TEMAS LITÚRGICOS

As indulgências: como explicá-las?

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

Aproximamo-nos do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. O Santo Padre deseja que nesse ano experimentemos a misericórdia do Pai, uma misericórdia que inclui não só o perdão, mas também a indulgência. Efectivamente, como o Papa Francisco diz na Bula Misericordiae Vultus, «o Jubileu incluirá a indulgência com uma relevância particular»[1].

Como explicá-la nos dias de hoje? Não foram as indulgências abusos do passado, como tantas vezes se ensina nas aulas de História? Não seria melhor prescindir delas e centrar-se no essencial? Não se trata de uma instrumentalização da religiosidade? O que é isso da «pena temporal»? Não gera mais equívocos do que esclarecimentos?

 

A propósito de uma importante peregrinação, fui testemunha de uma troca de impressões interessante entre sacerdotes. Por ser um aniversário em número redondo, conseguira-se que a Santa Sé concedesse Indulgência Plenária a quem nela participasse e o povo foi informado desse privilégio. Esperava-se que tal informação animasse os fiéis a aderirem em maior número à peregrinação. Mas, o efeito foi contrário. Gerou-se a confusão e até a indignação. A Igreja ficou em ridículo, pois parecia estar a «comprar» a participação das pessoas com a salvação eterna. As pessoas estavam confusas e perplexas. Então, já não tenho de me confessar? Ou seja, se eu for ao santuário já posso ir para o Céu? Só isso? Evidentemente, não tinha sido bem explicada e o grupo dos sacerdotes achava que não se devia ter dito nada, alguns até opinavam que nunca devia ter sido pedida, pois, actualmente, carece totalmente de sentido.

O Santo Padre é consciente disso, mas não prescinde dela. Porquê? Porque continua a ter um sentido e a ser válida para os homens de hoje, como veremos. No entanto, sabe que as pessoas não a entendem. Por isso, só se refere a ela no número 22 da bula Misericordiae Vultus. Isto é, só depois de nos falar longamente e de estarmos bem imbuídos do sentido do Ano Santo: experimentarmos a misericórdia do Pai e, por uma profunda conversão, sermos nós misericordiosos como o Pai. Depois, ao falar da indulgência, não se limita a enunciá-la, procura explicá-la. E, para isso, não recorre ao termo clássico de «remoção da pena temporal»[2]. Parece evitá-lo como um termo que carece de significado ou que gera equívocos. Irá dizer o mesmo com outras palavras, procurando que se entenda. Ou seja, olha para o pecado e para o seu efeito. Só assim se entende a indulgência. Porque esta é a cura para um dos efeitos do pecado.

 

O que é o pecado?

Dizemos que o pecado é uma ofensa a Deus. No entanto, há pecados em que parece que não fazemos nada directamente relacionado com Deus. Em que medida é que O ofendemos? Ofendemo-lo porque o pecado é, antes de mais, autodestruição. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Ao pecar, destruímos essa imagem. Escolhemos ser diferentes. Livremente, optamos por nos afastar do seu plano de felicidade para nós. Assim aconteceu no pecado original (os nossos pais preferiram «ser como Deus», desobedecendo) e assim acontece nos pecados pessoais que agora cometemos depois da vinda de Cristo e da Sua Redenção: em vez de nos identificarmos com Cristo pela graça, recuperando a nossa «imagem e semelhança» com Deus, afastamo-nos mais e mais de Deus, isto é, animalizamo-nos. Isto é, como bem se pode ver, autodestruição.

E, junto com a autodestruição, ao pecar, o homem gera o mal ao seu redor. Faz mal à Igreja, aos seus irmãos os homens e à Criação. Que Pai não sofreria e não se sentiria ofendido ao ver um filho a tomar as decisões erradas que o irão lançar na miséria, a mutilar-se, a destruir-se? Se pudéssemos ver a nossa alma e os efeitos do pecado perceberíamos que estas palavras não são demasiado fortes. Aliás, há casos em que o efeito do pecado é bem visível até corporalmente (droga, álcool, violência, etc.).

