

17Eis o que vos digo e aconselho em nome do Senhor: Não torneis a proceder como os pagãos, que vivem na futilidade dos seus pensamentos. 20Não foi assim que aprendestes a conhecer a Cristo, 21se é que d'Ele ouvistes pregar e sobre Ele fostes instruídos, conforme a verdade que está em Jesus. 22É necessário abandonar a vida de outrora e pôr de parte o homem velho, corrompido por desejos enganadores. 23Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência 24e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus na justiça e santidade verdadeiras.

 

Este trecho é tirado da segunda parte da epístola, em que o Apóstolo se detém a considerar e expor as consequências práticas para a vida do cristão, que derivam da sua inserção em Cristo e incorporação no seu Corpo, que é a Igreja, como «membros da família de Deus» (2, 19). Temos aqui um forte apelo a não voltar a «proceder como os pagãos» (v. 17); o cristão tem de «abandonar a vida de outrora» – a vida anterior à conversão (v. 22) –; e isto não apenas por razões de uma simples ética natural, mas por uma profunda exigência do novo ser, da nova criatura que é (2, 10; cf. Gal 6, 15), «o homem novo, criado à imagem de Deus» (v. 24).

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: O Evangelho que vamos escutar revela nitidamente a incansável missão que Jesus realizou na sua vida terrena. O evangelista é pormenorizado no modo como descreve o ritmo da vida de Jesus, bem como a incansável procura de Jesus por parte das multidões. Estes homens e mulheres buscavam aquele que saciava as suas vidas.

 

Aleluia

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 50-51

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São João 6, 24-35

Naquele tempo, 24quando a multidão viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago, subiram todos para as barcas e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus. 25Ao encontrá-l'O no outro lado do mar, disseram-Lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?» 26Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. 27Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará. A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo». 28Disseram-Lhe então: «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?» 29Respondeu-lhes Jesus: «A obra de Deus consiste em acreditar n'Aquele que Ele enviou». 30Disseram-Lhe eles: «Que milagres fazes Tu, para que nós vejamos e acreditemos em Ti? Que obra realizas? 31No deserto os nossos pais comeram o maná, conforme está escrito: 'Deu-lhes a comer um pão que veio do céu'». 32Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu. 33O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo». 34Disseram-Lhe eles: «Senhor, dá-nos sempre desse pão». 35Jesus respondeu-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede».

 

Continuamos hoje com o capítulo 6 de São João. O milagre da multiplicação dos pães (vv. 1-15), vai dar origem ao discurso da sinagoga de Cafarnaum, o discurso do pão da vida (vv. 35-58). Este é introduzido, à boa maneira joanina, por um diálogo (vv. 25-34) que culmina num mal-entendido; os ouvintes ao pedirem a Jesus o pão do Céu (v. 34), continuam a pensar numa fácil solução económica (v. 26). O mal-entendido deixa ver o confronto entre duas posições extremas e irredutíveis: a do egoísmo interesseiro, centrado na obtenção de vantagens terrenas, e a da fé, empenhada em alcançar a vida eterna. O discurso de Jesus aborda dois temas bem diferenciados, o tema do pão da vida (vv. 35-50) – Jesus em quem é preciso crer –, e o tema do pão vivo (vv. 51-58) – Jesus-Eucaristia que é preciso receber –, temas que serão objecto das leituras dos próximos domingos.

27. «A marca», com que o Pai assinalou a Jesus como seu Filho enviado ao mundo, são os milagres, precisamente designados em S. João como «sinais»; mas há quem pense que se alude antes à consagração e missão de Jesus (cf. Jo 10, 36; 17, 18-19); por outro lado, segundo alguns exegetas apoiados na tradição patrística, haveria aqui uma alusão à descida do Espírito Santo sobre Jesus, por ocasião do seu Baptismo no Jordão, e à voz vinda do Céu, como a proclamação solene e autêntica da sua condição de Messias.

