S. Pedro e S. Paulo

 

Missa do Dia

29 de Junho de 2015

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Fez-vos Cristo luz do mundo, F. da Silva, NRMS 36

 

Antífona de entrada: Estes são os Apóstolos, que durante a sua vida na terra plantaram a Igreja com o seu sangue. Beberam o cálice do Senhor e tornaram-se amigos de Deus.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

São Pedro e São Paulo foram o fundamento da nossa fé, regada e fortificada com o seu sangue.

Ao celebrarmos com santa alegria a solenidade dedicada a estes dois Apóstolos, consideremos a fidelidade com que eles consagraram a sua vida no anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo.

Aproveitemos para pensar na nossa vida, no modo e no tempo que consagramos à oração e à missão que nos foi confiada no dia do nosso baptismo.

Cientes de que nem sempre fomos fiéis a esta missão, peçamos perdão ao Senhor.

 

Oração colecta: Senhor, que nos encheis de santa alegria na solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo, concedei à vossa Igreja que se mantenha sempre fiel à doutrina daqueles que foram o fundamento da sua fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A leitura que ouviremos proclamar quer principalmente salientar o reconhecimento que Pedro teve de que a libertação acontecida não foi da sua iniciativa, mas acção do Senhor.

 

Actos dos Apóstolos 12, 1-11

1Naqueles dias, o rei Herodes começou a perseguir alguns membros da Igreja. 2Mandou matar à espada Tiago, irmão de João, 3e, vendo que tal procedimento agradava aos judeus, mandou prender também Pedro. Era nos dias dos Ázimos. 4Mandou-o prender e meter na cadeia, entregando-o à guarda de quatro piquetes de quatro soldados cada um, com a intenção de o fazer comparecer perante o povo, depois das festas da Páscoa. Enquanto 5Pedro era guardado na prisão, a Igreja orava instantemente a Deus por ele. 6Na noite anterior ao dia em que Herodes pensava fazê-lo comparecer, Pedro dormia entre dois soldados, preso a duas correntes, enquanto as sentinelas, à porta, guardavam a prisão. 7De repente, apareceu o Anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela da cadeia. 8O Anjo acordou Pedro, tocando-lhe no ombro, e disse-lhe: «Levanta-te depressa». E as correntes caíram-lhe das mãos. Então o Anjo disse-lhe: «Põe o cinto e calça as sandálias». Ele assim fez. Depois acrescentou: «Envolve-te no teu manto e segue-me». 9Pedro saiu e foi-o seguindo, sem perceber a realidade do que estava a acontecer por meio do Anjo julgava que era uma visão. 10Depois de atravessarem o primeiro e o segundo posto da guarda, chegaram à porta de ferro, que dá para a cidade, e a porta abriu-se por si mesma diante deles. Saíram, avançando por uma rua, e subitamente o Anjo desapareceu. 11Então Pedro, voltando a si, exclamou: «Agora sei realmente que o Senhor enviou o seu Anjo e me libertou das mãos de Herodes e de toda a expectativa do povo judeu».

 

1-2 «Herodes»: é Herodes Agripa I, o terceiro monarca do mesmo nome a ser nomeado no NT; era filho da Aristóbulo e sobrinho de Herodes Antipas (o que mandara matar o Baptista) e neto de Herodes, o Grande (o da construção do Templo e da matança dos inocentes). Depois de uma vida libertina em Roma, obteve o favor de Calígula, vindo a poder usar o título de rei dum território quase tão grande como o do avô, apresentando-se muito zeloso da religiosidade judaica. «Tiago» é o filho de Zebedeu e Salomé, irmão do Apóstolo João evangelista. O seu martírio deve ter sido um ano ou dois após a tomada de posse de Herodes, a qual se deu no ano 41.

4-6 «Guarda de 4 piquetes de 4 soldados»: note-se o contraste entre a severidade da segurança e a serenidade de Pedro que dorme; cada piquete correspondia a uma das quatro vigílias da noite; Pedro «dormia entre dois soldados», com uma das mãos atada à mão de um soldado e a outra à do outro, enquanto «a Igreja orava instantemente a Deus por ele» (belo fundamento bíblico da oração assídua pelo Papa).

