TEMAS LITÚRGICOS

A misericórdia de Deus manifestada na Paixão de Cristo:

Como vivê-la no sacramento da Reconciliação?

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

A morte de Jesus na Cruz é o momento mais alto da misericórdia de Deus. Cristo morre pelos nossos pecados e é em virtude da Sua morte na Cruz e da Sua Ressurreição que os nossos pecados são perdoados. Mas como relacionar mais profundamente o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus com o sacramento da Penitência? Será que se pode falar também de um carácter anamnético deste sacramento? Vivemos, de alguma forma, a morte e ressurreição do Senhor quando nos confessamos?

 

Há algum tempo, num curso sobre sacramentos para professores de teologia, escutei o professor Félix Arocena apresentar o sacramento da Penitência em termos muito originais e reveladores. Por um lado, recordava-me algo conhecido, por outro, não tinha memória de me falarem dessa forma sobre o sacramento da Reconciliação. Que visão era essa? Recordou-nos que todos os sacramentos têm um carácter anamnético, isto é, são todos, de certa forma, memorial do mistério salvador.[1] É certo que a Eucaristia é, por antonomásia, o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. No entanto, de alguma forma, todos os sacramentos deverão ter essa marca, uma vez que nasceram do sacrifício redentor de Jesus Cristo. Perguntava-se então: de que forma é que o sacramento da Reconciliação é memorial da morte do Senhor? Como é que nos tornamos presentes naquele momento único da História da humanidade? Precisamente com a materialidade dos nossos pecados. Confessando-os, eu entrego-os a Cristo. E Ele entrega-se por mim como resgate por esses pecados.

Esta ideia ficou-me gravada e tenho-a utilizado muitas vezes ao explicar o sacramento do perdão dos pecados. É certo que é belo e, diria mesmo imprescindível, olhar para a Reconciliação como o abraço misericordioso do Pai, recordando a parábola do filho pródigo e as palavras e gestos desse Pai afectuoso e compassivo, e com esta cena tantas outras de perdão presentes no Evangelho,[2] mas o acto supremo de misericórdia do Pai foi a Paixão do Seu Filho. Do cimo da Cruz o Filho, pede ao Pai que nos perdoe. Aceita o padecimento que os nossos pecados merecem para demonstrar o seu amor e a sua misericórdia por cada um de nós.

Recordo uma objecção que me fez uma pessoa quando acabei de fazer estas considerações a um grupo de pessoas com boa formação: «Eu sempre pensei que a confissão fosse um tribunal!». É verdade, o tribunal da misericórdia de Deus, em que o réu, uma vez ouvida a sua falta e julgada e a sua culpa, em vez de ser condenado é absolvido, como dizia S. Josemaria admirando-se do amor de Deus e do seu coração misericordioso ao deixar-nos este sacramento.[3] E essa absolvição não aconteceu precisamente no Gólgota? Esse juízo não se deu no Getsemani? Na balança estiveram, de um lado, os meus pecados, do outro, os seus padecimentos e a minha salvação. E o veredicto é pronunciado: non mea voluntas sed tua fiat! Não se faça a minha vontade, mas a tua.

Que belas e proféticas foram as palavras de Malaquias quatrocentos anos antes de Jesus dar a vida por nós:

 

«Ele é como o fogo do fundidor

e como a lixívia dos lavandeiros.

Sentar-se-á para fundir e purificar:

Purificará os filhos de Levi,

como se purifica o ouro e a prata[4]

 

Como não pensar no sangue de Jesus como essa divina lixívia que nos limpa por completo? Ao ponto de aniquilar por completo o pecado.[5] O fogo revela a causa da nossa purificação: o amor de Deus. Um amor personalizado. De um a um, como acontece em particular neste sacramento. A acção de sentar-se para fundir e purificar dá a sensação de uma atenção particularizada, minuciosa. Purificar o ouro e a prata transmite a ideia de um tratamento personalizado de algo que é precioso para quem purifica. Deus considera a nossa alma digna dessa atenção. Por isso, Jesus diz: Não se faça a minha vontade (uma vontade humana que apenas vê a justiça) mas a Tua (a vontade misericordiosa da qual apenas Deus é capaz).

