TEMAS LITÚRGICOS

VIVER A EUCARISTIA: A «COMUNHÃO DE DESEJO»

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

No número anterior recordámos o carácter sacrificial da Eucaristia e a conveniência de tomarmos consciência de que, mediante a celebração do Santo Sacrifício do Altar, somos transportados ao Calvário e participamos do momento central da nossa História: o mistério Pascal da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Sugeríamos que nessa visão será mais fácil participar na Eucaristia mesmo quando, em consciência, nos deparamos com algum impedimento para receber o Senhor Sacramentado.

Continuando a viver o mesmo contexto eclesial, este período de amadurecimento entre os dois sínodos sobre a família e tendo entre mãos o tema candente do acolhimento e inserção na celebração eucarística dos irmãos divorciados e que casaram civilmente, gostaríamos de reflectir um pouco mais sobre como viver a Santa Missa e de realizar uma «comunhão de desejo» para quem se encontra nessas circunstâncias.

 

Há uns anos, o Mestre de Celebrações Litúrgicas Pontifícias, Mons. Guido Marini, contava numa conferência[1] que o deixava particularmente sensibilizado a explicação que os guias mais conhecedores da Basílica de S. Pedro, em Roma, davam aos visitantes ao contemplar a obra de arte de Miguel Ângelo, a Pietá. Como se sabe, a obra do grande artista está colocada onde actualmente os concelebrantes se paramentam para a celebração eucarística sempre que está presente o Santo Padre. Os guias fazem ressaltar que as mãos da Virgem estão abertas como para entregar o corpo sacrificado de Jesus aos que contemplam a cena. A Pietá foi esculpida por Miguel Ângelo como retábulo e, por isso, destinada a servir de fundo de altar na celebração eucarística. Desse modo, o celebrante e toda a assembleia podiam observar o gesto da Santíssima Virgem, no acto de doar o Salvador à sua Igreja durante a celebração. O autor da conferência terminava a narração com esta exclamação: «Que belo é o convite deste pormenor artístico! Na celebração da Missa o próprio Senhor, ressuscitado da morte, com a sua Palavra, com o seu Corpo e com o seu Sangue entrega-se a nós para que possamos entrar no mistério da sua vida e, portanto, ser salvos».

Há aqui um convite claro a receber o Filho de Maria, sendo a própria Mãe a entregá-lo e a sugerir que o recebamos. Convite que não faz senão recordar-nos as próprias palavras de Jesus na última Ceia: «Tomai todos e comei…»[2], «Tomai todos e bebei…»…[3] E, no entanto, como vimos no artigo anterior, nem sempre posso fazê-lo.[4] Como resolver esta «tensão»?

Efectivamente, o convite de Jesus a comungar o seu Corpo e o seu Sangue é uma necessidade para nós. Somos pecadores, fomos redimidos, é certo, mas precisamos de deixar que o Senhor realize em nós a obra da santificação. E com a comunhão afastamo-nos do pecado. Ela não só nos purifica dos pecados veniais cometidos, mas preserva-nos dos pecados futuros.[5] A Eucaristia é o Pão dos caminhantes, o alimento que permite que caminhemos até ao Céu, como a Igreja vê naquela passagem profética do profeta Elias, descrita no Livro dos Reis[6]. O profeta, que tinha desesperado e desejado a morte, necessitou de se alimentar mais do que uma vez com aquele pão. Comeu e tornou a dormir. Porém, fortalecido com aquele alimento conseguiu caminhar durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus Horeb. «Levanta-te e come, pois ainda tens um longo caminho a percorrer».[7] Com esta passagem descreve-se a vida humana, cheia de sofrimentos e canseiras e a necessidade de nos alimentarmos da Eucaristia, não uma vez apenas, várias, muitas, recorrentemente, pois temos «um longo caminho a percorrer». Temos de chegar ao monte de Deus e, para lá chegar, há um deserto pelo meio e quarenta dias e quarenta noites, isto é, uma longa vida. Como fazê-lo sem esse Pão, voltamos a perguntar?