7-10 A intervenção libertadora do «Anjo do Senhor» já tinha sido assinalada em semelhante circunstância (cf. Act 5, 18-19); esta está na linha da fé da Igreja na protecção dos anjos da guarda, conforme lembra o Catecismo da Igreja Católica, nº 336: «Desde a infância até à morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão…».

 

Salmo Responsorial     Sl 33 (34), 2-3.4-5.6-7.8-9 (R. 5b)

 

Monição: Aqueles que procuram a Deus de coração sincero são por Ele acolhidos e livres de todos os perigos. Recitemos este salmo confirmando esse reconhecimento e louvor a Deus.

 

Refrão:        O Senhor libertou-me de toda a ansiedade.

 

A toda a hora bendirei o Senhor,

o seu louvor estará sempre na minha boca.

A minha alma gloria-se no Senhor:

escutem e alegrem-se os humildes.

 

Enaltecei comigo ao Senhor

e exaltemos juntos o seu nome.

Procurei o Senhor e Ele atendeu-me,

libertou-me de toda a ansiedade.

 

Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes,

o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.

Este pobre clamou e o Senhor o ouviu,

salvou-o de todas as angústias.

 

O Anjo do Senhor protege os que O temem

e defende-os dos perigos.

Saboreai e vede como o Senhor é bom:

feliz o homem que n’Ele se refugia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Paulo, estás prestes a ser martirizado. Tendo consciência de que dedicou a sua vida a proclamar a fé e a preservar a unidade, acredita inteiramente que o Senhor o levará a participar do seu Reino.

 

2 Timóteo 4, 6-8.17-18

Caríssimo: 6Eu já estou oferecido em libação e o tempo da minha partida está iminente. 7Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. 8E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me há-de dar naquele dia e não só a mim, mas a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda. 17O Senhor esteve a meu lado e deu-me força, para que, por meu intermédio, a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem e eu fui libertado da boca do leão. 18O Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino celeste. Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Amen.

 

A leitura é um extracto da parte final da Carta, em que o Paulo, pressentindo a morte iminente, faz como que um balanço da sua vida toda devotada à causa da Boa Nova. Consideramos o escrito dotado de autenticidade criticamente segura, não obstante uma certa tendência negativa mesmo entre diversos autores católicos. De facto aqui, como noutros pontos das Cartas Pastorais, observam-se pormenores biográficos de tal maneira vivos, concretos e coerentes, que não se podem atribuir a um falsário. Há quem pense na intervenção dum secretário diferente dos habituais, que muito bem poderia ter sido o seu discípulo e companheiro (cf. v. 11) no segundo cativeiro romano, Lucas (Spicq).

6-7 «Já estou oferecido em libação», isto é, «sinto que a morte se avizinha»; é uma linguagem que bem pode proceder do costume, referido por Tácito, de se fazerem libações por ocasião da morte de alguém. «Combati o bom combate»: São Paulo sempre gostou de comparar a vida cristã e as lides apostólicas a lutas desportivas, pugilismo, corridas... (cf. Filp 2, 16; 3, 12-14; 1 Cor 9, 24-26; Gal 2, 2); «terminei a minha carreira», à letra, corrida.

17 «A mensagem... fosse proclamada a todos…» Pensa-se haver aqui uma referência a algum testemunho público nalguma audiência do tribunal perante grande multidão. «Fui libertado da boca do leão», o que não significa forçosamente que estivesse para ser lançado às feras, mas simplesmente o adiamento da condenação à pena capital, talvez para se proceder a melhor estudo da causa, em face do surpreendente testemunho do heróico pregador do Evangelho, que teria deixado os seus juízes perplexos…

 

Aclamação ao Evangelho          Mt 16, 18

 

Monição: Pedro foi confirmado por Jesus como pedra sobre a qual edificará a sua Igreja. Ele e os seus sucessores continuarão esse exercício de autoridade para ensinar, bem como excluir ou introduzir na comunidade eclesial todos os homens.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja

e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 16, 13-19

Naquele tempo, 13Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». 14Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: 15«E vós, quem dizeis que Eu sou?». 16Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». 17Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. 18Também Eu te digo: Tu és Pedro sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».