Ofendemos a Deus ao destruirmo-nos a nós próprios e ao multiplicarmos o mal no mundo. Quantos não têm dúvidas de fé e se questionam sobre a existência de Deus ao ver como se comportam os homens? «Se Deus existisse, não permitiria isto!» – dizem. O meu pecado ofende a Deus, faz-me mal e faz mal aos homens e à criação.

 Existe, portanto, uma culpa que tem de ser perdoada, mas também uns danos, pessoais e alheios, que têm de ser remediados.

O Papa Francisco refere-se a esses danos pessoais como as «contradições» que «apesar do perdão, carregamos na nossa vida que são consequência dos nossos pecados».[3]

 

Perdão e indulgência

Porém, embora a capacidade de nos autodestruirmos, de nos animalizarmos, em vez de nos divinizarmos, seja enorme, Deus é mais poderoso, a Sua Misericórdia é maior e pode remediar o efeito do pecado em nós. «No sacramento da reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece».[4]

Ao explicar as indulgências aos mais pequenos, contava-lhes a história da criança que, ao jogar à bola dentro de casa, partiu uma jarra de grande valor. Depois de todo o drama e aflição, dirige-se ao Pai e, verdadeiramente arrependido, pede perdão e promete não voltar a fazer. O Pai, ao ver as disposições do filho, abraça-o e perdoa-lhe. No entanto, a jarra continua partida. O Pai pede-lhe, então, que vá buscar a pá e a vassoura e, entre os dois, apanham os pedaços. Depois, sentam-se os dois diante de uma mesa e o Pai, com muito cuidado, vai colando os pedacinhos da jarra. O miúdo bem pouco fez para concertar a jarra, mas aquela presença fá-lo crescer, valorizar a peça partida, apreciar a arte e perícia do Pai e, sobretudo, o seu amor por ele. Algo assim sucede connosco e com a nossa alma. Deus pode «concertá-la» sozinho, mas gosta de o fazer connosco e através da Igreja.[5]

O Santo Padre explica que a misericórdia de Deus «é mais forte também do que o «cunho negativo», que os nossos pecados deixam em nós. Ela torna-se «indulgência» do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado».[6]

 

Através da Igreja

Continuando com a imagem de há pouco e para explicar a acção da Igreja nas indulgências, o Pai pedia à criança para ir ao armário dos irmãos mais velhos e que lhe trouxesse a cola que eles próprios tinham confeccionado. O Pai quer envolver a todos. A jarra é de todos e é graças ao empenho de todos que ela volta a ser o que era. Essa é a vontade do Pai. Que estejamos unidos e que beneficiemos da santidade dos que nos precederam. Não nos salvamos sozinhos.[7] Neste sentido, diz o Papa Francisco: «A Igreja vive a comunhão dos Santos. Na Eucaristia, esta comunhão, que é dom de Deus, realiza-se como união espiritual que nos une a nós crentes, com os santos e Beatos cujo número é incalculável (Ap 7, 4). A sua santidade vem em ajuda da nossa fragilidade, e assim a Mãe-Igreja, com a sua oração e a sua vida, é capaz de acudir à fraqueza de uns com a santidade de outros».[8]

Faz-nos bem sentir essa indigência, a necessidade de ajuda, ter de recorrer a essa «cola» confeccionada, em primeiro lugar, por Cristo, mas também pela sua Mãe e pelos santos para remediarmos o mal que fizemos, em nós e ao nosso redor. Faz-nos bem saber que encontramos o remédio na Igreja e que, também nós, mediante a misericórdia do Pai e a nossa conversão, poderemos contribuir, de alguma maneira, para a santidade da Igreja e de toda a Humanidade.[9]

 A indulgência é experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até às últimas consequências aonde chega o amor de Deus».[10]

 

Basta só passar a porta?

