A PALAVRA DO PAPA

PRIMEIRA MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI

 

 

Este é o primeiro texto que a «Celebração Litúrgica» publica do novo Papa, Bento XVI, com filial veneração. Trata-se da primeira mensagem, pronunciada em latim no fim da concelebração eucarística com os Cardeais, a  que o Santo Padre presidiu na Capela Sistina na manhã do passado dia 20 de Abril, dia seguinte à sua eleição.

Subtítulos da Redacção da CL.

 

 

Caros irmãos Cardeais,

Caríssimos Irmãos e Irmãs em Cristo,

Todos vós, homens e mulheres de boa vontade!

A morte do Papa João Paulo II

1. Graça e paz em abundância para todos vós! (cfr. 1 Pe 1, 2). No meu espírito convivem nestas horas dois sentimentos contrastantes. De um lado, um sentido de inadequação e de humana perturbação pela responsabilidade que ontem me foi confiada, como Sucessor do apóstolo Pedro nesta Sede de Roma, perante a Igreja universal. Por outro lado, sinto viva em mim uma profunda gratidão a Deus, que - como nos faz cantar a liturgia - não abandona o seu rebanho, mas o conduz através dos tempos, sob a guia daqueles que Ele mesmo elegeu como vigários do seu Filho e constituiu pastores (cfr. Prefácio dos Apóstolos I).

Caríssimos, este íntimo reconhecimento por um dom da divina misericórdia prevalece, apesar de tudo, no meu coração. E considero este facto como uma graça especial conseguida pelo meu venerado predecessor, João Paulo II. Parece-me sentir a sua mão forte a apertar a minha; parece-me ver os seus olhos sorridentes e ouvir as suas palavras, dirigidas a mim em particular, neste momento: «Não tenhas medo!»

A morte do Sumo Pontífice João Paulo II e os dias que se seguiram foram para a Igreja e para o mundo inteiro um tempo extraordinário de graça. A grande dor pela sua partida e o sentimento de vazio que deixou em todos foram atenuados pela acção de Cristo ressuscitado, que se manifestou durante tantos dias na onda de fé, amor e solidariedade espiritual, culminada nas suas exéquias solenes.

Podemos dizer que o funeral de João Paulo II foi uma experiência verdadeiramente extraordinária, na qual se percebeu, de algum modo, o poder de Deus que, através da sua Igreja, quer fazer de todos os povos uma grande família pela força unificadora da Verdade e do Amor (cfr. Lumen gentium, 1). Na hora da morte, configurado com o seu Mestre e Senhor, João Paulo II coroou o seu longo e fecundo Pontificado, confirmando na fé o povo cristão, congregando-o em volta de si e fazendo sentir mais unida toda a família humana.

Como não sentir-nos sustentados por este testemunho? Como não perceber o encorajamento que vem deste acontecimento de graça?

A eleição para o ministério petrino

2. Surpreendendo todas as minhas previsões, a divina Providência, através do voto dos venerados Padres Cardeais, chamou-me a suceder a este grande Papa. Penso, nesta hora, naquilo que aconteceu na região de Cesareia de Filipe, há dois mil anos. Parece-me ouvir as palavras de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo», e a solene afirmação do Senhor: «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja... Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus» (Mt 16, 15-19).

Tu és o Cristo! Tu és Pedro! É como se revivesse a própria cena evangélica; eu, Sucessor de Pedro, repito com estremecimento as palavras estremecidas do pescador da Galileia e ouço de novo, com íntima emoção, a promessa reconfortante do divino Mestre. Se é enorme o peso da responsabilidade que cai sobre os meus ombros, é certamente desmesurada a potência divina com a qual posso contar: «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (Mt 16, 18). Escolhendo-me como Bispo de Roma, o Senhor quis fazer de mim seu Vigário, «pedra» sobre a qual todos se possam apoiar com segurança. Peço-lhe que supra a pobreza das minhas forças, para que eu seja corajoso e fiel Pastor do seu rebanho, sempre dócil às inspirações do seu Espírito.

Preparo-me para empreender este peculiar ministério, o ministério «petrino» ao serviço da Igreja universal, com humilde abandono nas mãos da Providência de Deus. Em primeiro lugar, é a Cristo que renovo a minha total e confiante adesão: «In Te, Domine, speravi; non confundar in aeternum!».