 

O texto da leitura consta de duas partes distintas, mas intimamente ligadas: a confissão de fé de Pedro (vv. 13-16), comum a Marcos 8, 27-30 e a Lucas 9, 18-21 (cf. Jo 6, 67-71), e a promessa feita a Pedro (vv. 17-19), exclusiva de Mateus (cf. Jo 21, 15, 23).

13 «Cesareia de Filipe» era a cidade construída por Filipe, filho de Herodes, o Grande, em honra do César romano, nas faldas do Monte Hermon, a uns 40 quilómetros a Nordeste do Lago de Genesaré.

13-17 «Quem dizem os homens… E vós, quem dizeis que Eu sou?» É uma pergunta que, em face de Jesus – uma pessoa tão singular, surpreendente e apaixonante –, não pode deixar de ser feita em todos os tempos. As respostas podem ser variadas e até contraditórias, mas só uma é a certa, a resposta de Pedro, a resposta esclarecida da fé, resposta que Jesus aprova: «Feliz de ti, Simão» (v. 17). «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo» (v. 16): Messias é a forma hebraica da palavra do texto original grego, Cristo, que quer dizer ungido (os reis eram ungidos com azeite na cabeça ao serem investidos). Jesus é o Rei (ungido) anunciado pelos Profetas e esperado pelo povo. Quando se diz Jesus Cristo é como confessar a mesma fé de Pedro, reconhecer que Jesus é o Cristo, isto é, o Messias, mas num sentido mais denso e profundo, a saber, o Filho de Deus, num sentido que ultrapassa o corrente e que só o dom divino da fé pode fazer descobrir, segundo as palavras de Jesus a Pedro: «Não foram a carne e o sangue que to revelaram» (v. 17). A fé de Pedro, como a nossa, não pode proceder dum mero raciocínio humano, da sagacidade natural, mas da luz, da certeza e da firmeza, que procede da revelação de Deus. «A carne e o sangue» é uma forma semítica de designar o homem enquanto ser débil e exposto ao erro e ao pecado.

18 «Tu és Pedro». É significativo que o texto grego não tenha conservado a palavra aramaica «kêphá», aliás usada noutras passagens do N. T. sem ser traduzida, como é habitual com os patronímicos. Aqui o evangelista teve o cuidado de usar o nome correntemente dado ao Apóstolo Simão: Pedro. É expressivo o trocadilho, com efeito Pedro é a pedra sobre a qual assenta a solidez de toda a Igreja do Senhor. Note-se que o apelido de Pedro = Pedra não existia na época, nem em aramaico (Kêphá), nem em grego (Pétros), nem em latim (Petrus), uma circunstância que reforça o seu significado e originalidade. Além disso, este apelido também não era apto para caracterizar o temperamento ou o carácter do Apóstolo, pois aquilo que distingue a sua personalidade não é precisamente a dureza ou firmeza da pedra, mas antes a debilidade, mobilidade e até inconstância (cf. Mt 14, 28-31; 26, 33-35.69-75; Gal 2, 11-14). Se Jesus assim o chama, é em razão da função ou cargo em que há-de investi-lo.

«Edificarei a minha Igreja». Jesus, ao dizer a minha, significa que tem intenção de fundar algo de novo, uma nova comunidade de Yahwéh. «Ekklêsía» é a tradução grega corrente dos LXX para a designação hebraica da Comunidade de (qehal) Yahwéh, isto é, «o povo escolhido de Deus reunido para o culto de Yahwéh» (cf. Dt 23, 2-4.9). Não é, portanto, a Igreja uma seita dentro do judaísmo, é uma realidade nova e independente. «Jesus pôde dizer minha, porque Ele a salva, Ele a adquire com o seu sangue, Ele a convoca, Ele realiza nela a presença divina, a aliança, o sacrifício». «As portas do inferno não prevalecerão». Esta linguagem tipicamente bíblica (Is 38, 10; Sab 16, 13; cf. Job 38, 17; Salm 9, 14) é uma sinédoque com que se designa a parte pelo todo. Inferno tanto pode designar a destruição e a morte (xeol=inferi=os infernos), como Satanás e os poderes hostis a Deus. Também hoje não é difícil ver como estes poderes hostis à verdadeira Igreja de Cristo mais uma vez se assanharam contra o Papa…