31-32. O judaísmo da época, apoiando-se na promessa de Ex 16, 4, esperava que, com a vinda do Messias, se renovariam os prodígios do Êxodo (nesta linha está a tentação de Jesus de Mt 4, 3-4). O texto citado parece ser o do Salm 78, 24 (cf. Ex 16, 14-15; Sab 16, 20). Repare-se na força da argumentação, à maneira rabínica: «não foi Moisés quem vos deu… meu Pai é quem vos …»; aqui o sentido mais profundo das Escrituras obtém-se por um método de actualização (chamado al tiqrey=não leias), que consiste em ler as consoantes do verbo hebraico (ntn) não com as vogais do perfeito (natan=deu), mas com as do presente (noten=dá), de modo a pôr em evidência que o verdadeiro pão do Céu não é algo do passado, «o maná», mas o próprio Jesus (»pão da vida», isto é, pão que dá a vida), o qual procede do Pai. Ao longo do A. T., o maná também foi tema de reflexão e de actualização (cf. Dt 8, 3; Ne 9, 20-21; Salm 78, 24-25; 105, 40; Sab 16, 20-21).

 

Sugestões para a homilia

 

1.     SENTADOS AO PÉ DAS PANELAS DE CARNE: As murmurações do Povo de Israel descritas no Êxodo são, na maior parte das vezes, reveladoras do tom ridículo com que facilmente o ser humano se resigna. Partindo da história do cativeiro no Egipto, sabemos que a escravidão imposta ao Povo de Israel jamais estaria revestida de uma vida aprazível e facilitada. A reforçar o que se diz, o próprio Senhor indica a Moisés que o envia a salvar o Seu povo porque ouviu o clamor e o sofrimento deste mesmo povo. Deste modo, tal como se pode deduzir da experiência de escravidão do Povo de Israel, como em todos os casos de escravidão, não existem respeitos e critérios para quem está a usar da tirania e da exploração. A exploração da condição de escravos leva-nos a compreender a ridícula expressão de saudosismo e nostalgia do povo no meio do deserto. Referir-se às panelas com carne e à fartura de pão num contexto de escravidão poderá reflectir o rápido esquecimento que este mesmo povo faz dos sofrimentos vividos. Por outro lado, e como sinal indicativo mais profundo, este povo prefere estar sentado como escravo junto às panelas do que assumir o desafio da confiança no poder e na bondade de Deus. A experiência da escravidão tem estes mesmos dinamismos, em que os prazeres mais débeis e mais primários são condição de eleição, e onde a esmola do tirano é superior à confiança de quem salva. Deste modo, podemos ver como este relato do Êxodo é também indicativo das realidades presentes. Vivemos num mundo em que se prefere a pobreza, a indignidade e a mediocridade pelos facilitismos e pelo hedonismo que daqui se alcança. Uma vida de desafios, de confiança e de exigência é, nos dias de hoje, uma realidade que assusta. O mesmo acontece com os próprios cristãos, que muitas vezes se resumem a uma prática cristã aceitável e de acordo com o “socialmente normal”, distanciando-se dos desafios do deserto e da entrega mais ousada à vontade redentora de Deus.

 

2.     RENOVAI-VOS PELA TRANSFORMAÇÃO ESPIRITUAL: Pelo Baptismo, tal como nos ensina S. Paulo, pomos de parte o homem velho para nos revestirmos do homem novo. No entanto, a sensação que o Baptismo foi um dado adquirido pelo qual não há nada mais a fazer leva a que se viva em desacordo com as exigências que esse mesmo baptismo no exige. Por este motivo, recebermos a condição de homens novos no Baptismo dever-nos-á tomar consciência que, toda a vida do cristão, tem uma dimensão vigilante em que se procura não perder a novidade da nossa humanidade redimida, ou seja, não voltar à condição de homem velho. Assim sendo, hoje S. Paulo advertia-nos para a necessidade de nos renovarmos, querendo assim referir-se à necessidade de assegurar a novidade desta mesma condição de homem novo, sabendo que essa mesma transformação tem de radicar no mais profundo de nós mesmo, em toda a nossa experiência de vida espiritual. Também aqui é necessário compreender como a renovação implica a distanciação daquela experiência de escravidão que nos era narrada na leitura do Êxodo.

