6º Domingo da Páscoa

10 de Maio de 2015

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Anunciai com voz de Júbilo, Az. Oliveira, NRMS 32

cf. Is 48, 20

Antífona de entrada: Anunciai com brados de alegria, proclamai aos confins da terra: O Senhor libertou o seu povo. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Em cada Eucaristia, Cristo Ressuscitado, vem ao encontro da comunidade dos seus discípulos. Ele vive connosco. Ele propõe-nos viver a experiencia admirável do seu Espírito que nos introduz na fonte do amor de Deus. E neste amor viver a experiência admirável do amor ao próximo.

Deus comunica-se no amor. Deus deu a vida por nós e definitivamente nos faz amigos e filhos. O seu amor nos faz saborear a Sua beleza que resplandece, de maneira particular, em cada homem e em cada mulher.

O seu amor nos tira do isolamento e do egoísmo, rompendo as barreiras de todo o tipo de preconceito.

O seu amor nos lança no desafio da admirável experiência da descoberta do verdadeiro amor que não nos deixa ficar indiferentes, e nos dinamiza para um testemunho de entrega e de serviço.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, a graça de viver dignamente estes dias de alegria em honra de Cristo ressuscitado, de modo que a nossa vida corresponda sempre aos mistérios que celebramos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: “Aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável”.

As maravilhas de Deus fazem resplandecer a Sua beleza, fazem brilhar a dignidade humana, geram fraternidade.

 

Actos dos Apóstolos 10, 25-26.34-35.44-48

Naqueles dias, 25Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. 26Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». 34Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, 35mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». 44Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. 45E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, 46pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. 47Pedro então declarou: «Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?» 48E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então, pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles.

 

A leitura refere a vinda de Pedro a anunciar a salvação a um gentio, «Cornélio». Era centurião romano do destacamento militar de Cesareia, e bem podia ser descendente dalgum daqueles dez mil escravos que libertou Cornélio Sila, cerca do ano 80 a. C., os quais tomaram o apelido deste. Pertenceria à «coorte itálica», de que nos chegaram várias inscrições. Era «justo e temente a Deus» (v. 22), isto é, homem que aceitava o único Deus de Israel e a sua lei moral, mas sem aderir ao judaísmo pela circuncisão e outras práticas rituais. Segundo Act 10, 1-8, tinha recebido uma mensagem angélica para mandar chamar Pedro a Jope (Jafa, hoje Yafo), a fim de lhe vir anunciar a «Boa-Nova da paz» (cf. v. 36). Pedro, dada a visão que teve – «o que foi purificado por Deus não o chames impuro» (v. 15) –, vendo como o Espírito Santo, com manifestações semelhantes às do Pentecostes, nomeadamente a glossolalia (cf. vv. 45-46), descia sobre os ouvintes da sua pregação, não hesitou em fazer entrar os ouvintes directamente na Igreja pelo Baptismo (vv. 47-48). Isto aparece como um passo de extraordinário alcance para a vida da Igreja (por isso se conta mais uma vez no cap. 11); com efeito, a Igreja é católica desde o princípio, isto é, destinada aos homens de todas as raças, e não apenas ao fechado e estreito âmbito de judeus e judaizados. Mas nem todos os cristãos afeitos à Lei de Moisés haviam de compreender isto facilmente, o que motivou o sínodo de Jerusalém (ano 49-50); os cristãos judaizantes, porém, haveriam de continuar na sua e a fazer grande oposição a S. Paulo.

34-35 Estes versículos representam uma pequenina parte do discurso de Pedro em casa de Cornélio, em Cesareia Marítima, quando Pedro recebeu directamente na Igreja os primeiros gentios, sem terem de passar primeiro pelo judaísmo. É surpreendente que um discurso dirigido a não judeus contenha alusões (mas não citações explícitas) ao Antigo Testamento: v. 34 – «Deus não faz acepção de pessoas» (cf. Dt 10, 17); v. 36 – «Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel» (cf. Salm 107, 20), «anunciando a paz» (cf. Is 52, 7); v. 38 – «Deus ungiu com… Espírito Santo» (cf. Is 61, 1). Isto corresponde a que se está num ponto crucial da vida da Igreja, em que ela entra decididamente pelos caminhos da sua universalidade intrínseca, em confronto com o nacionalismo judaico; por isso era importante recorrer àquelas passagens do A. T. que se opõem a qualquer espécie de privilégio de raça ou cultura: «a palavra aos filhos de Israel» (v. 36) deixa ver como Deus é o «Senhor de todos», imparcial, «não faz acepção de pessoas» e que a «paz» – a súmula de todos os bens messiânicos – Deus a destina a toda a humanidade. O discurso tem um carácter kerigmático evidente; e Lucas – o historiador-teólogo – ao redigi-lo, quaisquer que possam ter sido as fontes utilizadas, terá em vista mais ainda do que a situação concreta em que foi pronunciado, o efeito a produzir nos seus leitores. Convém notar que, no entanto, ao redigir os discursos – o grande recurso literário de Actos –, Lucas não os inventa; embora não sejam uma reprodução literal, considera-se que correspondem aos temas da pregação primitiva.