19 «Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus». Os poderes conferidos a Pedro não são para ele vir a exercer no Céu, mas aqui neste mundo, onde a Igreja, o Reino de Deus em começo e em construção, tem de ser edificada. No judaísmo e no Antigo Testamento (cf. Is 22, 22), lidar com as chaves é uma atribuição de quem representa o próprio dono, significa administrar a casa. Ligar-desligar quer dizer tomar decisões com tal autoridade e poder supremo, que serão consideradas válidas por Deus, «nos Céus». É de notar que Jesus diz a todos os Apóstolos esta mesma frase (Mt 18, 18), mas sem que seja tirada qualquer força à autoridade suprema de Pedro, a quem é dado um especial poder de «ligar e desligar» na Igreja, enquanto pedra fundamental e pastor supremo a ser investido após a Ressurreição (Jo 21, 15-17). Este primado de Pedro sobre toda a Igreja – que hoje se designa por ministério petrino – não é conferido apenas à pessoa de Pedro, mas a todos os seus sucessores; com efeito Jesus fala a Pedro na qualidade de chefe duma edificação estável e perene, a Igreja; se o edifício é perene também o será a pedra fundamental. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, nº 882, «o Papa, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, «é princípio perpétuo e visível, e fundamento da unidade que liga, entre si, todos os bispos com a multidão dos fiéis» (LG 23). Em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o Pontífice romano tem sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo e universal, que pode sempre livremente exercer» (LG 22). Este é um dos pontos cruciais do diálogo ecuménico, que terá uma saída feliz quando todos os que se consideram cristãos compreenderem que o carisma petrino, por vontade de Cristo, é o indispensável instrumento de união e unidade na legítima diversidade.

 

Sugestões para a homilia

 

Pedro, fundamento sólido da Igreja

A mudança de vida que a fé implica

A pergunta fundamental para a vida cristã

 

Pedro fundamento sólido da Igreja

Ouvimos ler no Evangelho que Jesus fora para os lados de Cesareia de Filipe. Cesareia era a capital que o filho de Herodes, o Grande, mandara construir no extremo norte da terra de Israel. Nela residiam os poderosos, os que dominavam e se faziam servir subjugando os outros.

É aqui que Jesus faz aos discípulos a pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?». Eles apresentam-lhe as várias opiniões das pessoas a seu respeito. Então, torna-se pertinente a segunda pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que eu sou?».

Pedro tomou a palavra e responde: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».

A fé professada por Pedro, e depois concretizada na sua acção apostólica, constitui o fundamento sólido da Igreja: «sobre esta pedra edificarei a minha Igreja», disse Jesus.

Ao manifestar a fé em Cristo e sendo por Ele constituído como «pedra de construção», Pedro caracteriza os seus sucessores e todos os cristãos que professam a mesma fé. Isto significa que a Igreja tem no bispo de Roma o encarregado de manter a unidade da fé em Cristo, professada por Pedro.

Daí a obrigatoriedade que temos de rezar pelo Santo Padre, pois o Senhor, como aconteceu com Pedro, escuta a comunidade orante. Rezemos também pela sua missão cada vez mais dura e espinhosa, devido às mudanças rápidas e violentas. Rezemos igualmente para que Deus lhe dê luz para apontar o melhor caminho para a Igreja e força para enfrentar com optimismo e alegria as contestações do mundo moderno dentro e fora da Igreja.

 

A mudança de vida que a fé implica

Pedro e Paulo provaram com que amor, abnegação e coragem desempenharam o ministério do anúncio do Evangelho e a mudança radical de vida que a fé originou para cada um deles.

Com toda a coragem foram libertados do medo de oferecer a própria vida na proclamação da sua fé em Cristo ressuscitado, apesar de todas as circunstâncias adversas por que tiveram de passar e viver, e que os levaram à morte, durante a perseguição que lhes foi movida.

