COMENTÁRIO

 

NÃO SE INSTRUMENTALIZE O PAPA

 

 

 

D. Manuel Linda

Semanário Ecclesiae, 15/01/2015

 

 

Vários meios de comunicação social elegeram o Papa Francisco como personalidade do ano de 2014. Essa eleição tem o valor que tem: mera manifestação de uma simpatia. Mas confirma uma coisa: que o Papa está em alta. Para grande alegria de todos nós. Porém, quando alguém está em alta, corre o risco de ser aproveitado para fins menos legítimos. Vejamos.

Às «estrelas» recorre-se, frequentemente, para contratos publicitários. De milhões. Que o diga um futebolista da nossa praça. Como o Papa não cobra «cachet», não falta quem, consciente ou inconscientemente, se aproveite dele para promover os seus produtos: filmes, músicas, pinturas, outras artes plásticas e até... pudins e similares. Dizer que o Papa vai «provar» isto ou aquilo torna-se uma «caixa» jornalística e o promotor fica conhecido. E se, em Roma, numa audiência geral, consegue «furar» a multidão e aproximar-se do Papa, fica com a garantia de, ao outro dia, aparecer nos jornais. Mas será que a função do Papa é ser suporte de publicidade barata?

Outros há que, no afã da celebridade, põem na boca do Papa o que ele não disse nem poderia dizer. Normalmente, são mentirecas que não dão prejuízo. E ridículas. Mas que, talvez por serem mentirecas ou por serem ridículas, encontram forte eco em alguma comunicação social. Lembram-se daquele casal nortenho que, em lua-de-mel, foi a Roma e veio de lá a dizer que o Papa lhes tinha prometido que viria a sua casa e, para «credibilizar» este insólito, argumentaram que também viria visitar a igreja onde eles tinham contraído matrimónio? Claro que, como dizia acima, esta mentireca não causa prejuízo. Mas causa imenso prejuízo à fé e à Igreja pôr na boca do Papa a afirmação de que os cãezinhos também vão para o céu. Não foi isso o que divulgou um pseudo-jornalista que, pelos visto, nem entendia bem o italiano? E não foi isso o que reproduziram praticamente todos os jornais do mundo?

 

Mas mais grave ainda é pegar nas palavras do Papa, não em ordem à «conversão» pessoal e social a Jesus Cristo, mas para o colocar contra a Igreja. Foi assim, por exemplo, no célebre discurso à Cúria Romana, na apresentação de cumprimentos de boas festas natalícias. O “catálogo das doenças possíveis”, na mente e palavras do Papa, destinava-se a “melhorar sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria”. Mas um certo jornalismo deleitou-se porque viu nelas uma oposição do Papa à Igreja e da Igreja ao Papa. Aliás, a comunicação social não estava só: quer-me parecer que os clérigos «colunáveis», a quem esta pediu comentários, emitiram os costumados pareceres sem sequer conhecerem o discurso, já que alguns deles não dominam o italiano e, naquele dia, não se dispunha de uma tradução. Pois o mesmo jornalismo que tanto relevo concedeu aos «quinze pecados», na sua maioria, nem sequer reservou uma linha para a importantíssima tomada de posição do Papa, no dia seguinte, em favor dos cristãos mártires do Médio Oriente e de outras minorias, vítimas de um verdadeiro genocídio. Genocídio que não aflige muito o Ocidente porque... o preço do petróleo está em baixa.

 

A quem interessa colocar o Papa contra a Igreja? Não se darão conta de que o Papa só pode existir dentro da Igreja e esta na fidelidade ao seu Senhor e Salvador? Porque é que alguns só simpatizam com o primeiro e não dão um passo para entrar na segunda e aderir plenamente ao objecto da fé, Jesus Cristo? Quem pergunta não ofende...

 


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