 

Salmo Responsorial    Sl 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. cf. 2b)

 

Monição: Cantemos a intervenção maravilhosa de Deus na história da salvação.

 

Refrão:        O Senhor manifestou a salvação a todos os povos.

 

Ou:               Diante dos povos manifestou Deus a salvação.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.

 

O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.

 

Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.

 

Segunda Leitura

 

Monição: João indica-nos a fonte do amor.

 

1 São João 4, 7-10

Caríssimos: 7Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. 8Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.

 

A Carta de S. João que temos vindo a ler no tempo pascal deste ano B atinge agora o seu ponto mais alto (vv. 1-16). O tema central da Epístola é o amor, um tema a que volta repetidas vezes, desenvolvendo-o em espiral. A chamada espiral joanina consiste em que, cada vez que volta a um tema, avança e aprofunda-o um pouco mais.

7-8 «Amemo-nos uns aos outros» é como que um refrão que S. João não se cansa de repetir (cf. 1 Jo 3, 11.23); mas aqui não se limita a apelar para «o mandamento do Senhor» (1 Jo 3, 23; cf. Jo 15, 12), pois vai até ao ponto de tocar na mais profunda razão de ser deste mandamento. É que «Deus é amor», por isso o cristão, que «nasceu de Deus» e «conhece a Deus», não pode deixar de amar; sendo assim, «quem não ama não conhece a Deus», isto é, não participa da sua vida e do seu ser, não entra na sua intimidade. Notar que em S. João «conhecer» não é «ter notícia ou informação», mas é «ter experiência pessoal, penetrar na intimidade de outro»; é assim que «conhecer a Deus» implica agir na mesma linha do amor de Deus.

9-10 A afirmação de que Deus é amor não é uma afirmação teórica, ou uma definição metafísica de Deus; é uma afirmação sapiencial, é o resultado da contemplação estonteante da sua obra salvadora, a saber, do modo como «se manifestou o amor de Deus para connosco», que chegou ao ponto de que «enviou ao mundo o seu Filho Unigénito» (v. 9), como «vítima de expiação pelos nossos pecados» (v. 10). Este amor de Deus – a entrega do Criador à sua criatura para se dar dando a vida – é tão fascinante e inimaginável, que é expresso no Novo Testamento com um substantivo novo, não usado na literatura grega profana: agápê. Não estamos perante qualquer espécie de amor, mas em face da mais absoluta gratuidade, pois a referência é o próprio amor que Deus nos manifesta: «não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou» (v. 10).

 

Ou

1 São João 4, 11-16

Caríssimos: 11Se Deus nos amou tanto, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12A Deus ninguém jamais O viu. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós o seu amor é perfeito. 13Nisto conhecemos que estamos n’Ele e Ele em nós: porque nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Se alguém confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16Nós conhecemos o amor de Deus por nós e acreditamos no seu amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.

 

A espiral joanina à volta do amor, a que nos referíamos no comentário aos versículos anteriores (vv. 7-10), progride aprofundando e esclarecendo o fundamento do amor mútuo: «se Deus nos amou assim, também nós nos devemos (o grego, ofeîlomen,  indica obrigação estrita) amar uns aos outros» (v. 11). Com efeito, são os outros que visibilizam (cf. Mt 25, 40) a Deus invisível, «que nunca ninguém viu», como filhos do mesmo Deus. Também se pode ver neste pormenor do v. 12 uma alusão aos gnósticos que se ufanavam de uma intuição directa de Deus, a epopteia das religiões mistéricas. Por outro lado, temos aqui a mais séria justificação da maravilhosa realidade da vida cristã, que ao longo de todos os séculos se tem manifestado na doação e no serviço aos outros, nomeadamente àqueles que, por serem carenciados, nada têm com que retribuir, sendo o apostolado a forma mais sublime do amor cristão.