O seu exemplo é motivo para confrontarmos a nossa própria fidelidade à vocação cristã. Também nós passamos muitas vezes pela solidão, pela incompreensão, pelo sofrimento, pela marginalização e pela perseguição ideológica e, talvez, física. Recordemo-nos, porém, que quem sofre por causa de Cristo, mesmo que as circunstâncias sejam adversas, a seu lado está «o anjo do Senhor», como sucedeu com Pedro.

Ainda hoje os homens falam de Jesus como sendo um homem sábio, inteligente, generoso. Mas será apenas um homem?

 

A pergunta fundamental para a vida cristã

Embora diferindo de uns para outros, uma opinião é unânime: com Ele iniciou-se a transformação mais profunda da história da humanidade.

Mas, será suficiente tal assombro para nos considerarmos cristãos, ou seus discípulos?

É evidente que não. Por isso, continuamos a escutar o Senhor que nos pergunta: «E vós, quem dizeis que eu sou?».

Decerto que replicaremos com as mesmas palavras de Pedro: «Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo», e talvez fiquemos contentes. Mas esta é uma pergunta fundamental para a nossa vida cristã.

É necessário interrogar o interior do nosso coração, para tentarmos perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência.

A aceitação de Jesus como «o Cristo, Filho do Deus vivo», terá de conduzir à conversão verdadeira a Cristo e à sua Palavra, consequentemente a uma radical mudança de vida a que a fé implica.

Peçamos ao Senhor que na nossa mente e no nosso coração deixemos de cultivar fantasias, para que perante os nossos irmãos não sejamos pedras de escândalo e possamos, como Paulo, considerar como lixo tudo aquilo que, antes da sua conversão, era considerado um tesouro.

 

Fala o Santo Padre

 

«Pedro e Paulo realizaram um modo novo de ser irmãos,

tornado possível pela graça do Evangelho de Cristo que neles operava.»

[…]  Desde sempre a tradição cristã tem considerado São Pedro e São Paulo inseparáveis: na verdade, juntos, representam todo o Evangelho de Cristo. Mas, a sua ligação como irmãos na fé adquiriu um significado particular em Roma. De facto, a comunidade cristã desta Cidade viu neles uma espécie de antítese dos mitológicos Rómulo e Remo, o par de irmãos a quem se atribui a fundação de Roma. E poder-se-ia, continuando em tema de fraternidade, pensar ainda noutro paralelismo antitético formado com o primeiro par bíblico de irmãos: mas, enquanto nestes vemos o efeito do pecado pelo qual Caim mata Abel, Pedro e Paulo, apesar de ser humanamente bastante diferentes e não obstante os conflitos que não faltaram no seu mútuo relacionamento, realizaram um modo novo e autenticamente evangélico de ser irmãos, tornado possível precisamente pela graça do Evangelho de Cristo que neles operava. […]

Na passagem do Evangelho de São Mateus que acabamos de ouvir, Pedro faz a sua confissão de fé em Jesus, reconhecendo-O como Messias e Filho de Deus; fá-lo também em nome dos outros apóstolos. Em resposta, o Senhor revela-lhe a missão que pretende confiar-lhe, ou seja, a de ser a «pedra», a «rocha», o fundamento visível sobre o qual está construído todo o edifício espiritual da Igreja (cf. Mt 16, 16-19). Mas, de que modo Pedro é a rocha? Como deve realizar esta prerrogativa, que naturalmente não recebeu para si mesmo? A narração do evangelista Mateus começa por nos dizer que o reconhecimento da identidade de Jesus proferido por Simão, em nome dos Doze, não provém «da carne e do sangue», isto é, das suas capacidades humanas, mas de uma revelação especial de Deus Pai. Caso diverso se verifica logo a seguir, quando Jesus prediz a sua paixão, morte e ressurreição; então Simão Pedro reage precisamente com o impeto «da carne e do sangue»: «Começou a repreender o Senhor, dizendo: (...) Isso nunca Te há-de acontecer!» (16, 22). Jesus, por sua vez, replicou-lhe: «Vai-te daqui, Satanás! Tu és para Mim uma ocasião de escândalo...» (16, 23). O discípulo que, por dom de Deus, pode tornar-se uma rocha firme, surge aqui como ele é na sua fraqueza humana: uma pedra na estrada, uma pedra onde se pode tropeçar (em grego, skandalon). Por aqui, se vê claramente a tensão que existe entre o dom que provém do Senhor e as capacidades humanas; e aparece de alguma forma antecipado, nesta cena de Jesus com Simão Pedro, o drama da história do próprio Papado, caracterizada precisamente pela presença conjunta destes dois elementos: graças à luz e força que provêm do Alto, o Papado constitui o fundamento da Igreja peregrina no tempo, mas, ao longo dos séculos assoma também a fraqueza dos homens, que só a abertura à acção de Deus pode transformar.