A vós, Senhores Cardeais, com espírito agradecido pela confiança demonstrada, peço que me sustentem com a oração e com a constante, activa e sábia colaboração. Peço também a todos os Irmãos no Episcopado que estejam a meu lado com a oração e com o conselho, para que possa ser verdadeiramente o Servus servorum Dei. Como Pedro e os outros Apóstolos constituíram por desejo do Senhor um único Colégio apostólico, do mesmo modo o Sucessor de Pedro e os Bispos, sucessores dos Apóstolos, - o Concílio reafirmou-o com força (cf. Lumen gentium, 22) -, devem estar estreitamente unidos entre si. Esta comunhão colegial, embora na diversidade dos papéis e das funções do Romano Pontífice e dos Bispos, está ao serviço da Igreja e da unidade na fé, e dela depende em grande medida a eficácia da acção evangelizadora no mundo contemporâneo. Portanto, neste caminho pelo qual avançaram os meus venerados Predecessores, também eu me proponho prosseguir, unicamente preocupado em proclamar ao mundo inteiro a presença viva de Cristo.

A herança do Papa João Paulo II

3. Tenho diante de mim, de modo particular, o testemunho do Papa João Paulo II. Ele deixa uma Igreja mais corajosa, mais livre, mais jovem. Uma Igreja que, segundo o seu ensinamento e exemplo, olha com serenidade para o passado e não tem medo do futuro. Com o Grande Jubileu ela entrou no novo milénio trazendo nas mãos o Evangelho, aplicado ao mundo actual através da autorizada releitura do II Concílio do Vaticano. Precisamente o Papa João Paulo II indicou o Concílio como «bússola» com a qual orientar-se no vasto oceano do terceiro milénio (cf. Novo millennio ineunte, 57-58). Também no seu testamento espiritual, ele apontava: «Estou convencido de que ainda por muito tempo será dado às novas gerações descobrir as riquezas que este Concílio do século XX nos deixou» (17.III.2000).

Também eu, portanto, ao preparar-me para o serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, quero afirmar com força a vontade decidida de prosseguir no compromisso da actuação do Concílio Vaticano II, no trilho dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bimilenária tradição da Igreja. Terá lugar neste ano o 40.º aniversário da conclusão das sessões conciliares (8 de Dezembro de 1965). Com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam actualidade; antes, os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas instâncias da Igreja e da presente sociedade globalizada.

O Ano da Eucaristia

4. De maneira muito significativa, o meu Pontificado inicia-se quando a Igreja está a viver o Ano especial dedicado à Eucaristia. Como não ver nesta coincidência providencial um elemento que deve caracterizar o ministério para o qual fui chamado? A Eucaristia, coração da vida cristã e fonte da missão evangelizadora da Igreja, não pode deixar de constituir o centro permanente e a fonte do serviço petrino que me foi confiado.

A Eucaristia torna constantemente presente o Cristo ressuscitado, que continua a dar-se a nós, chamando-nos a participar na mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Da plena comunhão com Ele brotam todos os outros elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso de anunciar e de testemunhar o Evangelho, o ardor da caridade para com todos, especialmente os pobres e os pequenos.

Neste ano, portanto, deverá ser celebrada com particular relevo a Solenidade do Corpus Domini. Além disso, a Eucaristia estará no centro, em Agosto, da Jornada Mundial da Juventude em Colónia e, em Outubro, da Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que decorrerá sobre o tema: «A Eucaristia, fonte e cume da vida e da missão da Igreja». Peço a todos que intensifiquem nos próximos meses o amor e a devoção a Jesus Eucaristia e que exprimam de modo corajoso e claro a fé na presença real do Senhor, sobretudo mediante a solenidade e a correcção das celebrações.

Peço-o de modo especial aos Sacerdotes, nos quais penso neste momento com grande afecto. O Sacerdócio ministerial nasceu no Cenáculo, juntamente com a Eucaristia, como tantas vezes sublinhou o meu venerado Predecessor João Paulo II. «A existência sacerdotal deve ter a título especial uma 'forma eucarística'», escreveu na sua última Carta para a Quinta-feira Santa (n. 1). Para este fim contribui, acima de tudo, a devota celebração quotidiana do santo sacrifício, centro da vida e da missão de cada Sacerdote.

O ecumenismo

5. Alimentados e sustentados pela Eucaristia, os católicos não podem deixar de sentir-se estimulados a tender para aquela plena unidade que Cristo desejou ardentemente no Cenáculo. Deste supremo anelo do Mestre divino, o Sucessor de Pedro sabe que deve assumir esta tarefa de um modo muito particular. Com efeito, a ele foi-lhe confiada a missão de confirmar os irmãos (cfr. Lc 22, 32).