 

3.     A OBRA DE DEUS CONSISTE EM ACREDITAR: No Evangelho que escutámos é nítida a diferença de conceitos e de linguagem usada por Jesus e a multidão. Para a multidão, a grande referência que tinham era a satisfação das necessidades mais primárias, não só porque Jesus lhes tinha saciado a fome, mas também porque o grande milagre que conheciam era o pão que Moisés lhes tinha dado no deserto. A partir destas referências é compreensível o motivo que a leva a seguir Jesus, bem como os pontos basilares da fé que sustentava. Ainda que este assunto pareça fácil, certo é que a mudança de conceitos, referências e paradigmas são o grande desafio neste concreto episódio da vida de Jesus. Passar de uma fé baseada em necessidades primárias a uma fé que se sustente no acto de crer, de acreditar e de confiar, é um caminho exigente e com insucessos esperados. No entanto, a partir do momento em que a multidão toma consciência do incomparável milagre referido por Jesus, então aí já não deseja mais nada senão “esse” pão referido pelo Senhor. Nos tempos que vivemos, nomeadamente nas nossas comunidades cristãs, corremos o risco de perder a noção da novidade e do milagre que acontece em cada Eucaristia. A experiência que um cristão pode fazer de não ter a sua vida saciada pode prender-se fortemente com a compreensão e a vivência que tem do acontecimento do Sacrifício de Cristo. A Missa é este mesmo lugar dos milagres que os homens de hoje procuram, e é também nesta presença de Jesus no meio de nós que, com maior intensidade, podemos demonstrar, experimentar e acreditar n’Aquele que Deus nos enviou.

 

Fala o Santo Padre

 

«Jesus fala de um alimento que não perece, que é importante procurar e receber.»

Na Liturgia da Palavra deste Domingo continua a leitura do capítulo 6 do Evangelho de João. Estamos na sinagoga de Cafarnaúm, onde Jesus pronuncia o seu famoso discurso depois da multiplicação dos pães. A multidão tinha procurado fazê-lo um rei, mas Jesus retirou-se, primeiro no monte com Deus, com o Pai, e depois em Cafarnaúm. Dado que não O via, começou a procurá-lo, subiu para os barcos para chegar à outra margem do lago e, finalmente, encontrou-O. Mas Jesus sabia bem o motivo de tanto entusiasmo no seu seguimento e di-lo também de modo claro: vós «procurais-me, não porque vistes os milagres, [porque o vosso coração ficou impressionado], mas porque comestes os pães e ficastes fartos» (v. 26). Jesus quer ajudar a multidão a ir além da satisfação imediata das próprias necessidades materiais, por mais importantes que sejam. Deseja abrir a um horizonte da existência que não é simplesmente o das preocupações quotidianas do comer, do vestir, da carreira. Jesus fala de um alimento que não perece, que é importante procurar e receber. Ele afirma: «Trabalhai, não pelo alimento que perece, mas por aquele que dura até à vida eterna, que o Filho do Homem vos dará» (v. 27).

A multidão não compreende, e julga que Jesus pede a observância de preceitos para poder obter a continuação daquele milagre, e pergunta: «Que devemos fazer para praticar as obras de Deus?» (v. 28). A resposta de Jesus é clara: «A obra de Deus é esta: que acrediteis naquele que Ele enviou» (v. 29). O centro da existência, aquilo que dá sentido e esperança firme ao caminho muitas vezes difícil da vida é a fé em Jesus, o encontro com Cristo. Também nós perguntemos: «Que devemos fazer para ter a vida eterna?». E Jesus diz: «Acreditai em mim». A fé é o elemento fundamental. Não se trata aqui de seguir uma ideia, um programa, mas de encontrar Jesus como uma Pessoa viva, de se deixar comprometer totalmente por Ele e pelo seu Evangelho. Jesus convida a não se limitar ao horizonte puramente humano e a abrir-se ao horizonte de Deus, ao horizonte da fé. Ele exige uma única obra: aceitar o plano de Deus, ou seja, «acreditar naquele que Ele enviou» (v. 29). Moisés tinha dado a Israel o maná, o pão descido do céu com que o próprio Deus alimentara o seu povo. Jesus não concede algo, doa-se a si mesmo: Ele é o «pão verdadeiro, descido do céu», Ele, a Palavra viva do Pai; e é no encontro com Ele que acolhemos o Deus vivo.