E no Evangelho de hoje sobressai, forte e clara, a promessa de Jesus: «as portas do inferno», isto é, as forças do mal, «non praevalebunt», não conseguirão levar a melhor. Vem à mente a narração da vocação do profeta Jeremias, a quem o Senhor diz ao confiar-lhe a missão: «Eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada, como coluna de ferro e muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e de seus chefes, dos sacerdotes e do povo da terra. Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer -non praevalebunt -, porque Eu estou contigo para te salvar» (Jr 1, 18-19). Na realidade, a promessa que Jesus faz a Pedro é ainda maior do que as promessas feitas aos profetas antigos: de facto, estes encontravam-se ameaçados por inimigos somente humanos, enquanto Pedro terá de ser defendido das «portas do inferno», do poder destrutivo do mal. Jeremias recebe uma promessa que diz respeito à sua pessoa e ministério profético, enquanto Pedro recebe garantias relativamente ao futuro da Igreja, da nova comunidade fundada por Jesus Cristo e que se prolonga para além da existência pessoal do próprio Pedro, ou seja, por todos os tempos.

Detenhamo-nos agora no símbolo das chaves, de que nos fala o Evangelho. Ecoa nele o oráculo do profeta Isaías a Eliaquim, de quem se diz: «Porei sobre os seus ombros a chave do palácio de David; o que ele abrir, ninguém fechará; o que ele fechar, ninguém abrirá» (Is 22, 22). A chave representa a autoridade sobre a casa de David. Entretanto, no Evangelho, há outra palavra de Jesus, mas dirigida aos escribas e fariseus, censurando-os por terem fechado aos homens o Reino dos Céus (cf. Mt 23, 13). Também este dito nos ajuda a compreender a promessa feita a Pedro: como fiel administrador da mensagem de Cristo, compete-lhe abrir a porta do Reino dos Céus e decidir se alguém será aí acolhido ou rejeitado (cf. Ap 3, 7). As duas imagens – a das chaves e a de ligar e desligar – possuem significado semelhante e reforçam-se mutuamente. A expressão «ligar e desligar» pertencia à linguagem rabínica, aplicando-se tanto no contexto das decisões doutrinais como no do poder disciplinar, ou seja, a faculdade de infligir ou levantar a excomunhão. O paralelismo «na terra (...) nos Céus» assegura que as decisões de Pedro, no exercício desta sua função eclesial, têm valor também diante de Deus. […]

Queridos irmãos, a iconografia tradicional apresenta São Paulo com a espada, e sabemos que esta representa o instrumento do seu martírio. Mas, repassando os escritos do Apóstolo dos Gentios, descobrimos que a imagem da espada se refere a toda a sua missão de evangelizador. Por exemplo, quando já sentia aproximar-se a morte, escreve a Timóteo: «Combati o bom combate» (2 Tm 4, 7); aqui não se trata seguramente do combate de um comandante, mas daquele de um arauto da Palavra de Deus, fiel a Cristo e à sua Igreja, por quem se consumou totalmente. Por isso mesmo, o Senhor lhe deu a coroa de glória e colocou-o, juntamente com Pedro, como coluna no edifício espiritual da Igreja. […]

Papa Bento XVI, Homília na Basílica Vaticana, 29 de Junho de 2012

Oração Universal

 

Oremos a Deus Pai Omnipotente,

por  intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo,

dizendo:

 

Auxiliai-nos, Senhor, a convertermo-nos a Cristo.