Também o voltar ao outro tema fulcral da Carta – permanecer – atinge aqui (vv. 13-16) o seu clímax (ver supra o comentário feito a 1 Jo 3, 24, na 2ª leitura do 5º Domingo de Páscoa): «Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chega à perfeição em nós. Damos conta de que permanecemos n’Ele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito» (vv. 12-13). O autor, ao mover-se na densidade de expressões de fé tão elevadas, com uma referência explícita ao mistério da Trindade e da Incarnação (vv. 13-15), apela, de uma maneira tipicamente joanina, para o testemunho alicerçado, não apenas numa experiência interior, de comunhão vital e mística (cf. v. 13), mas na própria experiência sensorial – hêmeîs tetheámetha (v. 14), «nós vimos (contemplámos)» –, não se tratando de uma mera experiência individual isolada, mas de um colectivo (pode pensar-se na dita comunidade do Discípulo amado em ligação com as primeiras testemunhas directas).

 

Aclamação ao Evangelho          Jo 14, 23

 

Monição: “assim como o Pai Me amou, também eu vos amei”. Permaneçamos neste amor. Partilhemos dando a vida. Se não tiver amor nada sou.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação- 2, F da Silva, NRMS 50-51

 

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra.

Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.

 

 

Evangelho

 

São João 15, 9-17

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. 11Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. 12É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. 13Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. 14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. 16Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

 

Temos hoje a continuação do chamado discurso do adeus, centrada no tema central do amor e no permanecer, correspondentes à 2ª leitura (1 Jo 4, 11-16).

9-17 Estes versículos constituem um dos cumes mais elevados de todo o Evangelho e uma das chamadas «sínteses do cristianismo»: o anterior apelo permanecei em Mim (v. 3) concretiza-se agora em permanecei no meu amor (vv. 9.10). A referência básica é o amor do Pai, «como o Pai Me amou»: é assim que Jesus nos ama (v. 9); trata-se, pois, de um amor de eleição de Jesus (v. 16), que exige uma correspondência de fidelidade aos seus mandamentos (vv. 10.12.14.17; 13, 34; 14, 15.21). Este amor divino constitui os discípulos numa relação totalmente nova com Jesus: a da amizade (vv. 13-15; 13, 34; 1 Jo 3, 11), a tal ponto que fica esbatida a infinita distância entre Deus e o homem, entre o Senhor e os «servos», facultando liberdade interior. Esta nova situação conduz à alegria, a uma «alegria completa» (v. 11; 16, 24; 17, 13; 1 Jo 1, 4), (v. 15), e à fecundidade, dando um fruto sobrenatural, «que permaneça» (v. 16). Por outro lado, este amor é exigência do amor mútuo, fornecendo-lhe a sua mais sólida base e a sua mais elevada medida: como Eu vos amei (v. 12), até dar a vida (v. 13). E não se pode permanecer no amor de Jesus se não se guardarem os seus mandamentos (cf. v. 10).

15-16 «Já vos não chamo servos». Bela forma de mostrar as especiais relações de amizade que Jesus tem com os seus; um servo enquanto tal, é indigno da amizade do seu senhor e limita-se a receber ordens, mas os discípulos recebem de Jesus as mais íntimas confidências: «porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai». É evidente que se trata de uma amizade que não se baseia em igualdade de natureza; é fruto duma eleição gratuita: «fui Eu que vos escolhi e destinei…». Escolhidos para dar frutos que permaneçam, isto é, frutos espirituais, frutos de vida eterna – de santidade, de apostolado –, só darão esses frutos na dependência e união com Cristo (cf. v. 5); daí o apelo à oração, a qual dá garantia de eficácia: «tudo quanto pedirdes… Ele vo-lo concederá». A oração sempre ouvida pelo Pai é a que é feita «em nome de Jesus», isto é, em plena sintonia com Jesus, numa perfeita união de vontades; esta forma de se dirigir ao Pai tornou-se a pauta para a oração litúrgica: «por Cristo, Nosso Senhor».

 

Ou:

São João 17, 11b-19

Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao Céu e orou deste modo: 11b«Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que Me deste, para que sejam um, como Nós. 12Quando Eu estava com eles, guardava-os em teu nome, o nome que Me deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição; e assim se cumpriu a Escritura. 13Mas agora vou para Ti; e digo isto no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da minha alegria. 14Dei-lhes a tua palavra e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. 15Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. 16Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. 17Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 18Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade».

