PAPA FRANCISCO

 

ENTREVISTA NO VOO DE REGRESSO DA TURQUIA

 

 Durante o voo de regresso da Turquia, em 30 de Novembro passado, o Santo Padre conversou com os jornalistas que o acompanhavam.

Pelo interesse que têm, damos aos nossos leitores as respostas a duas questões que lhe foram postas, tomadas de “L'Osservatore Romano”, ed. port., de 4/XII/2014.

 

 

Esma Cakir, da Agência de informação turca: Boa noite, Santidade. Qual é o significado daquele momento tão intenso de oração que teve na Mesquita? Foi, para o Santo Padre, um modo de se dirigir a Deus? Quer partilhar connosco algo em particular?

 

– Papa Francisco: Eu fui lá, à Turquia; fui como peregrino, não como turista. E fui precisamente, o motivo principal foi a festa de hoje: fui precisamente para a partilhar com o Patriarca Bartolomeu, um motivo religioso. Mas depois, quando fui à Mesquita, não podia dizer: «Não, agora sou turista!». Não, era tudo religioso. E vi aquela maravilha! O mufti explicava-me bem as coisas, com tanta serenidade e mesmo com o Alcorão, onde se falava de Maria e de João Baptista, explicava-me tudo... Naquele momento, senti necessidade de rezar. E disse: «Rezamos um pouco?» «Sim, sim» – disse ele. E rezei: pela Turquia, pela paz, pelo mufti... por todos... por mim, que bem preciso... Rezei verdadeiramente. E sobretudo rezei pela paz. Disse: «Senhor, acabemos com a guerra…» Assim, foi um momento de oração sincera.

 

Mimmo Muolo, jornalista do «Avvenire»: Santidade, tenho a honra de fazer-lhe esta pergunta em nome dos jornalistas italianos. Impressionou-me uma frase que Vossa Santidade disse esta manhã, durante a Divina Liturgia: «Quero assegurar a cada um de vós que, para se chegar à suspirada meta da plena unidade, a Igreja católica não pretende impor nenhuma exigência». Queríamos que nos explicasse mais, se possível, esta frase e se tem a ver precisamente com o problema do Primado a que Vossa Santidade aludia antes.

 

– Papa Francisco: Essa questão não é uma exigência: é um acordo, porque também eles o querem; é um acordo para encontrar uma forma que seja mais conforme com a dos primeiros séculos. Uma vez li algo que me fez pensar (Um parêntesis: aquilo que sinto de mais profundo neste caminho da unidade está na homilia que fiz, ontem, sobre o Espírito Santo). Só o caminho do Espírito Santo é o caminho certo, porque Ele é surpresa, Ele nos mostrará onde está o ponto decisivo; Ele é criativo… O problema – talvez isto seja uma autocrítica, mas é mais ou menos ao que eu disse nas congregações gerais antes do Conclave – é que a Igreja tem o defeito, o hábito pecador, de olhar demasiado para si mesma, como se julgasse que possui luz própria. Mas, olha: a Igreja não tem luz própria. Deve olhar para Jesus Cristo! À Igreja, os primeiros Padres chamavam-lhe «mysterium lunae», o mistério da lua, porquê? Porque dá luz, mas não luz própria, é a que lhe vem do sol. E, quando a Igreja olha demasiado para si mesma, aparecem as divisões. E foi o que sucedeu depois do primeiro milénio. Hoje, à mesa, falávamos do momento, de um lugar – não recordo qual! – em que um cardeal foi comunicar a excomunhão do Papa ao Patriarca. Naquele momento, a Igreja olhou para si mesma; não olhou para Jesus Cristo. E eu creio que todos estes problemas que surgem entre nós, entre os cristãos – falo pelo menos da nossa Igreja católica – surgem quando ela olha para si mesma: torna-se auto-referencial. Hoje, Bartolomeu usou uma palavra que não era «auto-referencial», mas assemelhava-se-lhe muito, uma palavra muito bela... Agora não a recordo, mas era muito bela, muito bela. Eles aceitam o Primado: hoje, nas Ladainhas, rezaram pelo «Pastor e Primaz». Como diziam? «Ποιμένα καί Πρόεδρον», «Aquele que preside...». Reconhecem-no; disseram-no hoje, diante de mim. Mas, para a forma do Primado, devemos ir um pouco ao primeiro milénio para nos inspirarmos. Eu não digo que a Igreja tenha errado, não. Percorreu a sua estrada histórica. Mas agora a estrada histórica da Igreja é a que pediu São João Paulo II: «Ajudai-me a encontrar um ponto de acordo, à luz do primeiro milénio». Este é o ponto-chave. Quando se debruça sobre si mesma, a Igreja renuncia a ser Igreja para se tornar uma «ONG teológica».

 


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