Portanto, plenamente consciente no início do seu ministério na Igreja de Roma que Pedro regou com o seu sangue, o seu actual Sucessor assume como compromisso primário o de trabalhar sem poupar energias na reconstituição da plena e visível unidade de todos os seguidores de Cristo. Esta é a sua vontade, este é o seu dever premente. Ele está consciente de que, para isso, não bastam as manifestações de bons sentimentos. São precisos gestos concretos que penetrem nas almas e movam as consciências, levando cada um àquela conversão interior que é o pressuposto de qualquer progresso no caminho do ecumenismo.

O diálogo teológico é necessário, a investigação das causas históricas de decisões tomadas no passado é, também, indispensável. Mas aquilo que mais urge é aquela «purificação da memória», tantas vezes evocada por João Paulo II, a única que poderá dispor os espíritos a acolher a plena verdade de Cristo. É diante d’Ele, supremo Juiz de todo o ser vivo, que cada um de nós deve colocar-se, com a consciência de um dia ter de prestar-lhe contas de tudo aquilo que fez ou não pelo grande bem da plena e visível unidade de todos os seus discípulos.

O actual Sucessor de Pedro deixa-se interpelar em primeira pessoa por esta questão e está disposto a fazer tudo o que puder para promover a causa fundamental do ecumenismo. Seguindo os passos dos seus Predecessores, ele está plenamente determinado a cultivar qualquer iniciativa que possa parecer oportuna para promover os contactos e o entendimento com os representantes das diversas Igrejas e Comunidades eclesiais. A eles, também, envia nesta ocasião a mais cordial saudação em Cristo, único Senhor de todos.

O diálogo com a humanidade

6. Volto com a memória, neste momento, à inesquecível experiência vivida por todos nós por ocasião da morte e das exéquias de João Paulo II. Ao redor dos seus restos mortais, colocados na terra nua, recolheram-se os Chefes das Nações, pessoas de todos os estratos sociais e, especialmente, os jovens, num inesquecível abraço de afecto e admiração. O mundo inteiro olhou para ele com confiança. Pareceu a muitos que aquela intensa participação, amplificada até aos confins do planeta pelos meios de comunicação social, era como um pedido comum de ajuda dirigido ao Papa por parte da humanidade hodierna que, perturbada por incertezas e temores, se interroga sobre o seu futuro.

A Igreja de hoje deve reavivar em si mesma a consciência da missão de propor ao mundo, novamente, a voz d’Aquele que disse: «Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12). Ao assumir o seu ministério, o novo Papa sabe que a sua missão é fazer resplandecer diante dos homens e das mulheres de hoje a luz de Cristo: não a sua própria luz, mas a de Cristo.

Com esta consciência, dirijo-me a todos, mesmo aos que seguem outras religiões ou que simplesmente procuram uma resposta às perguntas fundamentais da existência e ainda não a encontraram. A todos me dirijo com simplicidade e afecto, para assegurar que a Igreja quer continuar a tecer com eles um diálogo aberto e sincero, à procura do verdadeiro bem do homem e da sociedade.

Invoco de Deus a unidade e paz para a família humana e declaro a disponibilidade de todos os católicos em cooperar para um autêntico desenvolvimento social, que respeite a dignidade de todo o ser humano.

Não pouparei esforços e dedicação para prosseguir o promissor diálogo começado pelos meus venerados Predecessores com as diversas civilizações, para que da compreensão recíproca nasçam as condições de um futuro melhor para todos.

Penso em particular nos jovens. A eles, interlocutores privilegiados do Papa João Paulo II, vai o meu abraço afectuoso à espera, se Deus quiser, de encontrá-los em Colónia por ocasião da próxima Jornada Mundial da Juventude. Convosco, caros jovens, futuro e esperança da Igreja e da humanidade, continuarei a dialogar, escutando as vossas expectativas no intento de ajudar-vos a encontrar, numa profundidade cada vez maior, o Cristo vivo, o eternamente jovem.

 

7. Mane nobiscum, Domine! Fica connosco Senhor!

Esta invocação, que é o tema dominante da Carta Apostólica de João Paulo II para o Ano da Eucaristia, é a oração que brota espontaneamente do meu coração, enquanto me preparo para iniciar o ministério a que Cristo me chamou. Como Pedro, também eu renovo-Lhe a minha promessa incondicional de fidelidade. Só a Ele pretendo servir, dedicando-me totalmente ao serviço da sua Igreja.

Para manter esta promessa, invoco a materna intercessão de Maria Santíssima, em cujas mãos ponho o presente e o futuro da minha pessoa e da Igreja. Intervenham com a sua intercessão também os Santos Apóstolos Pedro e Paulo, e todos os Santos.

Com estes sentimentos ofereço-vos, venerados Irmãos Cardeais, àqueles que participam neste rito e a quantos nos acompanham pela televisão e a rádio, uma especial e afectuosa Bênção.

 

Bento XVI

 


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