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AS  VOCAÇÕES

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Um dos pruridos do chamado «pensamento moderno», que pretende apagar das mentes a hipótese sequer da existência de Deus, ou, pelo menos, tentar viver como se Ele não existisse, é a negação veemente das «causas finais». Porque, se se reconhece que todas as coisas e todas as mudanças têm um fim próprio, é inevitável referi-lo a uma Inteligência «anterior» e superior à sua existência e ao seu comportamento, e daí a um poder e a uma «intencionalidade» supremos, ou seja, a Deus. Mas, como é evidente que até os mais brutos seres obedecem a normas racionais, em vez de «finalidade», usa-se um eufemismo: tudo procede «segundo regras». E procura-se afastar a todo o custo a pergunta: - «E Quem lhas impôs?»

Contudo, as ciências não conseguem evitar o «para quê?» Para que serve a boca? Para que servem os olhos? Para que serve o fígado? Para que servem os poros, os glóbulos, as enzimas?... Para que serve a água, a terra, o ar?... Se é tudo coincidência e acaso; se tudo, por si mesmo, não tem nenhuma finalidade, se não serve «para nada», porque é que tudo serve ao homem? E, se o homem é um produto fortuito do tal acaso, para que serve? Que valor tem? E se é o único ser capaz de libertar-se de leis fatais, porque há-de proceder segundo normas racionais, e, nem se diga, éticas?

A negação das «causas finais» - que nos conduzem à Causa primeira, ao Alfa e Ómega, ao Ser incausado, a Deus - tem consequências terríveis e, desde logo, a falta de sentido da vida, que é, fundamentalmente, um sentido vocacional. «A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus» (GS 19; CIC, 27).

Não pedimos aos cientistas, enquanto cientistas - enquanto tratam da realidade num só dos seus aspectos -, que se arvorem em filósofos, mas sim que sejam também pessoas normais e respeitem o senso comum. Até uma criança sabe que está no mundo para alguma coisa, e responde logo à clássica pergunta dos velhotes. – «Que queres ser quando fores grande?»  Homem-aranha! Professora como a mamã! Futebolista! Astronauta!… Apercebe-se desde muito cedo que tem de representar o seu papel no teatro da vida. Ele, ou ela, é para alguma coisa. Não lhe passa pela cabeça dizer: - «Nada!» ou - «Tanto me faz..» E, se o diz, é conveniente meter-lhe o termómetro…

Cada um de nós, inclusivamente, somos uma vocação, um chamamento divino à existência, e toda a nossa vida é uma sucessão de vocações, de chamamentos, a que precisamos de responder. A nossa maior sabedoria consiste em conhecer a vontade divina a nosso respeito; e a nossa «realização», em corresponder-lhe. Só no Céu compreenderemos todo o plano de Deus sobre cada um, mas, entretanto, mais do que o que queremos ser, deve importar-nos o que Ele deseja de nós: - «Senhor, que queres que eu faça?», foi a pergunta imediata de S. Paulo após a sua conversão.

E não nos faltam «sinais»: as circunstâncias inevitáveis que temos de aceitar, os mandatos que temos de cumprir, os nossos gostos e capacidades que devemos desenvolver, os bons conselhos que nos convém ponderar, as necessidades dos outros que podemos satisfazer… E um critério geral: a caridade, a generosidade, dar o mais que pudermos. Só assim seremos felizes cá na terra: «É melhor dar que receber».

Além da boa formação doutrinal e espiritual dos jovens, o decisivo para a evangelização do mundo é fomentar neles o sentido de urgência apostólica e um coração generoso, capaz de se entregar realmente aos outros, seja qual for o caminho que Deus lhes trace.

 

 

 

 


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