TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

O DIRECTÓRIO HOMILÉTICO

 

 

 

 

 

Cardeal Robert Sarah

Mons. Arthur Roche

 

 

Com data de 29 de Junho de 2014 foi publicado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos o “Directório Homilético”, como era desejo de Bento XVI e do Papa Francisco.

Damos a seguir os textos da apresentação feita em conferência de imprensa no dia 10-II-2015 pelo Cardeal Robert Sarah, novo Prefeito daquela Congregação, e pelo arcebispo Arthur Roche, Secretário da mesma Congregação.

 

 

 

Intervenção do Cardeal Robert Sarah

 

Tenho o prazer de apresentar à imprensa o “Directório homilético”, recolhendo a herança do Cardeal António Cañizares que me precedeu. Como sabeis, foi há poucos meses que o Santo Padre me nomeou Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Falando de “homilia”, também vós jornalistas vaticanistas sabeis bem de que se trata: na Missa, depois da proclamação do Evangelho, o sacerdote dirige a palavra aos fiéis para distribuir o pão da Palavra divina, dispondo-os a uma participação frutuosa na mesa eucarística, de modo que o sacramento recebido encontre realização na vida.

Frequentemente, para muitos crentes, é precisamente o momento da homilia, experimentada como bela ou má, interessante ou aborrecida, que decide a bondade ou não de toda a celebração. Claro, a Missa não é a homilia, mas esta representa um momento relevante para a participação nos santos mistérios, ou seja, para a escuta da Palavra de Deus e para a Comunhão do Corpo e do Sangue do Senhor. O Directório não nasce sem uma razão. Ele tem o objectivo de oferecer uma resposta à necessidade de melhorar o serviço, próprio dos ministros ordenados, da pregação litúrgica. Um primeiro convite neste sentido ressoou no Sínodo dos Bispos de 2005, onde, na proposição 19, se sublinhavam dois aspectos: 1.º – Pedia-se aos ministros ordenados que “preparassem cuidadosamente a homilia, baseando-se num conhecimento adequado da Sagrada Escritura”. Eis um primeiro dado a ter em conta, pois a homilia está directamente ligada às Sagradas Escrituras, especialmente ao Evangelho, e é iluminada por elas. 2.º – Pedia-se que na homilia ressoassem, ao longo do ano, os grandes temas da fé e da vida da Igreja e, para esse fim, desejava-se que houvesse subsídios que, à luz do Leccionário da Missa em três anos, ajudassem a mostrar o nexo que liga a mensagem das leituras bíblicas com a doutrina da fé exposta no Catecismo da Igreja Católica. A partir dessas expectativas, Bento XVI, na Exortação Sacramentum caritatis, dedicou o n. 46 à homilia, encorajando uma reflexão sobre o assunto.

Os Bispos voltaram ao tema no seguinte Sínodo sobre a Palavra de Deus, e assim Bento XVI, na Exortação Verbum Domini, enquanto recordava que pregar de forma adequada com referência ao Leccionário é realmente uma arte que deve ser cultivada, indicava também a oportunidade de elaborar “um Directório sobre a homilia, de modo que os pregadores possam encontrar nele uma ajuda útil para se prepararem no exercício do ministério” (n. 60).

O sulco estava traçado e, nesta linha, a Congregação pôs em marcha o projecto. Uma ulterior aceleração para levá-lo a cabo veio da ênfase posta sobre a homilia pelo Papa Francisco que, na Evangelii gaudium, reserva uns bons 25 números para o nosso tema, 10 para a homilia (nn. 135-144) e 15 para a preparação da pregação (nn. 145-159). Escreve o Papa no capítulo dedicado ao anúncio do Evangelho: “Consideremos agora a pregação dentro da liturgia, que requer uma avaliação séria por parte dos Pastores. Vou fixar-me particularmente, e até com certo pormenor, sobre a homilia e a sua preparação, porque são muitas as reclamações em relação a este importante ministério e não podemos tapar os ouvidos”.

A homilia é um serviço litúrgico reservado ao ministro ordenado, o qual é chamado por vocação a servir a Palavra de Deus de acordo com a fé da Igreja e não de modo personalista. Não é um discurso qualquer, mas um falar inspirado na Palavra de Deus que ressoa numa assembleia de crentes, no âmbito de uma acção litúrgica, a fim de aprenderem a praticar o Evangelho de Jesus Cristo.

Entre os critérios recordados no Directório, indico alguns: 1.º – a homilia é suscitada pelas Escrituras dispostas pela Igreja no Leccionário, que é o livro que contém, para todos os dias do ano, as leituras bíblicas para a Missa. 2.º – a homilia é suscitada pela celebração em que “estas” leituras estão inseridas, ou seja, pelas orações e pelos ritos que constituem “esta” liturgia, cujo protagonista principal é Deus, por meio de Cristo, seu Filho, no poder do Espírito Santo.