 

1.     Que a santa Igreja, alicerçada em Pedro,

seja fiel  à missão recebida

de anunciar a salvação a todo o mundo,

oremos, irmãos.

 

2.     Que o Santo Padre, o Papa, sucessor de Pedro,

seja iluminado com a luz do Espírito Santo,

a fim de ter força e coragem para enfrentar

todas as contestações do mundo,

oremos, irmãos.

 

3.     Que os Bispos, Presbíteros, Diáconos,

religiosos e leigos responsáveis,

à imitação de S. Pedro e S. Paulo,

procurem levar o espírito cristão a todo o mundo,

oremos, irmãos.

 

4.     Que todos os que, a exemplo de S. Pedro e S. Paulo,

anunciam o Evangelho de Cristo,

sejam protegidos de todo o mal,

oremos, irmãos.

 

5.     Que todos nós que participamos nesta solenidade,

reavivemos a nossa fé numa conversão sincera

a Cristo e à sua Palavra,

oremos, irmãos.

 

6.     Que as nossas intenções

e todas as intenções que nos foram recomendadas,

pela intercessão de S. Pedro e S. Paulo,

sejam atendidas por Deus nosso Pai,

oremos, irmãos.

 

7.     Que as nossas comunidades,

vivam em paz, harmonia e unidade,

oremos, irmãos.

 

Ouvi, Senhor, as nossas orações 

e dignai-vos atender aos nossos rogos,

por intermédio de Jesus Cristo vosso Filho,

Nosso Senhor, que é Deus convosco,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Tu és Pedro, M. Simões, NRMS 42

 

Oração sobre as oblatas: Fazei, Senhor, que a oração dos santos Apóstolos acompanhe a oferta que trazemos ao vosso altar e nos una intimamente a Vós ao celebrarmos este divino sacrifício. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

A dupla missão de São Pedro e São Paulo na Igreja

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte.

Vós nos concedeis a alegria de celebrar hoje a festa dos santos apóstolos Pedro e Paulo: Pedro, que foi o primeiro a confessar a fé em Cristo, e Paulo, que a ilustrou com a sua doutrina; Pedro, que estabeleceu a Igreja nascente entre os filhos de Israel, e Paulo, que anunciou o Evangelho a todos os povos; ambos trabalharam, cada um segundo a sua graça, para formar a única família de Cristo; agora, associados na mesma coroa de glória, recebem do povo fiel a mesma veneração.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Reconciliados com Cristo e com todos os irmãos, recebamos o Senhor em Comunhão Eucarística. Que, através dela, alcancemos a coragem expressa por S. Pedro, e a combatividade atestada por S. Paulo.

 

Cântico da Comunhão: Não fostes vós que me escolhestes, Az. Oliveira, NRMS 59

Mt 16, 16.18

Antífona da comunhão: Disse Pedro a Jesus: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo. Jesus respondeu: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.

 

Cântico de acção de graças: Senhor, fazei de mim um instrumento, F. da Silva, NRMS 6 (II)

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que nos alimentastes com este sacramento, concedei-nos a graça de vivermos de tal modo na vossa Igreja que, assíduos à fracção do pão e ao ensino dos Apóstolos, sejamos um só coração e uma só alma, solidamente enraizados no vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Correspondamos com coerência ao apelo que nos foi suscitado pela escuta da palavra do Senhor. Que o nosso testemunho cative este mundo em que vivemos, a fim de que haja menos violência, mais justiça, paz e unidade entre todos nós e entre todos os povos e nações.

 

Cântico final: Ide por todo o mundo e proclamai, J. Santos, NRMS 59

 

 

Homilias Feriais

 

13ª SEMANA

 

3ª Feira, 30-VI: Com os olhos postos no Senhor.

Gen 19, 15-29 / Mt 8, 23-27

Disse-lhes Jesus: por que estais assustados, homens de pouca fé?