 

O capítulo 17 de S. João veio a ser chamado «a oração sacerdotal de Jesus», a partir das observações de S. Cirilo de Alexandria (PG 74, 505-508); constitui «a síntese mais completa e elevada da teologia do evangelista» (Segalla). Lê-se no 7º Domingo de Páscoa, distribuída pelos anos A, B e C, mas sempre introduzida pelo v. 1: «Jesus ergueu os olhos ao céu…», uma forma de orar muito ao jeito de Jesus (cf. Jo 11, 41; Mt 14, 19; Mc 6, 41; Lc 9, 16; Mc 7, 34), mas mal documentada no judaísmo. Com este gesto, «Jesus dava uma expressão corporal à dimensão fundamental do ser humano, a saber, a sua relação com a fonte que o ultrapassa, que está acima dele e o envolve…» (D. Mollat). Nos países, como o nosso, onde a Ascensão é celebrada no 7º Domingo, Jo 17 pode ler-se, como alternativa, no 6º Domingo de Páscoa. O trecho lido no ano B corresponde àquela parte da oração em que Jesus intercede pelos seus discípulos.

11b «Pai santo». A circunstância de não estarmos perante uma forma usual de Jesus se dirigir ao Pai, leva a pensar numa influência litúrgica (cf. Didakhê 10, 2) na redacção desta belíssima oração, a oração mais longa que aparece nos lábios de Jesus. «O nome que Tu Me deste» pode entender-se como a própria essência divina, comum ao Pai e ao Filho, que é Jesus; e o pedido «um só, como Nós», sugere já uma primitiva reflexão trinitária. Com efeito, a unidade dos discípulos tem como primeira referência (analogatum princeps) a unidade do ser divino, na distinção de pessoas, visando uma unidade que transcende a meramente moral e sociológica; por outro lado, podemos ver, no semitismo «dar o nome», um sentido aberto, coadunando-se bem com a doutrina teológica da processão, ou geração eterna do Filho pelo Pai. Esta prece pela unidade dos primeiros discípulos, vai ser feita, mais adiante (vv. 20-23), de forma mais desenvolvida, pela unidade de todos os que depois hão-de vir a crer em Jesus.

12-15 Jesus, que, como Bom Pastor, guardou os discípulos, agora, consciente da sua partida, intercede «para que eles tenham sem si a plenitude da alegria», própria de Jesus, uma alegria que deriva da sua união com o Pai. Por outro lado, roga «que os guarde do Maligno», pois eles terão de ficar no mundo, que está «todo sob o poder do Maligno» (cf. 1 Jo 5, 19). «O mundo» é aqui tomado no seu aspecto negativo: são os homens que recusam a graça e, na sua auto-suficiência, se fecham a Deus, a ponto de odiarem a Cristo e os seus seguidores (v. 14). Os discípulos, vivendo no mundo, estão sujeitos às suas seduções, e Jesus não suplica que os tire do mundo, onde se desenrola a sua vida e está o seu campo de acção, mas que os guarde de serem mundanizados, deixando-se influenciar pelo «dominador deste mundo» (cf. Jo 12, 31).

17-19 «Consagra-os na verdade», à letra, santifica-os; santificar é retirar da esfera do profano para destinar a uma missão divina (cf. Hebr 2, 11). Estas palavras não são apenas o centro da oração, mas um dos pontos altos do Evangelho: a consagração e missão dos discípulos. Este envio ao mundo encerra um mistério que se exprime através dum paradoxo: escolhidos mas não retirados do meio do mundo. É que não se trata de um simples envio pragmático, mas insere-se no mistério do envio de Jesus ao mundo (v. 18; cf. 10, 36; 15, 27; 20, 21); os discípulos não se limitam a continuar a sua missão; participam da sua própria vida (15, 1-16), uma vida que não pertence a este mundo e a que se tem acesso apenas pela palavra (v. 17) da revelação, a «verdade». Mas, para além desta misteriosa realidade bipolar – a vocação-missão –, o texto deixa ver um outro aspecto: «Eu consagro-Me por eles» tem uma conotação sacrificial, como se dissesse «ofereço-Me em sacrifício por (em vez de ou a favor de) eles», pois corresponde à linguagem cultual do A. T. (cf. Ex 13, 2.12.15; 28, 41; Dt 15, 19-20) e tem paralelos no N. T. (cf. 1 Cor 11, 24; 15, 3). É por isso que a oração sacerdotal adquire a dimensão de ofertório do sacrifício do Senhor, que vai ser consumado no Calvário e também a de uma declaração de intenção: Jesus entrega a sua vida por todos (cf. 11, 51-52; 15, 13), em sacrifício, a fim de que os seus, uma vez purificados, venham a ser pertença exclusiva de Deus (v. 19: «consagrados», ou santificados). A alusão a Cristo como sumo sacerdote da nova Aliança – sacerdote oferente e vítima oferecida (cf. Hebr 9, 11-14; 10, 10) – pode ver-se na ressonância vétero-testamentária de Ex 28, 36-38. Há quem veja também alusões à Eucaristia, em especial nos vv. 21-24 (cf. Jo 15, 4-7; 6, 56; 1 Cor 10, 17).