 

É preciso arranjar outras formas de estar no banquete sacrificial, outras formas de receber Jesus e de o acompanhar, outras formas de se abrir à graça da Redenção. Assim o testemunhava um casal que vive nas circunstâncias atrás referidas. Alguém os tinha ajudado a aproximarem-se da Eucaristia e a fazê-lo semanalmente, a escutarem a Palavra de Jesus que lhes mostra o imenso amor do Pai, a colocarem-se na liturgia eucarística no Calvário, debaixo da Cruz do Senhor e experienciarem até que extremo chegou o amor de Cristo por cada um de nós. Tal ajuda levou-os a não se sentirem excluídos nem a excluírem-se pelo facto de não poderem comungar. De facto, comentavam num e-mail:

«"Mostra-nos o Pai e isso nos basta"[8], como já lhe transmiti, assenta como uma luva, vai-nos satisfazendo a sede e a fome... Não nos afastamos, estamos mais perto cada fim-de-semana que passa. Fomos obrigados a descobrir outras formas de estar no "banquete"... Se há dias que custa mais (até uma lágrima disfarçada), há outros em que a lágrima jorra, mas por alegria, por ver os nossos irmãos a desfrutarem de tão digníssimo acto. Excluídos nunca... estamos lá!!!»

Outro casal, que se encontra nas mesmas circunstâncias, falava-me com enorme serenidade dessa situação, confidenciavam a dor que isso lhes tinha implicado ao início, no entanto, com a graça de Deus, tinham feito a enorme descoberta da Liturgia da Palavra. Alimentavam-se da mesa da Palavra como nunca o tinham feito até então e depararam-se com os enormes tesouros da Sagrada Escritura e da força que esta adquire quando lida na liturgia, na assembleia eclesial. A Missa tornou-se para eles uma necessidade. Embora não pudessem comungar, sabiam que estavam na presença de Jesus e que o Senhor os abençoava e, mais importante ainda, lhes falava e escutava, e conduzia pelas sendas estreitas e arriscadas das suas vidas. Sentiam a presença do «Bom pastor»[9] e podiam dizer com o salmo «ainda que tenha de andar por vales tenebrosos não temerei nenhum mal, porque vós estais comigo, o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança»[10].

Ainda sobre a forma de viver a Santa Missa, mesmo quando não se pode comungar, haveria que pensar na comunhão espiritual. No entanto, no recente Sínodo dos Bispos a proposta de comunhão espiritual para as pessoas divorciadas que voltaram a casar gerou polémica. O parágrafo 53 foi um dos três parágrafos que não obtiveram a aprovação dos dois terços e dizia o seguinte:

«Alguns Padres defenderam que as pessoas divorciadas e recasadas ou conviventes possam recorrer frutuosamente à comunhão espiritual. Outros Padres perguntaram porque não podem então aceder à sacramental. Pede-se, portanto, um aprofundamento da temática capaz de fazer emergir a peculiaridade das duas formas e a sua relação com a teologia do matrimónio[11]

Qual o motivo para esta polémica? Se tomarmos a definição de S. Tomás de Aquino de «comunhão espiritual» vemos que os seus efeitos podem ser semelhantes aos da comunhão sacramental.[12] Uma comunhão espiritual sincera produziria os mesmos efeitos da comunhão sacramental. Percebe-se o constrangimento de alguns padres sinodais, pois, se o efeito é mesmo, porque razão não dar a comunhão sacramental?

A comunhão espiritual tal como Tomás de Aquino a define seria uma comunhão para quem não pode fisicamente receber o Pão Eucarístico ou necessita da absolvição, mas em que não haveria nada na sua vida que estivesse em contradição com a fé.[13] Isto é, bastaria uma confissão para poder aproximar-se em graça de Deus da comunhão eucarística. Assim, o acto de contrição perfeito[14] e a comunhão espiritual poderiam dar os mesmos frutos que a comunhão sacramental. Não é este o caso dos casados que voltaram a constituir família e estão impedidos de reconstituírem a família original. Aqui há um estado de vida em contradição com a indissolubilidade do matrimónio que seria necessário resolver antes de se poder receber os sacramentos.[15]

Compreende-se então, que os padres sinodais desejem um esclarecimento sobre o que se entende por comunhão espiritual. E percebe-se que o professor Pablo Blanco, num recente artigo da revista Palabra, proponha uma nova terminologia: «comunhão de desejo». Trata-se de diferenciar essa comunhão da comunhão espiritual tal como Tomás de Aquino a apresenta.

A meu ver um exemplo de comunhão espiritual que serve simultaneamente para comunhão de desejo é uma antiga fórmula divulgada amplamente por S. Josemaria, pois aprendeu-a de pequeno, quando se preparava para fazer a Primeira Comunhão:

 «Eu quisera Senhor receber-Vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu a Vossa santíssima Mãe, com o espírito e o fervor dos santos».