Apesar do convívio habitual com Jesus, para quem nada é impossível, os discípulos ficam assustados com a agitação das ondas (Ev.). Se tivermos Jesus mais presente no nosso dia, manter-nos-emos mais firmes no nosso caminho. Mas, se deixarmos de olhar para Ele, ficaremos assustados com as dificuldades que se apresentarão.

A mulher de Lot não confiou no pedido feito pelo Anjo do Senhor, olhou para trás e «transformou-se numa estátua de sal» (Leit.). Vivamos o nosso dia com os olhos postos no Senhor, lembrando-nos especialmente da sua presença no Sacrário.

 

4ª Feira, 1-VII: As riquezas de Deus e os bens materiais.

Gen 21, 5. 8-20 / Mt 8, 28-34

Quando o viram, suplicaram-lhe que se retirasse do seu território.

Os gadarenos rejeitaram a presença de Jesus no seu território, por terem perdido uma vara de porcos e Ele ter conseguido libertar dois possessos (Ev.). Deram mais valor a um bem material do que à presença do Senhor e à felicidade de dois homens.

Parece ridículo, mas hoje acontecem coisas parecidas. Quando pecamos gravemente, afastamos Deus da nossa alma, preferindo um bem material; quando trocamos a palavra de Deus pelos convites do demónio (semelhança com o pecado original) ou pelas palavras dos homens; quando não seguimos os conselhos do Papa e nos deixamos guiar pelos comportamentos da moda.

 

5ª Feira, 2-VII: A fé e a generosidade.

Gen 22, 1-19 / Mt 9, 1-8

Toma o teu filho, o único filho, que tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá. Aí o hás-de oferecer em holocausto.

A grande fé e esperança de Abraão fazem com que ele esteja disposto a sacrificar o seu filho único, apesar de muito o amar (Leit.). Neste sacrifício está um anúncio do sacrifício de Jesus, que leva a sua cruz até ao Calvário. Uma fé grande, a de Abraão, que é acompanhada por uma grande generosidade. Maior ainda é a generosidade de Deus que não poupou o seu próprio Filho.

Uma falta de fé faz com que os circunstantes dêem mais importância à cura da paralisia de um homem do que ao perdão dos seus pecados. Jesus louva a fé dos que levaram o seu amigo até junto dEle (Ev.), ultrapassando obstáculos muito complicados.

 

6ª feira, 3-VII: S. Tomé: O poder da fé.

Ef 2, 29-22 / Jo 20, 24-29

Disse a Tomé: Chega aqui o dedo e vê as minhas mãos, aproxima a tua mão e mete-a no meu lado.

Tomé teve a sorte de encontrar Jesus ressuscitado e poder afirmar que Ele estava vivo (Ev.).

Todos O podemos encontrar, porque Jesus está presente, vive e actua na sua Igreja: Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre. Ele está presente na Eucaristia, na S. Escritura, nas acções litúrgicas da Igreja. Como Tomé, façamos um acto de fé nestas presenças de Cristo: Meu Senhor e meu Deus!

Tomé construiu a sua fé apoiado no Senhor e, assim pode chegar até à Índia. Todos somos convidados à missão: «Todos fostes edificados sobre o alicerce dos Apóstolos, que tem Cristo como pedra angular» (Leit.).

 

Sábado, 4-VII: A fé em Cristo e os seus frutos.

Gen 27, 1.5. 15-29 / Mt 9, 14-17

Mas deita-se vinho novo em odres novos, e ambas as coisas se conservam.

A vinda de Cristo à terra e a sua mensagem são como vinho novo, que exige um recipiente novo (Ev.). A Igreja recebe esta mensagem e está atenta para que o vinho bom não se estrague, isto é, que as verdades da fé e da moral não se alterem ao sabor das modas. Cada um de nós é igualmente um recipiente novo, que recebe as graças de Deus e as verdades da fé, defendendo-as da agressividade do relativismo e laicismo reinantes.

Isaac abençoa o filho que lhe vai suceder, para que haja frutos abundantes, todas as nações o sirvam e todos os povos se prostrem a seus pés (Leit.). Assim Deus nos abençoe.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         António Elísio Portela

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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