TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A TRISTEZA INDIVIDUALISTA

 

 

 

 

D. Nuno Brás

Bispo Auxiliar de Lisboa

 

É com muita satisfação que oferecemos aos nossos leitores – com a amável deferência do Autor – a primeira parte da Catequese Quaresmal pronunciada por D. Nuno Brás na Sé Catedral de Lisboa, em 15 de Março de 2015, “Da tristeza individualista à alegria evangelizadora”.

Baseada na Exortação apostólica “Evangelium gaudium” do Papa Francisco, é um lúcido diagnóstico do individualismo da cultura pós-moderna que afunda o homem na tristeza. 

 

“O grande risco do mundo actual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada” (EG 2) – afirma o Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica Evangelii gaudium. Nestas breves palavras o Papa caracteriza o modo de vida do mundo contemporâneo.

 

A cultura do descartável

Tudo nos aparece centrado naquilo que o Santo Padre chama a tristeza individualista, ou seja, aquele modo de viver em que o ser humano deixa de tomar em conta o outro, para passar a existir apenas centrado sobre si mesmo.

Os outros, quaisquer que eles sejam, são encarados, mesmo que de um modo inconsciente, apenas como mais um objecto de que é ou não possível dispor, consoante as necessidades materiais, psicológicas – ou até mesmo espirituais.

O nosso modo de viver deixou de olhar positivamente a dependência em relação aos outros, tomados individualmente ou mesmo como sociedade e, de modo ainda mais dramático, a dependência do Outro que é Deus. Tomámos como ideal de vida não depender de ninguém; que cada um se baste a si mesmo; que seja independente de tudo e de todos, mesmo que reivindique seja o direito a receber todos os subsídios e ajudas, seja que diante de si estejam sempre disponíveis todas as possibilidades de escolha, de forma a poder optar por alguma delas quando disso tiver necessidade ou quando lhe for útil, julgando que nisso reside a sua verdadeira liberdade.

Com este modo de viver, esquecemo-nos de que, consequentemente, também cada um de nós passa a ser olhado pelos outros como objecto, usado quando necessário, mas “descartado”, colocado à margem, quando perder a sua utilidade. Esta “cultura do descartável”, como lhe chama com frequência o Santo Padre, atingiu mesmo o nosso próprio corpo: olhamo-lo não como algo que somos mas como qualquer coisa que temos, que podemos modificar a nosso gosto ou até passar sem ele quando nos trouxer sofrimento.

E, assim, o mundo vai-se despersonalizando, vai perdendo os seus rostos, vai perdendo a percepção vital de que entre o ser humano e as outras realidades existe uma diferença radical, ainda que partilhemos muito com tudo o que nos cerca: cada ser humano é portador duma dignidade única, portador de direitos e de correspondentes deveres porque é uma pessoa e não um objecto. Qualquer ser humano é alguém que tem valor por si mesmo – valor incomensurável a partir do momento em que é concebido até ao momento da morte natural – e não simplesmente um valor que lhe advenha do facto de ser ou não útil na sociedade do consumo.

Ao contrário, no modo de viver contemporâneo, a vida humana deixou de ser um valor primeiro, defendido pelo conjunto da sociedade e, em particular, pelo Estado. O acto de transmissão da vida perdeu a sua dimensão sacral e mesmo humana: passou a estar reduzido a um simples momento em que dois egoístas procuram retirar o máximo de prazer um do outro. E quando, por qualquer razão, a vida que daí surge se torna um fardo, logo nos arrogamos o direito de lhe colocar um fim: a própria vida tornou-se para o indivíduo um objecto de que pretende ser o exclusivo proprietário, querendo decidir dela como lhe aprouver.

Contentamo-nos com passageiros momentos em que nos sentimos bem, tanta é a indefinição do dia de amanhã. A própria construção da vida pessoal reduz-se ao horizonte da sobrevivência. Por isso, preferimos estar longe de compromissos definitivos. Optamos antes por viver o momento, o presente (por definição passageiro, ou seja, aquela realidade que, de um futuro sem consistência, se transforma imediatamente em passado de que restam exclusivamente memórias, vagas e raramente partilhadas do mesmo modo por todos). E este individualismo, mesmo que rodeado de divertimento, de ruído e de multidões anónimas, não pode deixar de ser triste.

As causas

Como causas desta situação em que vivemos, o Papa Francisco aponta essencialmente três.

Em primeiro lugar, um “coração comodista e mesquinho”. Longe de considerar uma “sociedade” anónima e despersonalizada como a causa de todos os males, o Santo Padre convida-nos a olhar para o nosso coração. Ou seja, a olhar para aquela dimensão da nossa existência que resume aquilo que cada um é, na relação consigo mesmo, com os outros e com Deus; aquela realidade em que se expressa a verdade de cada ser humano, o seu modo de estar perante a vida e os outros. E, aqui, o Papa Francisco detecta o comodismo e a mesquinhez, o mesmo é dizer: a falta de ousadia para sair daquilo a que hoje chamamos a nossa “zona de conforto” – aqueles ambientes e opiniões que já sabemos concordarem com o nosso modo de viver e onde nos sentimos bem e à-vontade. Falta a generosidade de quem toma a iniciativa, de quem ousa trilhar novos caminhos, de quem é capaz de gestos que tenham a sua origem naquilo que falta aos outros mais que no bem-estar individual.