 

Sugestões para a homilia

 

Mistério Pascal: Fonte de amor.

Ver as maravilhas de Deus.

Amai. Dai fruto.

 

 

Homilia

 

Mistério Pascal: Fonte de amor.

O mistério pascal de Jesus Cristo é fonte do amor de Deus. Toda a história da salvação se centraliza nesta doação de Jesus Cristo. A obra da criação faz transparecer a bondade e a ternura de Deus num amor único e rico. Mas na obra da redenção, Deus, exprime toda a sua misericórdia e ternura no Seu amado Filho. Ele em linguagem humana, escrita em caracteres bem visíveis e audíveis, assinala definitivamente a salvação de Deus em cada homem e em cada mulher.

No seu mistério pascal fazemos a experiência admirável da profundidade, largura e altura do amor de Deus. Nesse mistério admirável, o mistério de Deus, toda a Trindade, se torna tão acessível e acolhedora. Nesse mistério fica revelada a dignidade que Deus quis que o ser humano tivesse.

Mistério que traduz a beleza da inteligência na adesão incondicional ao mistério da beleza e da verdade, que é Deus. E daí uma vontade de profunda comunhão e fidelidade…que exige a morte de cruz. Um Deus que ama, anunciado e doado na paixão, morte e ressurreição de Cristo.

Somos necessariamente convidados a “tocarmos” esse amor que por nós foi crucificado. Assim estaremos em condições de amar, de ser igreja, de olhar o mundo. O amor é invisível e por isso necessita de sinais, de palavras, de gestos, de obras, de frutos. Percebemos que o amor não são coisas mas Alguém que nos toca e nos envolve na razão mais profunda do nosso ser, e nos leva ao mesmo dinamismo de entrega e doação.

Ver as maravilhas de Deus.

O texto da Palavra de Deus faz referência à primeira comunidade que soube ver – e diz que viu – as maravilhas de Deus. Maravilhoso sabermos que viram as maravilhas de Deus. É que este ver implica descobrir a presença de Deus. Ver na novidade, na surpresa, no dinamismo de vida nova. Viram e ficarão felizes por Deus se manifestar em liberdade e em amor incondicional.

Quem ama vê, e como diz são Boaventura, vê mais longe. É esse amor que permite ver o dinamismo das maravilhas de Deus. Que permite à comunidade dos discípulos, a Igreja, abrir-se às surpresas de dignidade, de vida que o Espírito Santo faz surgir nela e em todo o mundo. Faz descobrir que é possível renascer. Que a porta de Deus está sempre aberta e faz gerar verdadeiras e autênticas comunidades. O amor faz nascer, crescer e amadurecer as comunidades, a Igreja, Comunidade de comunidades.

Ver com os “olhos de Deus” a sintonia e abertura ao Evangelho, a docilidade dos que parecendo longe se ajoelham com verdade e liberdade. Permite romper preconceitos, barreiras e fronteiras. Permite descobrir a possibilidade de nascer e renascer. Permite uma igreja jovem, paciente, amiga, amorosa, livre, audaz. Permite também a sua saudável caminhada numa constante e permanente renovação e irrupção de vida que leva a trilhar novas possibilidades e novas perspectivas.

 O cristão deve compreender que importa anunciar o projecto de Jesus Cristo aos homens e mulheres de hoje. E sobretudo amar na centralidade do mistério pascal de Jesus Cristo em que Deus e o ser humano estão no centro.

Amai. Dai fruto.