«Que devemos fazer para praticar as obras de Deus?» (v. 28), pergunta a multidão, pronta a agir, para que o milagre do pão continue. Mas Jesus, verdadeiro pão de vida que sacia a nossa fome de sentido, de verdade, não se pode «ganhar» com o trabalho humano; Ele chega a nós somente como dom do amor de Deus, como obra de Deus que devemos pedir e acolher.

Estimados amigos, nos dias repletos de ocupações e de problemas, mas também nos dias de descanso e de lazer, o Senhor convida-nos a não esquecer que se é necessário preocupar-nos pelo pão material e retemperar as forças, é ainda mais fundamental estreitar a relação com Ele, fortalecer a nossa fé naquele que é o «pão de vida», que sacia o nosso desejo de verdade e de amor. A Virgem Maria, no dia em que recordamos a dedicação da Basílica de Santa Maria Maior em Roma, nos sustente no nosso caminho de fé.

Papa Bento XVI, Angelus, Castel Gandolfo, 5 de Agosto de 2012

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs em Cristo:

Nós, que fomos revestidos do homem novo,

peçamos humildemente ao Pai celeste

que nos torne dignos dessa graça,

dizendo (ou: cantando), com fé:

R. Deus omnipotente, vinde em nosso auxílio.

Ou: Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Ouvi, Senhor, o vosso povo.

 

1.  Pelos fiéis e pastores de todas as comunidades,

para que se renovem e anunciem Jesus Cristo,

como fonte de luz e santidade, oremos.

 

2.  Pelos que pensam demasiado nos bens do mundo,

para que trabalhem não tanto pela comida que perece,

mas pelo alimento que dura até à vida eterna, oremos.

 

3.  Pelos homens e mulheres que não são respeitados

na sua fé, consciência e liberdade,

para que Deus os livre das mãos dos seus perseguidores, oremos.

 

4.  Pelos cristãos que se uniram em matrimónio,

para que manifestem, no seu modo de viver,

o mistério do amor de Cristo pela Igreja, oremos.

 

5.  Pelos membros da nossa assembleia,

para que os benefícios oferecidos pela bondade de Deus

nos levem a amá-l’O com todo o nosso coração, oremos.

 

Senhor, nosso Deus, que ao povo de Israel destes o maná e, na plenitude dos tempos,

enviastes o vosso Filho, que nos dá o verdadeiro pão do Céu,

saciai a fome e a sede que temos de Vós. Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Confiarei no meu Deus, F. da Silva, NRMS 106

 

Oração sobre as oblatas: Santificai, Senhor, estes dons que Vos oferecemos como sacrifício espiritual, e fazei de nós mesmos uma oblação eterna para vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: Santo I, H. Faria, NRMS 103-104

 

Monição da Comunhão

 

Durante a liturgia da palavra fomos levados a olhar a providência de Deus à luz deste alimento que Ele se faz para nós. A realidade tão humana e tão biológica de saciar a fome torna-se o meio pelo qual Deus desce à nossa condição e no qual Ele mesmo se condiciona. Desta forma, o pão já não está condicionado à sua substância, mas, pela transubstanciação, recebe uma nova condição para a qual nos orientamos: receber este alimento que é o próprio Cristo. Saciemos em Cristo a fome que nos esgota.