Depois, uma busca desordenada de prazeres superficiais. Notemos bem: o Santo Padre não afirma que o prazer é, por si, um mal. Mas denuncia (isso sim) a procura do prazer transformado num fim em si mesmo, sem olhar a nada nem a ninguém. Incapaz de originar por si a verdadeira alegria, o ser humano vê-se reduzido ao que, longe de ser real é apenas aparência. A existência humana (mesmo para o próprio) transformou-se num espectáculo, num conjunto de aparências que nos procuram auto-convencer e dar segurança. A questão óbvia é que, sendo assim, depressa caem por terra, qual castelo de cartas. Não nos espantemos, pois, que esta “procura desordenada de prazeres superficiais”, longe de nos construir e de nos tornar mais seguros, nos transforme antes em desesperados buscadores egoístas.

Finalmente, a consciência isolada. O mesmo é dizer: se um dos dogmas da cultura contemporânea é a recusa de pensar de acordo com aquilo que nos foi proposto e que recebemos daqueles que nos antecederam (como se alguém pudesse criar para si um mundo radicalmente novo), em consequência cada um tornou-se para si mesmo o juiz da verdade própria e alheia. Tornou-se juiz de si mesmo. Transformou-se em critério de vida, sem nada que se encontre acima de si. A consciência é cada um que a modela para si. Não espanta, por isso, que a consciência, longe de ser aquele lugar íntimo que interroga as nossas atitudes, escolhas e a própria liberdade, se tenha antes transformado num defensor irracional (senão mesmo imoral) dos nossos actos.

As consequências

Não é sem consequências que vivemos deste modo – todos os actos humanos trazem sempre consigo consequências, e é próprio do adulto com maturidade percebê-las e vivê-las, bem como realizar as escolhas da sua liberdade tendo em conta estas possíveis consequências na sua vida e naquela dos outros e mesmo da própria sociedade. O Santo Padre indica três grandes consequências da tristeza individualista.

Em primeiro lugar, deixou de existir lugar para os outros. Vivemos de tal forma centrados em nós mesmos, e toda a nossa existência é de tal forma preocupada com o lugar, com a aparência e com as conquistas individuais que os outros são simplesmente ignorados. E se os outros são ignorados, o primeiro que é esquecido é o pobre – aquele que não possui o suficiente para se alimentar e sobreviver, mas também aquele que não é capaz de encontrar alguma razão para viver. A tristeza individualista dá origem a uma multidão de pobres egoístas. E, deste modo, sem nos darmos conta, vamo-nos empobrecendo em humanidade, envolvidos que estamos na aparência fruto de conquistas tecnológicas, do bem-estar, dos sonhos proporcionados pela busca desenfreada dos prazeres superficiais.

Depois, diz o Papa, já não se escuta a voz de Deus. Deus, quando muito, passou a fazer parte do ruído que nos rodeia e de que não percebemos a existência – daquele ruído urbano, feito de pessoas que passam, de carros que circulam, de gente que fala e de máquinas que trabalham mas que, simplesmente, faz parte do meio ambiente e de que já não nos apercebemos. É certo que continuam a existir, no meio das nossas cidades, sinais da presença de Deus: mas são sinais a que já nos habituámos e a que não prestamos atenção. Deus deixou de interpelar. E como Deus é Alguém radicalmente pobre, passou a ser descartável para a nossa sociedade. Trocámos o amor pela paixão; substituímos o outro pelo nosso bem-estar; escutamo-nos apenas a nós, sem nos apercebermos de que ouvimos apenas o eco do nosso pequeno mundo, onde qualquer pequeno problema parece ser um grande drama existencial. Deixámos de escutar Deus e os seus mensageiros porque nos interpelam e convidam a mudar de vida; porque abrem os nossos olhos e nos chamam para fora do nosso mundo individual. É que Deus confronta-nos com a nossa realidade e faz-nos perceber que não somos pequenos deuses e que o mundo não gira à volta de cada um de nós.

E, assim, já não fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Na tristeza individualista não existe lugar para o bem; apenas para o lucro. Tudo se resume ao que é possível ganhar, porque apenas isso nos permite a repetição sistemática dos prazeres superficiais. Tudo passou a ser pago. Mesmo qualquer tipo de aparente generosidade. E se perdemos o entusiasmo de fazer o bem, perdemos igualmente o entusiasmo de sermos bons. Gostamos de ser eficientes; gostamos de encontrar os nossos nomes no topo das listas. Mas deixámos de lado a procura da bondade, que nos transforma a partir de dentro e de Deus, e nos faz acolher o próximo na gratuidade do encontro que nos faz sermos mais nós próprios.

Mas o Papa Francisco não hesita em nos colocar a nós, cristãos contemporâneos, no seio de todo este modo de viver: “Este é um risco – diz o Santo Padre – certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida” (EG 2).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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