Não é precisamente isto o que acontece no sacramento da Confissão? A misericórdia do Pai, o seu rosto misericordioso,[6] coloca os olhos nas nossas manchas e purifica-as, lava-as com o seu sangue, é a lixívia do lavandeiro.[7] Porque sim, há juízo, o juízo da Cruz. O pecado tem de ser pago.

 

É conhecida a cena de um filme sobre a Paixão de Cristo na qual o realizador, sem diálogos, apenas com jogos de câmara, nos faz viver a relação que se dá entre uma mulher pecadora e o crucificado.[8] A mulher, ao contemplar Jesus na Cruz, cai de joelhos e as mãos tocam o chão e agarram a gravilha com força. Isso fá-la recordar o seu pecado e o juízo a que foi submetida pelos judeus. Curiosamente, trazem a mulher a Jesus para que a julgue. Porém, já têm o seu juízo feito. Nas mãos trazem pedras para aplicar a pena à mulher apanhada em flagrante adultério. No entanto, perante as palavras de Jesus, vão deixando cair essas pedras e abandonam a cena. Fica apenas Jesus que termina por levantar aquela mulher do chão. Quem vê a cena lembra-se das palavras que Jesus lhe diz no Evangelho: «Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai e não tornes a pecar!».[9] A cena termina com a mulher a olhar para a Cruz agarrando fortemente aquelas pedras do chão. Assim é o juízo do Filho do Homem: não te condeno, perdoo-te o pecado, podes sair em paz, mas condeno o pecado, assumo-o na minha carne e crucifico-o.[10] Este é o espanto estampado no rosto daquela mulher. Poupaste-me a vida porque a trocaste pela tua!

Damo-nos conta de que é isto o que acontece todas as vezes que nos aproximamos do sacramento da Penitência? Efectivamente, ajoelhamo-nos diante do crucificado, entregamos-lhe os nossos pecados, somos julgados, o pecado é crucificado com Cristo e aniquilado. Porém, Ele ressuscita e a nossa alma, ao sair da confissão, sai também ressuscitada espiritualmente.

A audaz esperança do Salmo 50 atinge a sua realização. O pecador, que reconhece o seu pecado (pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos) dirige-se ao seu Senhor e pede o impensável: lava-me e ficarei mais branco do que a neve!

Félix Arocena no seu recente manual sobre este sacramento afirma: «Do penitente poder-se-ia dizer que é personam Crucifixi gerens; a sua vida foi elevada pela participação na força purificadora do sofrimento de Cristo. Por isso, quem vê um pecador que fez penitência, vê algo mais que um homem meramente arrependido; vê como neste homem resplandece o juízo da Cruz, isto é, um lampejar da exaltação com a qual o Pai glorifica o Crucificado».[11]

Sabemos que os sacramentos nasceram e receberam a sua eficácia da morte redentora de Jesus. A Igreja sempre os viu simbolizados no sangue e água que brotaram do lado aberto de Jesus.[12] Porém, como vimos, podemos dizer mais do que isso. Segundo Arnau, celebrar o sacramento da Penitência é entrar em contacto com a Paixão redentora de Jesus, pois trata-se de uma celebração litúrgica de índole memorial.[13] Ou seja, através dessa celebração o cristão vive, de alguma forma, esses momentos em que o Senhor assumiu os nossos pecados e padeceu para os aniquilar:

«No drama sacramental da Penitência, o penitente une-se a Cristo paciente adentrando-se na obra do Redentor que expia todos os pecados, mas com uma diferença: o cristão fá-lo pelos seus pecados pessoais, enquanto Cristo é o «sem pecado». Apesar desta diferença, não se subtrai força ao facto de que, no sacramento, se dá realmente uma união sacramental com Cristo na sua expiação».[14]