Obviamente, a homilia põe em causa quem a pronuncia. Eis a importância da preparação da homilia, que requer estudo e oração, experiência de Deus e conhecimento da comunidade para a qual se dirige, amor pelos santos Mistérios e amor pelo Corpo vivo de Cristo que é a Igreja.

 

 

 

Intervenção do arcebispo Mons. Arthur Roche

 

Parece-me muito eficaz começar a minha intervenção com estas expressões da Evangelii gaudium: «A homilia não pode ser um espectáculo de divertimento, não responde à lógica dos recursos mediáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um género peculiar, uma vez que se trata de uma pregação dentro do quadro de uma celebração litúrgica» (n. 138).

Se isto é assim, é realmente importante saber responder a algumas perguntas: O que é a homilia? Que atenção requer? Onde buscar o seu conteúdo? Como articulá-la? A estas e outras perguntas pretende dar respostas e orientações o Directório homilético, elaborado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Recomendada vivamente pelos Padres do Concílio Vaticano II (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 52), a homilia reveste justamente a qualificação de “litúrgica”, no sentido de que tem um lugar específico dentro da celebração dos sagrados mistérios, é requerida por ela e está ao serviço da pia, activa e consciente participação nela do povo santo de Deus. É impensável de facto uma homilia em si própria, como uma peça de oratória, ou seja, separada da Palavra de Deus que ressoa na concreta assembleia reunida para a Eucaristia, para a qual é precisamente destinada. A este propósito, o Papa Francisco recorda que “há uma valorização especial da homilia, que deriva do seu contexto eucarístico e faz com que ela supere qualquer catequese, sendo o momento mais alto do diálogo entre Deus e o seu povo, antes da comunhão sacramental” (EG, n. 137).

A esta luz, a homilia põe em causa, em primeira pessoa, o ministro ordenado que a pronuncia. É preciso reconhecer que, para um bispo e um sacerdote, especialmente se é pároco, a pregação homilética é a parte principal de seu magistério, ou seja, do ministério, recebido e aceite com a sagrada Ordem, de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, ajudando quem escuta a conservar sempre melhor nos seus corações a Palavra que transforma a vida de quem a leva à prática. Penso nas homilias de Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Leão Magno, testemunho eloquente do seu magistério litúrgico de Pastores dedicados ao rebanho a eles confiado. De modo semelhante, na medida em que lhe compete, a pregação homilética é também excelente acção ministerial para o diácono.

Por isso, a homilia não pode ser improvisada. É necessário que o pregador saiba e reaviva incessantemente em si a consciência do que a Igreja lhe pede ao dar-lhe o mandato de distribuir o pão da Palavra divina na assembleia eucarística, o que prevêem os livros litúrgicos sobre esta acção peculiar, que qualidades ele deve cultivar, quais são as reais necessidades e expectativas da comunidade reunida em oração. Por conseguinte, recorda o Papa Francisco, “a preparação da pregação é uma tarefa tão importante que convém dedicar-lhe um tempo prolongado de estudo, oração, reflexão e criatividade pastoral” (EG, n. 145).

Claro, o Directório não pode resolver todos os problemas acerca da homilia. Decidiu-se privilegiar alguns aspectos, fazendo simples referência a outros e ainda não considerando outros. Acreditamos e desejamos que seja uma ajuda concreta para a formação, sobretudo dos sacerdotes, a fim de melhor cumprirem o seu ministério litúrgico.

Termino recordando o n. 41 da Introdução ao Leccionário, no qual se descreve sinteticamente, através de cinco verbos precisos, o que o sacerdote é chamado a fazer com a pregação litúrgica:

“Com a homilia, ele leva os irmãos a entenderem e a saborearem a Sagrada Escritura, abre o coração aos fiéis para darem graças pelas obras maravilhosas feitas por Deus; em particular, alimenta a fé dos presentes por aquilo que se refere àquela palavra que, na celebração, sob a acção do Espírito Santo, se torna sacramento; enfim, ele prepara para uma comunhão frutuosa e exorta-os a assumirem as obrigações decorrentes da vida cristã”.

Será um bom pregador quem, através da pregação da homilia, for capaz de fazer isto: levar a querer saborear o que sai da boca de Deus, abrir os corações para dar graças a Deus, alimentar a fé enquanto o Espírito actua por meio de nós, aqui e agora na acção litúrgica, preparar para uma frutuosa comunhão sacramental com Cristo, exortando a viver o que se recebeu no sacramento. Será um mau pregador quem, embora seja talvez um grande orador, não for capaz de despertar estes efeitos.

 

 

 

 

 


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