Temos de nos deixar amar. Esse amor único e belo que se derrama em nós. O Amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Convidados a permanecer nesse amor. Permanecer em confiança na obra árdua do despojamento do nosso eu, dos nossos projectos e das nossas perspectivas. Robustecer esse amor na fortaleza de dizer não ao pecado e permanecer na comunhão genuína com Deus e com os irmãos. Deixar-se amar para amar.

Depois o movimento consequente: amar. Somos chamados a amar. Amar torna-nos livres, torna-nos próximos, torna-nos irmãos, torna-nos testemunhas da presença e beleza de Deus.

Ser amados e amar para dar fruto e fruto abundante na fidelidade ao projecto missionário de sair, de ir, de se encontrar, de ver os rostos da alegria e do sofrimento, de partilhar em mil sabores a realidade do Reino que é proposta de Deus. Amor ao próximo é caminho para encontrar a Deus. O amor e o serviço ao próximo ajudam-nos a perceber o que Deus faz por cada um.

 

Fala o Santo Padre

 

«O gesto realizado por Pedro torna-se imagem da Igreja aberta à humanidade inteira.»

É com grande alegria que posso partir convosco o pão da Palavra de Deus e da Eucaristia. Transmito a minha cordial saudação a todos vós e agradeço-vos a calorosa hospitalidade! [...]

A primeira Leitura apresentou-nos um momento importante no qual se manifesta precisamente a universalidade da Mensagem cristã e da Igreja: na casa de Cornélio, são Pedro baptizou os primeiros pagãos. No Antigo Testamento, Deus desejava que a bênção do povo judeu não permanecesse exclusiva, mas fosse estendida a todas as nações. A partir do chamamento de Abraão, Ele tinha dito: «Todas as famílias da Terra serão em ti abençoadas» (Gn 12, 3). E assim Pedro, inspirado do Alto, compreende que «Deus não faz acepção de pessoas, mas em qualquer povo, quem O teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável» (Act 10, 34-35). O gesto realizado por Pedro torna-se imagem da Igreja aberta à humanidade inteira. Seguindo a grande tradição da vossa Igreja e das vossas Comunidades, sede testemunhas autênticas do amor de Deus por todos!

Mas como podemos nós, com a nossa debilidade, transmitir este amor? Na segunda Leitura, são João disse-nos com vigor que a libertação do pecado e das suas consequências não é iniciativa nossa, mas de Deus. Não fomos nós que O amamos, mas foi Ele que nos amou e assumiu sobre Si o nosso pecado, lavando-o com o sangue de Cristo. Deus amou-nos primeiro e quer que entremos na sua comunhão de amor, para colaborar para a sua obra redentora.

No trecho do Evangelho ressoou o convite do Senhor: «Destinei-vos a irdes e a dardes fruto, e para que o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). Trata-se de uma palavra dirigida de modo específico aos Apóstolos mas, em sentido lato, diz respeito a todos os discípulos de Jesus. A Igreja inteira, todos nós somos enviados pelo mundo para anunciar o Evangelho e a salvação. Mas a iniciativa é sempre de Deus, que chama para os múltiplos ministérios, a fim de que cada um desempenhe a própria função em vista do bem comum. Chamados ao sacerdócio ministerial, à vida consagrada, à vida conjugal, ao compromisso no mundo, a todos é pedido que respondam com generosidade ao Senhor, sustentados pela sua Palavra que nos tranquiliza: «Não fostes vós que me escolhestes, fui Eu que vos escolhi» (Ibidem). [...]

Papa Bento XVI, Homilia em Arezzo, 13 de Maio de 2012

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos:

colocando a nossa confiança

em Jesus Ressuscitado,

que nos interpela ao amor,

elevemos a nossa oração

rezando (ou: cantando), confiadamente:

 

R. Ouvi-nos, Senhor.

Ou. Abençoai, Senhor, a vossa Igreja.

Ou. Ouvi. Senhor, a nossa súplica.

 

1-Pela Igreja do Norte e do Sul

que confessa a ressurreição de Jesus Cristo

e pelos cristãos que perderam o entusiasmo,

oremos ao Senhor.

 

2- Pelo papa Francisco e por todos os Bispos,

para que não deixem de louvar o dinamismo do

Espírito Santo na fecundidade da Igreja,

e suas vidas sejam oferta de amor sincero de boa nova,

Oremos ao Senhor

 

3- Por todos os que sofrem as consequências dos conflitos,

guerras e situações de violência, para que não desfaleçam e

mantenham a  vontade de continuar a lutar

pela dignidade, pela vida e pela paz,

oremos ao Senhor.