Ver-se diante da Cruz no momento da celebração do sacramento da Reconciliação será certamente proveitoso. Precisamente porque a Cruz é o acto supremo de amor, o maior acto da misericórdia por parte de Deus. Compreendem-se as indicações litúrgicas de celebrar esse sacramento diante de um crucifixo e, a ser possível, numa Igreja ou oratório.[15] Também me parece tão natural o gesto de cair de joelhos. Mesmo que precedida por uma conversa e um acolhimento que nos recorde a ternura do Pai, trata-se de uma consequência natural. Caímos de joelhos ao ver quanto Deus nos ama e quanto nos perdoa. O corpo precisa de se manifestar. É o que demonstra essa postura: colocamo-nos à mercê do juiz. Perdemos altura e movimentos. Assim o faziam os guerreiros antigos para demonstrar a sua submissão. Não ajuda fazê-lo diante do Senhor crucificado que nos perdoa? É o que acontece na comovedora cena do filme já citado. Maria, João e a pecadora arrependida caem de joelhos diante do amor de Deus e do seu juízo. A Cruz de Jesus mostra-nos quanto o Pai nos ama e leva-nos à contrição e ao propósito de emenda. Como dizia a Bem-aventurada Jacinta ao contemplar o crucifixo: «Eu não hei-de fazer nunca nenhum pecado! Não quero que Nosso Senhor sofra mais».[16]

 

 

 

 

 

 

 



[1] Cfr. J. ABAD, La celebración del Misterio cristiano, EUNSA 1996, p. 83. «É conhecido que a Eucaristia e os restantes sagrados mistérios realizam, cada um a seu modo e com características próprias, o memorial da Páscoa do Senhor e a conseguinte cristificação de quem participa nos respectivos ritos sacramentais», F. M. AROCENA, «Penitencia y Unción de los Enfermos», EUNSA 2014, p. 233.

[2] Cfr. PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus, n. 8-9.

[3] Encontro filmado com S. Josemaria. DVD «A fé aos 20 anos. Jovens em diálogo com S. Josemaria», 2014.

[4] Mal 3, 2-3.

[5] «Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. É possível deixar-se reconciliar com Deus através do mistério pascal e da mediação da Igreja», PAPA FRANCISCO, Misericordiae vultus, n. 22

[6] Ibíd.. n. 1.

[7] Arocena recorre a um texto de S. Tomás para deixar claro que o Angélico via os padecimentos do Senhor como realidades vivas e tornadas presentes diante do Pai: «De outro modo intercede (o Kyrios) por nós, a saber, representando diante do olhar do Pai a humanidade que assumiu e os mistérios celebrados nela.» ( S. TOMÁS DE AQUINO, «In ep. Ad Romanos, cap. 8, lectio 7)

Estes «mistérios» celebrados na humanidade santíssima de Cristo são os padecimentos da sua Paixão. Este é o «rosto da misericórdia do Pai» (Misericordiae vultus, n.1) que o cristão vislumbra cada vez que se aproxima do sacramento da reconciliação. Ou, como dizia Arocena citando O. Casel, «o cristão entra portanto em contacto sacramental com estes mistérios (os padecimentos de Cristo) nas celebrações litúrgicas da Igreja, através das quais se dispensa aos homens o mistério da salvação.» F. M. AROCENA, «Penitencia y Unción de los Enfermos», EUNSA 2014, p. 232.

[8] Trata-se do filme «A Paixão de Cristo» de Mel Gibson de 2004.

[9] Jo 8, 11.

[10] Cfr. Jo 3, 14 e Num 21, 5-9.

[11] F. M. AROCENA, «Penitencia y Unción de los Enfermos», EUNSA 2014, p. 233.

[12] Cfr. Jo 19, 33-34. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1067

[13] Cfr. F. M. AROCENA, «Penitencia y Unción delos Enfermos», EUNSA 2014, p. 232; Cfr. R. ARNAU, «Tratado general de los sacramentos», Madrid 1994, 276.

[14] Ibid, p. 234.

[15] RITUAL ROMANO DA CELEBRAÇÃO DA PENITÊNCIA, Preliminares, 12

[16] Memórias da irmã Lúcia, I, Fátima 2000, p. 25


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