O FUTURO DA EUROPA

UM INCENTIVO DE ESPERANÇA

A visita do Papa Francisco a Estrasburgo

 

 

 

 

Cardeal Reinhard Marx

Arcebispo de Munique (Alemanha)

Presidente da Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia

 

 

Em 25 de Novembro passado, o Papa Francisco deslocou-se a Estrasburgo, onde pronunciou discursos importantes em duas instituições europeias: o Parlamento Europeu e o Conselho de Europa.

Em lugar de centrar a sua unidade na economia, a Europa, se quer voltar a ser um espaço aberto de convivência pacífica na pluralidade de etnias e religiões e uma luz para todo o mundo, deve unir-se na defesa e promoção do valor sagrado da pessoa humana.

Faz lembrar o discurso de São Paulo no Areópago de Atenas: alguns ficarão tocados.

Damos a seguir um comentário tomado de L’Osservatore Romano, ed. port., de 18/25-XII-2014.

  

 

A visita ao Parlamento europeu em Estrasburgo a 25 de Novembro representou o primeiro encontro do Papa com a Europa no seu conjunto. Com a decisão de visitar a instituição democrática central da União Europeia, ainda antes de ir a um Estado-membro, o Pontífice prestou homenagem ao sucesso que o processo de unificação teve até agora e à sua importância futura.

Quando foi eleito, primeiro Papa não europeu depois de muitos séculos, numerosos observadores e comentadores pensaram que Francisco tivesse uma menor compreensão das questões europeias em relação aos seus predecessores. Ao contrário, a visita a Estrasburgo demonstrou que o Papa argentino não é minimamente alheio à Europa. Ao contrário, no seu discurso em Estrasburgo vê-se talvez uma maior percepção das realidades políticas da União de quanto nós europeus, com o nosso olhar interno, queremos admitir. Contudo, a visita e o discurso de Francisco foram sinais fortes do seu interesse, da sua preocupação e da sua estima pela Europa e pelo projecto de integração política.

Na sua análise, o Papa lançou importantes admoestações, quando indicou que a Europa dá «uma impressão geral de cansaço e de envelhecimento», que prevalecem «estilos de vida um pouco egoístas», «questões técnicas e económicas» em desvantagem «de uma autêntica orientação antropológica». Mas Francisco não se limitou a esta crítica, exortando também a Europa a aproveitar os seus dotes e capacidades e a utilizá-los para o bem do todo o mundo.

Segundo o pontífice, a Europa deve ser um «precioso ponto de referência para toda a humanidade». Estas palavras fizeram-me recordar uma frase de Jean Monnet, o qual certa vez disse que a Europa deve ser uma contribuição para um mundo melhor. Do mesmo modo, o Papa desejou que a Europa seja um enriquecimento e, através da realização dos objectivos que se propôs, até um modelo para todas as regiões e homens deste mundo. Diante dos euro-parlamentares Francisco descreveu sobretudo o homem, como pessoa, enquanto centro da unificação europeia. Sobre esta base, indicou na dignidade e nos direitos humanos o tema fundamental da política europeia. Fazendo referência ao lugar central da pessoa, recordou a importância das raízes cristãs em geral e da doutrina social da Igreja em concreto. E foi precisamente neste sentido que explicou as consequências da natureza da pessoa humana como ser individual e social: os direitos humanos contêm de facto tanto direitos individuais como direitos sociais, que dizem respeito ao bem comum.

Esta reflexão sobre a importância da pessoa levou-o ao apelo conclusivo: «Chegou o momento de construir juntos a Europa que roda não em volta da economia, mas em volta da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis; a Europa que abraça com coragem o seu passado e olha confiante para o futuro a fim de viver plenamente e com esperança o seu presente». Esta exortação a uma acção corajosa e responsável pelo futuro resume o que mais preocupava o Papa na visita a Estrasburgo: o seu discurso diante do Parlamento europeu foi uma «mensagem de esperança e de encorajamento» para todos os europeus e também um incentivo à Igreja, para que se comprometa com denodo a favor do «projecto Europa».

 


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