OPINIÃO

VIVER PARA OS OUTROS

 

 

 

 

 

Rodrigo Lynce de Faria

 

 

Quais são os principais danos que a cultura actual gerou nos jovens? A pergunta é simples e directa. A resposta não é nada trivial nem evidente. Porém, apesar de não ser fácil responder a esta pergunta, vale a pena tentar.

 

Na formação dos jovens, é fundamental fazê-los pensar a sério nos riscos a que estão sujeitos pelo facto de serem filhos da cultura que os viu nascer. Ninguém tem dúvidas de que a cultura actual trouxe muitos aspectos positivos. No entanto, seria uma ingenuidade defender que não existem pontos negativos. Eles existem e são difíceis de individualizar. Mas, apesar de serem negativos, o pensar sobre eles com objectividade é sempre positivo e enriquecedor.

 

Mons. Munilla ― responsável pela Pastoral Juvenil da Conferência Episcopal Espanhola ― afirmou recentemente que um desses aspectos negativos que possuem grande influência nos jovens actuais se chama narcisismo. Estou completamente de acordo.

 

O narcisismo ― amor excessivo e doentio a si próprio ― fecha a pessoa na contemplação de si mesma. Está intimamente relacionado com a hipersensibilidade, a absolutização dos sentimentos e a percepção errada ― mas nem por isso pouco frequente ― de que tudo na vida gira em volta de nós mesmos. Ora, amar é exactamente o contrário. É sair de nós mesmos e promover o bem que existe no outro. Logo, o amor é completamente incompatível com a tendência narcisista que pretende “possuir” o outro para ser feliz.

 

Se não se cura a “ferida” do narcisismo, é impossível conhecer os outros como são e amá-los de verdade. No fundo, com uma ferida dessas no coração, não se pode ser genuinamente feliz. Atenção, agora, a um pormenor: muitas vezes os jovens são levados a pensar exactamente o contrário. Captam por osmose ― sem grandes raciocínios ― que a felicidade está precisamente em viver para si próprios.

 

Que remédios propor? Como evitar o perigo do narcisismo? É certo e sabido que a cura desta ferida passa pela educação num sadio e equilibrado amor de si mesmo. A tão famosa e badalada autoestima! E não há dúvida nenhuma de que um dos motivos principais da falta de uma equilibrada autoestima na cultura actual é a crise da família. Unida a esta crise, está intimamente associada a falta de consciência do amor pessoal que Deus nos tem. Se a família está desunida, a expressão “Deus é meu Pai” perde grande parte do seu significado. Torna-se pouco compreensível e nada alentadora.

 

Por isso, o anúncio do infinito amor de Deus por cada um de nós é a coluna vertebral da evangelização dos jovens. Que bem soube expressar esta ideia Bento XVI! É o amor incondicional de Deus que nos capacita para fazer da nossa vida uma resposta generosa.

 

Captar a presença de Jesus nos pobres e nos doentes evangeliza sempre. A experiência assim o demonstra. Aproximar-se daqueles que sofrem, para os ajudar, torna-nos melhores. É um caminho seguro e eficaz para combater a tendência narcisista presente na cultura actual.

 

 

 


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