MULHER

AS CULTURAS FEMININAS: IGUALDADE E DIFERENÇA

 

 

 

 

Papa Francisco

 

 

A reivindicação dos direitos da mulher (feminismo), que no início era vista com simpatia pela sociedade, foi-se desenvolvendo no séc. XX até chegar à reivindicação da igualdade absoluta com o homem, e a consequente negação da diferença complementar entre os dois modos de ser humano.

Muitos responsáveis eclesiais, embora cientes da igual dignidade pela comum natureza humana e da diversidade complementar dos modos de ser masculino e feminino, mostram-se hesitantes em saber como resolver a questão aberta pelo feminismo, origem de confrontos e desconfianças na sociedade civil e eclesial.

O discurso do Papa Francisco, no passado dia 7 de Fevereiro, aos participantes da Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para a Cultura no final dos trabalhos sobre o tema “As culturas femininas: igualdade e diferença”, representa um marco notável para a resolução da questão feminina. De modo paternal e directo, o Santo Padre deixa claro que as características femininas mostram o papel principal e insubstituível da mulher na família, e deve ser respeitando-as que a mulher dará o seu necessário contributo na sociedade civil e eclesial.  

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

É com prazer que vos recebo no final da vossa Assembleia Plenária, que vos viu empenhados na reflexão e na investigação sobre o tema As culturas femininas: igualdade e diferença. Agradeço ao Cardeal Ravasi as palavras que proferiu também em nome de todos vós. Desejo expressar o meu agradecimento em particular às mulheres presentes, mas também a todas aquelas – e sei que são muitas – que contribuíram de diversos modos para a preparação e a realização deste trabalho.

O tema que escolhestes tenho-o muito no coração, e em diversas ocasiões já pude tratá-lo e convidar a aprofundá-lo. Trata-se de estudar critérios e modalidades novas a fim de que as mulheres não se sintam hóspedes, mas plenamente participantes nos vários âmbitos da vida social e eclesial. A Igreja é mulher, é a Igreja e não o Igreja. Este é um desafio que não se pode adiar mais. Digo-o aos Pastores das comunidades cristãs, aqui em representação da Igreja universal, mas também às leigas e leigos de diversos modos empenhados na cultura, na educação, na economia, na política, no mundo do trabalho, nas famílias, nas instituições religiosas.

A ordem dos temas por vós programada para o desenvolvimento do trabalho destes dias – trabalho que certamente prosseguirá também no futuro – permite que vos indique um itinerário, que vos ofereça algumas linhas-guia para desenvolver este empenho em todas as partes da terra, no coração de todas as culturas, em diálogo com as várias crenças religiosas.

 

A primeira temática é: Entre igualdade e diferença: em busca de um equilíbrio. Mas um equilíbrio que seja harmonioso, não só equilibrado. Este aspecto não deve ser visto ideologicamente, porque a «lente» da ideologia impede que se veja bem a realidade. A igualdade e a diferença das mulheres – assim como dos homens – compreendem-se melhor na perspectiva do com, da relação, que do contra. Há muito tempo que foi abandonado, pelo menos nas sociedades ocidentais, o modelo da subordinação social da mulher ao homem, um modelo secular do qual, contudo, ainda não desapareceram completamente os efeitos negativos. Superámos também um segundo modelo, o da pura e simples paridade, aplicada mecanicamente, e da igualdade absoluta. Configurou-se assim um novo paradigma, o da reciprocidade na equivalência e na diferença. Por conseguinte, a relação homem-mulher deveria reconhecer que ambos são necessários porquanto possuem, sim, uma idêntica natureza, mas com modalidades próprias. Uma é necessária à outra, e vice-versa, para que se cumpra deveras a plenitude da pessoa.

Segunda temática: A «acção geradora» como código simbólico. Ela dirige um olhar intenso a todas as mães, e alarga o horizonte à transmissão e à protecção da vida, não limitada à esfera biológica, que poderíamos sintetizar com quatro verbos: desejar, trazer ao mundo, ocupar-se e deixar partir.

Neste âmbito, tenho presente e encorajo a contribuição de muitas mulheres que trabalham na família, no campo da educação na fé, na actividade pastoral, na formação escolar, mas também nas estruturas sociais, culturais e económicas. Vós, mulheres, sabeis encarnar o rosto terno de Deus, a sua misericórdia, que se traduz em disponibilidade a dedicar tempo mais do que a ocupar espaços, a acolher em vez de excluir. Neste sentido, apraz-me descrever a dimensão feminina da Igreja como seio acolhedor que regenera para a vida.

Terceira temática: O corpo feminino entre cultura e biologia, recorda-nos a beleza e a harmonia do corpo que Deus deu à mulher, mas também as dolorosas feridas a elas infligidas, por vezes com violência atroz, por serem mulheres. Símbolo de vida, o corpo feminino é, infelizmente com frequência, agredido e deturpado também por aqueles que deveriam ser seus guardiões e companheiros de vida.

Portanto, as muitas formas de escravidão, de comercialização, de mutilação do corpo das mulheres, empenham-nos a trabalhar para eliminar esta forma de degradação que o reduz a mero objecto de comércio nos vários mercados. Neste contexto, desejo chamar a atenção para a dolorosa situação de muitas mulheres pobres, obrigadas a viver em condições de perigo, de exploração, relegadas à margem da sociedade e tornadas vítimas de uma cultura do descarte.

Quarta temática: As mulheres e a religião: fuga ou busca de participação na vida da Igreja? Aqui os crentes são interpelados de modo particular. Estou convicto da urgência de oferecer espaços às mulheres na vida da Igreja e de as acolher, tendo em consideração as específicas e diferentes sensibilidades culturais e sociais. Por conseguinte, é desejável uma presença feminina mais difundida e incisiva nas Comunidades, de modo que possamos ver muitas mulheres comprometidas nas responsabilidades pastorais, no acompanhamento de pessoas, famílias e grupos, assim como na reflexão teológica.

Não se pode esquecer o papel insubstituível da mulher na família. Os dotes de delicadeza, peculiar sensibilidade e ternura, de que o ânimo feminino é rico, representam não só uma força genuína para a vida das famílias, para a irradiação de um clima de serenidade e de harmonia, mas também uma realidade sem a qual a vocação humana seria irrealizável.

Além disso, trata-se de encorajar e promover a presença eficaz das mulheres em muitos âmbitos da esfera pública, no mundo do trabalho e nos lugares onde são adoptadas as decisões mais importantes, e ao mesmo tempo manter a sua presença e atenção preferencial e muito especial na e para a família. Não se deve deixar sozinhas as mulheres a carregar este peso e a tomar decisões, mas todas as instituições, incluída a comunidade eclesial, estão chamadas a garantir a liberdade de escolha para as mulheres, a fim de que tenham a possibilidade de assumir responsabilidades sociais e eclesiais, de modo harmónico com a vida familiar.

Queridos amigos e queridas amigas, encorajo-vos a levar por diante este empenho, que confio à intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, exemplo concreto e sublime de mulher e de mãe. E por favor peço-vos que rezeis por mim e abençoo-vos de todo o coração. Obrigado.

 

 

 

 

 

 

 


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