 

Cântico da Comunhão: O Pão de Deus, J. Santos, NRMS 62

Sab 16, 20

Antífona da comunhão: Saciastes o vosso povo com o pão dos Anjos, destes-nos, Senhor, o pão do Céu.

 

Ou

Jo 6, 35

Eu sou o pão da vida, diz o Senhor. Quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem crê em Mim nunca mais terá sede.

 

Cântico de acção de graças: Cantai alegremente, M. Luís, NRMS 38

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que nos renovais com o pão do Céu, protegei-nos sempre com o vosso auxílio, fortalecei-nos todos os dias da nossa vida e tornai-nos dignos da redenção eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Dizia Jesus no Evangelho: “O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo”. Dar vida ao mundo é o motivo de todo o mistério de Cristo, daí que a Eucaristia é o lugar onde a Igreja compreende em toda a plenitude este amor de Deus que vem ao nosso encontro. Acolher o pão do Céu não significa ficar com Ele só para nós, mas a Eucaristia impele-nos a também nós descermos aos nossos mundos para lá lhe darmos a verdadeira Vida, que é Cristo Jesus.

 

Cântico final: Uma certeza nos guia, M. Carneiro, NRMS 11-12

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO COMUM

 

18ª SEMANA

 

2ª Feira, 3 de Agosto: O maná, o pão eucarístico e o amor de Deus.

Num 11, 4-15 / Mt 14, 13-21

Mas foi só aos teus antepassados que Ele dedicou o seu amor; depois deles, escolheu-vos a vós de preferência a todos os povos.

O povo de Israel descobriu que Deus só tinha uma razão para se lhe ter revelado e o ter escolhido, entre todos os povos: o seu amor gratuito (Leit.).

Mas, apesar de tudo, esse mesmo povo queixou-se no deserto, por não gostar do alimento, o maná, uma prefigura da Eucaristia. Jesus, com o milagre da multiplicação dos pães, para alimentar a multidão (Ev.), deixou mais uma prefigura da Eucaristia. Esta é mais uma manifestação do seu amor pelos homens. Agradeçamos ao Senhor o «pão nosso de cada dia»; preparemo-nos para recebê-lo com maior fé e devoção: 'amor com amor se paga'.

 

3ª Feira, 4 de Agosto: O valor das dificuldades e a ajuda de Deus.

Num 12, 1-13 / Mt 14, 22-36

Mas Pedro, ao ver a ventania, teve medo e, começando a afundar-se, lançou um grito: Salva-me, Senhor.

Pedro começou a afundar-se porque reparou mais nas dificuldades que o rodeavam (a ventania) e esqueceu-se de se apoiar em Deus. Por isso Jesus lhe chamou atenção: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?» (Ev.). E Jesus teve em conta o pedido de Pedro para que o salvasse. Do mesmo modo, Moisés recorreu ao Senhor, pedindo-lhe que curasse a lepra de Maria, apesar da censura que ela tinha feito a Moisés. E foi atendido.

Para caminharmos com mais segurança nas nossas 'pequenas tempestades diárias', precisamos pensar menos nas dificuldades e fixar mais o olhar na ajuda do Senhor.

 

4ª Feira, 5 de Agosto: Dedicação da Basílica de Santa Maria Maior.

Num 13, 1-2. 25 – 14, 1. 26-29 / Mt 15, 21-28

Jesus: Mulher, é grande a tua fé. Terás aquilo que desejas.

Os exploradores enviados à terra de Canaã (Leit.) aumentam o valor dos obstáculos encontrados e, com receio, o povo recusa-se a entrar nela. Pelo contrário, a mulher cananeia (Ev.), apesar de uma primeira reacção negativa de Jesus, continua a pedir a cura de sua filha. Os primeiros foram impedidos por Deus de entrar na terra prometida, enquanto a cananeia conseguiu um milagre do Senhor.

A Basílica de Santa Maria Maior é a mais antiga do Ocidente dedicada a Nª Senhora. Lembra-nos a sua maternidade divina e anima-nos a nos acolhermos à sua protecção.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Ricardo Cardoso

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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