 

4- Pelo Povo da primeira Aliança,

na sua abertura ao Messias, a Cristo;

pelos pagãos que se abrem ao Evangelho,

pelos adultos que se preparam para o baptismo,

oremos ao Senhor.

 

5- Por todos nós aqui reunidos no Senhor,

pelos nossos doentes e emigrantes,

pelas crianças que se preparam para a primeira comunhão,

pelos jovens que se preparam para o casamento,

por todos os casais e por todas as famílias,

oremos ao Senhor.

 

 

Concedei, Senhor, à vossa Igreja

a graça de saber anunciar, com fidelidade,

a Boa Nova  da alegria, do amor e da paz, que o vosso Filho Jesus Cristo nos propõe. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Vós sereis meus amigos, M. Faria, NRMS 29

 

Oração sobre as oblatas: Subam à vossa presença, Senhor, as nossas orações e as nossas ofertas, de modo que, purificados pela vossa graça, possamos participar dignamente nos sacramentos da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio pascal: p. 469 [602-714] ou 470-473

 

Santo: F. dos Santos, NTC 201

 

Monição da Comunhão

 

Comungar o Corpo e o Sangue de Cristo é proposta para permanecer em comunhão com Deus. E proposta a comungar o Corpo de Cristo, que é a Sua Igreja, na exigência de amar sem barreiras, fronteiras e preconceitos.

 

Cântico da Comunhão: Não fostes vós que Me escolhestes, Az. Oliveira, NRMS 59

cf. Jo 14, 15-16

Antífona da comunhão: Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando, diz o Senhor. Eu pedirei ao Pai e Ele vos dará o Espírito Santo, que permanecerá convosco para sempre. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Deus é Amor, M. Luís, NCT 380

 

Oração depois da comunhão: Senhor Deus todo-poderoso, que em Cristo ressuscitado nos renovais para a vida eterna, multiplicai em nós os frutos do sacramento pascal e infundi em nós a força do alimento que nos salva. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Que a celebração deste domingo faça de todos nós cristãos alegres e dinâmicos para amar e servir a todos.

Que sintamos a vida dos outros como espaço de beleza, de dignidade, comunhão e de serviço.

Que sintamos os apelos do Santo padre a sair, a ir ao encontro. Que não tenhamos medo das periferias e da novidade irreprimível do dinamismo da boa Nova.

 

Cântico final: Deus é Pai, Deus é Amor, F. da Silva, NRMS 90-91

 

 

Homilias Feriais

 

6ª SEMANA

 

2ª Feira, 11-V: A actuação do Espírito Santo em cada um de nós.

Act 16, 11-15 / Jo 15, 26-16, 4

Quando vier o Defensor, que eu hei-de enviar lá do alto, o Espírito de verdade.

Jesus promete enviar-nos o Espírito Santo, o 'Paráclito', que se traduz por Consolador. Ele vem ajudar-nos nos momentos difíceis, grandes ou pequenos; «Disse-vos estas coisas para não sucumbirdes» (Ev.). Recebemo-lo no momento do Baptismo.

Assim aconteceu também com Lídia e seus familiares (Leit.). Pedimos ao Espírito Santo que ilumine a mulher para que ela possa dar à sociedade o seu contributo de mãe e esposa, com as suas características próprias. Nossa Senhora, depois de receber o Espírito Santo, ficou preparada para ser a Mãe de Deus e Mãe nossa.

 

3ª Feira, 12-V:As famílias, pequenas ilhas de vida cristã.

Act 16, 22-34 / Jo 16, 5-11

O carcereiro logo recebeu o baptismo, juntamente com todos os seus. E encheu-se de alegria toda a família.

O carcereiro, depois de baptizado, pediu a S. Paulo que toda a sua família fosse salva (Leit.). Estas famílias passaram a ser pequenas ilhas de vida cristã num mundo descrente. E assim hão-de continuar a ser no nosso tempo.

Actualmente assistimos a um ataque muito forte contra esta instituição. É importante que se continue a proclamar a verdade sobre a família, enquanto comunhão de vida e amor, aberta à geração dos filhos e enquanto 'igreja doméstica' digna. Invoquemos mais insistentemente a Sagrada Família para que nos ajude nesta tarefa.

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Armando Rodrigues Dias

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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