 A forma verbal expressa o desejo e a impossibilidade presente, seja pelo motivo que for (que na realidade se aplica a todos, uma vez que a comparação é feita com a Mãe do Senhor e com os Santos). E, nesse desejo, abre-se à misericórdia de Deus, à esperança. Penso que era a este tipo de «comunhão espiritual» que os padres sinodais se referiam quando a propunham como «consolo» a quem não pode comungar sacramentalmente. Uma comunhão de desejo, que se abre a uma possibilidade que poderá tardar e não se sabe quando e se virá a tornar realidade. Uma possibilidade que tem como pano de fundo a nossa incapacidade e a nossa pequenez. Aceita-se a realidade que somos (a herança do pecado original, as nossas acções e decisões pessoais pelas quais somos claramente responsáveis, e também os pecados dos outros que influíram sobre nós) e, no entanto, deseja-se que tivesse sido diferente, que tivesse sido como foi com a Mãe de Jesus, que o recebeu Imaculada, ou pelo menos, como os Santos (que a Igreja nos coloca como modelos).

No fundo, esta é a atitude que sempre devemos ter perante a acção sagrada. Mesmo no caso de nos podermos aproximar da comunhão e obedecer ao mandato do Senhor de tomar do seu Corpo e do seu Sangue, fazemo-lo como pecadores e como homens e mulheres que são conscientes de não serem dignos.[16] E fazem-no desejando que esse alimento os transforme no próprio Cristo.[17] A comunhão não é, portanto, uma medalha ou um prémio a que tenho direito, é uma necessidade, é um remédio. Porém, à semelhança da saúde corporal, há circunstâncias que não permitem que tome um determinado medicamento, porque o corpo não o pode suportar.[18] Isso não invalida que haja outros remédios e que o Médico divino não possa actuar.[19]

Todos nos temos de abrir à graça. É Deus quem actua na Liturgia e são suas as regras. Foi Ele que nos mandou celebrar a Eucaristia, fazer «isso» em memória d’Ele. Aquele que sabe que necessitamos desesperadamente desse «Pão» irá estar indiferente aos que d’Ele precisam e deixar de se aproximar e de os guiar em direcção à cura total?

 

 

 

 

 

 



[1] Guido Marini, Entrar en el misterio celebrado mediante los ritos y oraciones. Conferencia en el Congreso Diocesano de Soriano Calabro (Italia), 7 de septiembre de 2010

[2] Cfr. Mt 26, 26; Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24

[3] Cfr. Mc 14, 24; Lc 22, 20; 1 Cor 11, 25

[4] Cfr. 1 Cor 11, 27-29. No que diz respeito ao caso citado veja-se a exortação de João Paulo II: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio.” JOÃO PAULO II, Familiaris consortio, n. 84,4.

[5] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Nº 1393 tendo em conta o que antes se disse em  Nº 1385.

[6] Cfr. 1 Re 19, 4-8.

[7] Ibid.

[8] Jo 14, 8

[9] Jo 10,11

[10] Salmo 23, 4

[11] "RELATIO SYNODI" da III Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos, "Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização", (5-19 de outubro de 2014),18 de outubro de 2014, n. 53.

[12] «Para Tomás de Aquino a comunhão espiritual consiste em fazer um acto de fé sobre a presença de Jesus Cristo Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, depois um acto de amor e contrição por tê-lo ofendido. Depois, a alma convida Jesus Cristo a vir a ela e a que este a faça sua completamente. Por fim, cada um dá-lhe graças como se o tivesse recebido sacramentalmente. A comunhão espiritual consiste assim num “desejo ardente de receber Nosso Senhor Jesus Cristo sacramentalmente e em amoroso abraço, como se o tivesse já recebido” (STh IIIa, q 80). Isto é, seria equivalente, enquanto aos frutos, a receber directamente o Senhor pela manducatio oralis. O sacerdote católico de origem anglicana Ronald Knox escreve: “Sabemos que uma comunhão espiritual feita sinceramente pode produzir os mesmos efeitos que a comunhão sacramental.”» Pablo Blanco, La comunión de deseo. Una propuesta pastoral, Palabra, Fevereiro de 2015, p. 64.

[13] Cfr. JOÃO PAULO II, Familiaris consortio, n. 84

[14] Que inclui o propósito de se confessar na primeira oportunidade.

[15] Cfr. Ibid

[16] Cfr. Mt 8, 8

[17] “Nesta (na Eucaristia), tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo”, Papa Francisco, Mensagem da Quaresma 2015.

[18] Cfr. 1 Cor 11, 27-29; CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA Nº 1385.

[19] “Juntamente com o Sínodo exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto baptizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança.” JOÃO PAULO II, Familiaris consortio, n. 84


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