A primeira vez que me explicaram a indulgência plenária[11] senti uma grande frustração e lembrei-me da célebre história da «sopa da pedra». De pequeno, o meu Pai costumava contá-la com muita arte e grande pormenor e nós, eu e os meus irmãos, ouvíamo-la deliciados, vezes sem conta. Indignávamo-nos perante a avareza dos donos da casa que fechavam a porta ao pobre frade; sorríamos ao ver a curiosidade despontar quando o frade lhes mostrava a pedra que queria cozinhar; ríamos ao vê-lo provar a sopa e pedir uma pitada de sal… e depois uma couve… e depois uma batata e…

Senti que a Igreja brincava comigo, como o frade com aqueles proprietários. Sim, era adolescente e a curiosidade despontou ao ver algo muito valioso ali à mão de semear. Entusiasmei-me com a ideia de recuperar essa imagem de Deus, de limpar todo o mal que fiz, a mim próprio e aos outros, através de uma acção que me pareceu bastante acessível. Porém, quando ouvi que era necessária uma confissão verdadeira e contrita, comungar piedosamente, libertar o coração do egoísmo e de um afã cego de salvação pessoal através da oração pelas intenções do Santo Padre e, sobretudo, ter uma total aversão a qualquer tipo de pecado percebi que estava a ser «enganado».[12] Sim, nesta última «cláusula» estava incluída uma luta pela santidade nada fácil de atingir. «Isso é o que qualquer cristão tem de fazer para ser santo!» – pensei. No entanto, aqui eu não estava sozinho. Tinha toda a Igreja a lutar ao meu lado. «Não se perde nada em tentar». Foi o meu raciocínio de adolescente. E penso que tantos outros o fizeram ao longo da História e o continuam a fazer. Somos humanos e precisamos de motivações. E Deus sabe disso. Sem dúvida que os Sacramentos bastam, por si próprios. Mas nós precisamos de algo que nos leve a eles. E os méritos de Cristo e dos Santos ajudam-nos a preparar o coração para essa reconciliação profunda e verdadeira, para esse encontro terno e piedoso com Jesus Eucarístico e para abrigar no coração esse desejo de amar a Deus sobre todas as coisas e detestar tudo o que nos afaste d’Ele. Essa é também a experiência que tenho de sacerdote. «Padre, não pensava confessar-me, mas vi-o aqui e…» E a confissão, depois de várias décadas de afastamento, foi profunda e verdadeira, confortante e consoladora, fonte de alegria e de paz. A quantos não poderá acontecer algo semelhante graças a uma «porta santa» deste Jubileu Extraordinário da Misericórdia? Talvez a motivação inicial seja um pouco superficial, mas o Espírito Santo servir-se-á desse «pôr-se a caminho», desse «atravessar a porta» para experimentar algo único e autêntico. Estou convencido de que é este o sonho do Santo Padre: ver muitos milhares de rostos resplandecentes de paz e de conforto por terem experimentado a Misericórdia do Pai. Como não vislumbrar esse sonho nas palavras com que se refere ao início do Ano Jubilar? «Na festa da Imaculada Conceição, terei a alegria de abrir a Porta Santa. Será então uma «Porta da Misericórdia», onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança.»[13]

 

 

 



[1] PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus, nº 22.

[2] Cfr. PAULO VI, Const. Ap. Indulgentiarum doctrina, 1967; CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1471; CDC (1983), nº 992.

[3] PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus, nº 22.

[4] Ibid.

[5] Cfr. II CONCÍLIO DO VATICANO, Const. Dogm. Lúmen Gentium, 18

[6] PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus, nº 22.

[7] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 776; II CONCÍLIO DO VATICANO, Decr. Ad gentes, 7.

[8] PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus, nº 22.

[9] Cfr. PAULO VI, Const. Ap. Indulgentiarum doctrina, 5, (1967).

[10] PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus, nº 22.

[11] Remoção total da «pena temporal» ou das relíquias do pecado: Cfr: PAULO VI, Const. Ap. Indulgentiarum doctrina, nº2 (1967).

[12] Cfr. PENITENCIARIA APOSTÓLICA, Enchiridion Indulgentiarum, Romae 1999, n. 7;  F. M. AROCENA, «Penitencia y Unción de los Enfermos», EUNSA 2014, p. 309-310.

[13] PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus, nº 3.


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